sexta-feira, dezembro 31, 2004

Fim do ano/fim de ciclo

Quero acreditar que um amanhã melhor nascerá. A todos um feliz 2005.

Movimentos que se fazem lá fora

Lucinda Canela, no Y, do jornal Público, fala com Tiago Guedes e Miguel Pereira, sobre os seus espectáculos e a internacionalização da nova dança portuguesa.

"A nova dança portuguesa tem um estatuto reconhecido lá fora", explica Miguel Pereira, "muito graças ao trabalho da Vera e do João", que continuam a circular (este ano Fiadeiro apresentou "I am Here", solo feito a partir da obra da artista plástica Helena Almeida, em Paris, e Vera Mantero deu vários workshops).

"Há uma geração antes da minha, de que fazem parte a Carlota Lagido ou o João Galante, que por qualquer motivo não circulou", diz Tiago Guedes. "Agora parece haver um interesse dos programadores no nosso trabalho. Eles reconhecem que o que fazemos não tem nada a ver com o trabalho da Vera ou do João, que foi fundamental para exportar a dança portuguesa, mas mantêm a sua curiosidade."


Quando ris, ris de quê?

O suplmento Y, do jornal Público, dá hoje conta do epifenómeno teatral de 2004: a comédia. Ao que consta riu-se muito nos palco portugueses. E porquê? Joana Gorjão Henriques fala com Maria Helena Serôdio:

É uma tendência que se desenha há algum tempo, mas nunca como agora se sentiu tanto a presença da comédia no teatro nem tanta diversidade. Em 2004 houve de tudo e para todos os gostos, da comédia "mainstream" à alternativa.

Houve comédia a solo com Jô Soares a satirizar gordos e políticos e com José Airosa numa crónica "épico-cómica" sobre futebol ("Itália-Brasil"). Houve comédia em dupla com Ana Bola e Maria Rueff a vilipendiarem as tendências consumistas ("Celadon"). Houve comédia de costumes com Miguel Guilherme, João Lagarto e outros ("Jantar de Idiotas"). E comédia negra com os Artistas Unidos ("O Nosso Hóspede", de Joe Orton, "Terrorismo" e "No Papel da Vítima", dos Irmãos Presniakov) e comédia burlesca de José Maria Vieira Mendes ("Se o Mundo Não Fosse Assim", a partir de Damon Runyon).

Houve comédias da vida conjugal com brasileiros ("Batalha do Arroz" e "Intimidade Indecente") e comédia brincalhona com Luis Miguel Cintra ("Esopaida ou a Vida de Esopo", de António José da Silva). Houve comédias no feminino com Ana Bustorff ou Fernanda Serrano ("ABC da Mulher" e "Confissões das Mulheres de 30"), sátiras políticas ("Deixa-me Rir") e sátiras sociais ("Portugal, Uma Comédia Musical"). Houve um programa de TV, "Gato Fedorento", que foi para os palcos e esgotou num ápice três dias no Teatro Tivoli...

O fenómeno assumiu maior visibilidade porque tocou vários teatros - diversas companhias abriram-se à comédia - e quadrantes diferentes, considera Maria Helena Serôdio, responsável pelo Departamento de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. E não pode ser separado da presença do cómico em outros meios, o que só prova que o teatro faz um "insert" de outras realidades e não funciona "à porta fechada".

"Essa vontade e capacidade de fazer humor como forma inteligente de falar da contemporaneidade atravessa muitos lugares culturais. Antigamente criticava-se o teatro no teatro, agora isso é mais abrangente: há 'O Inimigo Público' [suplemento satírico do PÚBLICO] que satiriza a imprensa através da imprensa, o 'Gato Fedorento' ou 'O Perfeito Anormal' que satirizam a televisão através da televisão. As gerações mais novas estão atentas a essa realidade e têm uma capacidade de distanciação e de autocrítica muito interessantes."


Poética do quotidiano: especial coming-out's

O Melhor Anjo aproveita a mudança do ano para iniciar uma nova série especial da Poética do Quotidiano.

Desta vez convida tod@s os interessad@s a escreverem um breve texto (não mais de 300 palavras) sobre o "sair do armário". Podem ser poéticas sobre o próprio coming-out: como correu, o que sentiram, o que fizeram... ou pode ser, também, sobre a importância ou não do acto; pode ser sobre a dificuldade de o fazerem e os receios que têm; pode ser sobre o que imaginam ser o perfeito coming-out.

Por uma questão de credibilidade da iniciativa, deveriam aceitar-se somente poéticas de bloggers (que teriam a opção de poder, ou não, associar o seu blog)... mas atendendo a que podem existir leitores (deste blog ou outros) que considerem importante a participação, estão abertas todas as hipóteses de participação. Assim, as poéticas podem vir assinadas em nome próprio, pseudónimo, nickname... fica ao critério de quem quiser participar o nível de honestidade que quer imprimir à sua participação.

@s bloggers hetero também estão convidad@s a participar, podendo dar conta de situações de amigos que confiaram neles, ou então mostrarem como se sentem em relação à situação. Será interessante ver "o outro lado".

Ano novo, vida nova... e O Melhor Anjo aproveita a metáfora para abrir algumas cabeças menos disponíveis para a diversidade do ser humano. Procuram-se poéticas que sejam reflexões sobre a urgência de criação de condições para que nada fique como está. Não se trata, por isso, de um invadir da vida alheia.

Por isso, qualquer participação de carácter ofensivo será recusada. Para além disso, o autor será informado disso mesmo neste blog. Qualquer coisa como: "recebeu-se esta participação de XXXXXX que por ser de carácter ofensivo, foi recusada".

É também um gesto de solidariedade para com a coragem do Douro Boy e do Verdadeiro Eu, que decidiram fazer o seu coming-out e vão dando conta, como podem, do que estão a passar.

As poéticas devem chegar ao e-mail do anjo (o_melhor_anjo_@aeiou.pt) até dia 27 de Janeiro.
Análises de Espectáculos

Disponibilizam-se, abaixo, todas as análises feitas a espectáculos de teatro ou dança já apresentadas neste blog.

Setembro 2003

Algumas imagens expostas (sobre Materiais Diversos, de Tiago Guedes)

Novembro 2003

Self Made Show (sobre Saudades do Tempo em que se dizia Texto, de Rogério Nuno Costa)

Fevereiro 2004

Vou a tua casa (sobre Vou a tua casa, de Rogério Nuno Costa)

Maio 2004

Composição para pigmento preto, papel de cenário, movimento, escuridão e infra-vermelhos (sobre I am here, de João Fiadeiro)

É um espectáculo muito feio (sobre God Knows Whati! - Dá Deus nozes a quem não tem dentes, de Marina Nabais e Rogério Nuno Costa)

Tableaux vivants (sobre Pictures at an Exhibition, pelo Teatro Universitário do Minho, sob orientação de Rogério Nuno Costa)

Junho 2004

Audição de um actor policromático (sobre Actor, de Rogério Nuno Costa)

Agosto 2004

Espelho deformado (1ª parte; 2ª parte) (sobre Título, do Teatro Praga)

Setembro 2004

A padeira eviscerada (sobre Das Padeiras de Aljubarrota, de Marina Nabais e Rogério Nuno Costa)

Outubro 2004

A entrada não é livre (sobre Via Dolorosa, de Carlos Afonso Pereira)

Novembro 2004

A Noiva de luto (sobre Ophelia, de Marina Nabais e Rogério Nuno Costa)

Let's Misbehave (sobre Private Lives, do Teatro Praga)

Do amor e outros erros (sobre Querosene (amor que arde sem se ver), do teatromosca)

O homem-objecto (sobre Pour Homme, de André Murraças)

As coisas más acontecem (sobre TartNoir, da Associação Cultural Hipócritas)

Dezembro 2004

O que um véu pode esconder (sobre Noivas da Pérsia, do Teatro Baubo)

Amores perfeitos só nos canteiros (sobre Violeta, puta de guerra, do Teatro Focus)

Bicho-Homem (sobre Antes dos Lagartos, da Karnart)

Janeiro 2005

O limite (sobre A Cabra ou Quem é Silvia?, do Teatro A Comuna, encenação de Álvaro Correia)

Do outro lado do espelho (sobre Figurantes, do Teatro Nacional S. João, encenação de Ricardo Pais)

Eu sou mais eu (sobre a proposta de Cláudia Dias para os 11º LAB

Jogos duplos, espelhos e objectos invisíveis (I): O atravessar do espelho (sobre mPalermu e La Scimia, do Teatro Garibaldi, Itália, encenação Emma Dante, PoNTI'04/13º Festival da UTE)

Jogos duplos, espelhos e objectos invisíveis (II) (sobre Die Glasmenagerie + Zerbomt, do SchauspielFrankfurt, Alemanha, encenação Armin Petras, PoNTI' 04/13º Festival da UTE)

Jogos duplos, espelhos e objectos invisíveis (III) (sobre Teatro de Papel/Anfitrião, do Teatro de Formas Animadas/Teatro Nacional S. João, encenação Marcelo Lafontana, PoNTI '04/13º Festival da UTE)

A teia da aranha (sobre .mostra, encenação de Maria Gil)

Fevereiro 2005

A beleza do fracasso (sobre Manifesto/Homeless, direcção de Miguel Moreira, produção Útero - Associação Cultural)

Casa de espelhos (sobre A Missão ou Porque as raparigas continuam a querer ir para Moscovo, de Mónica Calle)

O construtor de Homens (sobre a proposta de Tiago Guedes para o 11º LAB)

Movimentos Simples (sobre Publique, de Mathilde Monnier)

Março 2005

Quase Monstros (sobre The Scum Show, da Inestética - Companhia Teatral)

O lado esquerdo das coisas (sobre Punchwork, do Ninho de Víboras)

O lugar do morto (sobre Execução Pública, encenação de Pedro Gil)

O lugar das coisas (sobre Why can I be me, encenação John Romão)

(In)acabado (sobre a proposta de Mário Afonso para os 11º LAB)

Still Life (sobre a proposta de Gustavo Sumpta para os 11º LAB)

Abril 2005

Fim e princípio (sobre Daddy Daddy, de Miguel Bonneville)

Eu quero... moi non plus (sobre Sobre a mesa a faca, co-criação Cão Solteiro + Teatro Praga)

Pontos de vista (sobre A Partilha, de Miguel Falabella)

Maio 2005

Ser mulher mas não assim (sobre 12 Mulheres e 1 cadela, de Inês Pedrosa, encenação de São José Lapa)

A nossa realidade (sobre Flatland I - para cima e não para norte, de Patrícia Portela)

Pessoal e Intransmissível (sobre No Caminho, de Rogério Nuno Costa)

Junho 2005

Majestosa Tristeza (sobre Berenice, produção do Teatro Nacional D. Maria II)

Ligação Interrompida (sobre A voz humana, pelo Teatro Baiuca)

Sonho ma non troppo (sobre Sonho de uma noite de verão, produção da Companhia Nacional de Bailado)

Abertura (sobre Quem Sou#2 de Miguel Bonneville)

O corpo e o templo (sobre a proposta do Ballet du Grand Théâtre de Genève para o 40º Festival de Sintra)

Não apenas por prazer (análise ao conjunto de propostas do 5º Festival Internacional de Marionetas de Lisboa): 1, 2

A condição dos objectos (sobre Trio, de Tiago Guedes)

Percebo-te-me (sobre a proposta de Ana Borralho e João Galante para o 11º LAB)

Julho 2005

Proposta suicída (sobre Marcações para um crime, encenação de Martim Pedroso para o Poppi Group)

Sensação (sobre Manucure, de João Grosso, 22º Festival de Almada)

Moinhos de vento (sobre Farsa Quixotesca, pela companhia Pia Fraus, 22º Festival de Almada)

No quiero ser salvado (sobre 11M - Voces contra la barbarie, pela Dante Producciones, 22º festival de Almada)

Dança Macabra (sobre Pedro e Inês, de Olga Roriz, para a Companhia Nacional de Bailado)

Paisagens Estéreis (sobre o programa da Compañia Nacional de Danza para o 40º Festival de Sintra

Agosto 2005

Telhados de vidro (sobre A casa de Bernarda Alba - um cenário, dois projectos, produção do Teatro Municipal S. Luiz. Teatro, encenação Diogo Infante/Ana Luísa Guimarães; Dança, coreografia: Benvindo Fonseca)

Mesa posta (sobre Accidens-Matar para comer, de Rodrigo Garcia)

Equívocos (sobre Da pele à pedra, da Vo'arte)

Longa caminhada (sobre Riders to the sea, encenação de André e. Teodósio)

Dimensão Corporal (sobre No body Never mind 002, de Ana Borralho e João Galante)

O corpo aprisionado (sobre as apresentações informais de Cristina Blanco, Andrea Sonnberger e Gustavo Ciríaco, para o Encontro Lisboa 2005)

Setembro 2005

I love you (not) (sobre The end of love, de Lucia Sigalho/Sensurround)

O corpo aprisionado II (Análise às apresentações informais de Filipa Francisco e Claudia Muller, para o Encontro Lisboa 2005)

Outubro 2005

Nado-morto (sobre Live-Evil/Evil-Live, de Francisco Camacho e Set Up, de Rui Horta)

Novembro 2005

Sem tempo, sem peso (sobre Dançar Hans van Manen, da Companhia Nacional de Bailado)

Vidro quebrado (sobre Dance on Glasses pelo Meth Theatrical Group)

Dezembro 2005

O Espaço Vazio (sobre Metal de André e. Teodosio/Martim Pedroso e Um Homem Ideal, de André Murraças)

Problemas de espaço (sobre Julieta - cartas fragmentarias a um amor perdido, de Monica Calle)

Fevereiro 2006

Da entrega à partilha (sobre Entretanto... , de Ana Ribeiro e Mónica Garnel)

Autismo (sobre Sobreviver, de Lúcia Sigalho)

Ponto de Partida (sobre Odete Odile, de Sara Vaz)

Março 2006

Catástrofe cúmplice (sobre Next Fence, de Rasmus Ölme)

O lugar do ritual (Danças de Kandy, de Peter Surasena Dance Company)

Abril 2006

Da memória fundamental (sobre Dançar, pela Companhia Nacional de Bailado)

Notas sobre o Le Vivat (sobre o festival Vivat la Danse 06, Armentiéres, França)

O problema da hiper-exposição (sobre a apresentação do projecto DANCE no Centre Georges Pompidou)

quinta-feira, dezembro 30, 2004

Susan Sontag


cartoon de Steve Brodner

Faleceu esta semana uma das mais brilhantes e fundamentais pensadoras produzidas pelo ambíguo século XX. A blogosfera não se fez rogada e prestou-lhe a homenagem, dando conta da importância do seu discurso. Para provar que há quem escreva, ouça e aprenda. Seguem alguns exemplos, alguns deles com links para trabalhos de Susan Sontag.

Portugal dos Pequeninos, Aviz, All of Me, Renas e Veados, Resistente Existencial.

E pensar que durante 30 anos se bateu contra um cancro renitente, é perceber que há forças de vontade onde às vezes parece tudo perdido.


Shame on you...

aqui tinha falado das pessoas que responderam às perguntas da jornalista da SIC [Catarina Neves, enviada especial, a fazer um duro e brilhante trabalho de reportagem], mas chegam-me por mail mais informações e o Bruno fornece a imagem. É vergonhoso.



Na SIC Notícias deu uma reportagem onde entrevistaram portugueses que partiram depois da tragédia para a Tailândia, mantendo as férias marcadas como antes de tudo acontecer.

Dulce Ferreira respondeu que já tinha as férias marcadas, que não tinha ficado nada preocupada com o que tinha acontecido, porque os pais, que lá estavam, tinham enviado uma msg a dizer que tinha havido "uns tsunamis e umas coisas", mas estavam bem.

Quando a jornalista lhe pergunta se estava triste com toda a situação Dulce Ferreira respondeu: "sim, claro, agora já não vou ter todas as condições de férias que iria ter se por acaso não tivesse acontecido nada disto. por outro lado, estou contente, porque vejo as coisas mais ao natural, como elas são."

Passagem de ano

Apercebi-me há coisa de meia-hora que o ano acaba amanhã. É a mais pura das verdades. Tenho andado a correr de um lado para o outro que achava que faltava mais um ou dois dias. Achava que era terça-feira. Main point is...

ainda não chegou qualquer convite para passar a noite.

Cada um tem o que merece. Pois!!!
Portanto... ficam a saber

Sphinx
You are a Sphinx! You are mocked for your unusual
appearance, but you are very loving and
devoted. People just need to give you a
chance!


What breed of cat are you?
brought to you by Quizilla


courtesy of The Amazing Trout Blog


P.s.: Mas tenho a impressão que tem a ver com o dia de hoje. Estou em dia não. Amanhã tento outra vez.
Revista teatral 2004

Miguel Pedro-Quadrio faz a sua análise ao ano teatral, hoje, no Diário de Notícias.

O teatro vem sendo notícia pelas piores razões. A libertação de verbas in extremis condicionou algumas programações (o relativo decréscimo de qualidade do Citemor decorreu de Armando Valente, seu director artístico, não poder concretizar atempadamente o plano que traçara). O intempestivo afastamento de Miguel Vaz da administração do CCB impediu-o de testar as suas escolhas. O projecto artístico do Teatro Nacional D. Maria II tornou-se asténico. Ricardo Pais, farto dos ziguezagues da política cultural, preanunciou a saída do S. João. A Câmara de Lisboa deixou morrer o Maria Matos, após demissão de Miguel Abreu, e o São Luiz vive de blockbusters teatrais.

Mas não só as reclamação aos apoios pontuais (Lisboa) originaram reacções contraditórias; a redução a 500 mil euros do orçamento de 2005 do IA, provocada pelas cativações, levou Paulo Cunha e Silva a prever o cancelamento deste programa no próximo ano (a tutela retaliou com uma auditoria à sua gestão e transferiu para o ministério a coordenação da representação portuguesa na Bienal de Veneza). E até o Prémio Almada foi recusado por Jorge Silva Melo (o Ribeiro da Fonte de revelação distinguiu o luminotécnico Nuno Meira).

Neste preocupante panorama institucional salvaram-se duas actuações positivas. A preocupação da actual direcção do IA em submeter os apoios pontuais e sustentados a uma redistribuição de verbas que corrigiu o anterior centralismo de Lisboa e reflectiu a actual diversidade criativa (pela primeira vez, poder-se-ão apoiar estruturas pluri e transdisciplinares. Espera-se um reequilíbrio das verbas - o Norte foi claramente penalizado nos montantes deste ano - e uma simplificação da pesada burocracia dos actuais processos de candidatura.


Filmar o teatro

A propósito de algumas considerações, acerca das relações entre o cinema e o teatro, levantadas a propósito da estreia do filme O Fantasma da Ópera, aconselha-se, hoje, a leitura de dois artigos publicados no Le Monde:

Quand Chéreau, Brook et Mnouchkine filment la scène : trois expériences réussies

Patrice Chéreau a bien résumé le problème, dans le dossier de présentation du DVD réalisé avec sa mise en scène de Phèdre, de Racine : "Il me semble qu'enregistrer du théâtre pour le retransmettre ensuite à la télévision relève d'un genre plus qu'hybride : ni théâtre, ni cinéma, ni télévision. (...) Quand on voit le résultat, on se dit : Bah, oui, pas mal, mais, finalement, ça n'est que du théâtre filmé, quelque chose qui n'est ni chair ni poisson, une chose amphibie où l'émotion a du mal à se frayer un chemin, où les acteurs parlent trop fort, où le temps est un temps de théâtre, sans ellipse et sans surprise." "Filmer le théâtre nécessite de trouver pour chaque spectacle un dispositif visuel spécifique qui permette de rendre compte du spectacle donné, tout en ayant pour objectif de créer un objet nouveau qui participe des deux arts à la fois", fait remarquer Béatrice Picon-Vallin, chercheuse au laboratoire de recherches sur les arts du spectacle (CNRS)

D'un art l'autre, la beauté d'une aventure imparfaite et généreuse

L'irruption violente d'un procédé théâtral dans une narration cinématographique.
C'est dans sa dernière séquence que ce film gigantesque, aussi beau que difforme, trouve sa vérité. Molière est mourant. Après qu'il a défailli sur scène, sa troupe le ramène chez lui, portant son corps ensanglanté. Le groupe s'engage sur un escalier. D'en haut on les voit monter les premières marches. Puis la caméra se rapproche pour ne cadrer que quelques visages. D'abord on croit qu'ils continuent de monter l'escalier, ils sont agités de mouvements verticaux frénétiques, mais la réalité de la pierre immobile en arrière-plan s'impose : ils s'agitent sur place.





quarta-feira, dezembro 29, 2004

Ética

Não sei porquê, mas não me parece muito ético que a SIC vá passar por estes dias um filme sobre a destruição do mundo através de fenómenos naturais. Ainda que seja por meteoritos. não sei porquê...

Uma das imagens do filme Deep Impact


É tudo igual

Men, straight or Gay they all want the same ...

A recent research indicates that Gay men and Straight men are the same ... Both equally likely to aspire to an unattainable body type !

This finding contradicts the conventional wisdom that gay men have more "hang ups" about their appearance than straight men. They say : "Gay men may simply be more "open" about their bodies" ...

Mais sobre esta pesquisa

courtesy of Oh la la Paris



Quebra-cabeças

Desde que fui ver o Fantasma da Ópera que andava com esta música na cabeça, sem saber como era exactamente. Sabia que era uma versão brasileira de uma das letras do musical e dei por mim a ver o filme e a cantar. Finalmente descobri. Fez parte da telenovela Tieta (quem disser que não se lembra não é filho de boa gente) e segue assim (é favor cantar bem alto e acompanhada pela música do filme):

Tudo Que Se Quer (All I Ask Of You)
Emílio Santiago e Verônica Sabino


Olha nos meus olhos

Esquece o que passou
Aqui neste momento
Silêncio e sentimento

Sou o teu poeta

Eu sou o teu cantor
Teu rei e teu escravo
Teu rio e tua estrada

Vem comigo meu amado amigo
Nessa noite clara de verão
Seja sempre o meu melhor presente
Seja tudo sempre como é
É tudo que se quer

Leve como o vento

Quente como o sol
Em paz na claridade
Sem medo e sem saudade

Livre como o sonho

Alegre como a luz
Desejo e fantasia
Em plena harmonia

Eu sou teu homem, sou teu pai, teu filho
Sou aquele que te tem amor
Sou teu par e teu melhor amigo
Vou contigo seja aonde for
E onde estiver estou

Vem comigo meu amado amigo

Sou teu barco neste mar de amor
Sou a vela que te leva longe

Da tristeza

Eu sei, eu vou

E onde estiver estou.



A lei dos amantes (53)

Convêm que os encontros aconteçam antes do fim do prazo de validade dos alimentos que escolheste para cozinhar.

terça-feira, dezembro 28, 2004

O Fantasma da Ópera - observações




O filme O Fantasma da Ópera levanta algumas questões importantes sobre a relação do cinema e do teatro, bem como do papel do público enquanto receptor de objectos. Tratemos de algumas para retirar os filmes da prateleira do ver e deita fora.

Convêm esclarecer que se trata, apesar de tudo, de um filme. E um filme feito num tempo em que o cinema substituiu o teatro e as artes performativas na relação de ilusão que se estabelece com o espectador. O que quer dizer que é uma leitura sobre o espectáculo e não exactamente o espectáculo filmado. O que coloca o teatro e o cinema como artes num duelo estimulante sobre os seus limites e a capacidade de se reinventarem como artes-vivas e atentas.

Contudo, O Fantasma da Ópera-filme é profundamente teatral, até pelo efeito de ilusão que provocam os limites de descrença inerentes ao cinema. Devido, sobretudo, aos efeitos especiais que permitem tornar mais "limpo" um filme. Assim, pretende-se resgatar o espectáculo da efemeridade inerente ao teatro alicerçando-se em mecanismos que só o cinema tem acesso. Sobretudo as passagens de tempo, mudanças de cenários, elipses e sobreposições de personagens. Ou seja, torna o espectáculo mais "limpo" ou, se quisermos, liberto das dificuldades técnicas (e que impedem a rendição total do espectador) do teatro. Dá-se ao espectador o limite do que ele pode aguentar e provoca-se essa fronteira um pouco mais. É dessa fusão que nasce este objecto híbrido chamado O Fantasma da Ópera. Uma 3ª coisa, que se alicerça no teatro e no cinema para contar uma história. Tão simples quanto se quer.

Ou seja, teatro e cinema confundem-se enquanto perspectivas e distâncias, quebrando a mítica 4ª parede. Ou, se quisermos, atravessando o espelho.
E este atravessar do espelho não está acessível a todos, como aliás nos apercebemos no final quando a polícia e o público invadem a gruta do Fantasma e não vêem portas mas só escavações. Portanto, não basta querer ver. É preciso acreditar.


O cinema entra dentro deste teatro para dar conta de uma outra história. Mas ao entrar e ao pretender substituir-se ao espectador que se senta na plateia do teatro, tem que fazer operar diversos mecanismos que permitam a mesma aproximação desse espectador. E uma das formas utilizadas é através de virtuosos movimentos de câmara, a correr nas vigas da estrutura do edifício ou pelos corredores cheios de personagens. Esta realidade individualizada, contraria a visão do espectador de teatro que é forçado a apreender todos os movimentos do palco e oferece ao espectador do filme uma versão mais próxima da cena.



Para o espectador do filme, esse efeito dessa introdução é reforçado pelas repetidas vezes em que vemos o edifício onde a história decorre, como se fôssemos obrigados a contrariar a falsa história verdadeira que nos contam.Um re-centrar do espaço físico que toma o seu sentido na plateia que assiste aos espectáculos na Ópera Popular. Representam, ao mesmo tempo, o público que deveria assistir às representações, o público que vai assistir ao espectáculo O Fantasma da Ópera e ainda o público do filme.
E só uma vez é que as plateias se confundem. Curiosamente não é quando o lustre cai sobre a plateia (na versão de palco acontece noutra altura), mas quando a câmara se coloca no corredor da plateia e permite o visionamento do que se passa no palco, já na parte final do filme. Isso só acontece uma vez e não é a despropósito. É que o contrato de ilusão que se estabelece entre quem faz e quem vê não permite desvendar todos os truques inerentes a uma produção. E esta é uma história de crença. Um mundo de fantasia e enganos que têm na ópera final, Don Juan o seu opus. E que belo exemplo de enganos!

Para que público é, então, trabalhado este filme? Tratando-se claramente de uma aposta do produtor/criador (é O Fantasma da Ópera de Andrew Lloyd Webber, conforme indica o título), o filme enaltece a vertente pop do objecto teatral, mas sobretudo, reforça o conceito de ópera-rock. Ou seja, imprime ao espectáculo aspectos que o aproximam mais de um público cinematográfico e menos teatral. Mas esta leitura confronta-se com o problema dos "tempos". No teatro o tempo estende-se, mais não seja pela tridimensionalidade dos corpos dos actores, enquanto que no cinema não são permitidas essas distenções.

Mas porque os tempos do cinema e do teatro não são os mesmos, nota-se o curioso efeito de distanciação em relação ao que se passa no ecrã. E porque os públicos de hoje não sabem da importância dos musicais no cinema (uma das razões foi viverem-se tempos de guerra mundial e os estúdios procurem animar as plateias), o momento mais romântico do filme (os amantes no telhado a trocarem juras de amor e o Fantasma a jurar vingança) perde o seu sentido trágido, já que no cinema não se pode aplaudir uma interpretação. Ou seja, o público do teatro está livre de se expressar, em vez de viver num constante efeito de cheio/vazio. Por isso assiste-se à substituição de certas partes musicadas por diálogos. Mas ainda que tal transformação possa causar alguma estranheza. É forçoso notar que se trata de um filme, feito para uma audiência sedenta de ritmo, acção e envolvimento.

Coloca, portanto, o espectáculo O Fantasma da Ópera preso a um dilema: como sobreviver ao filme? Um e outro objecto são obrigados a conviver, sujeitos à comparação. O Fantasma da Ópera- filme pode ser, curiosamente, a oportunidade para o espectáculo se renovar e procurar outras plateias, que desejem regressar ao teatro para se emocionarem com o lado-vivo da história. Os que queiram perceber até onde é que os espectáculos são capazes de ir nesse constante desequilíbrio entre crença e descrença (provocação existente a partir do improviso constante que está presente na realidade teatral). Trata-se, por isso, de um duelo emocional, que obriga os dois objectos a procurarem a individualização. Ou seja, terem a capacidade de aproveitar as vantagens de uma arte sobre a outra. E, ao mesmo tempo, uma oportunidade para o espectador questionar a sua posição de agente activo na concretização dos objectos. Que é mais evidente e imediata no teatro que no cinema.

Uma das leituras mais estimulantes que O Fantasma da Ópera proporciona, se o quisermos ler não só como produto de entretenimento, é um olhar para o interior das estruturas de produção de espectáculos do final do século XIX. Ainda que possa ser uma visão romanceada e plena de superficialidades, é, também, um retrato de uma realidade que esteve na base de grande parte do teatro que proliferou na Europa.

Assim, tomemos o exemplo dos empresários, hoje chamados produtores (mesmo que existam diferenças substanciais, mas só como exemplo de comparação). Eram muitos os que se tornavam empresários (ou proprietários de teatro) por uma questão de prestígio, dinheiro (até mesmo para empregar amantes). Nesse aspecto há uma frase sintomática dita pelo Fantasma, durante toda a sequência Masquerade (um virtuoso exercício de manipulação e espelho, onde se confundem os planos de real e ficção ampliados pelo facto de se tratar de teatro no cinema que é teatro que é realidade): o lugar dos empresários é no gabinete e não nas artes.



E na verdade, o tipo de empresários que aparecem no filme cumprem uma só finalidade: a representação de um modelo que acreditava que a bilheteira estava acima de qualquer outro critério. O que permitia o alimentar de cabeças de cartaz de qualidade duvidosa (era o início do star-system e a descoberta do marketing nas artes performativas), prolongamento da carreira dos espectáculos independentemente do que se passava nos bastidores, pressões em detrimento das condições artísticas ou cedências a todo o tipo de publicidade, mesmo a pouco benéfica. E outro aspecto, o que justifica toda a sequência Masquerade, é o facto de os empresários terem por hábito apostar num baile de máscaras para a passagem de ano e carnaval, como técnica de captação de receitas fáceis. O teatro do filme, a Ópera Popular, estava fechada há alguns meses, devido aos receios pelo fantasma. Reabria, assim, em grande e com casa cheia. Já quanto ao proprietário do teatro, menino rico e sem conhecimento de causa, trata-se de um exemplo entre tantos que viam no teatro uma forma de filantropia e consideração pela sociedade.

Algumas das personagens representam atitudes e comportamentos que contribuiram para a evolução do teatro e das artes performativas. Talvez seja nesta situação que mais se sente o ponto fraco do filme. É que para lá do virtuosismo dos planos, do encanto da história, do fausto da direcção artística, sente-se que a aproximação (a introdução) à cena não traz nada de novo. E essa novidade poderia ser um aprofundar das personagens. Não num sentido retrospectivo, mas no que isso representa o assumir da ultrapassagem da bidimensionalidade das personagens-padrão. Exceptuando o caso de Miranda Richardson, que faz uma espécie de directora de cena do teatro, todos os outros se perdem no pouco que lhes é dado para defender. O caso mais notório é o de Minnie Driver que faz de primma-dona La Carlotta, num histrionismo que (ainda que historicamente correcto) é, sobretudo por ser dobrada nas partes cantadas, de insuportável descrença.

Em resumo, O Fantasma da Ópera-filme é um objecto barroco e formal. Procura trazer ao público um universo de ilusão, preenchendo-o com efeitos que só resultam porque o espectador quer acreditar neles. Ou seja, aproveita-se da vontade do espectador para dar a conhecer. O que já não é pouco. É só preciso saber ver.











segunda-feira, dezembro 27, 2004

Espírito Natalício

As perguntas feitas aos turistas que não desmarcaram as viagens de férias para a zona afectada pela tragédia asiática são sintomáticas do espírito de solidariedade que sempre atinge os portugueses nesta altura:

-"Sim, tenho pena de não poder ir encontrar aquela zona com as condições para fazer férias como queria"

- "Eu não vou para as praias. Vou ver templos. Isso aconteceu nas zonas mais carenciadas. Eu, felizmente, não tenho que passar por lá"

- "Aquilo é uma zona muito bonita, que todos deviam conhecer. Desde que não se olhe para a pobreza"

domingo, dezembro 26, 2004

Poética do quotidiano (especial Natal) - X



O Natal do Dinis, do Me, myself and I


O Natal não são prendas, nem cartões de crédito, nem consumismo.

Acordei hoje de manhã e só me lembro de ter começado a comer na sexta-feira...
Into the light - A imagem projectada na arte americana

O CCB, em Lisboa, acolhe até dia 2 de Janeiro de 2005, uma exposição organizada pelo Whitney Museum of American Art, de Nova Iorque intitulada Into the Light - A imagem projectada na arte americana.

A exposição “Into the Light” que apresentamos no CCB, de 8 de Outubro de 2004 a 9 de Janeiro de 2005, foi organizada pelo Whitney Museum of American Art e acompanha a recriação de onze instalações desta época fundadora que recorreram ao uso de filme, vídeo e diaporamas.

Esta é a maior exposição do género até à data, e a primeira a explorar a história das instalações com imagens projectadas. Muitas das instalações foram especialmente restauradas para esta exposição e apresentam-se pela primeira vez desde a sua estreia.

Em conjunto, as diversas obras revelam as maneiras como as definições tradicionais de cinema, escultura e percepção óptica sofreram uma revolução nas décadas de 1960 e 1970, à medida que os artistas criavam ambientes híbridos que incorporavam vídeo, filme, diaporamas, performance, desenho e holografia, e em que o espectador era convidado a participar na exploração de novos conceitos de espaços físicos e psicológicos.

“Into the Light” revela o poder persistente destas obras na reformulação da nossa compreensão da arte contemporânea. De entre os artistas apresentados, destacam-se Simone Forti, Dan Graham, Joan Jonas, Robert Morris, Bruce Nauman, Dennis Oppenheim, Michael Snow e Andy Warhol.
(informações recolhidas no site do CCB)

A não perder. E a ver com atenção. Especialmente os trabalhos de Dan Graham e Simone Forti

Sobre Dan Graham: Between 1969 and 1973, Dan Graham made six film works, of which Helix/Spiral is the last. Each film explores the perceptual relationship between the filmed image and the boundaries of the human body. In Helix/Spiral one person stands still while filming another person. The second person, also holding a camera, walks slowly toward the first in a spiraling movement. At the same time, the stationary performer holds the back of the camera to his body and moves it in a descending helix from the eyes to the feet. The particular contour of the stationary performer's body determines the camera's angle at any given moment. As Graham observed, the viewer is unsure of whether to identify with the camera or the performer, since the camera becomes part of the performer's body, leading the viewer to identify with both. The physical contact between performer and camera underscores Graham's interest in the camera as an extension of the body and as a perceptual tool.


Sobre Simone Forti: Forti's work is one of the precious few examples of serious art made using holography. Perched on three house bricks is a clear Perspex cylinder, lit from beneath by a candle. By walking around it and peering in at the correct angle it is possible to discern the spectral figure of the artist (who also used to be a dancer) going through the eponymous motions. Remember Princess Leia's first appearance in Star Wars (1977) as a flickering TV-blue image hovering in space, tantalizingly insubstantial? Striding Crawling mixes high with extremely low technologies and achieves a comparably evocative result.




Alfie



O novo filme com Jude Law é uma desilusão. Assim, sem mais. Não é que fosse de esperar grande coisa de um filme misógino e preso a valores que faziam sentido nos tempos da revolução sexual. Ainda assim, contava com uma observação do papel do homem em tempos de (crê-se) igualdade sexual. Talvez seja pedir demasiado para um remake pop feito à medida do carisma de Jude Law e sem a capacidade de dar mais do que um repisar dos clichés acerca dos homens e das mulheres que os rodeiam; esses pecados que servem para testar a capacidade do homem se tornar melhor.

Alfie (um Jude Law insuportavelmente cabotino e incapaz de sair do cartoon) envolve-se com as mulheres à velocidade de um fósforo e deixa-as ainda mais depressa. Predador, ambicioso, desapaixonado... cumpre todos os requisitos para ser apanhado de surpresa pelo amor. E, inevitavelmente, é. Para além disso é afectado por uma disfunção eréctil, engravida a namorada do melhor amigo, comete erros demasiado óbvios e resolve procurar acertar. Ou seja, não traz nada de novo nem sequer uma variação sobre o mesmo assunto.

O filme vive num misto de Sex and the city com Bridget Jones, feito por quem claramente acredita que as relações entre homens e mulheres se devem basear numa luta constante... e uma luta sem consequências. Alfie vive numa cidade ilusão, com cartazes cheios de mensagens sedutoras espalhados pelas fachadas dos prédios (no que poderia proporcionar várias leituras, até do ponto de vista sociológico, mas que é só cartoonesco), com personagens pouco profundas e espaços sem vida. Ou pelo menos, vida com a qual se possa estabelecer uma aproximação. Ou seja, não é minimamente real, nem sequer para dar a ler uma caricatura. Alfie não funicona a nenhum nível, aborrece, constrange e dá vontade de queimar soutiens (mesmo que não se seja feminista).

A comunidade gay que estava a ver o filme, envergonhou-se do Jude Law; as mulheres que lá estavam (quase todas acompanhadas de amigas e com mais de 40), encolhiam os ombros como se dissessem "que pena Jude".

E é verdade. É uma pena. Porque Alfie podia ser um belo ensaio sobre o lugar que cada um dos sexos ocupa na roda viva dos relacionamentos.
Poética do quotidiano (especial Natal) - IX



O Natal do Pedro Efe, do O meu lado esquerdo

Versão Quotidianos Passados

"Era uma vez...

Era uma vez um menino que não acreditava no pai natal. Primeiro, um apartamento numa caixa de fósforos suburbana não possuia chaminé, logo, as prendas que apareciam sorrateiramente junto ao pinheiro não podiam ter sido deixadas por um velhote gordo, carregando um saco enorme, que 'entrou pela chaminé'; segundo, renas não voam. Estão no jardim zoológico fechadas atrás de cercas e de certeza voariam, se conseguissem, de lá para fora, para um sítio bem mais agradável; terceiro, a maior parte das prendas era embrulhada lá em casa à última da hora pelas mãezinhas... E quarto, se nem pai, quanto mais pai natal. Criança não sabe o que é metáfora. As coisas são o que são e o que se acredita ser. O que não convence, decididamente não é. Afinal, é bem mais fácil acreditar na 'Leopoldina'..."

Versão Quotidiano de Hoje

"Afinal, o que é o 'Natal'...?

1- Campanhas, na Tv e rádio, de solidariedade social (aparentemente, só nesta altura existem tantas crianças abandonadas, maltratadas, abusadas e
carentes!)
2- Luzinhas espalhadas pelas janelas, varandas e varandins, árvores e estátuas e monumentos (acho lindo, porquê restringir o seu uso a uma época
específica do ano?!)
3- Espectáculos de horas para os pobres desgraçados nos hospitais e galas que tal, com artistas de talentos dúbios (Ena, ena! o resto do ano que se
lixem, que se definhem!)
4- Compras, compras e mais compras, de listas e listinhas em riste, não esquecendo o melhor amigo e o mais imbecil dos colegas de trabalho (parece
que o "saco do pai natal" não conhece hipocrisia, são todos muito amigos, é o tal do "espírito"...)
5- Jantares, jantares e mais jantares de grupinho (o natal é promíscuo, decididamente!)
6- Doces! Ai, as filhoses (de cenoura) da minha avó... porquê só em Dezembro, vózinha?! Davam uma sobremesa excelente, com uma bola de gelado de
nata e um molho de manga, em qualquer altura do ano...)
O Natal é quando um homem quiser, certo? Porquê querer tão pouco...?!"
A lei dos amantes (52)

CHRISTINE
What was that?

(A moment, as their eyes meet. The mood changes.)

RAOUL
No more talk
of darkness,
Forget these
wide-eyed fears.
I'm here,
nothing can harm you -
my words will
warm and calm you.

Let me be
your freedom,
let daylight
dry -your tears.
I'm here,
with you, beside you,
to guard you
and to guide you . . .

CHRISTINE
Say you love me
every
waking moment,
turn my head
with talk of summertime . . .

Say you need me
with you,
now and always . . .
promise me that all
you say is true -
that's all I ask
of you . . .

RAOUL
Let me be
your shelter,
let me
be your light.
You're safe:
No-one will find you
your fears are
far behind you . . .

CHRISTINE
All I want
is freedom,
a world with
no more night . . .
and you
always beside me
to hold me
and to hide me . . .

RAOUL
Then say you'll share with
me one
love, one lifetime . . .
Iet me lead you
from your solitude . . .

Say you need me
with you
here, beside you . . .
anywhere you go,
let me go too -
Christine,
that's all I ask
of you . . .

CHRISTINE
Say you'll share with
me one
love, one lifetime . . .
say the word
and I will follow you . . .

BOTH
Share each day with
me, each
night, each morning . . .

CHRISTINE
Say you love me . . .

RAOUL
You know I do . . .

BOTH
Love me -
that's all I ask
of you . . .

(They kiss)

Anywhere you go
let me go too . . .
Love me -
that's all I ask
of you . .

(CHRISTINE starts from her reverie)

CHRISTINE
I must go -
they'll wonder where I am . . .
wait for me, Raoul!

RAOUL
Christine, I love you!

CHRISTINE
Order your fine horses!
Be with them at the door!

RAOUL
And soon you'll be beside me!

CHRISTINE
You'll guard me, and you'll guide me . . .

(They hurry off. The PHANTOM emerges from behind the statue)

excerto da cena 10 (no telhado da Ópera Popular) do musical Phantom of the Opera
Poética do quotidiano (especial Natal) - VIII



O Natal do Tiago, do Litanias


Lembro-me por vezes das noites de Natal que passámos juntos. De como eras, na bonomia que a idade permite, motivo de risos pela noite fora. De como o
frio, a doença e a ausência daquela que amavas não te tiravam o humor e a alegria de viver. Até pouco depois da meia-noite, quando, já abertos os presentes, te íamos levar a casa. Passei lá à porta, há dias. Está vazia, a tua casa, a tua foi a última família a lá viver, não creio que venha a ser
ocupada brevemente. Lembro-me do teu sorriso de criança de 80 anos. E de como gostavas do cabrito da minha mãe, que comíamos uma vez por ano. Que sabíamos associado a uma data em particular. Não a do nascimento de algum Messias, mas a de estarmos juntos por algumas horas. Ias gostar de ver, este ano. O Mário, com quem te davas tão bem, é pai desde há dois meses. O meu pai está muito melhor que o ano passado. Desde que foste que ele não é aquele homem forte que criaste. E, que estranho, foi precisamente na tua partida que senti o virar da agulha que me tornou em parte naquilo que sou hoje. Sei que te ias orgulhar de mim, que ias gostar de me ver agora, homem feito, a trabalhar e com projectos e ambições. Espero que sim, que gostasses de me ver. Eu sei que ia gostar de te ver... Ultimamente, comemos cabrito mais que uma vez por ano. Preferia que fosse como antes... Queria o teu sorriso de volta, para me afastar as lágrimas quando penso em ti...
Feliz Natal, Avô...

sábado, dezembro 25, 2004

Sessão dupla

Cumprindo com a tradição de Natal, fugi para o cinema. Dois filmes, duas surpresas, duas perspectivas.

O Fantasma da Ópera




Irei desenvolver algo sobre este filme, já que levanta importantes questões acerca dos limites do cinema e do teatro, bem como do lugar do espectador enquanto objecto e receptáculo de objectos. Já sei das opiniões da menina Bicicleta e do menino Juanito do De Puta Madre e do André. Mas queria dizer mais alguma coisa, mesmo que se possa encerrar o filme num objecto-pop, que também o é. Entretanto, se tiverem paciência, vão vê-lo, não numa perspectiva só de entretenimento. Entretanto direi mais.


Saved - Quem nos acode?



"O" filme de Natal. Uma surpresa atirada para o secretismo decadente do vazio cinema Quarteto. Em tempos de fé exacerbada (o Natal é a festa de celebração de Jesus, se estão recordados), esta aparente comédia juvenil é um maravilhoso e refrescante retrato de uma juventude americana perdida entre o fanatismo religioso e a descoberta da sexualidade, da vida, do amor e de todas as outras coisas que fazem questionar os valores e os princípios.

A história é aparentemente simples: uma rapariga descobre que o namorado é gay e decide salvá-lo através do amor de Cristo. Acredita que se Cristo o colocou no caminho dela, é porque ela tem uma missão. E ainda que vendida à ideia de que o verdadeiro amor espera, decide fazer tudo. Incluindo dormir com ele. O que se segue é um desenrolar de descobertas, descrenças, amigas presas à ideia de Jesus-salvador, uma mãe desatenta, um rapaz em cadeira de rodas (o Macaulay Culkin, num registo low-profile encantador), uma judia rebelde, um pastor perdido num casamento à deriva... e um liceu tipicamente americano, com baile de finalistas e tudo.

Saved é um fascinante microcosmos perigoso e hipnótico, que revela bastante do que é a América profunda, ciente do papel do Presidente Bush como enviado de Deus. Digo ser "o" filme de Natal porque, ao contrário de outros, não se limita a retrabalhar os esterótipos. Antes reflecte sobre eles. E não há muito que sobre depois disso. Afinal, se Deus (se existe) quisesse que fossêmos todos iguais, porque nos faria diferentes?

A não perder, por favor. Para crentes e descrentes, indiferentes e curiosos.

O filme está em exibição em Lisboa (Quarteto, El Corte Inglés) e Porto (AMC - Arrábida Shopping)
Poética do quotidiano (especial Natal) - VII



O Natal do Pedro, do Agridoce

No meu caso particular o Natal mistura sobretudo uma salganhada de referências surrealistas da infância, onde cabem o natal dos hospitais, o eléctrico do natal com o filme do robin dos bosques dobrado em brasileiro, o burro de peluche à escala natural nos restauradores a pedir a bela foto ou o desgosto por nunca receber o Fort Randall da Playmobil. Hoje, o Natal é para mim uma mancha difusa de talões multibanco e facturas de loja, que servem como indícios da minha proverbial falência e da minha inabilidade na criação de riqueza. Qualquer faço como a outra - vou para a bicha do ananás na festa dos Alunos de Apolo, a ver se alguém tem caridade de mim.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Poética do quotidiano (especial Natal) - VI



O Natal do Boss, do Renas e Veados

Num momento em que há mil assuntos políticos quentes a digerir correm-se os blogs todos e só se acham nataladas, que seca! Assim não se vai lá, assim não, basta, porra, basta! Feliz Natal :)
Feliz Natal




Hoje é dia de Natal.

O jornal fala dos pobres

em letras grandes e pretas,

traz versos e historietas

e desenhos bonitinhos,

e traz retratos também

dos bodos, bodos e bodos,

em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.

- Mas quando será de todos?



Sidónio Muralha, Natal


O Melhor Anjo deseja-vos Feliz Natal. O que quer que isso signifique.
Poética do Quotidiano (especial Natal) - V



O Natal do Filipe, do Mindtrap


O encontro estava marcado para a Cibeles.

Saí de Lisboa, empolgado com mais uma viagem. Rumei à Ponte. Olhei para o lado direito a nova cidade agarrava-se ao rio.
Entrei rapidamente na auto-estrada, e reparei que ia sem música. Folheio a caixa de cd's, de frente para trás, de trás para a frente, e nada me diz nada.
Continuo em silêncio, a ouvir o silêncio do novo carro. Ainda sem pó, sem beatas, sem recibos de portagens, sem catálogos da Technal ou da Pladur, sem convites não aceites, sem histórias para contar.

Atravesso o Alentejo em silêncio. Como diria alguém, é pobrezinho mas é nosso. Sorriu.
Quero música...Iggy Pop...Lust for Life....
Quando estiver a meio da viagem, vais tu estar a sair de Lisboa. Vais de avião, ainda tinha milhas para gastar e saias mais tarde do trabalho. Pediste-me para ir contigo. Não quis. Quis viajar comigo. E quis viajar sem ti.

Precisava de estar apenas umas horas nem que fosse para não pensar em nada. Ao teu lado muita informação teria que digerir.
Quis experimentar-me, por mais breve que a experiência fosse. Tal como fiz, há 10 anos, quando tinha 18 anos com carta e carro a estrear, peguei no carro, disse que ia tomar café e fui até às Beiras cheirar a terra dos meus pais.

Aqui ia cheirar uma terra estranha ao meu sangue.

Mas já bem reconhecida pelo meu tacto.

A primeira vez que fui a Madrid, a very very very long time ago, achei a cidade extremamente violenta (ETA esteve bem presente nessa primeira ida), agressiva (para um miúdo dos típicos subúrbios calmos da cidade) e cruel (assisti a vários assaltos, pancadaria, prostituição em frente ao hotel).
Hoje passada uma década, Madrid não mudou muito.

Hoje, ironicamente, a mesma Madrid violenta, agressiva e cruel, serve de porto de abrigo.
O que eu procuro na rápida Madrid, é a calma que não tenho nesta bucólica Lisboa.

Vou pensando em nós, agora ao som de Bebel. Mais calmo penso neste tempo em que tivemos separados. Em que encontraste alguém porque te sentias só. Em que eu encontrei alguém porque já me sentia habituado a companhia.
Só que não eras tu.

Regressei. Não o soubeste.

Respondias aos meus e-mail’s, como se eu continuasse a milhares de Km’s de distância.
Precisei, tal como nesta viagem de me organizar.

Mentira…tinha medo. Muito. De saber que estavas realmente bem, tal como dizias nos teu e-mail’s.
Seria este o nosso primeiro fim-de-semana desde que voltamos. Desde que a tua mãe me segredou que estavas sozinho. Desde que te procurei na festa de aniversário do teu pai. Desde que te encontrei prostrado a um canto da sala sozinho no meio de dezenas de convidados. Desde que saímos daquela festa nos enfiamos numa discoteca ensurdecedora. Desde que nos deitamos juntos bêbados. Desde que adormecemos. Desde que me levantei e saí.
Telefono-te quando estou a entrar já na M40. Já toca. Já aterraste.

- Não te vou buscar, porque o trânsito está caótico para o aeroporto. Vai lá ter a casa. Sabes como é…a fuga para as províncias para festejarem o Natal.
- Obrigado.

Seco.

Estaciono o carro numa perpendicular à Serrano. Percorro as duas ruas até ao prédio com uma quietude que parece acalmar a cidade que vai adormecendo à minha volta. Entro, a porteira espreita, passo o pátio interior com a sua fonte de inspiração árabe, subo, a madeira range, meto a chave à porta.
A chave dá uma, duas, três voltas, e arrepio-me com o som das voltas que ecoa pelo corredor.
Pouso o saco.

A escuridão silenciosa da casa atordoa-me.
Os rostos dos quadros das paredes sufocam-me e sugam-me.
Estou pornograficamente ansioso.
Começo a sentir a tua falta neste espaço. Neste canto que era o nosso refúgio.
E percebo que o silêncio que procurava eras tu.
Deito-me na cama. Passado um ano volto a pôr Simone de Oliveira.

Primeiro são os teus passos, pela escada
A madeira a dizer-me que chegaste
Depois a porta a pouco e pouco aberta
E o silêncio que só prova.. já entraste
Pela luz do teu cigarro eu adivinho
Que caminho têm as roupas pelo chão
E tu pensas que eu ainda estou dormindo
E eu penso que aprendi já a lição

Então pé ante pé, braço ante braço
Deitas-te a meu lado quase a medo
E atrasas o relógio que há no quarto
Para se eu acordar pensar que ainda é cedo

Então pé ante pé, braço ante braço
Deitas-te a meu lado quase a medo
E atrasas o relógio que há no quarto
Para se eu acordar pensar que ainda é cedo


E cedo sinto e sofro a tua mão
Descendo pelo meu corpo devagar
Eu penso que aprendi já a lição
Juro que não vou nunca mais acordar

Pergunto-te a dormir que horas são
Protesto, digo não, mas como sempre
Acabo com os teus lábios no meu peito
Os teus dedos brincando, ardendo no meu ventre

E abro-te o meu corpo de mulher
Esqueço a raiva, a dor, as amarguras
Cá dentro nasce o Sol, já é manhã
E o relógio do quarto ainda bate as duas

E abro-te o meu corpo de mulher
Esqueço a raiva, a dor, as amarguras
Cá dentro nasce o Sol, já é manhã
E o relógio do quarto ainda bate as duas

Primeiro são os teus passos pela escada......
Ainda (e sempre) sobre Natércia Freire

por Eduardo Prado Coelho, no PÚBLICO, hoje

Natércia

Uma sociologia da literatura não poderá deixar de querer entender os mecanismos colectivos que explicam que escritores que tiveram grande sucesso em determinado momento pareçam a dada altura ter desaparecido - o que não significa que não possam ser "reabilitados" do "esquecimento injusto" que sofreram. Mas cada época é o conjunto das suas evidências e dificilmente conseguimos saltar sobre nós próprios. No excelente texto que João Barrento escreveu no Mil Folhas sobre o alemão Durs Grunbein, diz a dada altura: "Poeta que se quer de hoje, de aqui e de agora, sem nostalgias, sem metafísicas, sem ensimesmamentos. Só uma poesia assim (e que, naturalmente , inclui alguma que vos vem do passado e do futuro) pode interessar a quem busca na poesia o que é de hoje e está vivo, aqui e agora."

O caso de Natércia Freire (que morreu há dias, com 85 anos, no Ribatejo onde sempre a conheci) é extremamente interessante. Foi um nome muito conhecido, um autor muito lido e estudado por ensaístas da primeira linha e uma personalidade poderosa pelo facto de ter dirigido o suplemento literário do "Diário de Notícias". E depois deixou de ser lida, apesar da antologia que dela saiu na Assírio e Alvim em 2001. As suas referências eram brasileiras: Cecília Meireles e Clarice Lispector (embora Clarice tenha uma agudeza metafísica, e não uma metafísica poética, que a demarca claramente de Natércia, e mesmo de Cecília Meireles).

Houve um certo número de razões de ordem política que explicam este eclipse (como assinala o seu afastamento do "Diário de Notícias"). Mas isso não seria determinante, se não fosse o facto de a poesia de Natércia Freire, de uma imensa musicalidade, se basear na separação entre um vocabulário estritamente poético (onde não caberiam palavras como motocicleta ou salsa) de um vocabulário pragmático. E isso correspondia à ideia de que existia uma "vida literária" em que alguns se inscreviam com os seus versos e que sublimava a vida quotidiana. Ora toda a literatura contemporânea se baseia num processo de dessublimação que põe em causa os que se investem no papel de poetas.

Natércia Freire (cuja obra merece ser relida no quadro do tempo que é o seu) era amiga do meu pai. Em sua casa, onde fui várias vezes com ele e a minha mãe, cruzavam-se pessoas extremamente diferentes: desde o meu pai, que era um convicto adversário do regime, até Fernanda de Castro. Foi num desses almoços que, já durante o café, Fernanda de Castro contava o alvoroço em que ficara quando lhe tinham dito que o António Quadros, seu filho, assinara um manifesto contra o Governo. Afinal era apenas um engano provocado pelo facto de João Pedro Grabato Dias assinar com o pseudónimo de António Quadros. Foi aí, com uma ingenuidade totalmente adolescente, que tentei fazer uma discussão sobre democracia, matéria em que fui completamente destroçado.

Passadas algumas semanas Natércia Freire publicou o primeiro poema, que divulguei fora dos suplementos juvenis. Foi o primeiro e quase o último - o que prova que Natércia era uma mulher generosa. A sua obra repete em todos os tons que a poesia existe. Verdadeiro ou falso, isso basta para atravessar uma vida.


Poética do quotidiano (especial Natal) - IV



O Natal do Cachucho, do Enresinados

NATAL

Longe vão os tempos em que esperava ansiosamente pela manhã do dia 25 de Dezembro e, em reacção aos primeiros raios de luz, corria descontroladamente e com respiração ofegante para a cozinha da minha avó, para de seguida e com olhar de espanto, encontrar o brinquedo desejado em cima do fogão.

A hipocrisia da televisão já existia. O Natal dos hospitais já era um sucesso e, tínhamos de aguentar maratonas de música de dúbio gosto, horas e horas a fio. A única diferença é que nessa altura, isso não me parecia incomodar. Aliás, pouca coisa me incomodava. Vivia num mundo criado por mim, aparentemente imune à fanfarronice alheia.

Tão longe vão esses tempos, que se me esforçar um pouco consigo esquecer-me facilmente que alguma vez os meus pais tenham vivido em perfeita harmonia. Os anos foram passando, a relação foi-se naturalmente degradando até se tornar insuportável. A decisão foi tomada, e cada um, decidiu por bem (e ainda bem) que o melhor era seguirem diferentes caminhos nesta complicada estrada da vida.

Creio que foi nesta curva do destino que passei a ver o Natal como uma sombra difusa que teima em permanecer sobre o nosso frágil corpo. O mundo criado por mim já não era tão imune como dantes. Fiquei mais exposto aos ataques de estupidez que o mundo nos parece querer bombardear diariamente. A hipocrisia do Natal passou a incomodar-me bastante. As visitas aos hospitais a caírem de podre, sob a desculpa de falta de meios, para serem entregues desenhos feitos pelos ouvintes de um rádio qualquer, a crianças doentes, passou a ter em mim reacções nunca antes sentidas.
Talvez se comparem a uma mistura de ódio destilado com memórias nostálgicas. Não sei. O que sei, é que o Natal poderia ser bem melhor se conseguíssemos pensar menos.


PPD/PSD-MPT-PPM (à qual se juntará o CDS-PP caso ganhem em desvantagem numérica)

A nova coligação que se apresenta às eleições de 20 de Fevereiro foi lançada em jantar-comício, ontem. Os três votos que vão atirar o PSD para a extrema-direita são a solução para combater uma queda já anunciada e desejada. Há vários dias que esta eleição que se avizinha me faz parecer o combate para a presidência da república francesa que opôs Chirac a Le Pen. Não importava que Chirac fosse mau, o importante era não deixar ir para lá o fascista Le Pen. Com as devidas distâncias, a 20 de Fevereiro passar-se-à o mesmo em Portugal.

Contra tudo e todos, há que engolir o saco de gatos que é o PS e votar neles. Para evitar o populismo tacanho e retrógrado do PSD.

Abaixo mostra-se a fotografia que o Diário de Notícias escolheu para ilustrar o comício. A cumprimentar Santana Lopes, estão Maria José Valério (a doida que julga cantar fado mas é mais conhecida pela madeixa verde e por cantar o hino do Sporting) e Artur Garcia (a bichona ridícula de capacinho e voz de plástico... que canta sabe-se lá o quê e vive das glórias de que ninguém se recorda no Parque Mayer).



quinta-feira, dezembro 23, 2004

Poética do quotidiano (especial Natal) - III



O Natal da Pollijean, do Bolas de Berlim

Este ano o Pai Natal vem de pónei

Todos os anos, no mesmo dia, à mesma hora (aí entre as oito e a meia-noite, quando já não sinto o corpo da imobilidade forçada entre a minha tia gorda e o meu tio pançudo), faço um desejo: quero voltar a ter cinco anos!
Adaptando os ensinamentos do Peter Pan a tempos mais modernos, fecho os olhos, tento meditar, faço força e penso em coisas bonitas. Às vezes não é logo à primeira. Às vezes tenho de fechar os olhos outra vez, fazer mais força e depois de uns minutos de treinada meditação zen (são muitos anos de prática, todos os anos, no mesmo dia, à mesma hora), consigo voltar a ver-me rodeada do aspirador cor-de-rosa, do carrossel dos Pin y Pons, da cama nupcial da Barbie, do pónei da trança cor do arco-íris, (de um casaco e de um envelope com dinheiro a que não liguei nenhuma) e daquela capacidade maravilhosa que eu tinha de seduzir toda a gente à minha volta com a minha profunda inocência (com o passar dos anos fui perdendo essa habilidade e hoje em dia já ninguém que me dá póneis no natal, não sei bem porquê!). Na altura em que me ponho a aspirar a cama da Barbie enquanto ela vai com o seu pónei dar uma volta no carrossel, sinto a imponente barriga do meu tio a anunciar a meia-noite, cai o vinho dos copos por cima da toalha aos sininhos, e eu, grande e esquecida de barbies e kens, lá recebo o resto do enxoval que não vou usar e os 10 euros que são para ajudar à viagem de avião e mais outras inutilidades práticas, enquanto empanturro a minha maturidade com mais uma azevia.
Para o ano volto a brincar às barbies. Pode ser que o meu pai me dê a piscina que faz bolhinhas que eu vi no outro dia na montra do centro comercial...


Teggy

A secretária de estado das artes e espectáculos Teresa Caeiro decidiu não homologar a proposta de financiamento do Instituto das Artes no âmbito do concurso de apoios pontuais. Assim sendo, todos os projectos que já estavam avançados vêem-se a braços com dívidas. A secretária de estado diz agora que se as estruturas/criadores querem o dinheiro, que peçam empréstimos bancários. Se esta senhora tivesse a noção do absurdo que está a dizer, talvez tivesse vergonha na cara e se fosse imolar no Largo do Caldas.

Pedir empréstimos bancários implica juros e prazos. Os subsídos à cultura não são um favor que o Estado presta aos criadores, mas antes uma obrigação num país que não apresenta um sistema alternativo. Com os atrasos nos pagamentos e sem outras condições de apoio, os criadores não podem apresentar garantias. Nem o devem fazer. O dinheiro serve para os projectos, não para pagar os juros ao banco.

Quando é que haverá respeito por quem faz pela cultura neste país?
Poética do quotidiano (especial Natal) - II



O Natal do Nuno, do Resistente Existencial

(Conversa à porta do centro comercial)

- Ah..., sabes o que é que gostava que me dessem? A chance de não ter de comprar prendas para toda a gente. Nem que fosse só por um aninho...

- Isso é que era doce. Vá, quantas prendas da lista ainda faltam? Será que a tia Dulce gostava de um perfume?
O preço do livro

De acordo com o Jornal de Notícias, Portugal pode ser levado a tribunal por não cumprir uma directiva comunitária, que obriga as bibliotecas a cobrarem uma taxa pelo empréstimo de livros.

Pensar que tal pode acontecer é mais um argumento a favor dos que defendem um desconhecimento da parte de Bruxelas das realidades dos países. O Estado português vai propor uma leitura alargada da lei. De acordo com a notícia, "o incentivo à leitura e o desejo de defender os interesses dos utentes das bibliotecas são os outros argumentos que, segundo o Governo, justificam a não implementação da medida".

Nem tudo vai mal neste país, afinal. Resta saber a força que têm.
O verdadeiro presente de Natal

ALFIE
Estreia hoje


Tom Wellessmann (1931-2004)



Morreu no dia 17, um dos mais importantes artistas da Pop Art norte-americana.
A mente de um bailarino

A ler, hoje, no The Guardian, porque é que os bailarinos movem o corpo como nós nem imaginamos.

Why only dancers can do a mental pirouette

Neuroscientists have pinpointed the parts of the brain where practice is made perfect.
When a prima ballerina watches someone perform a pirouette, or a professional footballer watches a player bend it like Beckham, they use parts of the brain not used by amateur watchers.

(...)

Dancers always talk about 'body memory'; they have learned to do something 'in their bodies'," said Daniel Glaser, of the Institute of Cognitive Neuroscience at University College London. "But that is nonsense. They learn it in their brains, the bits of the brain that control their movement.

"But what wasn't clear was that that bit of the brain was also activated when you see movement, and that is the critical insight here. You use your ability to move, your movement-control part of the brain, to help you see better."


Poética do quotidiano (especial Natal) - I



O Natal do Alex, do Chá de Limão

All I want for Christmas?

I don't want a lot for Christmas Quando era puto, acordava na manhã de Natal e acreditava que o Pai Natal tinha descido pela chaminé da cozinha e que tinha deixado aqueles presentes para nós. Acreditava também que um dia, ao acordar, o quintal estaria cheio de neve. There is just one thing I need Lembro-me de ser mais crescido e de já não esperar muito do natal. Aguardava pela meia-noite e ficava feliz com 1 vinil e 2 ou 3 livros. Até era mãos largas nos presentes que oferecia e pagava-os muitas vezes na totalidade mesmo quando comprados a meias com a minha irmã. I don't care about the presents Comprávamos um pinheiro verdadeiro que enterrávamos no jarrão da sala, cheio de areia, e que enfeitávamos com luzes pirosas e sinos brilhantes. Underneath the Christmas tree Na véspera de Natal, amassávamos as filhoses, num alguidar grande que se cobria depois com cobertores grossos durante toda a tarde. Lembro-me do fritar da filhoses; da mesa cheia de doces; das caras de bacalhau. I just want you for my own Fico triste por não me lembrar de algum dia ter partilhado no Natal qualquer momento de felicidade com um amigo que fosse. Não me recordo de ter recebido um presente ou de ter oferecido algum. More than you could ever know Lembro-me de achar que era feliz… Algumas pessoas têm a veleidade de acreditar que tudo está nas nossas mão, mas o tempo passa por nós (ou passamos nós por ele!) e a nossa felicidade vai ficando adiada por mais um ano. Make my wish come true Há muito tempo que deixei de acreditar nos milagres de Natal. Guardo muitas recordações e acredito em poucas coisas. Infelizmente não guardo aquelas recordações de coisas nas quais (por estranho que pareça) ainda não deixei de acreditar. Por muito que isto me faça sofrer, a cada minuto, ainda acredito que um dia posso vir a ter aquele amigo de verdade com o qual sonho muitas vezes acordado. All I want for Christmas is you...