quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Casa de Espelhos

Análise ao espectáculo A Missão ou Porque as raparigas continuam a querer ir para Moscovo, de Mónica Calle




Para o espectador a abordagem ao espectáculo é feita de duas formas: no momento e na expectativa. No momento porque se apercebe que o que se desenrola à sua frente não se irá repetir. E na expectativa, já que sendo-lhe dada a oportunidade de assistir/participar naquele momento criativo, vê, ao mesmo tempo, ser-lhe recusada a concretização do processo/espectáculo. Não na ideia de que cada espectáculo é diferente ou irrepetível, mas porque acontece no justo momento, dando novo significado à efemeridade inerente ao teatro. Mesmo se o que se apresenta todas as noites sofra variações.

Na verdade, o que Mónica Calle propõe é uma observação do quotidiano de construção de um processo criativo. A Missão... torna-se, assim, um acto de reflexão/metaforização acerca da capacidade de entrega da encenadora à necessidade de fazer. Mas em cada noite, a coisa fica por cumprir. A Missão... é, por isso, um convite ao regresso e à espera conjunta. A um procurar sem pressas. A contrariar a urgência. Ao espectador oferece-lhe a verdade do momento. Ambígua e frágil, certamente. Mas a verdade do momento. Trata-se, por isso, de uma proposta de continuidade que se não se encerra aqui, antes permite afirmar que "este" é o limite da criadora. Essa é a única ideia finita de A Missão... .

A "cena" já está montada quando o espectador entra no novo espaço da Casa Conveniente. Ana Ribeiro, Mónica Calle e Mónica Garnel trabalham-no, fazendo cimento, pintando paredes, arrancando materiais. O que à partida possa parecer um aquecimento para o espectáculo, depressa se torna numa coreografia de intenções. O que obriga o espectador a procurar uma ideia de poética do quotidiano. Força-o a assumir que o que se passa é o próprio espectáculo. Joga-se, portanto, no campo dos limites da definição teatral e com as expectativas do espectador. E logo faz surgir a pergunta: acabará este espectáculo quando a Casa Conveniente estiver pronta?

A demolição de um edifício é muito mais eficaz que a sua construção. Muito mais poética, até. Porque se permite a uma série de interpretações que vão desde uma ideia de libertação (social, política, cultural, ...), à definição de re-nascimento. Mónica Calle, ao partir precisamente para a construção, estabelece uma relação umbilical com o espaço, dando-lhe forma e moldando-o ao seu projecto-total: a ideia de um teatro o mais depurado possível que tem menos de Grotowskiano do que seria de esperar. E ainda bem. É por isso que esta é uma proposta de esperança. A criadora também estabelece um contrato de confiança com o espaço. Muito provavelmente porque, agora, Mónica Calle se sente capaz de olhar de frente este novo lugar e enfrentá-lo. Talvez por isso A Missão... não tenha sido o primeiro espectáculo a ser apresentado na nova Casa Conveniente, mas Esquina de uma rua (2004). A casa haveria de se impôr no processo, quando quisesse. Quis agora. É tempo de a construir, querendo dela outras ideias, fontes de inspiração, caminhos a seguir.

Em cada canto da nova Casa Conveniente vai estar a sua marca. E no que isso representa de confrontação, Mónica Calle vai-se forçar a avançar cada vez mais para um processo que recuse a repetição ou a implosão. Antes se vai retrabalhando a partir da confrontação com a memória viva dos espectáculos que se apresentaram no espaço. Seus e dos outros. Mesmo os que transformarem a Casa Conveniente num "teatrinho".

Porque se trata de algo para seguir, até ao limite. Até ao momento em que se sentir que esse caminho, essa forma, esse objectivo está esgotado. E aí o corte será radical. Irreconhecível, diria.

No entanto, esta aposta corre o risco de ser considerada hedonista, já que exige do espectador uma apreensão da morosidade do processo centrado no criador e na sua forma de trabalhar. Trata-se de uma observação activa, significando exactamente que Mónica Calle reconhece que cada presença é fundamental para o espectáculo. Ali os espectadores não são anónimos. Mantêm o nome, a biografia, as dúvidas e a pose. São pessoas, por inteiro.

Ora, sabendo que por mais que se reclame uma verdade teatral, o que se passar no espaço definido como cénico será sempre teatro, o que se procura com A Missão... ? Uma teatralização dos sentidos? O definir de uma fronteira entre o que é encenado e o que é espontâneo? Onde estão os limites? É o teatro de Mónica Calle um teatro de entrega última?

A Missão ou Porque as raparigas continuam a querer ir para Moscovo é, nitidamente, uma proposta de ocupação/apropriação. De um espaço, mas também de textos. Mónica Calle convoca, outra vez, As Três Irmãs, de Tchehkov, para dele extrair mais um pouco de lógica para o seu processo criativo. A lógica aqui não é a de contextualização ou necessidade de dar ao espectáculo uma dramaturgia visível. Sobretudo porque a criadora já descarnou a peça anteriormente (As Três Irmãs ou Que importância é que isto têm?, 2003). O trabalho de Mónica Calle é dos mais activamente dramatúrgicos porque envolve os textos escolhidos de um sentido primário, como devem ser todas as escolhas e abordagens. Sente-se, por isso, que as opções que faz se prendem com uma necessidade de testar a força das palavras no corpo, no gesto, na voz, no espaço e no espectador.

Por ela (nela!) já passaram, entre outros, Fiama Hasse Paes Brandão, Tchekhov, Rainer Werner Fassbinder, Walter Benjamin e Rimbaud. Autores pessoas, que obrigam a um pensar e um reflectir que vá para além da colagem e utilização inconsequente. Cada uma das escolhas prende-se com essa vontade de trabalhar o humano, a pessoa, o Homem enquanto ser em definição. Daí a exposição. Do processo e dos espectadores.

Desta vez, e para além da perseguição a As Três Irmãs (confundindo-se quem persegue quem, se o texto à criadora, se o contrário), cruza Tchekhov com Heiner Müller, mas, e sobretudo, com manifestos políticos, hinos revolucionários... mas, principalmente, com o silêncio de uma obra em construção. A Missão... é, assim, uma viagem ao universo interior de um processo. Bem como dos textos, da criadora e dos espectadores.

O trabalho de trolha que as actrizes executam é, em si mesmo, uma encenação. Sabemos que nenhuma delas é trolha na vida real. E isso obriga-nos a reflectir sobre as máscaras que usamos ao longo do dia. Até porque a forma como as três actrizes o fazem o denuncia: caladas, lentas, sozinhas a executar tarefas. Uma coreografia, portanto. Quase que podemos recordar Björk em Dancer in the Dark se fecharmos os olhos e nos deixarmos levar pela musicalidade dos movimentos mecânicos e operários. Encenação denunciada, ainda, pela interrupção que provocam nessa aparente realidade de construção para representarem/dizerem/falarem os referidos textos. Chegam mesmo a definir um espaço para a representação "clássica": um avançado preto que serve de palco para os discursos.

Repare-se na dúplice condição dos planos. Real e teatral em perfeito confronto. É mais verdadeira a construção do espaço ou os momentos textuais? Podemos afirmar que ambas os níveis (se há níveis) são falsos e verdadeiros. E que tudo isso permite o desenvolver de A Missão... como uma proposta que não recusa o seu sentido primeiro: trata-se de teatro. O mais puro possível. E em nome de uma necessidade de devolver ao teatro essa capacidade de se misturar com a vida e não se fazer distinguir. Não é, por isso, inocente a utilização de hinos ou discursos revolucionários. Num palco são matéria dramatúrgica e o tempo deu-lhes uma aura mística, distanciada e crente. Tal como o teatro quer ser.

Dois momentos do espectáculo permitem compreender a forma como Mónica Calle trabalha a sua relação com o espectador e a procura de verdade. Tal como em As Três Irmãs... onde pediam para que nos juntássemos no 3º acto e lêssemos as deixas, as actrizes de A Missão... solicitam ao espectador ajuda para alguns momentos. Sendo que os textos se repetem de actriz para actriz até se tornarem num só discurso a diversas vozes, num dos momentos Mónica Calle dirige-se a um espectador, pedindo-lhe ajuda para a cena. Essa ajuda consiste em enfiar-lhe a cabeça num balde com água, enquanto recita um texto. A mesma cena tinha já sido feita com Ana Ribeiro no lugar que agora é de Mónica Calle e a encenadora no papel que agora entrega ao espectador.

Se primeiro percebemos que as duas actrizes se entregam à descoberta dos limites de resistência de uma e outra (passividade/agressividade), quando chega a vez do espectador, procede-se a uma transferência de poderes. Mónica Calle entrega-se nas mãos do espectador, no caso uma mulher. Terá este capacidade para ser verdadeiro ou representará? Onde reside o poder de escolha? Que lhe pede o espectáculo? Que deve ele fazer? Como reage a actriz? Como segue o espectáculo? Perguntas que se encerram na encenação de um acto de violência e que mexem com as definições do papel do espectador no processo de construção teatral. Respostas que, provavelmente, não cabem no teatro. Na mentira que se espera que seja o teatro. E, no entanto, houve a oportunidade de passar a linha.

Outro momento dá-se já perto do final do espectáculo, quando a encenadora convida um homem para se juntar perto dela e o guia pelo seu corpo. Não é novidade no trabalho da criadora a exposição do corpo. Uma espécie de distanciamento em nome do espectáculo que se remeter para Brecht reduz muita da verdade da proposta. Os casos de A Virgem Doida (1992) e Rua de Sentido Único (2001) são paradigmáticos. Se no primeiro caso a actriz se transformava em poema de Rimbaud e anulava um hipotético quotidiano decadente para o transformar em matéria teatral, no segundo, rompia fronteiras entre espectador e actor, ao apagar as luzes e deitar-se numa cama larga com um estranho.

No caso de A Missão..., Mónica Calle confunde o seu corpo com o da personagem que interpreta (também Mónica Calle) e oferece-se ao observador. Chama-o para que ele a reconheça apesar das transformações do espaço (actuais e futuras), da envolvente e das pessoas. Quer que ele veja o que mais verdadeiro há de si. O que ela está disposta a dar em nome de um processo. Assim, leva a mão dele ao seu corpo, indicando-lhe os braços e os olhos e a barriga... Mas ao chegar aos pontos sexuais (lábios, vagina, mamilo), diz-lhe, quase sussurando: "as tuas mãos". O teatro, que assume aqui a sua vertente sensorial, torna actriz e espectador(es) cúmplice(s) num território de partilhas. E co-responsável(is) pelo que acontecer. Em nome de um teatro o mais honesto possível, mas que não deixe nunca de ser teatro.

A Missão ou Porque as raparigas continuam a querer ir para Moscovo oferece-se enquanto objecto de estudo, muito para lá do conceito de site-specific. Se é certo que ficará inerentemente ligado ao espaço da Casa Conveniente (e por isso é irrepetível, porque dependeu da sua construção física), é certo também que jamais desaparecerá. Até porque cada espectador que quiser regressar vai sentir que também está em cada canto do teatro. Para sempre.



A Missão ou Porque as raparigas continuam a querer ir para Moscovo
Espectáculo de Mónica Calle com: Ana Ribeiro. Mónica Calle. Mónica Garnel. Direcção de produção: Sílvia Jorge
A partir de 5 Janeiro 2005 até 15 Fevereiro
3ª a sábado das 20h00 às 23H30
Entrada até 22H00
Preço único: 7,5 €
Reservas: 96 930 49 38 ou 21 3420635

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