segunda-feira, junho 13, 2005

Abertura

Análise a Quem Sou#2 de Miguel Bonneville
Espaço Eira 33
30 Abril 2005
20h30

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O corpo está demasiado próximo do quotidiano, há que instaurar entre eles uma abertura, alguns centímetros de intensa liberdade.
in Luís Miguel Nava (O céu sobre as entranhas, 1989)

Em Quem Sou, estreado em Dezembro de 2004, Miguel Bonneville criou para seis bares do Bairro Alto (Majhong, Sem Sim, Capela, Bicaense, Clube da Esquina e Suave) - e seis intérpretes - uma instalação comum (um performer com um tutu) atravessada por um texto hiper-narrativo e quase panfletário, no qual se insurgia contra uma cultura de faz-de-conta e superficialidade. Uma realidade que não permitia o enfrentar de problemas concretos, preferindo construir-se assente em "metáforas mimético-apocalípticas sobre o fim do mundo" e onde Bonneville assumia a diferença recusando esconder-se "atrás das roupas apesar de [se] poder esconder atrás dos objectos". Agora em Quem Sou#2 não estamos perante um discurso sobre os outros e o seu efeito no criador mas antes numa proposta de apresentação pessoal sob a forma de objecto artístico.

Esta nova proposta assume-se como uma 'revisitação que também é criação', já que não há definições finitas e Bonneville também não gosta propriamente de fechar capítulos. Quem Sou#2 denuncia uma segunda aposta no mesmo tema e, no limite, uma vontade de aprofundar determinadas questões por resolver. Nesse sentido o eventual continuação da 'série Quem Sou' poderia tornar-se uma pertinente procura, na linha de um outro projecto sequencial que o jovem performer tem vindo a desenvolver: Montras, começado em 2004 e inspirado nos treze livros referidos no filme de Peter Greenaway, The Pillow Book. Dos treze previstos foram já estreados quatro em performances duracionais únicas que decorreram no Porto, no bar Maus Hábitos (M1Y, M3I) e na Avenida dos Aliados (M5B), ou feitas directamente para vídeo (M2B&B). Mas, ao contrário de Montras, dar-se-ia aqui lugar não a uma ideia de instalação de imagens e referências, mas antes a uma instalação da persona do criador.

Como em todas as suas propostas há um texto programático que anuncia as intenções de criação. Neste caso apresenta uma longa dedicatória que é também uma espécie de insulto ao público que procura espectáculos formatados, explicativos, clínicos e frios. Quem Sou#2 quer-se um desafio à interpretação dos códigos e fingimentos não só nas artes performativas (sobretudo nas que se dizem de auto-exposição), mas também uma tentativa de percepção sobre o que se espera de um jovem criador que aposta na biografia como linha condutora do seu trabalho. O performer apresenta-se sozinho e procura dar-se a conhecer através de um dispositivo que combina vídeo, instalação de corpos e adereços, texto e movimento, numa plataforma consciente não só da presença do observador, mas também do modo como são interpretadas as verdades subjacentes a uma ideia de 'espectáculo-bilhete de identidade'.

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Em Quem Sou#2 há a vontade de explorar uma relação estreita entre objecto artístico e criador, sem que isso signifique a criação de objectos meramente auto-biográficos. O corpo é só o veículo de uma forma e conteúdo que prefere falar do que recusa mais do que aquilo que pretende. A sua figura algo frágil, delicada e até displicente é também espaço para uma fixidez performática através da qual o corpo funciona como agente passivo do que vê e sente. Por isso - e não pela recorrência do tranvestismo -, podemos radicar as suas propostas numa apropriação que parte do conceito 'Camp', defendido por Susan Sontag (Notes on Camp, 1964): "Camp is the glorification of 'character'. The statement is of no importance - except, of course, to the person who makes it". Mas aqui, esta noção parece ir ao encontro de uma estratégia de paródia queer, como defende o performer e investigador irlandês Moe Meyer citando a feminista canadiana Linda Hutcheon: "parody is an intertextual manipulation of multiple conventions, 'an extended repetition with critical difference' that 'has a hermeneutic function with both cultural and even ideological implications'" (The Politics and Poetics of Camp, 1994).

Miguel Bonneville aposta numa exposição do artifício teatral (o seu dispositivo anti-paródico) através da preparação da cena/espaço/performer. As cadeiras estão dispostas no espaço de forma aparentemente irregular, anulando uma ideia de assistência, mas promovendo o lugar priviligiado e individual de cada um dos espectadores, elemento essencial em todas as suas apresentações e agentes activos na construção do percurso artístico e biográfico do performer. A cena é instalada já com a presença dos espectadores nas cadeiras, o que pode significar que a partilha de espaço não resulta de uma acção conjunta ou num jogo de acção/reacção, mas num fazer/esperar. Força uma re-organização do corpo do espectador no espaço, sem que isso signifique envolvê-los numa proposta interactiva. Antes leva ao limite uma noção de 'estar' e 'ver', ao mesmo tempo que procura uma envolvência que recuse o anonimato inerente a uma audiência.

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O performer vai revelando o seu universo feito de precisões rigorosas e miliméticas. Os adereços colocados no chão (tapete, revista, t-shirt, arma, óculos, pano para os óculos) encontram a sua ordem através de uma manipulação cuidada e distante. Esse será o lugar de culto (a campa) para a figura que vai nascer e veste umas galochas, t-shirt branca de alças, boxers brancos, meias azuis, um tutu (que veio de Quem Sou), pinta os olhos com lápis preto e usa falsas pestanas longas. Este exercício de transformação é feito de costas para o público, mas de frente para um espelho. No banco coloca uma rosa, uma peruca, um texto, um microfone e um cinzeiro.

O que se segue é um conjunto de cenas que não são propriamente narrativas ou sequenciais, mas antes promovem uma ideia de puzzle ou sobreposição de camadas que tanto aproximam quanto afastam o espectador do verdadeiro Miguel Bonneville. A questão da verdade e mentira é naturalmente potenciada pelo facto de esta ser uma proposta que quer pensar o lugar do criador (deste criador) face a uma realidade de constantes formatações e encaixes. Existe a consciência de uma 'representação', sem que isso implique uma distância ou uma metamorfose. Antes se insiste num exercício de experimentação, em que o performer funciona como veículo para si mesmo. Quem Sou#2 não é tanto um exercício narcísico, mas mais uma aposta nos limites do narcisismo e nos efeitos secundários do mesmo. Daí podermos considerar que, depois de atravessar o espaço de patins a uma velocidade vertiginosa e cantando um libelo feminista ("Quem Sou" de Ágata), é no playback (feito num drag-queen visto através de uma tela reflectora) de "Child in time" dos Deep Purple que Miguel Bonneville toma consciência do longo caminho a percorrer: "Sweet child in time you'll see the line / The line that's drawn between the good and bad...."

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Por isso toda a estrutura desta performance parece indicar uma improvisação a partir do caos criativo (como é improvisação viver o dia a dia). Ou seja, uma plataforma para o desenvolvimento de um discurso que estando em construção (é essa a única dimensão auto-biográfica das propostas de Bonneville) é disruptivo, inconstante, ainda à procura e pleno de referências. No limite, as 'propostas Quem Sou' servem uma ideia de esvaziamento. E também um forçar da verdade. Resistirá o que for (quem for) mais verdadeiro. Uma verdade que reside também na capacidade de crença do espectador, não tanto no que isso representa de identificação com quem faz, mas antes em mais uma forma de pensar o que nos rodeia. Até porque a 'falta de chão' de que fala no texto inicial prende-se com uma consciencialização da pouca disponibilidade do espectador para propostas reflexivas e ausentes de mensagem. Aqui não importa tanto se o que se diz tem importância para os outros, mas mais se existe espaço para diferentes abordagens ao quotidiano. Mesmo o termo 'diferentes' parte de um preconceito de quem vê. Não são diferentes, mas antes 'próprias'.

Reconhece-se em Miguel Bonneville um universo referencial que não serve uma ideia de pastiche ou citação vã, mas antes um trabalho a partir do efeito dessa referência no corpo. Por isso impressiona que em Quem Sou#2 a dimensão corporal seja pouco explorada, ao contrário, por exemplo de Daddy Daddy (Eira 33, Março 2004) em que o corpo era violentamente atirado de uma displicência quase agreste para uma explosão epidérmica, ou Strip Me, Dress Me (Maus Hábitos, Outubro 2003) e Being a Girl (Lisboa, Outubro 2004), nos quais Bonneville era palco para transformações quase grotescas. Agora o corpo físico parece ausente quase como se não reconhecesse a proposta de descrição. E esse é um dos aspectos que urge desenvolver, não se falando aqui em virtuosismos inevitavelmente estéreis nem numa ocupação do espaço resultante de um espalhar da persona no mesmo, mas antes um trabalho quase ao nível do site-specific - 'o meu corpo como lugar de trabalho' -, uma vez que aparentemente tudo nasce da forma como o criador quer falar sobre si e o que o rodeia. Portanto, acrescentar uma nova dimensão (o presente) à ideia de biografia tão vincada no trabalho deste performer, e permitir aquilo de que fala Luís Miguel Nava: encontrar a liberdade na abertura do quotidiano..

Quem Sou#2
Criação, textos originais e interpretação Miguel Bonneville Tutu-fétiche concebido por Ana Direito Fotografias Sofia Arriscado
Espaço Eira 33
30 Abril 2005

Quem Sou#2 (strikes again) será apresentado na próxima 4ª feira, 16 de Junho, no Espaço Novas Tendências em Évora, no âmbito do 6º Festival Internacional de Dança Contemporânea.

Para mais informações:
Tlf: 21 353 09 31 / 91 255 51 00
m.lebon@sapo.pt


Outros espectáculos de Miguel Bonneville analisados neste blog:

Daddy Daddy (Março 2005)

3 comentários:

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