sexta-feira, julho 09, 2004

Os dias do fim

Sampaio decidiu aquilo que achou que era conveniente. Marcou o fim do seu mandato e a forma como vai ser olhado.

Com Ferro Rodrigues fora do PS, pode ser que a coisa naquele "saco de gatos" melhore a ponto de se transformar numa alternativa credível.

O consolo que possa ser o afastamento de Santana Lopes da presidência da república, não faz ninguém consciente e são augurar melhores dias para este Portugal.

Razão tinha o Jorge Palma: Ai Portugal, Portugal, de que é que estás à espera!



imagem copiada das renas que copiaram da visão.

O que aí vem

O presidente vai falar ao país às 21h15. Aceitam-se apostas.
...3
...2
...1





Diz-me o que pensas, tentarei disfarçar o que penso de ti

Os fóruns de opinião pública são coisas que, enfim, valem o que valem (para utilizar uma expressão tão comum). Nestes encontros a fazer as vezes de espaço aberto à intervenção tão facilmente podemos ter opiniões surpreendentes como verdadeiras pérolas.

O antigo punch-line deste blg dizia, precisamente, que dentro do coração de cada um nós vive um treinador de bancada, um político convicto e um sensaborão taberneiro.

Mas se para o público a coisa pode funcionar assim como uma versão pobrezinha da famosa tirada de Andy Warhol (os célebres 15 minutos de fama), para os apresentadores a coisa pode revelar-se bastante agreste.

A Sic Notícias tem um fórum destes de manhã e à tarde e enquanto as pessoas falam via telefone o realizador só pode optar entre o pivô e convidado ou o pivô e o convidado, às vezes uma pirueta com a câmara pelo cenário e outra vez o pivô e o convidado.

Se, às vezes, o convidado merece ouvi-las, o pivô não tem culpa nenhuma e tem que aguentar a coisa o mais possível. Ás vezes no limite do risível.

Deve ser isso que separa os homens dos ratos.

Vá lá homem, despache-se.

Então, dr. Sampaio, já está?

Se ela o diz...





You seem to be universally misunderstood and have a flare for trouble-making. You don't just break the rules, you throw them out the door. You have very little regard for other people's feelings, and look out for yourself above anyone else. You have an amazing amount of ambition, so you can get very far in life if you send it in the right direction.

Pede tu também a luz à Santa.

Wich Madonna video are you cortesy of Renas e Veados.

Morrer em silêncio

A morte de Henrique Mendes deve fazer-nos obrigar a ler a história sob pontos de vista nem sempre agradáveis. Há toda uma memória que Henrique Mendes leva consigo e que representa o período conturbado do pó-25 de Abril em que centenas de pessoas foram saneadas, humilhadas ou preteridas por causa das suas posições durante a ditadura.

Conforme disse Baptista-Bastos, Henrique Mendes não era responsável pelo que lia nos noticiários da RTP e, ainda assim, foi saneado da estação pública. Nunca lhe pediram desculpas, se estas valem de alguma coisa e nunca o indeminizaram (200 contos que, dizem, não tinham nos cofres).

A história do nosso país faz-se também do que foi escondido e fica por saber. Se Henrique Mendes morreu em contar o que de facto se passou (como fizeram muitos e fazem-no ainda) isso só revela mais respeito por si do que por quem agiu "a quente".

O país suspenso

Sampaio pode (atente-se na palavra "pode" que não quer dizer que "vai") decidir hoje o que fazer à vidinha. Esperemos que não fique com a voz embargada.

O exemplo que vem do mar

Ao passo que o PSD acha que Portugal deveria ser uma imensa Madeira (é o link que há, sorry), o PS quer, pela voz de Medeiros Ferreira, (link não encontrado) seguir o exemplo dos Açores para o resto do país.

Deve ser para compensar as vezes que se esquecem que também há Portugal no meio do oceano.

quinta-feira, julho 08, 2004

La brisa de la vida

Seguindo o conselho do Joaquim, hoje e amanhã às 21h00, no Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa, no âmbito do Festival de Teatro de Almada e a peços ordinariamente baixos:

La Brisa de la Vida
de David Hare
Encenação Lluis Pascal

O dia que há-de vir

Às notícias que, ontem, davam conta de que um novo governo PS iria dar mais atenção à cultura, fazem-me temer um cenário de eleições antecipadas. Toda a gente sabe o que aconteceu à educação, a excelsa paixão do engenheiro Guterres.

O que será a cultura vista por Ferro Rodrigues?

quarta-feira, julho 07, 2004

Ponto de fuga

Aquando da naturalização portuguesa do Deco, até o Presidente da República se meteu ao barulho. E tudo porque seria uma vantagem para Portugal, blá, blá, blá...(gostava de saber quem é que afirma estas coisas e decide o que é e o que não é uma vantagem para Portugal). Viu-se. Foi-se embora e sem dizer adeus.

Será que agora vai pedir para ser espanhol?

A emenda e o soneto

Vieram os jornais hoje anunciar que o Bloco de Esquerda se disponibilizaria para garantir uma maioria de esquerda no Parlamento, não pretendendo, no entanto, obter com isso pastas no governo. Ou seja, faria uma aliança pós-eleitoral, coisa que, recorde-se, fazem por questionar acerca da mesma que se forjou entre o PSD e o CDS-PP e na qual, dizem, não ver legitimidade.

Se isto não é incoerência, vou ali e já venho.

terça-feira, julho 06, 2004

Algumas notas à Câmara Municipal de Lisboa

Caríssima Câmara Municipal de Lisboa:

Não faz sentido algum colocar uma faixa na varanda dos paços de município dizendo "Lisboa está feliz com Portugal" porque:

1) Lisboa faz parte de Portugal e não pode estar feliz com o país como se fosse uma entidade autónoma;

2) Quanto muito deveriam escrever: "Lisboa está feliz com a Selecção Nacional de Futebol" ou, pensando eu que Lisboa está feliz com os bons resultados do Euro 2004, deveriam escrever "Lisboa está feliz por ser Portugal;

3) Não se pode estar "feliz com Portugal" porque Portugal não é uma coisa abstracta e não é o resultado de um jogo. Portugal existe para além disso e não vejo grandes motivos de orgulho para essa felicidade. Menos ainda as vejo na cidade de Lisboa

4)Prendam a faixa à varanda toda, já que correm o risco de nem sequer fazerem passar a mensagem absurda.

Uma falsa ilusão

Acreditar que Marcelo Rebelo de sousa é uma boa solução - ou sequer uma solução - para a crise instalada é não perceber que, a aprtir do momento em que aceitasse o cargo deixaria de ser visto como alguém que influencia e explica. Automaticamente, as difíceis soluções que o governo de um país precisa seriam vistas como uma traição a anos e anos de "aulas de boa política" que lança do seu altar domingueiro.

Ninguém no seu perfeito juízo, incluindo Marcelo, ignora que mais vale neste caso, parecê-lo que sê-lo.

Estado vegetativo

O facto de Sampaio ir marcar eleições antecipadas, ou aceitar a proposta do PSD é, neste momento indiferente para os destinos do país. Qualquer situação implicará sempre um retrocesso nos já de si lentos avanços da sociedade portuguesa. Mudanças de ministros, novos ministérios, outros estilos e renovadas esperanças não auguram nada de bom para quem tem processos pendentes, apoios a acordar, situações-limite et autres.

O que para Durão Barroso foi um convite prestigiante, é, para Portugal, uma nova amarra ao pântano lamacento em que se vive. Qualquer solução, neste momento, é sempre uma bomba atómica. Os estilhaços virão de todas as partes e para todos.

É em momentos como estes que eu me sinto envergonhado por afirmar que acredito nas instituições.

segunda-feira, julho 05, 2004

Serenidade

Foi com surpresa e alguma satisfação que hoje vi passar dois rapazes abraçados nos corredores da Faculdade de Letras. E não o faziam por exibicionismo. Antes, por amor.

Isso é ter orgulho gay.

EURO FOREVER!!!!

A principal desvantagem do fim do Euro prende-se com o regresso das notícias comezinhas do futebol nacional. Por causa disso quae que me apetece gritar: EURO FOREVER!!!!

A lei dos amantes (32)

Oferecido a partir da Argentina, este lamento, nestes dias de nevoeiro:


Dicen que viajando
se fortalece el corazσn
pues andar nuevos caminos
te hace olvidar el anterior.
Ojalα que esto pronto suceda
asν podrα descansar mi pena
hasta la prσxima vez.

Y asν encuentras una palorma herida
que te cuenta su poesνa
de haber amado y quebrantado otra ilusiσn
Seguro que al rato estarα volando
inventando otra esperanza
para volver a vivir.

Creo que nadie
puede dar una respuesta
ni decir quι puerta hay que tocar.
Creo que a pesar de tanta melancolνa
tanta pena y tanta herida
sσlo se trata de vivir.

En mi almanaque hay una fecha vacνa
es la del dνa que dijiste
que tenνas que partir.
Debes andar por nuevos caminos
para descansar la pena
hasta la prσxima vez
Serguro que al rato
estarαs amando
inventando otra esperanza
para volver a vivir.

Dicen que viajando
se fortalece el corazσn
pues andar nuevos caminos
te hace olvidar el anterior
Ojalα que esto pronto suceda
asν podrα descansar mi pena
hasta la prσxima vez.
Seguro que al rato
estarι amando
inventando otra esperanza
para volver a vivir.

Sσlo se trata de vivir
Litto Nebbia.

típico português resignado,uma ova



De Marte à Lua (1969)
Maria Helena Vieira da Silva

A lei dos amantes (31)

O desconhecido e o imprevisível, que tornam qualquer relação um barril a fazer crer que é fascinante, acabam, inevitavelmente, por nos rebentar nas mãos. O tempo de apanhar os cacos e voltar a montá-los, esse sim, é o tempo em que regressamos à nossa condição de sobreviventes. Os outros tempos são sempre facas no pescoço.

A lei dos amantes (30)

O amor, por mais voltas que dê, acaba sempre por ir bater a uma parede. São poucos os que, sabendo da sua existência, não se forçam contra ela. São menos ainda os que a conseguem ultrapassar. De cabeça partida, uma noite a seguir à outra. Esta noite. Outra vez.

domingo, julho 04, 2004

e de repente, o nada

e de repente, o nada; o vazio; o silêncio. talvez portugal precisasse de uma vitória, um estímulo qalquer que o afugentasse da realidade, nem que por momentos fosse. talvez, todos os que não percebiam o fenómeno e viam o futebol - leia-se, a máquina -, com desdém (eu incluído) se apercebam agora de que nada vale mais a pequena que fingir que tudo está bem qando acaba bem. sabe a quê uma vitória na honra, no civismo, na qualidade, se não há um "caneco" para mostrar?

Copo meio vazio ou copo meio cheio?

o fim da festa

é sempre assim, acaba a festa, vai-se embora a constança, ficam os do costume na vida rotineira.

amanhã no sítio do costume então. e nada de grandes optimismos que os tempos estão difíceis.

lá vai uma, lá vão duas...

olha uma bandeira a ser retirada. olha outra. e mais uma. e mais outra ali...

retiram as bandeiras, ficam as varandas fechadas com vidros escurecidos e caixilhos de alumínio.

no segredo dos deuses (eles sabiam-na toda)



cumprimentem lá os pais do mundo e não se enfiem na caverna.

ressaca

estou para ver se amanhã vão dizer que não podem trabalhar porque estão deprimidos...

Dr. Barroso, aproveite agora para se demitir que ninguém está a ver e quando a cara já está dorida mais bofetada, menos bofetada ninguém nota.

as notícias que interessam

impressionante. já passaram mais de dez minutos desde que a selecção nacional perdeu face aos deuses gregos e a sic, como 5 canais, ainda não deu a notícia. Para que serve a Sic Notícias afinal?

portugal 0 - grécia 1

está uma noite calma e as cidades depressa vão adormecer. amanhã portugal irá regressar a casa, abençoado pelos deuses.

sábado, julho 03, 2004

Postais ilustrados do Porto (V)



Os frequentadores do Cabaret Voltaire(1983), Albuquerque Mendes
Col. Galeria Carlos Sousa











O cume do mundo

As vinhas da Ilha do Pico, nos Açores, são, agora, Património Mundial da Unesco. Bem como a cidade portuguesa de Mazagão, em Marrocos.





Istto deveria encher-nos de mais orgulho que um jogo de futebol.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)


desenho de Arpad Szenes

Ia e vinha
e a cada coisa perguntava
que nome tinha

(Coral, 1950)

sexta-feira, julho 02, 2004

Brando, Marlon (1924-2004)



Morreu Deus. Viva Deus!

Postais ilustrados do Porto (IV)



Ponte de D. Maria Pia (1877), Gustavo Eiffel




Os dados estão lançados

«Mudou o líder mas a política será a mesma. Com novo estilo, com novo impulso, com a minha maneira de estar e com a minha maneira de ser», sublinhou Pedro Santana Lopes na primeira declaração como presidente do PSD. (in TSF)

Seja o que Deus quiser!

quinta-feira, julho 01, 2004

Do outro lado da fronteira acreditam que há esperança

Chega-me por e-mail, uma opinião espanhola, da autoria de Jesús Cacho e a ser lida na íntegra aqui, que vê Portugal com bons olhos. Começa assim:

Muchos españoles están descubriendo estos días, aparentemente sorprendidos, la existencia en la casa de al lado de un vecino llamado Portugal, un vecino bastante más pobre que nosotros pero capaz de organizar una evento tan importante como un Campeonato de Europa de fútbol, de construir una serie de estadios, todos magníficos, de ganar a la millonaria selección española, e incluso de colocar como presidente de la Comisión Europea a uno de sus políticos, José Manuel Durao Barroso.

Ese país, cuya selección jugó y ganó ayer la primera semifinal de dicho campeonato contra Holanda, lo cual ya es de por sí un triunfo, sigue siendo un gran desconocido para España y los españoles. ¿Por qué? Porque los españoles, con la inveterada suficiencia de quien se cree superior, se han negado siempre a entender –en realidad ni siquiera lo han intentado- a Portugal y los portugueses.


E nós a acharmos que já não havia esperança.

Para o menino e para a menina

Dois filmes em cartaz, cada um a criar desejos diferentes. Ambos, objecto de luxúria privada (tudo por causa de quem neles entra, mesmo que os filmes sejam maus):

1) Minha mãe
com Isabelle Huppert e Louis Garrel


"Pierre, um adolescente de 17 anos, tem um amor cego pela mãe, mas ela não está disposta a assumir o que o filho projecta dela. Recusando ser amada por aquilo que não é, ela decide quebrar o mistério e revelar a sua verdadeira natureza - a de uma mulher para quem a imoralidade se tornou um vício. Pierre pede para ser iniciado por ela no deboche e deixa-se levar até ao limite em jogos cada vez mais perigosos..."

2) Homicídios Ocultos (Twisted)
com Ashley Judd



"Uma mulher-polícia (Ashley Judd), cujo pai era um assassino, anda a ser perseguida por alguém que vai matando os homens que foram seus amantes. A certa altura, inevitavelmente, torna-se a principal suspeita. O seu mentor profissional (Samuel L. Jackson) e o seu novo companheiro (Andy Garcia) não sabem como lidar com a situação..." (in www.cinema2000.pt)

Eu vou a ambos (os dois)


Mais um que não vêm

Bowie cancela actuação no Porto

David Bowie cancelou todos os concertos da presente digressão europeia, em que estava incluída uma passagem pelo Festival do Dragão, no Porto, dia 17 deste mês. Os motivos que conduziram ao cancelamento da RealityTour devem-se exclusivamente a motivos de saúde do músico. Segundo informação apresentada no seu site oficial, a Bowienet, o enorme desconforto físico de que o músico padece devem-se às contínuas dores causadas por um nervo nas costas (que tinham já forçado Bowie a encurtar um recente concerto em Praga, tendo inclusivamente sido hospitalizado). Ainda segundo a Bowienet, o artista terá, relutantemente, seguido o conselho dos médicos, vendo-se assim forçado a cancelar 11 concertos, todos eles em festivais.

E disse ele que não se ia meter

Mota Amaral envia hoje uma mensagem ao Conselho Nacional do PSD em que expressa o seu apoio a Pedro Santana Lopes para a presidência do PSD e para o cargo de primeiro-ministro, uma vez que se encontra numa deslocação a Haia como presidente da Assembleia da República.

Postais Ilustrados do Porto (III)


Pintura de modelo feminino (1962), Júlio Resende
Faculdade de Belas Artes do Porto

Os dias do fim

Passámos a outra fase: a da bizarria.

A selecção principal de futebol (é importante não esquecer que é só a selecção principal de futebol) passou à fase final do Campeonato Europeu de Futebol.

A baixa do Porto estava entregue à bicharada, como se tivessemos todos sido abandonados à sorte e o país transformado numa anarquia. Surpreendentemente a cidade do futebol estava vazia nos seus sítios emblemáticos. Os portuenses resistiam na ribeira, a fazer as vezes de campo de concentração de festas. No resto da cidade as pessoas começavam a queixar-se que para tanta festa começava a faltar o engenho, a arte, o dinheiro, a força e o prazer.

quarta-feira, junho 30, 2004

Audição de um actor policromático

Análise ao espectáculo ACTOR de Rogério Nuno Costa

[ACTOR é apresentado nos dias 16 e 17 Julho na Casa de Teatro de Sintra.]




O espantoso actor que tira e coloca e retira o adjectivo da coisa, a subtileza da forma, e precipita a verdade. De um lado extrai a maçã com a sua divagação de maçã.
Herberto Helder



Quando Rogério Nuno Costa (RNC) entra na Black Box do Centro Cultural de Belém, os espectadores já tiveram a oportunidade de apreender o que se irá passar. No momento em que entraram no foyer do espaço de apresentação, foi-lhes entregue um guião (a 26ª versão deste) em que o criador dá conta das sequências que compõe o espectáculo, indicando a sua duração e propondo interpretações para essas mesmas sequências. Será, por isso, um espectáculo já visto, aquele que os espectadores irão ver? Contudo, e mesmo que se opte por fazer acompanhar o que se vai passando no palco com a leitura do guião, o que o criador nos apresenta está longe de poder ser imaginado. Ou seja, obriga-se a uma reflexão sobre o que é a teoria do/para o actor.

Partindo do modelo stanislavskiano, em edição francesa de poche, La formation de l' acteur, RNC apresenta-nos um índice dessa mesma teoria, testando-a no corpo de um indivíduo. Entende-se, aqui, indivíduo, como pessoa anónima. Há, nesta proposta, uma tentativa de demonstração de que a anulação do actor em função da personagem é, à partida, um erro pois permitiria encarar todas as pessoas como actores. E, para além disso, fazer acreditar que esse é o caminho para se atingir a personagem. O que RNC prova é que, exactamente, esse caminho leva a um revelar não da personagem ou do actor, mas da pessoa atrás da personagem ou do actor. Nesse sentido, afasta-se do conceito de actor "do método" e abraça a ideia de Laurence Olivier de que um actor não tem que pensar, tem que fazer.

Todo o espectáculo está construído como se de uma dissertação de tese se tratasse, desde logo com a apresentação dos pressupostos e fontes (através do guião) e ainda com o texto programático apresentado nos flyers e folha de sala ("de cada vez que me perguntam 'o que fazes', respondo logo 'sou actor'. Passados cinco anos, a crise existencial: um actor é uma pessoa que actua. Um bailarino, porque actua, é sempre um actor (...)Eu gostava muito de ser um bailarino que representa sem ter passado pela Lee Strasberg. Como não sou, sou um actor triste. E este é um espectáculo triste.") - poderia ainda invocar-se a tentação de se colocar um sinal de pontuação (qualquer um) a seguir ao título, dando assim conta das diversas interpretações possíveis (Actor?; Actor!; Actor...; Actor.; "Actor"; ...) -, mas mais do que isso, Actor transforma-se numa espécie de audição. No final, o público é convidado a classificar o que assistiu, que, ironicamente, está identificado como espectáculo de dança (seja por imposição do co-produtor CCB - que inscreveu o espectáculo entre os Bailados de Margarida Abreu e o Festival Lugar à Dança -, ou porque, efectivamente o próprio método de Stanislavski apela mais à procura no corpo do intérprete as razões de ser da personagem, logo, torna o actor num "corpo que dança"). No caso da apresentação no CCB, no passado dia 26 de Junho, ACTOR foi classificado como sendo um espectáculo de "dança portuguesa com fortes raízes étnicas" (conforme as classificações propostas pelo guião). Eu, preferencialmente, optava por um espectáculo de "dança ao domicílio", já que o universo convocado é, antes do mais, íntimo, cerebral e hermético. Não é, por isso, possível determinar se o "júri" aceitou passar RNC nesta sua dissertação. As fórmulas e os conceitos estão de tal forma revolvidos que "primeiro estranha-se e depois entranha-se". Até poder ter espaço para dialogar, ACTOR permanece no limbo das criações gesamkunstwerk (o conceito de arte total wagneriano).

É nesse sentido que a segunda parte do título desta análise "de um actor policromático" toma forma. Ao longo do espectáculo, RNC vai acumulando camadas - ou níveis - susceptíveis de cumprirem os preceitos de Stanislavski. Os exercícios de respiração, concentração, imaginação, reacção/contra-reacção ou alienação que são propostos pelo teórico russo, de forma a atingirem o "actor completo", são analisados isolada e individualmente, antes de fazerem um conjunto. Esse conjunto só surge perante o espectador quando RNC provoca o corte e se apresenta como o resultado não de um processo performático, mas antes como um produto cultural e ideologicamente enraizado nas suas origens. O "boneco" a que chega - uma figura minhota e matrona - não é mais do que a camada primária - genética, se quisermos -, do autor que procurou um método para chegar a um estád(i)o superior. Ou seja, não é Freud - ou John Locke num certo sentido mais radical -, que são convocados, mas Henri Bergson, na sua teoria de separação espaço-tempo/material-imaterial.

Ao contrário do que acontecia em Saudades do tempo em que se dizia texto, RNC não procura metaforizar sobre uma memória que só é a sua por imposição cultural, mas antes dar lugar a um processo de evolução interno. O actor dá lugar à pessoa, da mesma forma que a larva dá lugar à borboleta (utiliza-se esta expressão não no sentido de contrariar a frase que RNC usa, durante um vídeo do espectáculo, para se identificar "I'm not a queer performer", mas no seu sentido biológico). O monocromatismo que daria aos actores o mesmo tipo de reacções, dá lugar ao policromatismo individual, ou seja, dos que usam o método não como fim mas como ponto de partida.

O que é interessante verificar no trabalho de RNC (naquilo que é possível ler através dos seus códigos pouco claros e nada decifráveis - ainda que o criador insista que tudo aquilo que apresenta é aquilo que quer apresentar, sem lugar a metaforizações, a verdade é que não joga/aposta no aleatório, no casual ou inocente, mas antes apropria-se desse quotidiano para o filtrar; o ponto de partida pode ser a sua visão do mundo, mas o que é dado a ver, e às primeiras leituras, é uma adaptação desse mundo à sua teoria), é o constante salto entre objecto e definição, misturando Magritte com os naturalistas. Ceci n'est pas un acteur, portanto. RNC é mais um agent provocateur do que um radical activista que insiste numa teoria. ACTOR é, nesse sentido, um espectáculo de tese, em que são convocados os elementos que permitiram delinear/apresentar essa mesma tese, mas, não a levando até ao fim, obriga o leitor/espectador a questionar o seu propósito, ainda que este não exista para o criador (ou este ainda não o saiba identificar).

No plano estritamente formal, ACTOR é o espectáculo mais bem estruturado de RNC e em que este soube equilibrar o facilitismo em que às vezes cai (ainda que o revista de uma "urgência performática") com a necessidade de finalizar aquilo a que se propôs, mesmo que essa finalização seja um espectáculo em aberto. Nunca, no entanto, isso foi tão assumido. Parte desta inovação deve-se ao facto de RNC ter contado com a colaboração de terceiros em tarefas que, normalmente, assumia. O self made man torna-se, assim, e de certa forma, mais altruísta, permitindo uma segunda anulação do conceito de Stanislavski. Prova-se que um actor sozinho é capaz de muito pouco, mesmo que seja a força motora de um espectáculo. De destacar, por isso, a depuração de cada uma das intervenções (vídeo, Rui Ribeiro; espaço, F. Ribeiro; desenho de luz, José Álvaro; desenho de som, Carlos Morgado, figurinos, Tânia Franco; e a colaboração, no que isso significa de rigor, contenção e inteligência de Marina Nabais no movimento) e a conjugação desses elementos numa organização (também cromática) de um todo que se quer questionado/questionável.

Importa, e para finalizar, dar conta de que o método utilizado por RNC para questionar a arte, o espectáculo, as intervenções culturais vive num limiar arriscado e que facilmente, atendendo ao contexto cultural em que se vive, se pode virar contra si. A margem que o criador reserva para uma preservação é mínima e aposta numa reformulação a cada proposta apresentada. Seria, por isso, talvez mais fácil caracterizar RNC como um "actor híbrido", mas a verdade é que nestas suas fórmulas/propostas/provocações há um constante desejo de exposição (que não é íntima nem permite voyeurismos - novamente a encenação do aleatório e do quotidiano) que, no mínimo, deveria fazer pensar os que ainda precisam de identificações/rótulos/definições para os objectos artísticos. E contra mim falo.

Outros espectáculos de Rogério Nuno Costa analisados neste blog:

Pictures at an Exhibition
Saudades do tempo em que se dizia texto
Vou a tua casa
God Knows What!

Porto. Nevoeiro.

Esta coisa do Porto adormecer e acordar imerso em nevoeiro tem qualquer de Shakesperiano. Ou é do tempo ou é de mim, mas sinto os corvos a grasnar cada vez mais perto.

Uns mais que os outros

O Hélio conta-nos no seu blog Solidão como foi atacado na sua integridade moral e questionado acerca acerca do seu comportamento sexual, nos Jardins da Gulbenkian, em Lisboa.

Se é verdade que a Constituição Portuguesa (Artigo 13º) define a não discriminação pela orientação sexual - curiosamente nenhum site com a Constituição inscrita já fez por alterar o referido artigo -, a verdade é que a realidade é bem outra. E se, como diz o indescritível Bosse (não confundir com o Boss, onde li a notícia pela 1ª vez) acha que um dia chegará em que as coisas se irão alterar, parece-me que há que forçar as coisas, sim. Se se pode esncontra um casal hetero literal e fisicamente a comerem-se na praça pública, ante a erecção dos transeuntes, porque não poderá suceder o mesmo aos pares gays?

É por estas e por outras que alguns se vão embora do país.

A lei dos amantes (29)

I'd rather dance with you than talk with you
so why don't we just move into the other room
there's space for us to shake, and hey, I like this tune

even if I could hear what you said
I doubt my reply would be interesting for you to hear
because I haven't read a single book all year
and the only film I saw, I didn't like it at all

I'd rather dance than talk with you

the music's too loud and the noise from the crowd
increases the chance of misinterpretation
so let your hips do the talking
I'll make you laugh by acting like the guy who sings
and you'll make me smile by really getting into the swing

I'd rather dance than talk with you


I'd rather dance with you (than talk to you)
Kings of Convenience

Postais ilustrados do Porto (II)



Auto-Retrato (c. 1900), Aurélia de Sousa
Museu Nacional de Soares dos Reis

Da manifestação, ontem, no Porto

Não se sabe se o Garrett disposto em estátua em frente à Câmara Municipal do Porto contou o número de manifestantes presentes ontem às 19h. Eram tão poucos afinal. Quando me fui embora, deviam faltar uns minutos para as 20h00, deveriam estar no local 200 pessoas, a trocarem impressões mas menos entusiasmadas com o propósito da reunião. De facto, muitas delas vieram para a rua continuar as reuniões que estavam a ter nos seus locais de trabalho. Vi lá o Rui Sá, vereador comunista, saído directamente pela porta principal da CMP e vi artistas, fotógrafos, pintores e alguns outros, menos habituados a manifestações. Conforme se viu pelas imagens da SIC, deixei-me ficar sentado a observar o que me rodeava. E era pouco. Era preciso mais. Aposto que amanhã ninguém se vai lembrar de levar cartazes a exigir eleições antecipadas. Mas aposto que as ruas vão estar cheias. Diz-se que cada um tem o país que merece. Aos portugueses esqueceram-se de entregar um. Depois queixem-se.

A dada altura, confesso, estava mais interessado em saber se percebia quem era o Boss.

terça-feira, junho 29, 2004

O êxodo (em directo das fronteiras portuguesas)

Atirado que foi o país aos ratos, os portugueses começaram a debandada geral. Não sabem para onde vão, só sabem que não ficam aqui.

Postais Ilustrados do Porto (I)



O Desterrado (1871), Soares dos Reis
Museu Nacional de Soares dos Reis

domingo, junho 27, 2004

O dia depois de amanhã

Enquanto o irritante e bajulador Luís Delgado insiste na teoria do total cumprimento das etapas necessárias para a sucessão do seu cu-lambido Santana Lopes, o ainda primeiro ministro não se dignou sequer a dizer ao país o que fosse. Com que legitimidade é que foi à cimeira da NATO representar Portugal?

Por afazeres que me impedem de estar em Lisboa a partir de amanhã, não pude ir à manifestação marcada hoje às 19h em Belém. Continuarei o protesto de outras formas.

Este blog seguirá conforme os ares do Porto me deixarem.

sábado, junho 26, 2004

Intriga palaciana VI

Este pequeno golpe de estado interno e de veludo, deveria fazer parar o país e pô-lo a pensar sobre a sua classe política, sobre as responsabilidades de cada uma das partes e reclamar a legitimação dos direitos e deveres de cada um. Quando acordarmos - após o Euro terminar - já estará tudo consumado.

Em última hipótese, Durão Barroso poderia recusar e até dizer que "em nome da estabilidade do país" que havia decidido ficar. Perdoava-lhe a pequenina sobranceria. Mas jamais lhe perdoarei o desplante de se ir embora. Mesmo que seja pelo prestígio de Portugal. O prestígio não resolve todos os problemas.

Como última nota, corre a informação de que se está a preparar uma manifestação de repúdio pela ideia de Santana Lopes como primeiro ministro, para amanhã às 19h nos jardins de Belém. Repete-se: Amanhã, às 19h, manifestação contra Santa Lopes para primeiro ministro.

O homem que sabia que ia ser primeiro ministro, só não sabia era quando, poderá ser, agora, solicitado para ficar. Irónica a vida, não é? E nós a vê-la passar.

Intriga palaciana V

Se a remodelação deste governo era coisa inevitável, com a subida ao poder de Santana Lopes, não se trataria de uma remodelação, mas antes da formação de um novo governo. Se para alguns isso é desejável, para outros significa um retrocesso num percurso que, disseram-nos, serviria para a criação de melhores condições de vida.

Já para não falar da legitimidade em se pedir contas a alguém que não foi eleito. Os analistas reafirmam a ideia de que os portugueses não votam em nomes, mas em partidos, quando o fazem para as legislativas. Mas, os analistas sabem que quem dá a cara pelo programa de governo é quem será indigitado. Eu votei no PSD porque sabia que era Durão Barroso a ser eleito (um mal menor quando comparado com o cinzentismo do PS, colado a uma imagem de desistência). Não o faria se fosse outro candidato. Não o faria, certamente, se fosse Santana Lopes. Que dizer a esses portugueses, então?

Os títulos de jornais tem sido evidenciadores da intriga palaciana instalada em Portugal. Os termos "entregar", "dar", "oferecer" o governo a Santana Lopes permite ler que o governo de um país é algo que se pode deixar sem grandes consequências. Durão Barroso pode estar certo que irá pagar caro se optar pela Comissão Europeia. Ele, o PSD e, claro, os portugueses.

Do lado do PS ainda não foi revolvida a terra do pior guterrismo e isso não augura um bom futuro, caso este partido vencesse as eleições agora. Durão, deve, por isso, uma explicação ao país e deve assumir se está ou não tentado a aceitar o cargo. Deve isso a quem o elegeu. Deve isso a todos os portugueses que se sacrificaram estes dois anos (é certo que se sacrificaram agora, depois de um despesismo absurdo).

Intriga palaciana IV

Parece-me que a solução não passa pela convocação de eleições antecipadas. Pelo menos para já. A constituição não o permite e o processo é moroso. Com os tempos que se atravessam Portugal não poderia mergulhar num limbo. Para os que têm memória curta, os tempos de transição PS / PSD/CDS-PP foram penosos, burocráticos e inseguros. Assim, a apontar-se Janeiro de 2005 como uma data eventual para a marcação de eleições, o governo - porque se trata do governo e não do partido - deveria designar alguém que subsitituísse interinamente o dissidente Barroso e levasse o país a novas eleições.

Nesse sentido, só se perfila uma pessoa: Manuela Ferreira Leite. Com todos os ataques possíveis, é a única, dentro do governo que o pode fazer. Paulo Portas, por ser a parte minoritária, não pode sê-lo. Os outros ministros são inexistentes. A actual ministra das Finanças é o único nome valoroso e o único que a Europa respeita. Porque essa é, também, uma questão a ter em conta. Nenhum país se dá ao respeito com legislaturas tão pequenas. Os tempos de Manuela Ferreira Leite seriam de contestação, mas, pelo menos, evitar-se-ia, o espectáculo virtuoso das outras hipóteses. Mulher rigorosa mas credível e na qual os portugueses vêem um exemplo de sentido de Estado. Os conselhos certos e os acessores indicados é o que lhe faz falta.

Pedro Santana Lopes é uma péssima escolha. Lisboa, como exemplo do que ele poderia fazer pelo país, é uma cidade que, neste momento, vive da imagem. Os problemas aumentam, os pareceres acumulam-se, os processos não se desenvolvem. A câmara vive de ondas de entusiasmo, alimentadas por eventos cuja efeito na cidade ainda estão por apurar. Neste momento, a desorientação na Câmara Municipal é tanta, que se torna mais fácil ignorá-la do que pretender a sua colaboração.

Não obstante o sucesso que Pedro Santana Lopes possa ter dentro do PSD - e até mesmo como "o desejado" para o CDS/PP -, falta-lhe, como definia José Manuel Fernandes, hoje no PÙBLICO, sentido de Estado, eficácia, responsabilidade e certezas. É um homem de discurso fácil, vistas curtas e imediato. O futuro, com ele, seria trágico. Neste momento, o mal menor era que ficasse na Câmara até ao fim. Curiosamente, se as coisas forem mesmo assim e Santana for o próximo primeiro-ministro, perde a possibilidade de se candidatar a Presidente da República. Para já. O que, apesar de tudo, é um alívio.

Outra hipótese seria Marques Mendes ou Dias Loureiro, mas nem um nem outro recolhem forças dentro do partido, ou aguentariam a pressão interna de Santana e Portas.

Intriga palaciana III

Sendo que esta questão está a ser discutida em pleno país eufórico pelo futebol - o que só contribui para o alheamento -, tudo é permitido e sem consulta popular. Ao país será apresentada a solução, já devidamente trabalhada e discutida. E, muito provavelmente, sem recurso.

A hipótese de eleições antecipadas, descartada por muitos - em certos aspectos até por mim -, é, no entanto, o seguro de vida de muitos. Do PS será com certeza, cujo líder sai legitimado. Com o seu congresso marcado para Novembro, nunca o PS iria apresentar outro candidato que não Ferro Rodrigues, o que calaria toda a oposição interna. Era o "renascer das cinzas" que tanto pediu (a solução, a meu ver, passava, obviamente, pelo regresso de António Vitorino e pela sua apresentação como candidato). O PS, como dizem os analistas, está, por isso, numa situação delicada. Se, por um lado, vê com bons olhos a eleição de um português para o mais importante cargo europeu, nunca poderia apoiar a eleição do primeiro ministro que consideram incompetente para o país. E, pensando bem, nem sequer os portugueses o podem fazer, atendendo ao resultado das eleições europeias. Recusarem dar a vitória à coligação PSD/CDS-PP é dizerem que não confiam nas suas propostas para a Europa. Nas propostas do governmo que nos rege.

Para o PSD a hipótese de eleições antecipadas também não é bem vinda. Sabendo que perderiam - acumulada a descrença na coligação (mais o descontentamento pela existência da mesma - não foi numa coligação que se votou), o desaire nas europeias, o abandono de Durão (porque, bem vistas as coisas, é sempre um abandono) e a falta de tempo -, teriam que virar para o CDS-PP, que veria, assim, reforçada a sua posição dentro do ciclo de poder. A restante esquerda pouco interessa, já que a queda dos governos é-lhes indiferente, solicitanso-a sejam uns ou outros.

Assim, ao Presidente da República restam três hipóteses: 1) em nome do país, recomendar a Durão que não vá; 2) aceitar, sem reservas, um novo nome proposto pela maioria governativa; 3) assumir, como já aconteceu anteriormente, o resto do mandato e tornar o governo de iniciativa presidencial.

Intriga palaciana II

O problema interno que a Comissão Europeia criou - e, por inerência Durão Barroso silencia e pactua -, não é, por isso de fácil resolução. Se, por um lado o ainda primeiro ministro deveria pugnar pela coerência e afirmar que o seu candidato era António Vitorino - note-se que a primeira vez que se ouviu falar do suposto interesse em Durão Barroso, este dava uma conferência de imprensa a reafirmar o seu apoio ao candidato socialista (sabendo já das negociações debaixo da mesa) -, por outro, e em nome do compromisso que assumiu em Portugal e com os portugueses, devia rejeitá-lo, como fez de forma veemente o primeiro ministro luxemburguês. Se não o fez é porque ambiciona o cargo. Como não o desejar, de facto, para um homem que teve na poliíca externa o seu maior trunfo?

Derrotado nas eleições que levaram à renovação da força do PPE, Durão Barroso tem, assim, uma oportunidade para relançar a sua imagem de líder de sorte e sobrevivente. Sai, assim, pela mó de cima, como se costuma dizer, e deixando um país envolto em problemas. Sai como Guterres não conseguiu sair, e iso é o que ele mais teme. Se as eleições fosse agora - e nunca esta frase fez tanto sentido - o PSD perdia e o PS regressava ao poder.

Não há soluções fáceis e os jogos são tensos. Os eleitores do PSD - e os outros que votaram neste partido, mesmo não sendo seus apoiantes, como eu - pretendiam contribuir para que Portugal saísse do pântano em que os socialistas nos estavam a afundar. Foram dois anos de contenção, aperto e sacrifício. Vai-se embora, então, o homem que nos fez confiar nesta estratégia? E em nome de quê? Não em nome de Portugal com certeza.

Intriga palaciana I

Há uma cantilena infantil que diz qualquer coisa assim: "Em cima do piano está um copo com veneneo, quem bebeu morreu". Se quisermos aplicar esta cantilena ao actual quadro político português, só resta saber quem esticará a mão primeiro e cairá, tombado, no chão.

Se a questão de Durão Barroso ir para Presidente da Comissão Europeia é prestigiante para o país, ou não, tenho certas dúvidas. É, com toda a certeza, prestigiante para ele. O país dificilmente ganhará alguma coisa com isso, já que continua arredado das grandes questões mundiais e quando aparece, como diziam os jornais ingleses, é para "organizar o catering". Dificilmente, ainda, se acredita que a posição de Durão Barroso possa vir a beneficiar o país directamente, já que mais facilmente, conforme se viu pelo passado recente, Durão Barroso se alia aos Estados Unidos que apela ao reforço da união na Europa (está para se ver como é que Bush vai aproveitar esta embrulhada a seu favor na campanha de re-eleição).

Outra questão que me choca tem a ver com a irresponsabilidade da Comissão Europeia que, à laia de pretender exercer a força do seu maior partido - no momento - se dispõe a brincar com a política interna de um país, cuja economia é frágil, os recursos mal aproveitados e o caciquismo prolifera. Portugal não é um país suficientemente estabilizado para se aguentar em constantes reviravoltas. E se agora a retoma começava a dar sinais, em nome de quê é que se abandonam tão boas perspectivas? Choca-me, por isso, e alinho, pela primeira vez, ao lado dos descrentes na responsabilidade e coerência da União Europeia.

ACTOR, Box Nova CCB, hoje 19h00

Se os conceitos valem o que valem, como hoje se diz, o que se pretenderá atrás de um título tão afirmativo? A descobrir hoje no CCB às 19h00. Repete de 01 a 04 de Julho na Casa dos Dias da Água e 16 e 17 de Julho na Casa de Teatro de Sintra





ACTOR
de Rogério Nuno Costa
BOX NOVA |Centro Cultural de Belém
26 de Junho, 19h00

Em Junho de 1978 nasci. Em 1983 quis ser cantor, em 1985 médico pediatra, em 1990 jornalista-repórter-de-guerra. Em Setembro de 1999, inscrevi-me na
Repartição de Finanças do Restelo...como "artista de teatro". De cada vez que me perguntam "o que fazes", respondo logo "sou actor".


Entradas: 3€

Ficha técnica:
Ana Calhau-design gráfico
Carlos Morgado-som
José Álvaro-luz
Luísa Casella-fotografia
Marina Nabais-residência de movimento
Miguel Pereira-colaboração artística
F. Ribeiro-espaço
Rogério Nuno Costa-concepção/interpretação/textos originais
Rui Ribeiro-vídeo
Tânia Franco-figurino




quinta-feira, junho 24, 2004

De penalti

A vitória da selecção nacional face à Inglaterra elevou os ânimos dos portugueses desmoralizados, deprimidos e descontentes. Do primeiro ministro ao homem comum, hoje a noite vai ser longa, sem quererem pensar em requisições civis, listas de espera nos hospitais, problemas vários e crises profundas. Pelo menos até a fome apertar e o relógio der conta da necessidade de irem para casa dormir e regressarem amanhã ao rame-rame habitual, Portugal vai pular, vai saltar, vai gritar. Pode evitar-se muita coisa, mas a fé e o futebol estão de tal forma enraizados no espírito nacional, que nem o mais empedernido dos seres resistirá a sorrir de orgulho. Aguardam-se discursos nacionalistas e exacerbadamente patrióticos. A fogueira ainda vai arder por mais uns dias, masmo que os castelos nas bandeiras sejam pagodes chineses e muitos desconheçam a letra do hino. Portugal é uma nação, hoje, unida, malgré elle même.

pela estrada fora...

Hoje, à mesma hora que Portugal se faz ao caminho com a Inglaterra, a cruel Cinemateca passa La Strada, de Federico Fellini (o que daria azo a um verdadeiro ensaio sobre contra-programação intelectual).




O filme da grande consagração internacional de Fellini (Oscar de Hollywood para melhor filme em língua estrangeira), e ainda hoje um dos títulos mais emblemáticos da sua obra. Um casal de saltimbancos, o rude Zampanó (Anthony Quinn) e a ingénua Gelsomina (Giulietta Masina, no papel que lhe fixou a imagem), numa história trágica de amor, devoção e redenção.

Para mim, o filme dos olhos de Giulietta Masina e do seu enorme coração aberto ao bruto Anthony Quinn.



Repete sábado, às 21h30.

Fragmentos de um discurso amoroso

- Tu não me conheces!

Quando alguém nos atira no meio de um discurso inconsequente e, para nós, sem o mínimo de seriedade com essa frase lapidar tu não me conheces, começamos a equacionar se, efectivamente, será verdade. Conheceremos nós a pessoa com quem estamos?

Se, de facto, nos apaixonamos por alguém que desconhecemos - e, por consequência, queremos passar a conhecer melhor -, ao longo da relação há aproximações e recuos - poderiamos chamar-lhes "testes" -, até ao ponto invisível em que a relação se altera e a outra pessoa começa a olhar para nós, não como alguém que quis conhecer, mas como alguém que deixou de conhecer. Se o processo é complexo, não o é menos se deixarmos que a forma de conhecermos a outra pessoa parta dela, ou seja, que seja ela a dar-nos as pistas para melhor a entendermos. É claro que não há fórmulas mágicas e muito menos frases certas, tempos certos, momentos adequados. Tudo se passa no misterioso mundo do "erro por tentativa", como lhe chamam os cientistas. Uma relação é a procura de uma fórmula de entendimento que permita levar a vida de forma menos dolorosa. É o velho ditado chinês de "um dia de sol é um dia menos infeliz".

Mas se, efectivamente, nos queremos dar a conhecer a outra pessoa, não lhe podemos responder com um seco e irónico tu não me conheces, como se a pessoa fosse totalmente responsável por isso. Conhece-se quem se dá a conhecer, não quem se mostra por provocação. As pessoas, de uma maneira geral, mostram-se de maneiras diferentes. É por isso que ninguém tem a mesma visão que o vizinho em relação a alguém comum. Mas a pessoa que nós escolhemos, à partida, será a pessoa para quem nós nos queremos mostrar por inteiro, sem máscaras e jogos. Será a pessoa a quem nós nunca diremos tu não me conheces , porque efectivamente desejamos que essa seja a pessoa que melhor nos conhece. Aquela com quem não é preciso falar para que nos percebam. Em última instância, será a pessoa que nós acreditamos conhecer melhor.

Dessa forma, tu não me conheces pode ter duas leituras: 1) não me conheces porque não me percebes por mais que eu me revolva e não vale a pena o esforço; 2) isto é um estímulo para me veres por inteiro. Normalmente, tu não me conheces acaba com o espanto de quem ouviu a frase e não quis acreditar. Pouco depois as relações tendem a caminhar para um silêncio cada vez mais escuro.

quarta-feira, junho 23, 2004

Abriram as incrições para o Workshop de Produção Criativa de Espectáculos no Porto

WORKSHOP de PRODUÇÃO CRIATIVA


com Tiago Bartolomeu Costa

Local: Instituto Português da Juventude

N.º de horas: 19
Datas: 28 Junho a 3 de Julho
Horários: 19h – 22h; sábado 3: 14h-17h
Preço: 60 €
Informações: 96 550 9 550
tiagobartolomeucosta@hotmail.com

O workshop abordará os seguintes temas, através de exercícios práticos

O papel do produtor no processo de criação;
Relação Estado/Sociedade – Cultura;
Pesquisa de Financiamentos - Patrocínios, Mecenato, Apoios;
Organização de estruturas;
Desenho de Projecto, orçamentação e imprevistos;
Marketing, promoção e públicos.

terça-feira, junho 22, 2004

A lei dos amantes (28)

Ser de pedra por fora
e só por dentro ser.


in Natércia Freire, Liberta em Pedra

A Invencível Armada

Com a resurreição da Padeira de Aljubarrota para a batalha contra os espanhóis, Portugal precisa de outro mito para o ajudar no embate face à Inglaterra, esta quinta feira.

Curioamente, os mesmos que cuspiam em cima dos espanhóis, dizendo que os íamos comer de escabeche e assim, já fiam mais fino no que à Inglaterra diz respeito. São fortes, pois são. Onde está a fé agora?

Se a batalha (para insistir nos termos absurdos do novel português - até ver - Scolari) fosse com os franceses, poderíamos incluir nas tropas o Marechal de Saldanha que os enfrentou e mais ao General Junot aquando das invasões. (Na altura, Portugal solicitou auxílio à Inglaterra e esta acedeu, mas em vez de ir aportar a Sines, deixou-se ficar em Peniche e não compareceu à chamada. Com amigos assim...)

Efectivamente, face à antiga aliança, Portugal, o mais que pode é fazer-se honrado e bonitinho e garantir uma boa realização do campeonato até ao fim, já que passar será mais complicado.

Ontem, os que assistiam nervosos aos jogos do 2º grupo, não o faziam inocentemente, mas antes desejavam que o adversário fosse a França. Esses, dizem os entendidos, eram mais fracos. Pois, mas agora o adversário é maior que nós. Quem é que vai lançar a primeira pedra.

O Bruno faz um ano

Há um ano a avatar. Um blog de paragem obrigatória. Parabéns

Proposta de fim de semana (domingo)



Cidade Nua
Teatro da Trindade
Sábado 21h30; Domingo 16h00

Cidade Nua é uma peça de corpos. Corpos cegos por uma brancura desconhecida, corpos criadores de paisagens humanas, corpos ausentes e inquietos. A música, invisível, envolve o ar que atravessa a cidade. A imagem projecta memórias perdidas no vazio da visão. A cidade proposta está nua, escura, mas atenta a quem a habita. Cidade Nua divide tanto quanto une. Cidade Nua é um projecto colectivo centrado numa visão subjectiva: a da percepção do olhar. O ser humano, tanto escolhe o que vê, como escolhe o que ouve e consequentemente o que toca. O olhar domina a essência de Cidade Nua, torna o visível: visível. Há murmúrios e sombras, imperfeições, há coisas sem nome. Cidade Nua é uma experiência que relata a incursão a uma cidade, também nossa, onde tudo é vago e pouco nítido. Mas se um dia, a lógica e o mistério, abolirem o limite da nossa percepção, não deixando lugar nem a perguntas, nem a respostas, estaremos então num território limitado pelo aparecimento da consciência.

direcção artística e coreográfica Ana Rita Barata
direcção artística e imagem Pedro Sena Nunes
direcção e interpretação musical Amélia Muge, António José Martins e José Manuel David
cenografia Eric da Costa
intérpretes/bailarinos Graça Reis, Hélio Santos, Madalena Silva, Susana Mendes e intérprete/actriz Susana Vidal
elenco convidado (cegos) Cátia Lima, Susana Cordeiro e Rodrigo Santos
elenco participante Ana Teresa Santos, Elmano Sancho, Fernando Chainço, Fernando Nascimento, Isabel Guimarães, Janete Maximiano, João Fernandes, Lucília Raimundo, Luísa Costa, Magda Novais, Marta Pata, Miguel Martinha, Rita Miranda, Rui Paiva, Sofia Esperto, Uxía Vaello, Vera Marques, Víctor Assunção
figurinos Rita Sena
consultores Gonçalo M. Tavares, Kristeen Ruffel e Paulo Moreira
direcção de som António José Martins
direcção de luz Zé Rui

Proposta de fim de semana (sábado)



ACTOR
de Rogério Nuno Costa
BOX NOVA |Centro Cultural de Belém
26 de Junho, 19h00

Em Junho de 1978 nasci. Em 1983 quis ser cantor, em 1985 médico pediatra, em 1990 jornalista-repórter-de-guerra. Em Setembro de 1999, inscrevi-me na
Repartição de Finanças do Restelo...como "artista de teatro". De cada vez que me perguntam "o que fazes", respondo logo "sou actor".


Entradas: 3€

Ficha técnica:
Ana Calhau-design gráfico
Carlos Morgado-som
José Álvaro-luz
Luísa Casella-fotografia
Marina Nabais-residência de movimento
Miguel Pereira-colaboração artística
F. Ribeiro-espaço
Rogério Nuno Costa-concepção/interpretação/textos originais
Rui Ribeiro-vídeo
Tânia Franco-figurino



O espectáculo estará em cena, em Julho, dias 01,02,03 e 04 na Casa do Dias da Água e dias 16 e 17 na Casa de Teatro de Sintra.

Proposta de fim de semana (sexta)

Cartas: happening #1
do projecto Estamos Agora Sós
(a partir de Quarteto de Heiner Muller e A Toca, de Franz Kafka)

25 Junho 22h00
Espaço Kind of a Black Box
Rua dos Caetanos, 26
(no Bairro Alto, em frente ao Conservatório de Música)

Uma mulher e três homens reunem-se para falar da condição feminina. Quatro pessoas, um cenógrafo, um músico, um actor e uma bailarina numa reflexão sobre como a sociedade vê a mulher e como a mulher e vê a si própria.

Concepção e Encenação: André Amálio
Actores: Joana Furtado, André Amálio, Filipe Valentim e Pedro Medeiros
Músico: Filipe Valentim
Movimento: Joana Furtado
Espaço Cénico: Pedro Medeiros

Reservas: 91 931 64 93 / 96 311 87 62

segunda-feira, junho 21, 2004

fogo fátuo

Hoje de manhã, as conversas, surpreendentemente, não andavam à volta da vitória de Portugal ontem frente à Espanha. No autocarro três senhoras de idade comparavam o tempo de espera para uma operação no hospital, no metro duas raparigas queixavam-se dos trabalhos temporários que tinham arranjado depois de 5 anos na faculdade; à porta de um café, dois homens lamentavam o preço do passe; no supermercado uma mulher deixou ficar um pacote de leite e um maço de guardanapos porque o dinheiro que tinha não chegava para tudo.

É a retoma, dizem.

domingo, junho 20, 2004

um país (novamente) adiado

Batem leve, levemente
como que a chamar por ti
- queres ver?
- é a retoma?
- não, é o país que só quer viver assim.

Ai Portugal, Portugal, do que é que estás à espera?

(para os que me acharem céptico - ou mesmo, e sem rodeios, obtuso - fico contente com a vitória mas 1) não fazem mais que a sua obrigação; 2) em que é que isto, de facto, melhora a nossa vida?)

em contagem decrescente

a ver vamos que país sobra deste jogo

sexta-feira, junho 18, 2004

meteram a viola no saco e fugiram

antes tinha abordado a questão dos murais de Alcântara, em Lisboa, que o PCTP/MRPP pintara nos idos anos da luta pelos ideais e valores dos trabalhadores. O mesmo PCTP/MRPP que albergou gente tão diversa como Durão Barroso e Ana Gomes e que hoje é conhecido como o partido do senhor de camisola axadrezada. Acontece que esses murais que deveriam ter sido classificados como património municipal e cujo interesse histórico foi por demais provado, DESAPARECERAM.

Agora pode ser que reparem neles, naquelas manchas de tinta onde se colavam cartazes por cima sem que ninguém os protegesse, nós povo que sempre gostou tanto de pintar as ruas e enfeitar as casas (nesse aspecto, o que são estas bandeiras senão uma forma de expressão ?!)

O PCP solicitou informações à CML, segundo a notícia veiculada ontem no jornal Público, mas não acerca das pinturas, mas antes acerrca da legalidade das demolições. Ninguém protestou, ninguém quis saber, estava tudo a ver a bola quando uma parte da memória veio abaixo. Ficam as imagens. Pode ser que ajude. Com toda a certeza daqui a uns anos vão querer fazer um livro que dê conta do que foi a intervenção artística-urbana em Portugal. Será tarde demais.





quinta-feira, junho 17, 2004

17/06, 26

Onde quer que ele chegasse, o que sempre encontrava era a sua própria mão, uma pequena mão que dum longínquo braço seu desde remotos tempos o aguardava. Era uma afável mão, quase fraterna, que, de modo algum inerte, lhe apertava as suas, ou o que delas lhe restava, e o afagava e masturbava docemente. A breve trecho a comparou ao mar.

Luís Miguel Nava, A Mão



parabéns

Dois shots de vodka para ver se acordas

Enfim, não se pode dizer que tenha sido um bom jogo ou sequer uma vitória merecida. A dada altura nem se notava que a Rússia jogava com um jogador a menos. O resultado foi o que foi e o país saltou. Mas eu parece-me que saltou desconfiado e que a coisa é mais imagem que crença. No domingo há a reedição das batalhas campais ibéricas. Ou tratam de meter a jogar a padeira de Aljubarrota ou parece-me que seremos, de novo, ocupados.

A propósito do país que vivia o jogo, à hora do mesmo não havia vivalma nas ruas. Lisboa estava em silêncio como se não fosse final de tarde. As pessoas que se cruzavam nos passeios olhavam-se desconfiadas como que a perguntar que raio andariam a fazer a esta hora na rua. Ainda senti uma espécie de cumplicidade pela acusação de mau português.

quarta-feira, junho 16, 2004

Ainda a propósito das eleições europeias

Pensando bem, quanto à apreciação dos resultados das eleições europeias, não vejo ninguém a discutir a prestação dos eurodeptados no mandato que agora termina. Se nas autárquicas, legislativas e até presidenciais é julgado o passado do renovado candidato, porque é que nestas eleições ninguém falou do trabalho dos eurodeputados; o questionu; o reflectiu?

Em vez de se discutir somente os efeitos internos destes resultados, não deveríamos, também, discutir a performance dos eurodeputados?

Lavaram as mãos e pronto?

Para um dia mais freeeeeeeeesco!!!!

terça-feira, junho 15, 2004

Workshop de Produção (datas alteradas)

O Workshop de Produção que deveria ter começado ontem foi adiado uma semana, pelo que ainda há inscrições.

WORKSHOP de PRODUÇÃO DE ESPECTÁCULOS

O PAPEL DO PRODUTOR NO PROCESSO DE CRIAÇÃO


com Tiago Bartolomeu Costa
Local: Delegação Regional Instituto Português da Juventude
Via Moscavide lote 47 101, Lisboa (Parque das Nações)
N.º de horas: 19
Datas: 21 a 26 Junho
Horários: segunda a sexta: 19h – 22h (sábado 26: 15-19h)
Preço: 60 €

Informações: 96 550 9 550
tiagobartolomeucosta@hotmail.com

Decreto do Reino ao Bom Povo Português

Concidadãos,

sabeis todos que enfrentamos tempos difíceis. A quimera de alcançarmos o "caneno" é da vontade de todos e assim deve ser. Recomenda-se, por isso, que se tomem algumas precauções para que nada falhe. Assim, amanhã, deveremos adoptar o comportamento abaixo indicado, de modo a que nada possa prejudicar o resultado, que só nos interesa que seja favorável. A saber:

- Recato na idumentária a levar para o estádio, tendo em atenção o excesso de pinturas abandeiradas no rosto e outras partes expostas. Admite-se a inutilidade dos cachecóis atendendo ao calor que se vai fazendo e à ideia de grande massa compacta que se pode causar uma certa visão turva por parte dos jogadores;

- Deve o bom povo português cantar o hino - mas só desta vez - sem o ânimo habitual para que se evitem arrepios e pressões. Não vamos querer os nosos jogadores nervosos;

- O incentivo à equipa deve ser moderado e em igual peso para o adversário;

- Os jogadores - eses santos - estão a fazer o melhor que conseguem e não se deve exigir muito deles pois há muitos que chegam aos treinos cansados da horas densas de filmagens dos anúnicos. Os jogos são o único momento que têm para descansar. Atentai na forma como se atiram para o chão;

- Os senhores espectadores que se posicionarem na baliza do adversário devem fazer de tudo um pouco para distrair o guarda-redes, de forma a que este deixe entrar os golos que, caso contrário, vão parar à nossa baliza;

- Na sequência do ponto anterior, os senhores espectadores devem estar cientes que Portugal ainda não fez o pleno neste Europeu e que, por isso, há que dar espaço à nossa selecção de o completar. Assim, falta ainda bater no árbitro, fazer um auto-golo, criar situações de expulsão imediata e atirar ranho para o chão quando as televisões estão a fazer um grande plano;

- Quanto ao selecionador nacional, devem os senhores espectadores adoptar uma posição de respeito atendendo à habitual troca de galhardetes que se segue nestes eventos, nomeadamente atendendo a que há jogadores que aceitaram um seleccionador brasileiro mas dificilmente aceitam um jogador brasileiro que, efectivamente, JOGUE;

- E nunca, mas NUNCA, devem os senhores espectadores presumir que podiam fazer melhor.

Se se cumprirem estes preceitos, coneguiremos alcançar o mais ambicionado título: o de anfitrião honroso.

A Bem da Nação,

Secretaria do Reino de Portugal 2004.

segunda-feira, junho 14, 2004

Um voto, uma voz

A ideia de que só a abstenção é que contou causa-me nauseas. Afinal, de que serviram os outros votos todos? Não se levam em consideração? Serviram só para derrotar a abstenção?

Dois apontamentos:

1)O alheamento a que se prestaram mais de 60% dos portugueses não é unilateral e carece de reflexão efectiva JÁ!;

2) Efectivamente Ferro Rodrigues teve razão, dê Durão Barroso as voltas ao discurso que quiser, para a Europa não se confia no governo português. E essa é a única verdade que se pode retirar do discurso do líder do PS.

sábado, junho 12, 2004

Portugal - Grécia: bandeira a meia-haste

De que serve então a força e o apoio e o país feito bandeira única, se basta olhar para o relvado e perceber que quem fez o trabalho de casa acaba sempre por se sair melhor?

Tudo leva a crer que a razão porque Portugal chegou à fase final do Euro 2004 foi por inerência de organizador.

Que vão começar a fazer às bandeiras e aos sonhos desfraldados? O habitual, quase parece que ouço, esperar que os outros falhem.

sexta-feira, junho 11, 2004

a fragilidade dos comentários

porque esta coisa de nos morrer alguém próximo, presta-se sempre à mais vil tarefa de se desenvolverem teorias acerca da volatibilidade da vida e da necessidade de revisão de princípios, valores, noções e comportamentos. Uma palavra é, afinal e sempre,uma palavra a mais, e que de pouco adiantará. Nem chega para o conforto. O conforto acabaria por ser acreditar que as coisas ão eternas e que o desejo era vivermos numa redoma onde nada fose posto em causa. Helás, não é assim.

Outra nota ainda para forma como tudo isto se processa, num longo e penoso calvário para todos os envolvidos (excepção feita ao morto, claro está!). A necessidade de expiarmos os nossos pecados e de nos reduzirmos a meros pedaço de pó (o fim e a origem), exercício praticado por todos os ditos e rezas cristãos em que a penitência dos vivos é a única forma de encaminhar os mortos é, no fundo, o alimentar de uma máquina de sofrimento expoto e de adoração a um corpo que há muito deixou de responder ao anseios da alma.

Se houver alma e corpo, liberte-se a primeira de uma massa que já não cumpre. Um corpo é um corpo é um corpo.

É difícil ser-se inteiro para sempre. Não há necessidade de prolongarmos a angústia. Todo o processo de velação do corpo culmina numa cruel atitude de abertura do caixão no cemitério, como se ainda não fosse suficiente toda a dor.

Custa-me a aceitar, até mesmo por tradição. Conforta-me saber que o meu avô pensava de forma igual. Devia estar a pedir para que a coisa se desse o mais rápida e eficazmente possível.

quinta-feira, junho 10, 2004

fim

o meu avô morreu hoje, dia de Portugal, às 00h30.

A tua bandeira

Portugal transformado numa única bandeira, a fazer fé num grupo de futebolistas esforçados.

Lúcida foi a opção do outro vizinho que pendurou um soutien onde os outros penduraram a alma.

terça-feira, junho 08, 2004

A vida tal como me foi pintada

Em leituras dispersas, encontrei este outro teste em que acedi arriscar. Saiu-me esta referência:





Faça você também Que
gênio-louco é você?
Uma criação de O Mundo Insano da Abyssinia


domingo, junho 06, 2004

A estratégia da aranha

apreciações sobre a exposição de Helena Almeida, no CCB, em Lisboa



Ando em círculos: os ciclos voltam. O trabalho nunca está completo, tem que se voltar a fazer. O que me interessa é sempre o mesmo: o espaço, a casa, o tecto, o canto, o chão; depois o espaço físico da tela, mas o que eu quero é tratar as emoções. São maneiras de contar uma história.
Helena Almeida

A exposição Pés no chão, cabeça no céu de Helena Almeida (HA), patente no CCB até meados de Julho, quer definir e dar a ver o trabalho da artista, apresentando-o como "complexo na sua formulação" e em que "o método de trabalho de HA desagua na utilização de fotografias a preto e branco, imagem de si mesma nas quais parece retratar-se a memória de uma acção, de uma performance." Acontece que, se tivermos em conta a definição encontrada por Victor Schechner, o termo performance provém do francês arcaico e quer dizer o ponto final de uma representação, ou seja, como se se procurasse isolar o momento identificador do objecto proposto. Haveria, assim, um objecto dentro do objecto. E, nesse sentido, o trabalho de HA contraria a ideia de performance porque, precisamente, estabelece uma ideia de ilusão a partir do objecto finalizado que não é o momento em que se carrega no botão na máquina fotográfica, mas antes o trabalho posterior. Assim sendo, o registo, que é parte do processo, é essencial para a total absorção da proposta. A fotografia não serve para registar o momento. Antes é o momento.

Sendo, então, um momento no processo criativo, terá que existir um estudo prévio (ou previsional) em relação ao resultado final. Trata-se, no fundo, de uma nova leitura sobre a base de trabalho que anula a ideia simples de auto-retrato. Não é, portanto, a artista HA a ser retratada, mas antes um corpo que é utilizado. Por isso, aproxima-se mais (até mesmo pela forma decepada como se apresenta) dos desenhos de Julião Sarmento que das fotografias de Jorge Molder. É um processo, de certo modo, biofágico.Um trabalho que assenta no pormenor e no detalhe do corpo, explorando (precisamente por ser a mesma base trabalho desde sempre - o que pressupõe um controlo sobre o violento despojamento da persona artista) e que, por isso, mesmo cria referências, talvez até demasiado forçadas como, por exemplo, em Estudo para dois espaços, de 1977, em as mãos nos portões das casas e jardins assumem formas nosferatianas.

As fotografias geométricas e desenhadas que HA propõe, não se distanciam de um conceito de dança e coreografia (daí se entende a relação do trabalho de João Fiadeiro I am here, criado para acompanhar a exposição), centradas num espaço limitado e onde se joga a "fisicalidade do espaço que acolhe o corpo" com a artista. Assim, na série Dentro de mim, datada de 2000, existe um espelho colado ao corpo da personagem HA que reflecte a parede onde a máquina fotográfica se encontra (e nela, também, mas posteriormente, o espectador). O que esse espelho faz é recentrar a artista no espaço, fechando-a e criando um diálogo desta com a envolvente.

Não sei se a fotografia de HA é um trabalho de recolhimento e de olhar para dentro, mas o que sei é que há um jogo privado e quase infantil, de descoberta do "eu" criador. O artifício das propostas (as fotografias chegam a ser demasiado expostas na sua simplicidade) é trabalhado à frente do espectador, que se deixa envolver numa teia de aranha. Os pés e as mãos e o corpo da artista são alvo de uma metamorfose que se recicla e funciona em loop. E é na tentativa de estabelecimento de um diálogo entre a proposta e a apreensão desta que se dá a liberdade de observar o processo de criação e perceber que as criações artísticas não são finitas, antes revolvem-se.

O movimento dos objectos

Há alturas em que achamos receber sinais de todo o lado, como se a conjuntura nos enviasse uma série de alertas, confusos e ambíguos que deveríamos saber interpretar: as toalhas de banho estão mais juntas que nunca, com uma ponta molhada negligentemente a deixar marca numa outra já seca; as escovas de dentes estão separadas, cada uma num dos cantos do suporte; as almofadas ou estão sobrepostas ou do avesso, sendo que a cada uma correspondem curvaturas diferentes, também sujeitas a interpretação; há os chinelos que abrigam um ténis alheio; a caneca que foi lavada enquanto o resto da louça permanece em monte no lava-louças; há cd's misturados mas os livros ficaram ordenados por ordem alfabética, coisa que nunca tinha acontecido; há um resto de perfume no ar, com toda a certeza deixado a marcar território... Há toda uma casa que se move, em código, silêncio e signos. Há pessoas que a habitam. Há laços entre elas. Às vezes só se vê o nó.

É nessas alturas que o "murro na mesa" tem que ser dado. Para o bem e para o mal. Para o bem, sempre.

Em Playback

A 53€ o bilhete queriam o quê? Que ela cantasse mesmo? Experimentem desconjunturar-se como ela faz e vejam lá que voz é que sai. Playback sim e com muita honra. Go Britney go!



sábado, junho 05, 2004

Fado, história de uma classificação

Esta ideia peregrina de se querer candidatar o fado a Património Mundial da Humanidade é um sinal dos tempos. Ou seja, para o povo pão e circo é o que se pretende. Se se candidatasse a recolha que Michael Giacometti realizou em meados do século passado pelo país inteiro, talvez se percebesse a ideia de resgate de um património cultural significativo e identificador de uma relação afectiva/efectiva com a terra (telúrica e geograficamente falando).

No caso do fado, que, é importante não esquecer, foi imposto como canção nacional pelo regime autoritário, houve um acompanhamento de um certo estado de espírito que se hoje se renova e transmuta não o faz num sentido diferente. Ou seja acompanha e define os tempos que correm. Que sentido fará uma protecção deste género se não se corre o risco de desaparecimento. É certo que, como apontou o arquitecto Henrique Dias da Gama, fado e fadistas não são uma e a mesma coisa. Mas, ainda assim, se alguma função os novos fadistas têm é a de, precisamente, fazerem do fado um património em permanente mutação.O fado não precisa ser protegido, antes precisa de espaço para continuar a ser criado. Se assim fosse - ou seja, se se começassem a proteger todas as canções nacionais, tínhamos o samba, o tango, as mornas, o blues, as canções napolitanas, os coros budistas, etc, etc, etc - não se falaria em resgate da memória, mas antes em formolização de géneros musicais. A memória que precisa ser resgatada é a a de quem deveria zelar pela preservação dos objectos que contam a história do fado. Mas esses estão dependentes da contribuição generalizada de todos os que, neste momento, estão a comprar a colecção do PÚBLICO.

Como é que se pode acreditar que uma vitória nesta candidatura venha ajudar à preservação do fado se, por exemplo, no Museu da Rádio, querem mandar para a sucata os velhos transmissores, exemplares únicos em toda a Europa; se no Museu dos Coches não há ar condicionado; se o Museu de Arte Popular não termina as obras; se o IPPAR não protege os monumentos; se o Côa não tem solução; se Sintra e Tomar estão a ser diária e constatemente violadas; se a Baixa de Lisboa está a degradar-se... (a lista é imensa).

Aliás, se há lição a tomar neste caso é que esta candidatura deve redonda e absolutamente falhar, a bem da necessidade de protecção de outros patrimónios nacionais.

Wish I was there (IV)

Grand Canyon

Outras sessões

Sala 1

O Dia Depois de Amanhã



Não obstante o absurdo título em português (será que não dizemos simplesmente, depois de amanhã????), o filme é bem menos blockbuster do que aparenta, até porque há mensagens por debaixo de um pacote de pipocas e efeitos especiais demasiado falsos. Ou seja, se aos cientistas fosse dada a oportunidade financeira de serem alarmistas não sei se seria muito diferente. O provinicianismo serôdio que nos caracteriza levou a que alguns dos espectadores que assistiam à mesma sessão que eu ficassem felizes com o facto de Portugal ser poupado.

Sala 2

Desasossego


Há uma estranha sentimento quando se muda de casa e que tem a ver com uma espécie de reconhecimento do espaço e abandono do mesmo. Na ocorrência de uma substituição há a necessidade de nos encontrarmos constatemente. O filme de Catarina Mourão, que facilmente se embrulha em papel de jornal e se volta a colocar na estante depois de aberto o caixote, está nesse lugar distante e ausente que são os olhos de quem vê uma casa que supostamente já deve responder pelo nosso primeiro nome.

Há mais poesia numa mudança do que aparenta. É só deixá-la correr.

A vida não vem com uma 2ª oportunidade

Ainda estou a digerir o filme O Despertar da Mente. Pelo sim pelo não, ando a evitar comparações com a realidade. Mas quer parecer-me que estou em desvantagem.



Aqui, uma análise já discernida mas ainda assim poética

Referências

O Miguel Vale de Almeida recorda David Hockney a pensar em Almodóvar. Sim, é verdade.

A lei dos amantes (27)

Deixei de ver a ponta dos teus dedos e as marcas da almofada na tua cara. Deixei de ver todos os pormenores em que antes não reparava. Deixaste de me ver mas eu ainda olho para ti.

Motivos de força maior

Estive a assistir ao debate entre Sousa Franco e João de Deus Pinheiro, ontem na Sic Notícias, e apercebi-me que aquilo lhes deve custar muito. A dada altura, o cabeça de lista da coligação diz que não se coíbe de tratar o opositor por "o meu amigo", porque é assim que o considera e espera semelhante resposta do outro lado, ao que, evidentemente, Sousa Franco responde de igual modo. E falaram, então, da Europa. Para dizer o mesmo, essencialmente.

Mas depois, tiveram que divergir. E divergiram em questões de matéria interna (leia-se, a relação familiar de Sousa Franco com o défice - que assumiu antes o parentesco com o Euro -, a linguagem da campanha, a guerra no Iraque - na qual a posição de Deus Pinheiro é, manifestamente, mais sábia que a de Durão Barroso -), coisa que importa de menos nesta campanha, se é que alguém se apercebeu disso.

Pois a tónica está exactamente aí, quando se fala da Europa, os dois candidatos não podiam estar mais de acordo, mas campanha oblige, não o podem assumir. Assim, é fácil imaginar que de cada vez que acaba um debate entre os dois, devem os candidatos respirar de alívio e abraçados, pedirem desculpa por qualquer palavra mais forte.

É penoso assistir a isso, mas foram eles que aceitaram.

quarta-feira, junho 02, 2004

IKEA

Enquanto lavava a cara ao blog, chegou-me, pelo correio, o catálogo do IKEA. Esqueci-me logo do que estava a fazer.
post de teste
tinha acabado de escreveu um post, não tão simpático acerca da histeria sobre o Angels in America. apagou-se tudo. Os anjos vingaram-se.
Bólide, ou o que seja

Portugal viu a luz, aparentemente. Ovnis, desejos, Nosa senhora, os dentes de Paulo Portas, o fim do mundo... ao que se conta, tratou-e de um bólide, um cometa perdido nas atmosferas.

A propósito, continuo sem conseguir entrar no meu blog. A luz é bem vinda, de todos os lados.

terça-feira, junho 01, 2004

O vazio

Não consigo abrir a página do meu blog. É como perder as chaves dentro de casa.
Lido aqui a propósito da vinda da Senhora:

A Madonna vem cá dia 12 de Setembro. Eu acho que foi a Britney que a convenceu. E este log do Messenger de uma conversa entre as duas só prova isso:

Britna
diz:
Ai filha, agora tenho de ir lá ao Rock In Rio Lisboa.
Material Girl diz:
Lisboa?
Britna diz:
Sim, em Portugal.
Madge diz:
Portugal? Isso não é uma provincia espanhola? Ai já fui tantas vezes actuar a Espanha nestes anos todos!
Britna diz:
Tá parva! Oh mulher a idade fez-te mal ou quê? PORTUGAL! É um país que não tem nada a ver com Espanha!
Madge diz:
A sério? K'horror! Ainda não actuei lá! Também quero.
Britna diz:
Marca uma data mulher! Enfia-a lá para o fim da digressão.
Madge diz:
Boa! És tão esperta Britney!



Em nome do pai, do filho e do espírito santo

recepção de La Mala Educácion, de Pedro Almodóvar



De uma maneira geral, o tom é de surpresa e espanto. Da parte de Almodóvar parece a construção de um espelho temático que reflecte, sem grandes demoras, um outro filme negro do realizador, La ley del deseo, sendo que, depois do lirismo de Hable con ella poderia facilmente classificar-se como um passo atrás.

Mas é exactamente nesse passo atrás que Almodóvar surpreende e inverte o nosso ponto de vista. Preparado como se de um jogo de cartas se tratasse, La Mala Educacion (título que indicia uma posição sobre, quando esta, no meu entender, não existe), o filme carece de uma concentração emocional da parte do espectador que não deve querer tudo ver, tudo perceber. A história que nos é contada (que, ironia das ironias, é bem mais de série B do que seria de esperar) não deve ter leitura imediata para que o espectador não caia na fácil armadilha de querer perceber o que nos está a ser dito. No entanto, este é um filme exposto. Exposto, não só porque há uma vontade de querer descobrir o que é relidade e o que é ficção (atenção sobretudo ao que fica no ecrão como imagem final), mas porque não precisa de mostrar tudo para acertar no alvo. O que parece um paradoxo é, afinal, uma forma nada subtil de afirmação. As verdades, para Almodóvar, aguentam-se até quebrarem por si. Só depois se tornam mentiras. E mesmo essas são esperançosas.

La Mala Educacion é, assim, não um conto de fadas negro, ou uma parábola, nem tão pouco uma metáfora. É antes um exercício de estilo sobre a importância da memória e da necesidade de lisura nas construções do pensamento. A história que vive dentro da história que vive dentro da história é, afinal, só uma. Realidade ou ficção não se sabe. Mas suficientemente crua para parecer verdadeira. E ainda assim...

Se o filme recorda esse outro, também ele agreste, La ley del deseo, recorda, também, numa primeira fase, um outro de Louis Malle, Au Revoir les Enfants, em que o tempo que se quer de inocência é abruptamente arrancado. E o que começa como uma história de pura vingança, acaba numa melancolia amorosa radical. Como os amantes de La ley del deseo que morrem queimados, também estes amantes - que nunca o foram, pelo menos não como os outros - arderam, passe o cliché, numa outra fogueira bem mais dolorosa que é a da memória e da não consumação.

Filme sem mulheres (e mesmo com homens sem referências femininas - Sara Montiel não é mulher, é deusa), e sem personagens positivas (todos eles estão carregados de um azedo que incomoda e que só muito depois do fim do filme é que e começa a perceber), La Mala Educacion é, ainda, uma obra plena de sensualidade que não e coaduna com a clasificação gay. É uma sensualidade masculina, cheia de duplos sentidos que não existem e de uma violência opresiva, de quem controla só por medo de ser controlado. Eles não se tocam, agarram-se; eles não falam, dizem coisas a quererem ser outras sem saberem o que querem. Um filme de sufoco e transpiração, quente como só o desconhecimento pode ser.
A lei dos amantes (26)