Análise ao espectáculo ACTOR de Rogério Nuno Costa
[
ACTOR é apresentado nos dias 16 e 17 Julho na Casa de Teatro de Sintra.]
O espantoso actor que tira e coloca e retira o adjectivo da coisa, a subtileza da forma, e precipita a verdade. De um lado extrai a maçã com a sua divagação de maçã.
Herberto Helder
Quando
Rogério Nuno Costa (RNC) entra na Black Box do Centro Cultural de Belém, os espectadores já tiveram a oportunidade de apreender o que se irá passar. No momento em que entraram no
foyer do espaço de apresentação, foi-lhes entregue um guião (a 26ª versão deste) em que o criador dá conta das sequências que compõe o espectáculo, indicando a sua duração e propondo interpretações para essas mesmas sequências. Será, por isso, um espectáculo já visto, aquele que os espectadores irão ver? Contudo, e mesmo que se opte por fazer acompanhar o que se vai passando no palco com a leitura do guião, o que o criador nos apresenta está longe de poder ser imaginado. Ou seja, obriga-se a uma reflexão sobre o que é a teoria do/para o actor.
Partindo do modelo
stanislavskiano, em edição francesa
de poche,
La formation de l' acteur, RNC apresenta-nos um índice dessa mesma teoria, testando-a no corpo de um indivíduo. Entende-se, aqui, indivíduo, como pessoa anónima. Há, nesta proposta, uma tentativa de demonstração de que a anulação do actor em função da personagem é, à partida, um erro pois permitiria encarar todas as pessoas como actores. E, para além disso, fazer acreditar que esse é o caminho para se atingir a personagem. O que RNC prova é que, exactamente, esse caminho leva a um revelar não da personagem ou do actor, mas da pessoa atrás da personagem ou do actor. Nesse sentido, afasta-se do conceito de actor "do método" e abraça a ideia de Laurence Olivier de que um actor não tem que pensar, tem que fazer.
Todo o espectáculo está construído como se de uma dissertação de tese se tratasse, desde logo com a apresentação dos pressupostos e fontes (através do guião) e ainda com o texto programático apresentado nos
flyers e folha de sala ("
de cada vez que me perguntam 'o que fazes', respondo logo 'sou actor'. Passados cinco anos, a crise existencial: um actor é uma pessoa que actua. Um bailarino, porque actua, é sempre um actor (...)Eu gostava muito de ser um bailarino que representa sem ter passado pela Lee Strasberg. Como não sou, sou um actor triste. E este é um espectáculo triste.") - poderia ainda invocar-se a tentação de se colocar um sinal de pontuação (qualquer um) a seguir ao título, dando assim conta das diversas interpretações possíveis (
Actor?; Actor!; Actor...; Actor.; "Actor"; ...) -, mas mais do que isso,
Actor transforma-se numa espécie de audição. No final, o público é convidado a classificar o que assistiu, que, ironicamente, está identificado como espectáculo de dança (seja por imposição do co-produtor CCB - que inscreveu o espectáculo entre os Bailados de Margarida Abreu e o Festival Lugar à Dança -, ou porque, efectivamente o próprio método de Stanislavski apela mais à procura no corpo do intérprete as razões de ser da personagem, logo, torna o actor num "corpo que dança"). No caso da apresentação no CCB, no passado dia 26 de Junho,
ACTOR foi classificado como sendo um espectáculo de "
dança portuguesa com fortes raízes étnicas" (conforme as classificações propostas pelo guião). Eu, preferencialmente, optava por um espectáculo de "
dança ao domicílio", já que o universo convocado é, antes do mais, íntimo, cerebral e hermético. Não é, por isso, possível determinar se o "júri" aceitou passar RNC nesta sua dissertação. As fórmulas e os conceitos estão de tal forma revolvidos que "primeiro estranha-se e depois entranha-se". Até poder ter espaço para dialogar,
ACTOR permanece no limbo das criações
gesamkunstwerk (o conceito de arte total
wagneriano).
É nesse sentido que a segunda parte do título desta análise "
de um actor policromático" toma forma. Ao longo do espectáculo, RNC vai acumulando camadas - ou níveis - susceptíveis de cumprirem os preceitos de Stanislavski. Os exercícios de respiração, concentração, imaginação, reacção/contra-reacção ou alienação que são propostos pelo teórico russo, de forma a atingirem o "actor completo", são analisados isolada e individualmente, antes de fazerem um conjunto. Esse conjunto só surge perante o espectador quando RNC provoca o corte e se apresenta como o resultado não de um processo performático, mas antes como um produto cultural e ideologicamente enraizado nas suas origens. O "boneco" a que chega - uma figura minhota e matrona - não é mais do que a camada primária - genética, se quisermos -, do autor que procurou um método para chegar a um estád(i)o superior. Ou seja, não é
Freud - ou
John Locke num certo sentido mais radical -, que são convocados, mas
Henri Bergson, na sua teoria de separação espaço-tempo/material-imaterial.
Ao contrário do que acontecia em
Saudades do tempo em que se dizia texto, RNC não procura metaforizar sobre uma memória que só é a sua por imposição cultural, mas antes dar lugar a um processo de evolução interno. O actor dá lugar à pessoa, da mesma forma que a larva dá lugar à borboleta (utiliza-se esta expressão não no sentido de contrariar a frase que RNC usa, durante um vídeo do espectáculo, para se identificar "
I'm not a queer performer", mas no seu sentido biológico). O monocromatismo que daria aos actores o mesmo tipo de reacções, dá lugar ao policromatismo individual, ou seja, dos que usam o método não como fim mas como ponto de partida.
O que é interessante verificar no trabalho de RNC (naquilo que é possível ler através dos seus códigos pouco claros e nada decifráveis - ainda que o criador insista que tudo aquilo que apresenta é aquilo que quer apresentar, sem lugar a metaforizações, a verdade é que não joga/aposta no aleatório, no casual ou inocente, mas antes apropria-se desse quotidiano para o filtrar; o ponto de partida pode ser a sua visão do mundo, mas o que é dado a ver, e às primeiras leituras, é uma adaptação desse mundo à sua teoria), é o constante salto entre objecto e definição, misturando Magritte com os naturalistas.
Ceci n'est pas un acteur, portanto. RNC é mais um
agent provocateur do que um radical activista que insiste numa teoria.
ACTOR é, nesse sentido, um espectáculo de tese, em que são convocados os elementos que permitiram delinear/apresentar essa mesma tese, mas, não a levando até ao fim, obriga o leitor/espectador a questionar o seu propósito, ainda que este não exista para o criador (ou este ainda não o saiba identificar).
No plano estritamente formal,
ACTOR é o espectáculo mais bem estruturado de RNC e em que este soube equilibrar o facilitismo em que às vezes cai (ainda que o revista de uma "urgência performática") com a necessidade de finalizar aquilo a que se propôs, mesmo que essa finalização seja um espectáculo em aberto. Nunca, no entanto, isso foi tão assumido. Parte desta inovação deve-se ao facto de RNC ter contado com a colaboração de terceiros em tarefas que, normalmente, assumia. O
self made man torna-se, assim, e de certa forma, mais altruísta, permitindo uma segunda anulação do conceito de Stanislavski. Prova-se que um actor sozinho é capaz de muito pouco, mesmo que seja a força motora de um espectáculo. De destacar, por isso, a depuração de cada uma das intervenções (vídeo, Rui Ribeiro; espaço, F. Ribeiro; desenho de luz, José Álvaro; desenho de som, Carlos Morgado, figurinos, Tânia Franco; e a colaboração, no que isso significa de rigor, contenção e inteligência de Marina Nabais no movimento) e a conjugação desses elementos numa organização (também cromática) de um todo que se quer questionado/questionável.
Importa, e para finalizar, dar conta de que o método utilizado por RNC para questionar a arte, o espectáculo, as intervenções culturais vive num limiar arriscado e que facilmente, atendendo ao contexto cultural em que se vive, se pode virar contra si. A margem que o criador reserva para uma preservação é mínima e aposta numa reformulação a cada proposta apresentada. Seria, por isso, talvez mais fácil caracterizar RNC como um "
actor híbrido", mas a verdade é que nestas suas fórmulas/propostas/provocações há um constante desejo de exposição (que não é íntima nem permite
voyeurismos - novamente a encenação do aleatório e do quotidiano) que, no mínimo, deveria fazer pensar os que ainda precisam de identificações/rótulos/definições para os objectos artísticos. E contra mim falo.
Outros espectáculos de Rogério Nuno Costa analisados neste blog:
Pictures at an Exhibition
Saudades do tempo em que se dizia texto
Vou a tua casa
God Knows What!