sábado, janeiro 05, 2008
Tânia Carvalho sings António Variações
Dança em Almada
Às 17, Visita Guiada, de Cláudia Dias
Visita Guiada estreou em 2005 e não mais deixou de circular dentro e fora de portas, mas talvez nenhuma outra apresentação faça tanto sentido como a que no início do ano se mostrará em Almada, inaugurando a temporada de dança 2008 do Teatro Municipal. É o regresso à casa de partida de uma peça maturada onde Cláudia Dias explora o seu passado, vivido em Almada, e o “choque” das descobertas que a outra margem, Lisboa, lhe foi oferecendo. Seguindo uma narrativa que equilibra biografia e ficção, a coreógrafa constrói à boca de cena, na sua simplicidade e justo rigor, uma mini-paisagem que reflecte sobre o lugar do corpo (ou a tomada de consciência de que se tem um corpo) num mundo onde a dança surge enquanto disciplina tradutora de movimentos reactivos, aqui apresentados sob a forma de objectos do quotidiano deslocados da sua função principal. De uma beleza ímpar, a peça consolida o discurso de Cláudia Dias, que explorando o método de Composição em Tempo Real, criado por João Fiadeiro, o transforma num belo exercício de revelação apenas aparentemente biográfico.
às 21h30, A Arte da Fuga, de Rui Lopes Graça
Se traduzir é escrever de novo, então, em A Arte da Fuga Rui Lopes Graça re-escreve a peça homónima de Bach, num gesto dramatúrgico atento que chama a si aquilo que de mais perturbador a peça carrega: o risco de não a vermos no seu todo, dada a complexidade de interpretações sugeridas pela fragmentação da obra. Catorze momentos – todos eles variações do mesmo tema, contemplando ainda dois cânones que prolongam dois deles já na recta final da estrutura –, surgem através de um diálogo coreográfico rico em significados. As breves sequências, maioritariamente interpretadas por quatro bailarinos tal como cada momento musical o é por quatro instrumentos, organizam-se sem uma linearidade e facilmente poderiam reorganizar-se sem perda de sentido. Simbolicamente violenta, esta é uma peça onde os fraseados de Lopes Graça ampliam a liberdade criativa de Bach.
quinta-feira, novembro 22, 2007
Pina Bausch em Lisboa no mês de Maio
Pina Bausch vai regressar a Lisboa em 2008 para um festival pensado pelo São Luiz - Teatro Municipal e o Centro Cultural de Belém. De 4 a 9 de Maio a coreógrafa alemã apresenta a peça icónica Café Muller (1978), a criação que fez a partir de Lisboa Masurca Fogo (1998), e Nefes (2003), criação feita a partir de Istambul. Para além disso mostram-se os filmes O Lamento da Imperatriz e A Sagração da Primavera, ambos da coreógrafa e Lissabon-Wuppertal-Lisboa, de Fernando Lopes., em sessões comentadas pelo realizador, José Sasportes, Olga Roriz, Rui Horta, Maria João Seixas e António Mega Ferreira. Decorrerão ainda conversas com o cenógrafo Peter Pabst, com a própria coreógrafa, os bailarinos Dominique Mercy e Nazareth Panadero, e o realizador Pedro Almodóvar. Os bilhetes serão postos à venda, nas bilheteiras dos dois teatros, a partir de dia 1 de Dezembro. Abaixo excerto da peça Masurca Fogo. Na OBSCENA #4 pode ler uma longa conversa com Pina Bausch, conduzida por Mónica Guerreiro no passado mês de Abril, e aqui a crítica ao filme de Fernando Lopes, saída na OBSCENA #1, e também assinada por Mónica Guerreiro . foto de Alceu Bettquinta-feira, novembro 08, 2007
La Ribot explicada por e às crianças
A Primavera de Xavier
quarta-feira, outubro 10, 2007
SOBRE LA CRÍTICA: uma aproximação por Jaime Salazar-Conde
En un principio, no creo que escribir, reflexionar o hablar sobre danza requiera ninguna condición, esfuerzo o dedicación específicas distintas a la que se requieren para escribir, reflexionar o hablar de teatro, artes plásticas, toros, moda, gastronomía, música, etc. Evidentemente, y al igual que ocurre con otros campos de conocimiento humano, para hablar de algo es necesario estar familiarizado con la información específica referida a ese ámbito. En el caso de la danza esa información básica es de muy fácil acceso y está recogida en manuales muy completos que se pueden adquirir en cualquier librería mínimamente especializada. Así que creo cualquiera que lo desee, puede fácilmente ponerse al día y llegar a escribir algo interesante sobre la danza.sábado, setembro 22, 2007
Ballettanz escolhe melhores do ano
Feitas as contas os resultados saíram no número anual da Ballettanz, disponível desde o início deste mês, e indicam a companhia belga Les Ballets C. de la B., de Alain Platel (que dias 13 e 14 de Outubro apresenta na Culturgest Import/Export, de Koen Augustijnen, esolhida por Lilo Weber, do suíco Neue Zürcher Zeitung como importante colaboração entre artistas e coreógrafos) , e a The Forsythe Company, do norte-americano William Forsythe (no primeiro semestre de 2008 no CCB) entretanto sedeada em Frankfurt, como companhias do ano, as russas Natália Osipova e Polina Semionova como bailarinas do ano, e Sascha Waltz, alemã e prémio Novas Realidades Teatrais Europeias 2008 e já este ano se apresentou no CCB, o francês Nasser Martin-Gousset, mas também a alemã Susanne Linke e a sul-africana Robyn Orlin como coreógrafos do ano.
Curiosas são as escolhas para significativo desenvolvimento entre política e arte. Desde a escolha da crítica israelita Ora Brafman, do Jerusalém Post, que refere a “estagnação e a falta de apoio público realista” já que “a maior parte dos bailarinos não ganham sequer o salário mínimo, independentemente da legislação israelita”, ao crítico canadiano Michael Crabb, do The National Post (Toronto), que fala do “declínio do valor do dólar americano” com implicações na “circulação de companhias americanas” e nas “expectativas de treino profissional na Europa”, os comentários registam um desfasamento entre as necessidades do meio da dança e as intenções políticas dos governos. Mike Dixon, da revista inglesa Dance Europe, alerta para o facto de que “a chegada dos Jogos Olímpicos a Londres [em 2012] está a criar um vácuo financeiro nas artes britânicas, já que os fundos provenientes da lotaria [que sustenta, em parte, os apoios públicos à criação artística] estão a ser desviados para projectos relacionadas com os Jogos Olímpicos” e Suki John, do New York Times, fala dos entraves criados pela Administração Bush à entrada de artistas nos Estados Unidos, um aspecto também referido pelo belga Pieter T’Jonck, da revista Etcetera, que afirma estarem ainda a sentir-se os efeitos do 11 de Setembro de 2001. Por outro lado há quem dê exemplos positivos, como a alemã Eva-Elisabeth Fischer, do Süddeutsche Zeitung, que refere a criação de um arquivo de acesso livre das obras de Pina Bausch, eu próprio, que refiro o relançamento da plataforma DBM – Danse Bassin Méditerranée, ou a grega Natasha Hassiotis, do To Vima, que dá conta do anúncio da criação de um Centro para a Dança na Macedónia.
É também com algum interesse que se verifica a escolha dos mesmos acontecimentos em categorias antagónicas. É esse o caso do espectáculo Snow White, da jovem coreógrafa norte-americana Ann Liv Young, que se apresenta em Lisboa, na ZDB, em Janeiro do próximo ano, escolhida por mim como jovem coreógrafa a ter em atenção e por Mindy Aloff, do nova-iorquino Voice of Dance como evento enervante ou a minha escolha para enervante o episódio 6 de Dialogue, de Sasha Waltz, que Renate Klett, do berlinense Freie Autorin escolheu como produção importante.
Entre as escolhas figuram ainda alguns nomes nacionais como Patrícia Portela, escolhida pelo austríaco Helmut Ploebst como coreógrafa relevante, Francisco Camacho, a opção de Pieter T’Jonck para bailarino, na peça Blessed, de Meg Stuart (peça também referida por Arnd Wesemann, editor da Ballettanz, e Sandra Luzina, do Der Tagesspiegel Berlin, como importante), Vera Mantero, como Até que deus é destruído pelo extremo exercício da beleza, escolhida por mim e por Pieter T’Jonck, mas também do crítico e investigador André Lepecki, cujo livro Exausting Dance foi escolhido por Franz Anton Cramer como importante produção (a crítica a este livro sai na próxima edição da OBSCENA, a 1 de Outubro) e a sua performance-conferência Re-Doing, a partir de Allan Kaprow, assinalada por Helmut Ploebst como importante colaboração entre artistas e coreógrafos.
quarta-feira, setembro 12, 2007
Sweet & Tender - a experiência
Todas as histórias têm um início mas esta, porque se quer especial, não tem um mas dois inícios. O primeiro aconteceu em 1992, período que para a dança europeia é de particular significado. As rupturas com aquilo a que se convencionara chamar de novas modernidades tinham possibilitado já uma segunda geração de criadores que começavam agora a agitar as águas da dança. Por iniciativa de Jean-Marc Adolphe nomes como Alain Platel, Meg Stuart, Hahn Rowe, Caterina et Carlotta Sagna, Vera Mantero, Lilia Mestre, Jocelyne Montpetit, Damiano Foa e Laura Simi ou Thierry de Mey passaram um mês em Paris, no Théâtre de la Cité Internationale num projecto a que se deu o nome de SKITe. Cada um deles, a maior parte começando uma carreira internacional e aproveitando a oportunidade para dar largas a colaborações que se prolongariam nos anos seguintes, era responsável pelo convite a mais cinco nomes, não necessariamente da área da dança. E o resultado, intitulado num misto de ingenuidade e de abertura de possibilidades Fragmentos de Experiências, apresentou-se em Paris, Londres e Leuven (Bélgica) criando assim uma plataforma que permitia entender quais os desígnios de uma geração entretanto chamada de contemporânea. Havia uma clara disruptura nas formas e nos modelos de aprendizagem que levavam a que o momento de partilha – o anúncio de um acto de partilha – fosse mais importante. E foi nesse contexto que surgiu a frase-chave para compreender o espírito deste encontro: não proponhas nada que não queiras partilhar.Chamem-lhes tudo menos nova geração
Podemos usar qualquer exemplo que o resultado vai sempre dar ao mesmo: já não há artistas sitiados nem artistas limitados. Tommy Noonan, 24 anos, americano a trabalhar em Freiburg, Alemanha, só porque lhe perguntaram se queria e ele decidiu deixar a instabilidade de Nova Iorque por uma experiência artística mais cúmplice; Tim Darbyshire, 27, australiano que estudou em Angers sem falar palavra de francês e que vacila de cada vez que lhe perguntam se quer mesmo voltar para o outro lado do mundo, Begüm Erciyas, 25, turca que não vai a casa há três anos e está de malas feitas para a Alemanha, Min Kyuong Lee sul-coreana a viver na Nova Zelândia há sete anos e de coração posto na Europa, Monserrat Payró, 32, mexicana, dois filhos e com uma sede de provar que o mundo pode viver de pão e cebolas ou António Pedro Lopes, 26, português, que tem sido intérprete de Fiadeiro e Bel são apenas seis exemplos entre os 32 nomes vindos de Itália, Portugal, México, Áustria, Suiça, Grécia, Bélgica, França, Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Eslovénia, Brasil, Irão, Estados Unidos da América, Noruega e Roménia que durante um mês, de 15 de Agosto a 15 de Setembro, se reuniram em St. Erme, no utópico PA-F do coreógrafo e encenador holandês Jan Ritzema para, simplesmente, tomarem o pulso da criação actual numa troca rica de experiências entre coreógrafos, intérpretes, fotógrafos, artistas plásticos, encenadores e críticos (sim, eu fiz parte do grupo e este é, claro, um texto feito por dentro).It’s breathing time!
Se pensarmos nos casos de Pieter Amper, 25, nascido no Burundi, e de Domenico Giustino, 31, italiano com adolescência passada no Texas, ambos a residir em Bruxelas onde frequentam ou frequentaram a escola de Anne Teresa de Keersmaeker, PARTS, reconhecemos nos seus movimentos aquilo que solidificou a escola belga: o virtuosismo interpretativo sem mácula e a generosa exploração das capacidades extensíveis do corpo. Se olharmos para Hajime Fujita, 25, e Sayaka Kaiwa, 26, ambos japoneses, a última a viver na Alemanha, apercebemo-nos do modo como vão ocupando um espaço discretamente enchendo-o depois com uma gestualidade rica em detalhes e ilusoriamente sem rede. Se observarmos os corpos da sul-coreana Min Kyuong Lee, 33, da alemã Jenny Beyer, 28, da mexicana Monterrat Payró, da suiça nascida no Lesotho, Lucie Eidenbenz, 23, ou de Mariella Greil, 28, austríaca, compreendemos de que forma podem ser traduzidas acções banais para movimentos consequentes, devido, na maior parte dos casos, a uma formação que passou pelo ou começou no bailado clássico. Os casos de Thelma Bonavita, 44, vinda do Brasil, Pavlos Kountouriotis, grego, 25, a residir em Londres, Marko Milic, sérvio de 26 anos, ou do australiano Tim Darbyshire mostram também uma prática concertada e uma vontade em explorar, de forma mais primária, os modelos formatados da dança.O site www.sweetandtender.org reúne material de todos os participantes, incluindo vídeos, fotografias, links para sites, blogs e páginas de cada um dos participantes. Dias 14 e 15, na Comédie de Reims, Le Palais de Tau e La Manége de Reims, o grupo apresenta os seus Fragmentos de Experiências.
quarta-feira, agosto 08, 2007
Sítio das Artes: o debate
Excertos:
Se um programa é sempre genérico (mas este em particular era atento às carências nacionais) e as escolhas nunca se equilibram, a expectativa desta catalogação é fundamentada pela necessidade de perceber as hipóteses de artistas surgidos num contexto pós-dramático, trágico e sobre-referencial. De uma maneira geral, os protagonistas das artes do corpo presentes parecem ter desperdiçado uma oportunidade de reflectirem sobre o que significa criar hoje.
Entre a expectativa mínima e a esperança máxima, as propostas concebidas por Joana Craveiro, Juliana Penna, Vera Santos, Ana Trincão, Miguel Bonneville e Maria Gil, eram unidas por aquilo que o artista plástico Christian Boltanski classificou de «a pequena memória» – que Craveiro citava, e bem –, mas que se tornou um escape para muitos criadores: a defesa de que uma selecção de referências imediatas e geracionais pode substituir sem perda os processos evolutivos da História. Ora, Boltanski não diz apenas que a nossa memória é tão ou mais importante que a memória universal. Diz também, e muito concretamente, que a memória individual só tem importância se confrontada com os efeitos provocados pela memória universal. Ou seja, essa «pequena memória» exige distância e capacidade de auto-crítica, pontos que estas propostas fazem por ignorar através daquilo que lhes é mais imediato, reconhecível e, por vezes, descartável.
TBC
Apesar de já termos sido apresentados e de nos termos cruzado várias vezes (inclusive durante a programação de O Estado do Mundo), lamentavelmente, não foi [Tiago Bartolomeu Costa] um visitante disponível para falar, para questionar, para criticar ou para partilhar um bocado desse mundo imenso que, ao que li no seu comentário, estou longe de tocar enquanto artista porque só pressinto a importância da minha existência. Vi-o no Open Studio, dia da apresentação final, no dia em que esteve a trabalhar no Sítio das Artes, eu estava a observá-lo e posso dizer-lhe que sei que não é fácil estar nesse lugar... a pressão é imensa. A forma que encontrei estes meses para lidar com isso, foi descentrar-me de mim, olhar à volta, cultivar a curiosidade, trocar impressões, ouvir experiências, saber o que se passa, de onde vêm as pessoas... o mundo não é só o que vemos. Ao ler a sua pequena memória do encerramento, fiquei atónita com a natureza generalista de expressões como «Lamentavelmente parecem todos continuar a falar para dentro, para si e para nada» e a visão redutora relativa aos 6 protagonistas (designação tanto para um "herói" como para um "figurante") das artes do corpo, perante um conjunto de 20 artistas (designação não menos rica em sentidos) de 5 países - e como muito bem reconhece, «escolhas que nunca se equilibram» - fazendo parte da particularidade da residência.
Vera Santos
domingo, agosto 05, 2007
Crítica de dança: Ópera, de Tiago Guedes e Maria Duarte
Manifesto operático
Ópera
De Tiago Guedes e Maria Duarte a partir de uma ideia original de Tiago Guedes
Negócio/ZDB, Lisboa
termina hoje (21h30)

No seu célebre manifesto Não ao espectáculo, de 1965, a coreógrafa norte-americana Yvonne Rainer opunha-se, entre outras coisas, “ao virtuosismo, às transformações e magias e faz-de-conta, (…) ao não envolvimento do intérprete ou do espectador (…) aos desejos do espectador, à excentricidade, ao movimento ou ao ser movido”. Esta noção de liberdade (ou este desejo de libertação) inscrevia-se já numa busca incessante pelo primado da criação: o permanente questionamento. De certo modo, mais do que uma preocupação pela forma, ou pelo formato, deveriam os artistas pugnar por um efectivo diálogo e conjugação entre diferentes noções de representação num mesmo espaço e ao mesmo tempo. Ora, enfrentamos hoje, mais de quarenta anos depois, uma inversão desta ideia ao concebermos como mais relevante a categoria na qual o espectáculo se deve inserir do que o que este contém. Deixámos de lado a noção de arte total para nos preocuparmos com categorizações por vezes pífias que surgem, muitas vezes, de equívocos dos próprios criadores.
Ópera, a mais recente criação de Tiago Guedes, faz lembrar esse manifesto por parecer propor uma outra forma de pensar “o espectáculo”, partindo de uma apropriação de algumas das mais constantes preocupações do seu percurso, aqui sujeitas a um diálogo com Dido & Eneias, de Henry Purcell. Nomeadamente a relação com o tempo, o corpo como reagente a um conjunto de manifestações quotidianas, a memória da dança e a sua reformulação e a construção de quadros-vivos, com evidentes relações com as artes plásticas, numa paisagem árida como a cena vazia.
Ao chamar “ópera” a algo que, manifestamente, surge a partir de, primeiro, uma re-organização de materiais e formulações, assente em pressupostos coreográficos e, segundo, de um manifesto sobre a disciplina “dança” a partir do prolongamento, ampliação e perversão daquilo que, no conjunto do seu trabalho pode ser considerado como solipsista, cede o centro desse questionamento a algo maior, e mais relevante, do que os efeitos a que habitualmente recorre. O rigor e a formalidade dos movimentos tendiam, por vezes, para um jogo de resistência(s) entre as fontes de trabalho e os efeitos que cada uma delas exerce nas outras, obrigando a uma cumplicidade do espectador treinado nem sempre vantajosa.
À semelhança do efeito provocado por Pina Bausch em Café Müller, onde soa a mais célebre ária desta ópera Remember Me (que Guedes substitui por uma versão em russo ainda mais trágica), também aqui se trata de uma “confissão extrema de um estado de crise criativa” (Leonetta Bentivoglio, O Teatro de Pina Bausch, 1994), onde o coreógrafo expõe, como ainda não tinha feito, a irresolubilidade da problemática da representação aplicada ao diálogo entre música e dança. Factor tanto mais relevante quanto, noutras ocasiões, o uso de música servia para sublinhar a sua assinatura (Materiais Diversos, 2003), denunciar a dissolução e impotência dos corpos (Trio, 2005) ou caricaturar o que esses corpos faziam (Matrioska, 2007).
A relação entre esta “falsa” ópera, gerada com humor nos sucessivos jogos de aliteração e “tributo” à tradição coreográfica, e o uso da gestualidade através de um playback exigente e expressivamente contido, executado juntamente com a actriz Maria Duarte, remete-nos para um plano mais ambicioso que o coreógrafo usa para resgatar dos códigos estritos da disciplina a noção de espectáculo “livre” postulada por Rainer. A banda sonora é agora um recurso performático desmontável onde o campo referencial se perde (ou se deixa perder). Razão pela qual vamos abandonando a possibilidade de seguir a narrativa para nos concentrarmos na forma como os intérpretes criam uma mecânica própria, que resulta de uma codificação corporal, estilizada e ritual, dos episódios e das personagens narradas na ópera de Purcell. Estabelece-se um exercício de delimitação territorial que volta a impor uma reformulação dos conceitos disciplinares e da tradução contemporânea de expressões artísticas multíplices.
Texto publicado no Ípsilon de 03 de Agosto de 2007. fotografia de ensaio de José Luís Neves.
segunda-feira, julho 23, 2007
O bailarino que vem do frio para salvar o Bolshoi
Há quem diga que Ivan Vasiliev é o novo Baryshnikov da ballet russo. Tem tudo para ser uma estrela: humilde, de origens modestas, do interior da Rússia, despreocupado, com outros interesses para além da dança, a fazer aquilo como quem bebe um copo de água... O jornal britânico The Telegraph não poupa os elogios: "Tawny-skinned, handsome and quick-witted, Ivan Vasiliev is a babe magnet as well as an exultantly talented young artist, a natural stage performer and yet with a serious attitude to his profession way beyond usual 18-year-olds", numa era em que a escola russa atravessa momentos de redefinição dada a escassez de talentos que continuem a provar a excelência da técnica. A ler (e a ver o vídeo do rapaz a dançar), com o devido desconto ao encantamento quase servil da jornalista. terça-feira, julho 10, 2007
Crítica de dança: Blessed, de Meg Stuart
A relação pode não ser evidente, porque Meg Stuart não gosta de trabalhar sobre metáforas, mas ajuda à leitura de Blessed se se souber que a coreógrafa nasceu em Nova Orleães, no Sul dos Estados Unidos, a mesma cidade devastada pelo furacão Katrina no verão de 2005. É daí que vem a constante chuva que devassa a fragilidade dos papelões em forma de abrigo, palmeira e cisne desenhados por Doris Dziersk, que estabelecem diálogos frágeis e poéticos, de um simbolismo desarmante, com uma utopia quase religiosa. É também daí, dos escombros húmidos e dos restos de uma cidade que revelou o outro lado do sonho americano, que vem a força da resistência daqueles seres, impressa na visceral busca dos pertences por Francisco Camacho, mas também no tosco samba de Kotomi Nishiwaki. Corpos errantes que remetem para a natural capacidade humana de cicatrização, contra todas as expectativas e até mesmo a moral e ética.
Ajuda ainda saber que esta peça, minimal não pela simplicidade dos movimentos mas pelo modo como se vai impondo, de surpresa, surge da relação fraterna que Meg Stuart mantém com Francisco Camacho desde os tempos de Disfigure Study, de 1991, peça-fundadora de um discurso de pesquisa sobre o movimento numa sociedade hiper-mediatizada e eminentemente trágica. É que se sente, física e emocionalmente, nos traços de Camacho uma cumplicidade, uma memória, um reconhecimento da linguagem que partilham.
Não é por acaso que a peça manteve, durante muito tempo, o provisório título de Um Solo para Francisco. É que esta carta dela para ele – esse corpo estranho, tão pouco bailarino e tão humanamente cru – é um regresso a um discurso iniciático, de aspiração a um primitivismo e a uma sensorialidade que as mais recentes peças dela, sobretudo as de grupo, tinham levado já para o domínio da irrisão, da frieza descrente, cínica e desesperançada.
Blessed retoma questões exploradas, por exemplo em Alibi, de 2001, marcada inevitavelmente pela tragédia do 11 de Setembro. Também aqui é um corpo em confronto com a sobrevivência ao desastre que resiste e se renova. E não deixa de ser curioso que se possa sugerir que “as peças americanas” de Meg Stuart são aquelas que mais de perto tocam em uma das linhas maiores do seu trabalho: como lidar connosco e em relação ao que movemos?
A peça, austera pelo rigor matemático com que Camacho desenha precisas linhas no espaço cinzento, vai acumulando tensões, seja pela extraordinária banda-sonora de Hahn Rowe, seja pela impossibilidade de imaginar o que mais sucederá. Há uma impassividade no seu rosto, uma constânciamusical, uma ocupação de espaço pela chuva permanente que tornam a peça dramaturgicamente comovente. Mesmo que possamos achar que há uma extensão no tempo que pode fazer perigar as frágeis sequências – e a mudança de figurinos final, auxiliado por Abraham Hurtado, surge aqui como um elemento adicional pouco consistente pois duplica e caricaturiza a tragédia –, há em Blessed um trabalho de profundo rigor e implicação com o mundo negro em que vivemos.
Blessed apresenta-se hoje, às 21h, no Centro Cultural de Belém.
Texto publicado no jornal PÚBLICO a 5 de Julho.
Fotografia de Chris van der Burght
Hoje, às 18h30, na Culturgest, decorre uma conversa sobre a obra de Meg Stuart com as presenças de Gil Mendo, programador de dança da Culturgest, Mark Deputter, director do Festival Alkantara, Myriam van Imerschoot, dramaturgista, e Meg Stuart.
sexta-feira, junho 15, 2007
Clipping: A última vénia
sábado, junho 02, 2007
Crítica de dança : Uma lentidão que parece uma velocidade
Coreografia de Tânia Carvalho
Estúdio da Bomba Suicida, Lisboa
28 de Maio, 22h00
Sala cheia
Até dia 03 de Junho
Ao piano, um copo de veneno
Ao contrário da geração da Nova Dança Portuguesa, que poderíamos datar entre 1989-2000, com nomes como os de Vera Mantero, João Fiadeiro, Francisco Camacho ou Clara Andermatt entre outros, a nova geração de coreógrafos, a fazer-se notar a partir de 2000 (alguns já trabalhavam antes), não se sustenta numa instável posição de confronto e ruptura com o cânone e o legado mais directo da dança. Prosseguindo o trabalho de casos atípicos na cena nacional – como Miguel Pereira, Filipa Francisco e Ana Borralho/João Galante –, tiveram, na liberdade adquirida com e por aqueles outros criadores – precisamente porque continuam activos –, um lato campo de experimentação que não se socorre da referência para se (auto) justificar, como aconteceu com muitos. Uma tendência generalizada nos vários movimentos coreográficos europeus e que, em Portugal, gerou vários equívocos.Sendo genérico, sou também generoso, pois falar de uma nova geração é, em si mesmo, uma facilidade crítica que cria ilusões como a existência de agrupamentos. Uma situação que, se já era difícil para os outros, para estes é praticamente impossível.
Se agora não vai tão longe quanto se esperava, ou desejaria, a coreógrafa joga, ainda assim, com um princípio de composição paralelo, oferecendo-nos a desestruturação sonora, poética e visual de uma mesma partitura. Primeiro a música, experimentada na visível dedicação a que se entrega, tornando-nos cúmplices de um esforço real. A meio, associando o texto de Patrícia Caldeira à desagregação da partitura. Depois no movimento, onde explora aquilo que de mais característico se lhe reconhece: a austeridade e a aridez no gesto controlado, a pesquisa de um limite temporal, a organização de acordo com princípios físicos claros e, diria mesmo, dogmáticos. O modo como combina estes elementos, em particular na fantasmagórica sequência onde o piano toca sozinho e todo o corpo a ele se subjuga, marca a traço trágico um modelo de criação obstinado e autoral.
publicido no jornal Público a 31 de Maio 2007
domingo, maio 27, 2007
Livraria Especializada: Pavillion Noir
“Que livro para esse espaço recente, sem história, sem memória, onde ainda não se apresentou uma obra coreográfica?” A pergunta-desafio abre o negro e modular livro dedicado ao Pavillion Noir. Organizado por Éric Reinhart e publicado pelas Éditions Xavier Barral, a obra homónima, sem indicação de páginas, índice ou capítulos, divide-se entre imagens retiradas do filme de Pierre Coulibeuf e entrevistas a Preljocaj, onde se fala de corpo, movimento e espaço, e ao arquitecto Rudy Ricciotti, que recusa a utopia porque esta renuncia o futuro e prefere “transformar o real”. Conta ainda com contributos do astrofísico Michel Cassé, que reflecte sobre o vazio e a relação espaço-tempo, e da filósofa Jehanne Dautrey, que contextualiza a obra do coreógrafo a partir de palavras-chave como representação ou o diálogo com outras disciplinas. O volume não oferece a possibilidade de uma leitura contínua e formal, já que apresenta os excertos dos discursos de cada um dos intervenientes em terços de páginas independentes. Mas pensado enquanto objecto que dialoga com o potencial de uma obra em aberto, amplia uma das questões maiores do trabalho de Preljocaj: a sincronização. “Com a sincronização o espaço ganha uma textura particular (…), uma dinâmica particular, com certas velocidades e certas trajectórias”, diz. Tal como este livro, aberto na sua organização e labiríntico na sua forma, que permite ao leitor construir a sua própria viagem ao interior do edifício matemático de Ricciotti e à linguagem de Preljocaj (€35).sábado, maio 26, 2007
Livraria Especializada: Panorama de la danse contemporaine
Panorama de la danse contemporaine
de Rosita Boisseau
Mapa para a dança contemporânea
Por isso o livro abre com uma apresentação genérica onde fala da influência de Maurice Béjart, Anna Halprin e Merce Cunningham na definição daquilo que se entende por dança contemporânea, traçando um percurso genérico sobre o modo como evoluiu a concepção de dança do final dos anos 70 até hoje. Os nomes são apresentados por ordem alfabética e acompanhados por extensa iconografia, muitas vezes do mesmo espectáculo, biografia seleccionada, breve perfil e questionário proustiano. Na selecção nota-se uma vontade de destacar a França e a sua realidade, “berço da dança contemporânea e o país onde os artistas são mais vigorosamente apoiados pelas instituições”, ficando claro tratar-se de uma obra dirigida ao público francês que busca “ainda e sempre os códigos de acesso a uma arte mais próxima do irracional que da lógica: não para enquadrar uma obra, mas para saborear os interstícios, lá onde a liberdade de cada um desliza e se descobre”. Razão pela qual não falta nenhum dos dezanove directores dos Centros Coreográficos Nacionais, tal como nomes que se têm destacado na/da cena francesa: Boris Charmatz, Allain Buffard ou Geisha Fontaine. Há ainda coreógrafos de Espanha, Bélgica, Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Japão e Itália, bem como do Burkina-Faso e Israel, com os quais a realidade cultural francesa mantém relações.
No que respeita ao seu conteúdo, são particularmente fascinantes algumas fotografias, as anotações de Bill T. Jones ou Anne Teresa de Keersmaeker, o croqui do espectáculo Régi, de Charmatz ou o esquema coreográfico de Susan Buirge. Mas a abordagem à la Proust impede conhecer, pela sua forma limitada, o fascinante processo de criação de alguns destes nomes. Boisseau quer saber “o espectáculo marcante”, “o lugar do íntimo”, “o sentido a dar ao trabalho” de cada um, um som ou uma cor ou parte do corpo que sirva de inspiração e, entre outras mais ou menos genéricas, o calcanhar de Aquiles de cada coreógrafo. Entre os que sintetizam as respostas e os que não responderam (sobretudo nomes fora de França), existem aqueles que se expõem, como Gilles Jobin que busca uma cena que o leve à prisão e os que consideram, como Daniel Larrieu, que o último tabu é “o fim da arte”. Sendo um trabalho meritório e louvável, não deixam de ecoar como metáfora desta incompletude as palavras de Caterine Sagna: “se encontrasse o último tabu, teria tema para a obra-prima que todos esperam, autores e espectadores” (Ed. Textuel, €59).
domingo, março 18, 2007
William Forsythe: a ambígua verdade
Numa crua análise à figura e ao percurso de William Forsythe, as autoras de La Danse au XXe Siècle [1], Isabelle Ginot e Marcelle Michel, apresentam-no como “o símbolo mais marcante de integração de uma certa modernidade no mundo clássico”. Mas não deixam de referir “que atrás das suas lentes de ferro, ele mantém um olhar frio sobre uma época de crise e decadência. Pensando-o em relação a Merce Cunningham, que persegue como que sob hipnose uma aventura com o movimento, Forsythe não tem nada de revolucionário. É sobretudo um divulgador utilizando todos os estilos, todos os procedimentos já utilizados por outros coreógrafos para descrever o estado do fim de século”.Não nos podemos esquecer que Forsythe é contemporâneo de uma corrente artística que teve como equivalentes nas artes plásticas um Andy Warhol, na música um David Bowie e no cinema um Jean-Luc Godard. Ou seja, a reformulação como resposta ao contexto é quase genética. Há uma consciência situacional que o força a este jogo de reciclagem. E Forsythe nunca escondeu a ambição de dar à sua assinatura uma ambiguidade que lhe permitisse a reformulação estética, de forma e conteúdo, consoante os ventos soprassem. O seu percurso, de um pós-neo-clássico à manipulação das novas tecnologias e da vídeo-dança levaram a que se questionasse se era uma fraude ou o grande génio do século XX.
A dúvida permaneceu sempre e assombra o legado deste coreógrafo norte-americano, essencial para compreender a profunda crise que atravessou (e atravessa) a dança nos Estados Unidos depois de George Balanchine, Merce Cunningham e do Judson Dance Theater Group. Mas sobretudo após o advento da dança contemporânea ter deslocado para a Europa, e em particular para o eixo França-Alemanha, o epicentro das reformulações coreográficas. Forsythe inscreveu o seu nome na dança do último quartel do século XX através de um percurso onde reciclou os códigos, sabendo sempre da falibilidade do que fazia. É por isso que mais facilmente se contextualiza o seu trabalho no panorama europeu que no americano – isso mesmo provam as sucessivas encomendas e, desde 1984, a direcção do Ballet de Frankfurt, na Alemanha.
Ele diz: “Eu não sou mais herdeiro de Balanchine que ele era de Petipa. (...) Vivo no tempo da bomba atómica, da poluição e da SIDA, na época do stress, da violência e dos computadores… Sou um coreógrafo de hoje. Trabalho com o vocabulário clássico porque é o meu e me apercebi que na sua desestruturação retiramos as partes estranhas até aqui ocultadas pelo ballet. Considero o meu trabalho como uma actividade de reposicionamento”[2].
The Vertiginous Thrill of Exactitude é disso exemplo. Na peça de 1996 recordamos a resistente organicidade e a precisão suíça de um Concerto Barroco, de Balanchine (1941), mas também a necessária desmontagem contemporânea que recusa a narrativa. Mas sobretudo evita a cedência à dança moderna, vistosa e fátua. Existe, num espaço e num tempo particulares, o do momento da apresentação, como se um hiato temporal extremo ocupasse o palco. É uma elegantemente anacrónica e emocionada peça onde Forsythe leva mais longe a ideia de uma coreografia que vive de cruzamentos referenciais. Ao imprimir, apenas através da música, uma organização dos intérpretes, joga a partir de dados identificáveis regenerando-os.
Não estamos já, e apenas, no diálogo coreografia-música, no que isto pressupõe de cedências mútuas (naturalmente com a subjugação da primeira à segunda). Há um outro elemento-chave: o intérprete, agora humanizado. Forsythe explora o esforço físico (“bailarinos-atletas” chamaram certa vez aos seus intérpretes), mas integra-o na estrutura cénica. É ele o centro desta peça, e não apenas o movimento. A prova disso está na apropriação especial do último andamento da 9ª Sinfonia de Schubert. Criando de forma extraordinária um jogo coreográfico de solos, trios e duetos, ora sincopados ora sincronizados, provoca um jogo de xadrez entre os bailarinos que resulta numa estrutura cumulativa, cada vez mais vertiginosa, quase transcendente. Os intérpretes perdem-se numa espiral de movimentos intensa, noção reforçada pela necessária exactidão com que a devem dançar. Ficamos com a sensação de que poderiam continuar por horas já que a peça não tem necessariamente um princípio, meio e fim. E num tempo de indefinições como este em que vivemos não poderia haver melhor representação.
sexta-feira, março 09, 2007
Crítica de dança: Matrioska, de Tiago Guedes
Pensar que as peças para crianças devem partir de uma didáctica é não só redutor mas impeditivo de uma verdadeira formação intelectual. Coloca-se uma importante questão: que crianças estaremos a formar? Almada Negreiros dizia que “uma criança é apenas um adulto de olhos abertos”. Sugerir em vez de explicar pode ser a fórmula indicada, mesmo que obrigue à existência de zonas cinzentas de compreensão. A criação em dança é ainda mais particular já que nela se impõe a tomada de consciência, pela criança, de que tem um corpo. E a coreografia trabalha a compreensão de um universo por vezes apenas sensorial e abstracto.É neste campo da descoberta que se enquadra Matrioska, primeira peça infantil de Tiago Guedes, cujo trabalho geral parte de questões e hipóteses sobre o tempo coreográfico e a procura de um lugar para o corpo. Na peça anterior, Trio (2005), explorava a noção e a presença do corpo no espaço, estendendo o gesto numa vagarosidade sedutora e hipnotizante. A instalação de uma imagem (mas também de um conceito) está presente em Matrioska, onde se ampliam dois dos eixos fundamentais do seu percurso – a relação com o tempo e o diálogo com as artes plásticas.
No que respeita ao tempo faz demorar as sequências num jogo de ilusões que vem de Um Solo (2002) e Materiais Diversos (2003), feitas para adultos mas entusiasmadamente recebidas por crianças. Um gesto arriscado porque dirigido a uma faixa etária, 6 a 10 anos, cujo grau de exigência começa a ser contaminado pela percepção que têm da velocidade que os rodeia. No diálogo com as artes plásticas, substituindo o uso de objectos casuísticos (em Um Solo biográficos, em Materiais Diversos recicláveis) por um tempo de revelações, sempre sugestivas, mesmo se desenhando uma ténue narrativa.
Matrioska é um exercício de inspirada desenvoltura em torno da fantasia, não apenas porque a menina não sabe que “coisa” é aquela que a persegue, mas também porque ela é muito menos inocente do que se apresenta. Irónica fábula negra, para a qual contribui uma imaginativa e multifacetada banda sonora de Sérgio Cruz, é absolutamente extraordinário verificar que a coerência do discurso de um dos mais relevantes nomes da nova geração da dança soube abrir o seu universo aos mais novos, cativando-os através de uma cumplicidade que só as histórias simples proporcionam. Mas mais revelador ainda é o modo como não cede nessa pesquisa, antes transformando o gesto num espaço de desafios e expectativas.
[texto publicado no jornal Público, 05 Março 2007. Fotografia: Dimitri Wazamski]
quinta-feira, março 08, 2007
CNB comemora 30 anos a partir de hoje com novo programa
Apenas a primeira das múltiplas celebrações que a Companhia Nacional de Bailado prepara para assinalar a passagem de 30 anos sobre a sua fundação – que em Abril trarão ao Teatro Camões For The Peace of Children of Today and Tomorrow, trabalho de 1999 de Pina Bausch –, o Programa Primavera reúne, já em Março, quatro coreografias de autores idiossincráticos: William Forsythe, Mauro Bigonzetti, Gagik Ismailian e Olga Roriz. Todas as peças são interpretadas pela CNB neste programa pela primeira vez, que se dançará dias 8, 9, 10, 16, 17, 18, 23 e 24 deste mês.The Vertiginous Thrill of Exactitude, de Forsythe sobre o último andamento da Nona Sinfonia de Schubert, foi estreada pelo Frankfurt Ballet em 1996 e, escreveu a crítica Roslyn Sulcas, “reveste-se de todos os elementos tradicionais da dança clássica: tutus, sapatilhas de ponta, virtuosismo, lirismo e uma agradável formalidade na relação entre os sexos”, numa “arrebatadora demonstração de técnica clássica”.
Mas o destaque do programa vai para Treze Gestos de um Corpo, de Olga Roriz, cuja estreia absoluta, pelo Ballet Gulbenkian, teve lugar há precisamente 20 anos, a 27 de Março de 1987, em Lisboa (na foto). Com música de António Emiliano, luzes de Orlando Worm e cenário e figurinos de Nuno Carinhas, a criação de Roriz viria a tornar-se icónica para o trabalho do Ballet nos anos 80, dado ter marcado público, crítica e até uma geração de bailarinos (quase trinta) que interpretaram a peça nas suas numerosas reposições e digressões: dois elencos, de treze bailarinos e treze bailarinas, com figurinos indistintamente “masculinizantes”.
Treze Gestos de um Corpo parte d’A Obra ao Negro, de Marguerite Yourcenar, para se definir estruturalmente: “acontecia-lhe muitas vezes reabrir uma porta, simplesmente para se assegurar que não a tinha fechado atrás de si para sempre, demonstrando-se, a si mesmo, a sua curta liberdade de homem”. A citação remete para as treze portas de que surgem, um a um, os intérpretes, numa secção inicial que, como escreveu o crítico Clement Crisp, “se assemelha a uma imagem ondulante, pois o gesto de se levantarem e tirarem o casaco passa sucessivamente ao longo da fila de homens sentados. É um conceito fascinante que prolonga e ao mesmo tempo fragmenta a acção, tal como as fotografias analíticas do movimento de Eadweard Muybridge”.
Seguem-se os treze solos, que – assegura Roriz – “têm dinâmicas e exigências técnicas distintas”, implicando uma “cuidada distribuição de papéis”. Nesta peça “sobre o reflexo de uma pessoa em frente de dois espelhos paralelos que formam uma multiplicação de imagens até ao infinito”, a sucessão de solos evidencia que “em cada um desses espelhos a imagem não é igual, é como se em cada um houvesse uma evolução, uma transformação do movimento, uma continuação do gesto anterior”. Yourcenar dizia-o assim: “Ele enumerava as qualidades da substância que via em sonhos. A ligeireza, a impalpabilidade, a incoerência, a liberdade total em relação ao tempo, a mobilidade das formas da pessoa que faz com que cada uma sejam várias e que todas sejam reduzidas a uma”. A raiva, o medo, a angústia, a fúria, o desmaio, vivido por um homem (ou uma mulher) estilhaçado em treze corpos.
Refira-se que a CNB é a quinta companhia a interpretar Treze Gestos de um Corpo. Depois do Ballet Gulbenkian em 1987 (que a levou à cena 81 vezes), dançaram-na o brasileiro Ballet Teatro Guaíra em 1990 (então sob direcção de Carlos Trincheiras), o Ballet Nacional de Espanha em 1992 (sob direcção de Nacho Duato, que assumiu um dos solos), e, em Itália, o Maggiodanza, Ballet do Teatro Maggio Fiorentino em 1999 (sob direcção de Davide Bombana) e, em 2001, o Ballet do Teatro Alla Scala (dirigido por Frédéric Olivieri). Mehmet Balkan re-convoca-a agora a Lisboa.
[texto publicado na revista OBSCENA #2, p.24, e da responsabilidade da redacção. Fotografia: Eduardo Saraiva]

