segunda-feira, Julho 31, 2006

A dança no YouTube I: Café Müller, de Pina Bausch


Cafe Müller (1978)
Direcção e Coreografia de Pina Bausch. Música de Henry Purcell. Cenário de Rolf Borzik. Estreia: 20 de Maio 1978, Wuppertal, Alemanha





«A história de Cafe Müller é a história de uma excepção: 40 minutos de duração e seis intérpretes, entre os quais a própria Pina Bausch, que só no Cafe Müller decide aparecer e dançar em cena. […] A sua própria génese constituiu uma excepção […] por exigências do cartaz, quando o mesmo bailado foi encomendado a quatro coreógrafos: além de Pina Bausch, Hans Pop (seu assistente), Gehrard Bohner, e o romeno Gigi Caciuleanu. Cada um destes criadores devia inspirar-se numa cenografia realizada propositadamente por Rolf Borzik, e cada uma das quatro propostas tinha o mesmo título: Cafe Müller.

A cena – uma divisão cinzenta com painéis de vidro transparentes e uma grande porta giratória de lado, ao fundo – podia modificar-se segundo o desenvolvimento de cada coreografia. O Cafe Müller de Pina Bausch era o último da noite: a cena enchia-se de cadeiras e mesinhas escuras, só para este trabalho. […] A acção é despojada e cortante. Na floresta de cadeiras vazias e gastas, pesa a angústia de uma solidão remota. Pina Bausch recorta-se ao fundo, lgeira e espectral, com uma túnica de tom claro. O passo é curto e incerto, os olhos estão fechados, as mãos estendidas para a frente: vidente sonâmbula, fantasma da consciência de si própria.

Levada pelo som dilacerante da música de Purcell, Malou Airaudo dança movimentos entrecortados, de circularidade suave, e as mesmas sequências são retomadas pela coreógrafa, que faz o papel de duplo, mas com um tempo sempre desfasado circula às cegas na selva de mesinhas e de cadeiras, que vão sendo retiradas por Borzik, assim traçando o seu percurso. […] Cafe Müller é uma lamentação de amor, uma metáfora doce e inquieta sobre a impossibilidade de um contacto profundo. É um trabalho estruturalmente simples e emocionalmente flagelante, que impressiona pela sua pureza e coerência. A desolação ambiental, o langor fúnebre, a violência da tipificação do relacionamento do casal, constituem elementos de verdade, de absoluta sinceridade expressiva – para além de psicologias ou simbologias e de qualquer tentativa de ‘realismo’. Todo o significado é confiado ao movimento: aos gestos e à dança […] Pina Bausch celebra a sua problemática identidade de autora.

Cafe Müller é apenas uma obra sobre a mortalidade do amor. É também – e sobretudo – a confissão extrema de um estado de crise criativa: Cafe Müller consagra uma passagem, dramatizando uma tensão de pesquisa que se coloca no plano da interrogação. ‘Com Cafe Müller, Pina Bausch também criou o seu Oito e Meio’, foi o comentário de Federico Fellini, após ter visto o espectáculo.»

in O Teatro de Pina Bausch, de Leoneta Bentivoglio, edição do ACARTE/Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, pp. 98-99. Tradução de Maria José Casal-Ribeiro. Edição e links da responsabilidade do blog.

o livro encontra-se à venda na livraria da Fundação Calouste Gulbenkian por 13,46€, sendo a versão portuguesa da edição original italiana feita em 1985. Foi editado no âmbito da apresentação em Portugal, nos Encontros ACARTE 1994, de uma retrospectiva da obra da coreógrafa alemã, na altura a segunda fora de Wuppertal, a cidade alemã onde a companhia reside. Cafe Müller foi uma das peças apresentadas, ao lado de A Sagração da Primavera, Kontakthof, 1980 e Vicktor. Ler aqui breve nota sobre o livro da autoria de Miguel-Pedro Quadrio. Ler aqui ensaio de Patrícia Mendes, A dança-teatro e o paradoxo, sobre o trabalho de Pina Bausch, publicado neste blog. Ler breve nota sobre Falem-me de amor, livro que colige diversos ensaios sobre a coreógrafa.

1 comentário:

Andre disse...

Ah, saudades de espectáculos assim...