Mostrar mensagens com a etiqueta OBSCENA. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta OBSCENA. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Revista OBSCENA lança número de aniversário em versão papel


A OBSCENA – revista de artes performativas lança o seu número de aniversário, o 9º, no próximo dia 30 de Janeiro, na habitual edição em pdf, disponível no sítio, mas também em versão papel, com 84 páginas e uma tiragem de 5 mil exemplares distribuídos por vários pontos culturais do país.

Quando há um ano apresentámos esta revista prometemos “contribuir para a revitalização do debate, da reflexão exigente, da indispensável intervenção pública (…) enquanto fórum participado, em vez de observatório isolado, combinando crítica, opinião, reportagem, análise, ensaio, fotografia, actualidade e entrevista num conjunto de textos e imagens que possa abrir uma janela para o ar do tempo que se respira”. Um ano e nove números depois continuamos a assinar essa carta de princípios, tendo alargado a reflexão do campo das artes performativas para um plano cultural mais vasto. Nesse editorial de início dizíamos também: “a surge sem promessas”. Reafirmamos essa intenção. Sem promessas não porque as receemos ou não queiramos ser julgados na eventualidade de falharmos, mas porque queremos uma revista permeável ao contexto, absorvendo-o ou devolvendo-lhe novos desafios que surpreendam e joguem com essa expectativa. Gostamos de pensar que a OBSCENA se regenera, reinventa e evolui de número para número. Quando perguntam se é difícil, preferimos dizer: já está feito!

Neste número, que é uma edição especial, a OBSCENA antecipa a apresentação de vários espectáculos que, na sua maioria, se apresentarão nos próximos meses em Portugal, através de perfis e entrevistas a actores, encenadores, coreógrafos e dramaturgos. Entre eles contam-se os nomes, na secção internacional, de Raimund Hoghe, Emma Dante, Christoph Marthaler, Enrique Diaz, Olga Mesa, Ivana Müller e Anne Juren, enquanto que na secção nacional falamos de Alfredo Martins, Joana Craveiro, Francisco Luís Parreira, Old Jerusalem, Lídia Jorge e a Orquestra do Algarve, António Olaio, Visões Úteis e do Teatro Regional da Serra do Montemuro. Mas também cruzamos o nacional e o internacional numa conversa/duelo entre o Teatro Praga e a Forced Entertainment. Porque este é um número especial, decidimos dar mais cartas brancas a artistas visuais do que é habitual, tendo aceite o convite José Luís Neves, Mircea Cantor e Ramona Poenaru. Para além disso a revista conta com as já habituais colunas de opinião de André Dourado, António Pinto Ribeiro, Bandeira, Eugénia Vasques e Mónica Guerreiro.



quinta-feira, dezembro 20, 2007

OBSCENA #8 disponível a partir de hoje


No último número do ano focamos o olhar em Portugal, no âmbito do dossier sobre políticas culturais que temos vindo a apresentar desde Setembro. Fomos perguntar a André Dourado, Catarina Vaz Pinto, Cristina Peres, Jorge Salavisa, Maria José Stock e Miguel Abreu se existe uma política para a cultura em Portugal. Uma mesa-redonda onde temas como a formação de públicos, o confronto entre infra-estruturas e conteúdos, políticas de continuidade e relações económicas entre Estado, mecenas e sociedade civil, traçam mapas para o entendimento do que mudou e ficou por fazer desde a entrada na União Europeia, em 1996.

O mesmo dossier inclui o balanço do encontro Teatro Europa, organizado pelo Teatro Nacional S. João, no início do mês de Dezembro, e ainda contributos de Adolfo Mesquita Nunes, que reflecte sobre direito e cultura no espaço comunitário, e de Nuno Grande, arquitecto e responsável pela programação da área de Arquitectura e Cidade da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, que nos dá conta de uma certa ideia de política cultural sob o prisma das grandes intervenções públicas urbanas. André Dourado reflecte, na sua coluna habitual, sobre o novo pólo Hermitage, instalado no palácio da Ajuda, em Lisboa.

Outro dossier importante é aquele que dedicamos às relações entre o Hiv/Sida e a criação artística, com um mapeamento dos exemplos portugueses, entre teatro, dança, cinema e televisão, num texto-viagem de Elisabete França. Um dossier que inclui ainda reflexões de Thomas Hahn e Gérard Mayen sobre o que a dança fez à sida, e a sida fez à dança, bem como olhares sobre o trabalho dos coreógrafos Dominique Bagouet, Raimund Hoghe e Bill T. Jones, e dos encenadores Arianne Mnouchkine, Krzystof Warlikowsky e Reza Abdoh.

Mais: traçamos o perfil dramatúrgico de José Maria Vieira Mendes, antecipando a apresentação em Lisboa de O Avarento ou a última festa, peça escrita para o Teatro Praga que estreou em Junho no Porto e que também criticamos; falamos com os coreógrafos Alain Buffard, Claudia Triozzi e Vera Mantero, a propósito da peça (Not) a love song, de Buffard; damos carta branca a Catarina Botelho, prémio Bes Photo Revelação 2007; e publicamos a segunda parte do ensaio Indústrias Criativas, de Bruno Vasconcelos, Gustavo Sugahara, Miguel Magalhães e Pedro Costa.

Para além das crónicas de Mónica Guerreiro e Eugénia Vasques, bem como do cartoon do Bandeira, acolhemos um novo cronista, o ensaísta e programador António Pinto Ribeiro que, a partir de agora, nos dará conta de viagens, referências e perspectivas, num espaço intitulado A Face Oculta.

Voltamos no fim de Janeiro para uma edição especial, porque de aniversário. Feliz ano 2008.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Agenda

No Teatro Nacional D. Maria II está patente, desde dia 15, a peça Boneca, com encenação de Nuno Cardoso, a partir de A casa de bonecas, de Ibsen. João Paulo Sousa viu a peça em Guimarães, na altura da estreia, e escreveu sobre ela na OBSCENA #7:

A qualidade mais evidente da encenação de Boneca, da responsabilidade de Nuno Cardoso, é a criação de uma espécie de cenário duplo, articulando as noções de interior e de exterior, não apenas no que diz respeito à acção, mas também quanto à própria presença dos actores em palco. (…) Esta estratégia cénica desvela um olhar sobre a peça de Ibsen que potencia a dimensão de fingimento ou de representação inerente ao jogo social, em especial no caso de uma sociedade com regras comportamentais relativamente rígidas. Ao englobar quase todo o texto original, a tradução de Fernando Villas-Boas possibilita a apresentação detalhada dos conflitos entre as personagens, colocando os actores (e, naturalmente, o encenador) perante a necessidade de definir um tom que se adeqúe ao desenvolvimento dramático. (…) De certo modo, o que está aqui em causa é também a resistência da peça de Ibsen à passagem do tempo, não apenas por causa das alterações dos condicionalismos sociais que tiveram lugar desde o final do século XIX até hoje, mas sobretudo porque as personagens parecem demasiado presas à lógica de articulação entre a máscara e a face íntima de cada um.

Leia a crítica na íntegra aqui.


No Museu Berardo está patente desde dia 14 a exposição Teatro sem Teatro, que Pedro Manuel viu em Barcelona, no Museo de Arte Contemporanea, este verão, e sobre a qual escreveu na OBSCENA #6.

Aquilo que sempre aproximou o teatro e as artes plásticas numa relação íntima, ao longo de séculos de cruzamentos e influências, foi o conceito de representação. Não tanto como conceito crítico mas como influência de parte a parte na criação de imagens, de coisas para ver e de pontos de vista, nos recursos técnicos, no estatuto do corpo, na representação da ordem e desordem do mundo. Na exposição Un teatre sense teatre (…) são essas trocas – mais que o conceito de representação – que estão à vista. Descentramento, desilusão, relação entre actor e espectador, entre obra e espectador (the viewer), são alguns dos pressupostos que podemos reconhecer na teatralidade que atravessa as obras em exposição. Mas onde se pudesse supor uma progressão histórica das relações entre teatro e artes plásticas no século XX, das vanguardas à legitimação da performance, encontra-se antes a presença do modelo teatral, ou da teatralidade, como influência excêntrica que age sobre as obras de arte. Ou seja, à superfície o tema da exposição será o teatro, e a noção de espectáculo está mais ou menos presente em cada peça, mas o que está em causa é a exposição dos efeitos de teatro sobre o pictural, o plástico, o visual, abrindo-o ao acontecimento, ao espaço, ao corpo.

Leia a crítica na íntegra aqui.

quinta-feira, novembro 08, 2007

La Ribot explicada por e às crianças

O dvd Treintaycuatropiécesdistingués&onestriptease, de La Ribot, já foi criticado na OBSCENA #6. Mas duas meninas de Valência decidiram que era preciso explicar aquilo como se tivessemos todos quatro anos. Eis o resultado:

A Primavera de Xavier

O espectáculo vem ao Alkantara em 2008, a crítica foi publicada no último número da OBSCENA e a peça mostra-se, em excertos, no You Tube. Xavier Le Roy criou a sua própria Sagração da Primavera a partir de Simon Rattle, o maestro.

quinta-feira, novembro 01, 2007

OBSCENA #7 - Novembro (disponível a partir de hoje)



O que é a identidade cultural europeia? | Robert Rauschenberg
Pré-publicação: Fundação Calouste Gulbenkian 50 anos 1956-2006
Claude Régy | DocLisboa 2007 |Carta branca a João Leonardo | Rodrigo García
Yvonne Rainer e Trisha Brown em diálogo | DBM – Danse Basin Mediterrannée
Eszter Salamon | Indústrias Criativas

www.revistaobscena.com




Com a edição de Novembro da OBSCENA prosseguimos a reflexão em torno da identidade cultural europeia. Depois de no número passado nos termos dedicado às políticas culturais traçadas por Bruxelas, convidámos agora um painel de agentes culturais dos diversos Estados-membros para nos falarem daquilo que entendem por identidade nacional e identidade europeia. Na primeira parte deste dossier especial recolhemos as opiniões de onze países: Alemanha, Bélgica, Bulgária, Dinamarca, Espanha, Eslovénia Grécia, Holanda, Hungria, Roménia e Suécia em textos assinados por críticos, encenadores, artistas plásticos, comissários, jornalistas e investigadores.

Mas este é ainda um número que reflecte sobre o futuro da cultura na sociedade contemporânea através de um ensaio que põe em discussão o papel que as indústrias criativas têm vindo a desempenhar na definição do acesso aos bens culturais. Publicamos em Novembro a primeira parte deste ensaio, deixando para Dezembro a apresentação de casos práticos, mês em que também concluiremos o dossier dedicado à Europa cultural.

A OBSCENA #7 traz-lhe ainda, em primeira mão, a pré-publicação do livro comemorativo dos 50 anos da Fundação Calouste Gulbenkian, num longo percurso, assinado por António Pinto Ribeiro, através da implicação da FCG na história cultural do país.

Novembro é também o mês em que a revista se abre, de forma assumida, ao papel que as outras disciplinas artísticas ocupam na construção de um discurso sobre a criação performática. A exposição que Serralves dedica a Robert Rauschenberg e a recente edição do DocLisboa são temas em destaque, num número que traz uma carta branca de João Leonardo, Prémio EDP Novos Artistas 2005.

Para além disso damos-lhe entrevistas com os encenadores Claude Régy e Rodrigo Garcia, que se apresentam este mês em Paris, no âmbito do 36º Festival d’Automne e publicamos um diálogo entre as coreógrafas Trisha Brown e Yvonne Rainer a propósito do seu trabalho, de Rauschenberg e do modo como concebem a criação em dança.

Pode ainda contar com as habituais colunas de opinião de André Dourado, Eugénia Vasques e Mónica Guerreiro, o cartoon do Bandeira, críticas, recensões e 150 páginas de muita informação que lhe vão chegar, certamente, até 15 de Dezembro, data em que sai a última OBSCENA de 2007.

E porque o nosso site mudou pedimos-lhe que efectue novo registo caso queira assinar a revista.

Boas leituras.

terça-feira, outubro 16, 2007

A urgência da teoria

O blog O Estado do Mundo, que dá conta das actividades daquela plataforma organizada no âmbito dos 50 anos da Fundação Calouste Gulbenkian, disponibilizou o texto Uma nova centralidade para o pensamento crítico, que Isabel Gil, Professora e Directora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, leu na apresentação do livro A urgência da teoria, editado pela Tinta da China.

"A tarefa que a plataforma 2 do Estado do Mundo se coloca com as grandes lições 'A Urgência da Teoria' é por isso difícil e ousada, pois apresenta-se como projecto de recanonização da teoria em novo contexto. Buscando desconstruir a teoria exercida de cima para baixo, por uma elite para um conjunto de conversos ensimesmados na sua torre de marfim, demonstra a necessidade de articular o pensamento crítico com a complexa realidade contemporânea e a utilidade da razão para a educação do género humano apelando, como refere Miguel Vale de Almeida na sua lição, à necessidade de '[...] sistematizar zonas de tensão crítica entre o analítico e o político.' A teoria de que aqui se fala surge assim como a théoria do pensamento grego, que se afirma como projecto abrangente e crítico de observação do mundo e que contribui para o que Aristóteles considerava a finalidade da ética e da política: a obtenção da 'vida boa', configurando, contudo, a complexidade deste mundo que como nos diz Bernard Stiegler está '[...]a fazer-se, mas sempre sob a ameaça de se desfazer.'

O volume A Urgência da Teoria colige as lições apresentadas por Marc Ferro, Homi Bhabha, Paul Gilroy, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Danièle Cohn, Daniel Miller, Andy Pratt, Bernard Stiegler, António Cícero, Filipe Duarte Santos, Paul D. Miller e Mehdi Belhaj Kacem. Expondo um complexo mapa do modo como as ciências, da antropologia, à filosofia, passando pelos estudos culturais, pela ciência política, pelas ciências do ambiente e pela história concebem o nosso difícil momento, esta obra apresenta na sua diversidade, abordagens complementares e argumentos opostos, esboçados entre o pessimismo e a esperança, o realismo e a utopia. Concebe-se assim uma reflexão que se desloca do tópico ao u-tópico, que se ancora dentro dos limites académicos da disciplina e nesse campo reflecte sobre a ciência e o Estado do Mundo, como é o caso de Pedro Magalhães, para a Ciência Política, ou de Danièle Cohn para a Estética; ou então que lança o projecto teórico como modelo explicativo da complexidade do humano, pugnando por uma realidade a vir, como o fazem Homi Bhabha ou Paul Gilroy."

Isabel Gil foi também a autora convidada para pensar a programação d'O Estado do Mundo para o dossier que a OBSCENA #3 lhe dedicou

segunda-feira, outubro 01, 2007

OBSCENA #6 de regresso com dossier sobre a Europa Cultural


O regresso da OBSCENA neste primeiro dia de outubro, é feito sob a égide das políticas culturais europeias, aproveitando os últimos meses da Presidência Portuguesa da União Europeia. Acompanhámos o Forum Cultural para a Europa, que teve lugar em Lisboa nos passados dias 26 e 27 de Setembro, e falámos com o Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, numa entrevista publicada em colaboração com a revista Mouvement. Falámos ainda com o eurodeputado, membro da Comissão de Educação e Cultura, Vasco Graça Moura. Ambas as entrevistas dão importantes pistas para a compreensão do lugar que a cultura ocupa no discurso político europeu. Publicamos também um ensaio de Miguel Magalhães sobre os diferentes modelos e práticas de governação nas instituições públicas e privadas portuguesas. E acolhemos como novo colaborador o consultor André Dourado, figura reconhecida nos corredores da cultura, que a partir deste número passa a ocupar o “camarote par” da OBSCENA.

Numa edição que marca o início da colaboração com o gabinete de design Triplinfinito, responsáveis pela nova imagem da revista e do site (agora com outras funcionalidades e conteúdos), traçamos os perfis da libanesa Lina Saneh e da iraniana Leila, nomes que marcam a programação do 36º Festival d’Automne à Paris. Ao longo dos próximos números iremos continuar a acompanhar este festival francês com entrevistas, perfis, ensaios e críticas. Neste número pode também ler a crítica ao mais recente espectáculo de Mathilde Monnier, Tempo 76, que chega a Lisboa em Abril de 2008, e à ópera Neither, que o compositor Morton Feldman compôs a partir de um poema de libreto de Samuel Beckett). França marca ainda presença com um ensaio do importante teórico Patrice Pavis, que reflecte sobre o confronto entre crítica e encenação. Este dossier conta com o apoio do Instituto Franco-Português, a partir de agora parceiro da OBSCENA.

Mas recordamos também Ingmar Bergman, através de um comovente perfil assinado pelo poeta Armando Silva Carvalho, tradutor dos seus guiões e biografia. Convidamo-lo a reflectir sobre a autoria na dança, a partir de um ensaio de Nirvana Marinho, a visitar o Performing Arts Forum, no nordeste de França, numa carta branca ao fotógrafo brasileiro Pedro Bastos Jr., e antecipamos a exposição Um teatro sem teatro que, a partir de Novembro, se apresenta no Museu Berardo, em Lisboa.

E, claro, as habituais críticas e reportagens, mais as opiniões de Bandeira, Mónica Guerreiro e Eugénia Vasques.

Bem-vindo ao Outono.

(se já é assinante da OBSCENA, pedimos-lhe que faça de novo o seu registo no site, agora com um outro sistema de assinaturas)

quinta-feira, junho 21, 2007

Return to Sender, de Helena Waldmann, até sexta na Gulbenkian


Um Irão íntimo

Afinal que sabemos nós do Irão, da sua cultura e das suas gentes? Que temos nós a dizer sobre o que lá se passa? Em que lugar – e a que distância higiénica – nos colocamos para dizer que aquilo não tem a ver connosco?

Helena Waldmann, a coreógrafa alemã que esta semana traz ao Estado do Mundo Return to Sender (21 a 23, Fundação Calouste Gulbenkian) sabe um pouco mais do que a maior parte de nós. “Mas não sei tudo”, diz, afirmativa e aguerrida. A peça estreou em França no Festival Montpellier Dance 2005 substituindo uma outra, também de Waldmann, chamada Letters from Tentland, que havia sido proibida pelo regime iraniano menos de um mês antes da apresentação.

Começou tudo em 2001, num workshop para o qual foi convidada, ainda o governo de Mahmoud Ahmadinejad não tinha imposto um regresso à repressão nem ameaçara o mundo com ataques nucleares. Quatro anos depois, em Janeiro de 2005, estreava Letters from Tentland (o site lettersfromtentland.com mostra excertos da peça e relata o processo de trabalho), um poderoso retrato social sobre as mulheres iranianas, muito para lá do exotismo. As intérpretes eram actrizes de teatro, cinema e televisão, entre os 30 e os 50 anos, bastante conhecidas do grande público iraniano. A peça foi, apesar de polémica, bem recebida. E circulou pelo mundo, sobretudo ocidental, mostrando que a dança contemporânea também existe no Irão. Mesmo que seja ilegal ter aulas, que os corpos das mulheres não se possam mostrar, sobretudo e em especial, aos homens, que tivessem que usar metáforas para falar de liberdade, de sexualidade, de partilha, de identidade, de religião, de como se sentem, de como são vistas, do que significa viver com o estigma de serem vistos, todos, como potenciais terroristas. Mas, também, e isto sem metáforas, de como se pode ser feliz no Irão.

Letters from Tentland tornou-se demasiado perigoso para as autoridades iranianas que proibiram as intérpretes de saírem do país para se apresentarem em Montpellier, que co-produzira a peça. E Helena Waldmann, que “não quis acreditar que alguém no Irão achasse que lhe podia dizer o que fazer”, reagiu. Nasceu Return to Sender, um espectáculo independente que também é uma continuação e um acto político. De resistência e de activa consciência cívica. Um espectáculo raro portanto que quer tanto descolar-se da imagem gratuita do multiculturalismo que se torna, na sua simplicidade, desarmante para um olhar europeu, viciado e convencido de que o que se passa na televisão não tem nada a ver consigo. Têm.

“Queridas Banafshe, Mahshad, Pantea, Sara, Sima e Zohreh”, escreveu Helena e lê-se no inicio de Return to Sender, “a correspondência foi interrompida e agora tudo o que tenho são envelopes vazios. O vosso cheiro ainda habita nas tendas. Agora existem apenas abrigos a habitar por seis mulheres que saíram do vosso país. Hoje iremos responder-lhes. Com amor da H.”.

Return to sender vai recuperar a memória do espectáculo anterior para mudar de perspectiva que, mantendo-se feminina, permanece enquanto olhar sobre uma realidade desconhecida. Não só as intérpretes são mais novas como algumas delas nunca viveram no Irão. São filhas de exilados em Londres, Paris e Berlim. Mas, ao contrário do que seria expectável, têm muitos mais receios das consequências de participação numa peça como esta. Durante o processo Waldmann enfrentou um outro tipo de receios. Se as primeiras iam, passo a passo, “experimentado coisas às quais não tinham acesso, muitas vezes sem noção de quão longe podiam ir”, as jovens, com idades que vão dos 20 aos 30 anos, “criaram mais problemas ao nível dos limites porque projectaram medos que desconhecem”. A coreógrafa diz que essa foi uma dificuldade que lhe custou a ultrapassar: “não deixo de sentir que é um medo por vezes irracional”. E, por isso, o período de apresentação dos espectáculos tornou-se num outro processo de aprendizagem. Waldmann descobriu que nem sempre lhe contavam o que estavam a sentir, que muitas vezes não faziam o que lhes pedia, que entraram em duelo com o trabalho. “Houve um trabalho de cedência de parte a parte”. E, no entanto, a peça é sobre elas. Esta e a outra. “Disse-lhes claramente que para fazer as peças precisava de informação que só elas tinham. Isto quer dizer que as peças não são sobre mim no Irão, mas sobre aquelas mulheres”.

As tendas são, então, o espaço de todas as revelações. Aparecem porque são as tendas o que de mais forte guardou da sua estadia em Teerão. Nas estradas, nos parques, nas ruas, famílias inteiras ocupam tendas multicolores, indiferenciadas e frágeis. O que se passa no seu interior está interdito ao olhar estrangeiro. É preciso ser-se convidado e os homens não entram. Por isso, já no final, o espectáculo subverte esta lógica e convida o espectador a descobrir um pouco mais. Sobretudo questionando porque, por vezes, vive no absoluto desconhecimento. Atrás do palco as tendas são substituídas por rodas onde se serve chá e se fala de quase tudo. “Ninguém se aproxima de um iraniano para perguntar como é a sua vida”, diz a coreógrafa consciente, no entanto, que é “a partilha”, mais do que “a solução” que importa descobrir. Acabaram-se as desculpas.

[texto publicado no Ípsilon, 15 de Junho 2007]




ENVELOPES VAZIOS

Return to Sender não devia ter existido, ou não da forma como acabou por existir. Espectáculo-resposta a um outro que levantava demasiadas perguntas, é também um espectáculo-pergunta porque quer ouvir as razões de um nascimento tão repentino. As seis jovens raparigas são sombras de outras seis mulheres que antes ocuparam aquelas tendas, que lembram o chador, que são as suas casas, refúgio, prisão. Os seus movimentos, livres no interior das tendas, percorrem o palco à procura de um caminho, desbravando terreno, deixando marcas. O corpo delas, se está protegido pelas tendas (escondido era mais correcto), é porque nem no exílio, onde se encontram, se sentem seguras. Têm receio do que possa acontecer-lhes, pelas suas famílias, do que não sabem. Waldmann constrói uma peça-poema, onde tenta perceber o que sucedeu àquelas primeiras mulheres impedidas de continuar. Fá-lo através da exposição das cartas de que não obtém resposta, da duplicação do movimento que já existia na peça anterior, do querer dar a estas e às outras a liberdade que reclamam, exibindo as fotografias de tendas em Teerão, no deserto iraniano, ou colocando-as no metro de Nova York, ou em Alexanderplatz (Berlim), ou junto à Torre Eiffel. E por isso convida a um olhar emocionado sobre a condição humana, mais do que sobre a condição feminina. Despe-se de todos os artefactos para apresentar uma coreografia sobre o desejo de se ser livre. E estende esse convite à partilha, de forma explícita, quando prolonga o espectáculo para os bastidores, convidando os homens a falar com as raparigas (nenhum homem poderia entrar dentro das tendas por questões morais e religiosas), colocando em perspectiva as imagens feitas que existem sobre o confronto Irão-Ocidente. Uma obra tocante que faz mais pela queda de preconceitos do que qualquer metáfora multicultural.

[publicado na OBSCENA #1, 30 Fevereiro 2007]


Leia na OBSCENA #1 uma entrevista à coreógrafa Helena Waldmann e um dossier sobre o contexto cultural do Irão.

Return to Sender apresenta-se de hoje até sábado na Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do fórum cultural O Estado do Mundo

terça-feira, maio 01, 2007

OBSCENA #4 já disponível

A OBSCENA #4 já está disponível.

Pina Bausch e Bill T. Jones são os nomes em destaque nesta edição onde publicamos a transcrição da conversa que Bausch teve com o público, no passado dia 03 de Abril no Teatro Camões, a propósito da apresentação da peça Para as Crianças de Ontem, Hoje e Amanhã. Mas antevemos, ainda, a presença de Jones em Serralves e no CCB, com textos dos críticos e investigadores André Lepecki e Helmut Ploebst e do coreógrafo Martin Nachbar.

Outro dos destaques vai para o dossier sobre a polémica em torno do ensino artístico, após a saída de um estudo encomendado pelo Ministério da Educação. Falámos com Jorge Ramos do Ó, professor universitário e um dos autores do relatório, e contamos ainda com um depoimento de Luísa Mesquita, deputada do Partido Comunista Português.

Publicamos um ensaio do investigador alemão Franz Anton Cramer sobre o desejo na dança e na pornografia, onde nos é perguntado como olhamos e desejamos aqueles corpos, pensando aquilo que os separa de simples objecto de desejo. E entrevistámos Mickael de Oliveira, primeiro vencedor do recuperado Prémio Maria Matos de Dramaturgia. E ainda duas reportagens: uma sobre a recém-aprovada declaração de diversidade cultural da UNESCO e outra sobre o teatro brasileiro que chega a Portugal. Dois olhares que procuram perceber que intercâmbios constroem o mundo.

Damos conta das exposições de David Lynch em Paris, de Robert Wilson na Fundação Ellipse e de João Tabarra na ZDB/Galeria Graça Brandão. Nos espectáculos falamos da mais recente encenação de Romeo Castelluci, de Pina Bausch, naturalmente, mas também de Loud Reed e dos filmes mediterrânicos de Luciana Fina.

Mais: o cartoon do Bandeira, as colunas de opinião, as críticas, as reportagens e as notícias habituais num número com 83 páginas e contributos de críticos, investigadores, fotógrafos, jornalistas e criadores.


Boas leituras.

Para subscrever a OBSCENA envie um e-mail para obscena@revistaobscena.com
Todas as informações devem ser enviadas até dia 08 de cada mês.
Solicite a nossa tabela de publicidade através do e-mail publicidade@revistaobscena.com

domingo, março 11, 2007

Moda Lisboa


Durante um fim-de-semana inteiro a moda esteve em destaque em Lisboa, na 28ª edição do Moda Lisboa, este ano organizado no Museu de História Natural. As duas fotografias que fazem este post são um apetizer para a foto-reportagem exclusiva que se publicará na OBSCENA #3, com texto do jornalista Bruno Horta e imagens do fotógrafo José Luís Neves.


quinta-feira, março 08, 2007

CNB comemora 30 anos a partir de hoje com novo programa



Treze gestos de um corpo: vinte anos depois

Apenas a primeira das múltiplas celebrações que a Companhia Nacional de Bailado prepara para assinalar a passagem de 30 anos sobre a sua fundação – que em Abril trarão ao Teatro Camões For The Peace of Children of Today and Tomorrow, trabalho de 1999 de Pina Bausch –, o Programa Primavera reúne, já em Março, quatro coreografias de autores idiossincráticos: William Forsythe, Mauro Bigonzetti, Gagik Ismailian e Olga Roriz. Todas as peças são interpretadas pela CNB neste programa pela primeira vez, que se dançará dias 8, 9, 10, 16, 17, 18, 23 e 24 deste mês.

The Vertiginous Thrill of Exactitude, de Forsythe sobre o último andamento da Nona Sinfonia de Schubert, foi estreada pelo Frankfurt Ballet em 1996 e, escreveu a crítica Roslyn Sulcas, “reveste-se de todos os elementos tradicionais da dança clássica: tutus, sapatilhas de ponta, virtuosismo, lirismo e uma agradável formalidade na relação entre os sexos”, numa “arrebatadora demonstração de técnica clássica”.

No mesmo ano estreou Dualidade, a coreografia de Gagik Ismailian (arménio residente em Portugal, antigo primeiro bailarino do Ballet Gulbenkian), pelo Balé da Cidade de São Paulo. A peça, que Ismailian submeteu a uma recriação para a CNB, integra canções de Amália Rodrigues e de Wim Mertens e organiza o discurso coreográfico em torno da noção de dualismo de género: “confrontação e emancipação de dois sexos, um duelo, esta ideia intrigante de confrontar e deliciosamente esperar pela reacção do adversário”, define o autor.

Passo Continuo é a coreografia de Mauro Bigonzetti que a Companhia Aterballetto estreou em 2005. Com música original de Antongiulio Galeandro que consiste em improvisações sobre Johann Sebastian Bach, Passo Continuo é, para Bigonzetti, “um bailado muito corporal. Não relata nada em particular, não contém uma história, expressa apenas encontro e colisão, fusão e separação”.

Mas o destaque do programa vai para Treze Gestos de um Corpo, de Olga Roriz, cuja estreia absoluta, pelo Ballet Gulbenkian, teve lugar há precisamente 20 anos, a 27 de Março de 1987, em Lisboa (na foto). Com música de António Emiliano, luzes de Orlando Worm e cenário e figurinos de Nuno Carinhas, a criação de Roriz viria a tornar-se icónica para o trabalho do Ballet nos anos 80, dado ter marcado público, crítica e até uma geração de bailarinos (quase trinta) que interpretaram a peça nas suas numerosas reposições e digressões: dois elencos, de treze bailarinos e treze bailarinas, com figurinos indistintamente “masculinizantes”.

Treze Gestos de um Corpo parte d’A Obra ao Negro, de Marguerite Yourcenar, para se definir estruturalmente: “acontecia-lhe muitas vezes reabrir uma porta, simplesmente para se assegurar que não a tinha fechado atrás de si para sempre, demonstrando-se, a si mesmo, a sua curta liberdade de homem”. A citação remete para as treze portas de que surgem, um a um, os intérpretes, numa secção inicial que, como escreveu o crítico Clement Crisp, “se assemelha a uma imagem ondulante, pois o gesto de se levantarem e tirarem o casaco passa sucessivamente ao longo da fila de homens sentados. É um conceito fascinante que prolonga e ao mesmo tempo fragmenta a acção, tal como as fotografias analíticas do movimento de Eadweard Muybridge”.

Seguem-se os treze solos, que – assegura Roriz – “têm dinâmicas e exigências técnicas distintas”, implicando uma “cuidada distribuição de papéis”. Nesta peça “sobre o reflexo de uma pessoa em frente de dois espelhos paralelos que formam uma multiplicação de imagens até ao infinito”, a sucessão de solos evidencia que “em cada um desses espelhos a imagem não é igual, é como se em cada um houvesse uma evolução, uma transformação do movimento, uma continuação do gesto anterior”. Yourcenar dizia-o assim: “Ele enumerava as qualidades da substância que via em sonhos. A ligeireza, a impalpabilidade, a incoerência, a liberdade total em relação ao tempo, a mobilidade das formas da pessoa que faz com que cada uma sejam várias e que todas sejam reduzidas a uma”. A raiva, o medo, a angústia, a fúria, o desmaio, vivido por um homem (ou uma mulher) estilhaçado em treze corpos.

Refira-se que a CNB é a quinta companhia a interpretar Treze Gestos de um Corpo. Depois do Ballet Gulbenkian em 1987 (que a levou à cena 81 vezes), dançaram-na o brasileiro Ballet Teatro Guaíra em 1990 (então sob direcção de Carlos Trincheiras), o Ballet Nacional de Espanha em 1992 (sob direcção de Nacho Duato, que assumiu um dos solos), e, em Itália, o Maggiodanza, Ballet do Teatro Maggio Fiorentino em 1999 (sob direcção de Davide Bombana) e, em 2001, o Ballet do Teatro Alla Scala (dirigido por Frédéric Olivieri). Mehmet Balkan re-convoca-a agora a Lisboa.


[texto publicado na revista OBSCENA #2, p.24, e da responsabilidade da redacção. Fotografia: Eduardo Saraiva]

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Segundo número da revista OBSCENA disponível brevemente


No segundo número da OBSCENA – revista de artes performativas visita-se Nova Iorque, cidade de todas as ilusões e todas as possibilidades. A cidade é vista por diversos colaboradores, entre críticos e programadores, dramaturgos e actores que sobre ela escrevem a propósito do que lá se vai fazendo no teatro, na dança, no cinema… Num arco que vai do convencional ao experimental falamos dos espaços, nomes, espectáculos, livros, dos efeitos políticos na dramaturgia e na dificuldade em viver numa cidade que tem na Broadway o maior centro de teatro do mundo.

No mês em que se comemora o Dia Mundial do Teatro, a 27 de Março, falamos ainda do crítico, tradutor e autor Manuel João Gomes, recentemente falecido, num dossier de homenagem que recorda o seu percurso com testemunhos de quem dele foi próximo. Para além de recordarmos os anos 80 dos míticos Heróis do Mar, reflectimos sobre o passado colonialista que pesa na criação contemporânea brasileira e questionamos as opções que ainda existem para uma crítica de dança actuante.

Mas Março é muito mais do que isto. E por isso há uma carta branca especialíssima, bem como opinião, críticas, entrevistas, reportagens e antecipações.

A OBSCENA estará disponível brevemente em www.revistaobscena.com e pode ser assinada aqui. Até lá pode continuar a ler o 1º número aqui.

domingo, fevereiro 18, 2007

OBSCENA #2: preview

Die Größe Nina Hagen explica porque é que o dossier especial da OBSCENA #2 é dedicado a Nova Iorque.



Brevemente disponível em www.revistaobscena.com