quinta-feira, junho 01, 2006

À volta do Alkantara (I): Lisboa precisava de um festival?


- notas antes do início


Na entrevista que se publica amanhã no blog, Mark Deputter, director artístico do Alkantara festival, refere que o aspecto mais importante do festival não é a apresentação de espectáculos, mas o que isso representa de um trabalho contínuo, atento ao terreno e complementar da produção nacional.

Isto relaciona-se com uma das questões mais importantes, e que contribui para a afirmação de um evento: a responsabilidade de cada acção no campo cultural. A fragilidade das condições de produção reduz significativamente a margem de risco, a carência de circulação aumenta o sentimento de periferia, as transformações culturais no domínio da recepção modificam o modo como os espectáculos ultrapassam a fronteira do pré-conceito. Tudo isto carrega determinados eventos de um peso que lhes pode ser prejudicial. De alguma forma foi isso que aconteceu com a edição de 2002, onde o sucesso do festival, em termos de público, número de espectáculos e repercussão se tornou uma máquina difícil de gerir. Escreve Maria de Assis, programadora, num texto para acompanhar a edição de Junho da revista Cais, dedicada ao festival, que o evento “foi vítima do seu dinamismo e da sua competência”.

Quatro anos depois da última edição, o regresso do Alkantara faz-se apostado numa rede de contactos, sinergias, cumplicidades e hipóteses de relação, que contrariam o movimento generoso e mediático mas efémero que se gera sempre à volta de um festival. Falamos portanto de uma real implantação no terreno, ganha que está a batalha da credibilidade, reconhecimento e importância do evento. Este regresso é por isso consciente das dificuldades de alargamento, formal e conceptual, do campo de acção. A ideia, defendida por muitos, de que hoje já não se pode falar de disciplinas artísticas, mas de uma comunidade artística actuante e pensante abre, para as propostas apresentadas nesta edição, perspectivas que se relacionam não só com a identidade, mas também com a dimensão política do gesto de criação, a internacionalização ou as transferências. O cruzamento de propostas nacionais e internacionais não pode, por isso, servir de montra ou plataforma retórica de internacionalização. Só uma relação directa com o contexto permite que se julgue o que o festival apresenta como hipótese de mapeamento de uma consciência colectiva acerca do papel que as artes performativas desempenham na sociedade.

Importa por isso pensar em que contexto se integra esta nova edição do Alkantara, uma vez que acontecimentos mediáticos na área da cultura sempre existiram. E importa pensar o regresso do festival integrando-o nas lógicas de programação dos espaços culturais, estabelecendo pontes com os discursos artísticos e, sobretudo, percebendo como é que contribui para um estreitar de laços entre criação e recepção.

Nas entrevistas feitas a cinco dos programadores de teatro da capital, publicadas neste blog em Março passado, foi comum o reconhecimento do Alkantara como hipótese de trabalho que permitiria alargar o que os próprios espaços apresentavam. Praticamente todos os programadores (CCB, Culturgest, Maria Matos, ZDB e São Luiz) assumiram que uma das grandes vantagens do Alkantara passava pela legitimação e enquadramento (estético, teórico e financeiro) de determinados espectáculos que, de outra forma, os espaços se veriam impossibilitados de apresentar. O que estavam a assumir, e aquilo que se pode depreender de uma simples observação atenta às suas programações, é o aproveitamento de um elemento vertical numa estratégia horizontal. Ou seja, trata-se de uma relação onde todos ganham: o festival porque se vê legitimado enquanto elemento agremiador (e não necessariamente hegemónico) dos agentes culturais da cidade; os espaços porque testam não só as suas administrações, mas também a consistência das suas programações e a disponibilidade dos seus públicos.

A este aspecto junta-se um outro que dá aquela que é provavelmente a perspectiva mas interessante desta nova edição do Alkantara: o equilíbrio entre áreas artísticas. É o próprio Deputter que o assume na referida entrevista: interessa-lhe fazer o mesmo ao teatro que se fez para a dança. Tiago Guedes, Sónia Baptista e Vitalina Sousa são exemplos recentes do papel que o festival desempenhou na internacionalização dos nomes, mas no teatro as hipóteses são mais arriscadas. As dificuldades de circulação, muito em virtude do texto mas também por um esparsamento que não se reconhece na dança, impedem que nomes recentes do teatro nacional se imponham lá fora. Por isso, escolhas como o Teatro Praga (Discotheater, Picadeiro do Museu da Politécnica, 02, 03, 09 e 10 Junho), Patrícia Portela (Trilogia Flatland, 11 a 14 Junho, CCB), Rogério Nuno Costa (Lado C, apartamento próprio, 09 a 17 Junho) ou Ana Borralho & João Galante (No Body Never Mind 003, Culturgest, 09 a 11 Junho), se não são completamente representativos do teatro e da performance que se faz, são parte dessa comunidade artística que abandonou os pruridos das classificações. Para o Alkantara não é um risco novo e é nisso que se relaciona com a ideia de transgressão associada ao festival. A transgressão não está nos espectáculos mas na apresentação de alguns dos espectáculos. Só o enclausuramento nas fronteiras nacionais de criadores, programadores e opinião pública legitima o argumento da transgressão. Nada do que vem ao Alkantara é novo lá fora, chega é tarde a Portugal. Bruxelles #4, de Romeo Castelluci (CCB, 14 e 15 Junho), por exemplo, pode ser um exercício arriscado do ponto de visa cénico, dramatúrgico e visual, mas há vários anos que corre a Europa, há vários anos que é citado e apontado, mas o público nacional desconhece-o.

É aqui que se joga a cartada mais alta deste festival: como apresentar, por um lado ao público nacional os nomes, os rostos e as ideias mais pertinentes, sem dizer que estes são os únicos nomes que importa? Por outro, ao público internacional, como contribuir para negar algumas ideias retrógradas e passadistas que a contingência periférica alimenta?

Estamos perante um todo discursivo que quer mexer com a própria forma de pensar e fazer artes performativas. Em jogo estão dimensões políticas, sociais e culturais. É, portanto, uma questão de identidade. Criativa, programática, reflexiva e prospectiva. Precisava Lisboa de um festival? Sim, claro que sim. Faltava à capital um momento onde se pudesse olhar panoramicamente para o que se anda a fazer, a pensar, a dizer, a defender. Era preciso um momento onde se pusessem em causa as questões de programação, produção, criação, circulação e mesmo de legitimação dos discursos artísticos. Era preciso um momento de paragem. Pode o Alkantara ser esse festival? Eu acredito que sim, mas mantenho algumas reservas. Reservas quanto à capacidade de mobilização de um público anónimo numa altura em que tudo parece estar a acontecer; reservas quanto à legitimidade de alguns discursos criativos; reservas quanto às reais consequências para os espaços desta operação cultural. Reservas que espero, no fim do festival, dar por terminadas.

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