segunda-feira, setembro 29, 2003

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Na lista dos teus fins venho no fim
de uma página nunca publicada,
e é justo que assim seja. Embora saiba
mexer palavras, e doer de frente,
e tenha esse talento conhecido
de acordar de manhã, dormir à noite,
e ser, o dia todo, como gente,
nunca curei, como previa, a lepra,
nem decifrei o delicado enigma
da letra morta que nos antecede.
Por muito te querer, talvez pudesses
dar-me um lugar qualquer mais adiante,
despir-te de pudor por um instante
e deixá-lo cobrir-me como um manto.

António Franco Alexandre, Duende
Acerca da terapia de choque

Sou fumadora. E de facto é impressionante ver os nossos maços de tabaco favoritos transformados em avisos garrafais sobre a morte que se aproxima. Sim, os maços de tabaco são objectos de design a que nos afeiçoamos. Quantos de nós, fumadores, não começaram a fumar a marca x ou y por causa das cores ou do formato do maço? Eu, por exemplo, fumo John Player Special Preto, que consiste basicamente num maço preto-preto. Foi um dos maços mais tardiamente alterados e até suspirei para que fosse esquecido por esta onda legislativa. Não foi. Está completamente diferente. Já não é o meu maço lindo, mas isso agora também já não tem importância porque estou efectivamente viciada no sabor.
Enfim, não será isso o mais importante.
Apesar de ser uma grande hipocrisia esta nova plataforma de avisos – como aceitar que o Estado diga e saiba que faz mal, mas não pode correr o risco de perder as receitas substanciais dos seus impostos? – eu até aplaudo esta iniciativa.
É contra mim, bem sei. Um pouco do prazer banal de puxar de um cigarro é perdido, mas, de facto, não deixo de fumar por causa disso. Torna-se invisível. No entanto, acho que dificilmente começaria a fumar se os meus primeiros maços comprados tivessem estas inscrições e, como tal, acredito que possa dissuadir muita gente nova que ainda não está viciada. Eu resignei-me. Sei que, mais tarde ou mais cedo, vou ter de acabar com este hábito maldito, mas esse saber não tem nada a ver com a informação passada pelos avisos.
Enfim, acho hipócrita e pouco estético, mas também acho eficaz.
O design não é assim tão importante. Ou melhor é demasiado importante para o capitalismo, por isso, no meu entender, é algo que devemos desejar deitar fora.
Apenas mais uma notinha sobre os avisos. Há a mensagem principal: FUMAR MATA. Depois há as declinações sobre o tema da morte, em que o mais terrível é sem dúvida “fumar pode provocar morte lenta e dolorosa”. A seguir à morte vem a doença, com destaque para o cancro. As coisas dividem-se quando se começa a falar da gravidez e da impotência. Mas nada é tão penoso como a constatação que se pode estar a prejudicar a vida sexual e, nisso, o pobre do homem fica bem mais em risco do que a mulher (pelo menos no que diz respeito aos avisos). É assim: “Fumar pode reduzir o fluxo do sangue e provoca impotência” e “Fumar pode prejudicar o esperma e reduz a fertilidade”.
Enfim, o contrário de eficácia está no meu aviso favorito: “O fumo contém benzeno, nitrosaminas, formaldeído e cianeto de hidrogéneo”. Haverá alguém com conhecimentos comuns de química que saiba o que isto significa? É tão assustador como a existência de bruxas. Tu percebes que deve fazer mal, mas não percebes bem porquê, embora a palavra cianeto seja reveladora.
Até breve! Apetece-me fumar.
Sentença de morte

Agora que foi assumido que o PSD e o PP se irão coligar ad eternum, que será feito do partido do esquerda moderada que Durão Barroso defendeu em início de presidência do PSD?

domingo, setembro 28, 2003

De novo na PT do Rossio...

Será chuva, será gente, chuva não é certamente, quem é que me cuspiu em cima, assim?
Amor de Outono

Por causa da Romena da PT, de quem falei há uns posts atrás, um amigo tomou-se de amores e perdeu-se. À lá livros da revista XIS, dão alvíssaras a quem lhe disser que ela é comprometida.
Terapia de choque

Esta demagógica campanha anti-tabagista irrita-me. Esquecem-se os responsáveis que os maços de tabaco também são um objecto de design?
Hoje de manhã, ao tomar o pequeno almoço, um casal na mesa ao lado saltitava de maço em maço em busca do que trouxesse um menor espaço de avisos.
Onde estamos afinal? Na América?
A lei dos Amantes (4)

Será que todos os que partem deixam sempre algo connosco? É esse o segredo da memória?
Quantas vezes te bate o azar à (ó) Porta (s) ?

Não me parece que seja só uma questão de filosofia da imagem, como afirma o Portugal dos Pequeninos. A fotografia de hoje no Público, bem como os textos, não são só um olhar dos jornalistas ou uma metade que ficou por dizer. A mensagem que fica - independentemente de poder haver uma ideia concertada de afastar o PP da coligação (abençoados sejam, os que vierem com esse fim) - é que Paulo Portas caminha, e arrasta o seu PP para uma linha cada vez mais radical na direita portuguesa que, de maneira nenhuma, irá vingar. Como o meu amigo do Portugal dos Pequeninos bem sabe, o povo é surpreendente e menos parvo do que parece.

sábado, setembro 27, 2003

Uma infeliz razão 2

Apenas para corroborar o que o Tiago disse acerca da Amina, há que dizer que, com este perdão, podemos ficar felizes por um brutal assassínio não se ter cumprido, mas não há qualquer razão para celebrar ou agradecer a um Estado que se acha na legitimidade de dizer sim ou não à vida humana. Mesmo no perdão, devemos condenar o governo nigeriano, pretensioso omnipotente daquilo que é a qualidade da vida. Esta decisão não lhes cabe a eles. Este insulto àquilo que é a dignidade humana arrepia-me e dá-me náuseas. Aqui, não se dá pós-feminismo, nem feminismo, nem nada, pois nem sequer humanidade há. Abuso, desrespeito, brutalidade, violência: todas as razões se tornam ainda mais visíveis na hora do perdão.
Perdoar com que direito?
Que Estado é este? Quem são os senhores da violência?
Apenas loucura humana, insustentável, insuportável, incompreensível. Não podemos apedrejá-la até à morte?

sexta-feira, setembro 26, 2003

O primeiro obstáculo

O Melhor Anjo chega às primeiras 100 visitas. Assim, com pouca publicidade e tudo. Obrigado por virem. Continuem a aparecer.
Uma infeliz razão

A nigeriana Amina Lawal foi, como se sabe, perdoada e não absolvida. Nove milhões nove de assinaturas impediram que fosse lapidade. Mas tudo por questões processuais.

É razão para alegria? Para festejos? Para celebrações? Não, infelizmente só um encolher de ombros é possível.

Onde ficará agora a comunidade internacional? Desistirá de lutar?
E não se pode exterminá-los?

Mais uma vez, e pelas razões erradas, a Casa da Música é notícia. É muito triste verificar que há um desinteresse efectivo em fazer do projecto uma mais valia para a cidade e para o País.

Agora é a questão de um edifício que vai tapar a vista das traseiras. Não há noção, sequer dos arquitectos desse dito edifío, do que representa a obra da Casa da Música. Não percebem eles que irão negar exactamente todas as noções de arquitectura, desde o Bruno Zevi.

Será que a Câmara Municipal, independentemente de não ter gostado do resultado das negociações ocorridas em Julho, não se apercebeu do orgulho que as mais de 7000 pessoas que visitaram o edifício e os eventos nele ocorridos sentiram?

Eu estive lá e emocionei-me com os as reacções dos portuenses que viram, na Casa da Música, um exemplo daqui que pode ser um Porto do futuro.

Uma vez mais, e sem qualquer respeito pela cultura, pelas pessoas, pelso projectos, a Câmara cruza os braços e diz que não tem 15 milhões para pagar a indeminização que os empreiteiros querem. Acredito que não tenha, mas a Casa da Música é uma questão nacional. É essa noção que falta em Lisboa, é por isso que a C.M.P. se deveria responsabilizar e não contribuir para que nada se alterasse.

Se o arquitecto do edifício planeado não precisa de lições de arquitectura, saberá que nenhum arquitecto aceitaria estragar a envolvente da Casa da Música. Que atitude guerrilheira é esta?

Sr. Presidente da Câmara, tem aqui a oportunidade para se reconciliar com a cidade, as pessoas e sobretudo a Cultura. Não a desperdice.

Estaremos atentos.

quinta-feira, setembro 25, 2003

O UMBIGO

Não andam todas as pessoas concentraditas em si?
Eis uma pergunta que me foi oferecida por uma grande amiga minha, quando as duas discutíamos como, de facto, andamos só à volta do nosso umbigo, e que agora vos ofereço também. É um sinal dos tempos, uma característica humana ou somos simplesmente nós?
Provavelmente, nenhuma dessas respostas é suficientemente completa para nos deixar satisfeitos, mas é interessante debatê-las.
O síndroma "me, me, me" é conhecido e bem divulgado por pessoas brilhantes, bonitas e até pelas mais generosas. Mas ultimamente a coisa parece superar-se. À nossa volta e dentro de nós, as pessoas não conseguem deixar de mostrar o aborrecimento que sentem umas com as outras. O que é que aconteceu?
Será que estamos a sentir o efeito “mudança do milénio”, que nos faz querer mudar tudo o que está à nossa volta, ou pelo menos a forma como vemos o mundo? Será que a malfadada crise se instalou de tal modo que até nos corrói a nível existencial? O tempo, a mudança… ficámos mais velhos, as coisas importantes, as decisões, as relações, tudo isso já aconteceu. O futuro parece que já não está todo em aberto. Estaremos nós a tentar lutar contra isso? A exigirmos de nós mesmos essa auto-análise, para que os erros se revelem acertos e as impossibilidades se tornem de novo opções? Ou pelo contrário, é tudo medo? Medo de ser adulto de uma vez, agora que as coisas começam a encaixar e até há boas hipóteses de as coisas darem certo? E se a auto-análise for apenas uma forma de fugirmos deste presente, que se assemelha tanto com o futuro um dia imaginado?
Enfim… eu própria, num momento bem triste da minha existência, disse que não queria saber de nada a não ser de mim própria, estando o meu pensamento apenas pintalgado por alguns momentos em que me dedicava aos outros. Digo que foi infeliz, porque sei que não é verdade. Tenho um coração sincero e generoso, tenho até um interesse profundo pelas pessoas de quem gosto. Mas o aborrecimento, a leve paranóia que não andam todos a girar à nossa volta (triste verdade), como talvez devesse ser a sua competência, que quem sabe até não fazem tudo por nós, esse sentimento não passa de uma patalogia social que não tem nada de centrado, pelo contrário. Assim, diria que há egoístas que são um bocadinho melhores que outros. Melhores egoístas, entenda-se, imaginando que há uma escala positiva para tudo isto.
Na série “Começar de Novo”, que a RTP2 transmitiu até ao último episódio e que agora temos oportunidade de começar tudo de novo com episódios repetidos na Sic Mulher, a personagem adolescente Grace (brilhante) dizia: “alguma vez te sentiste uma pessoa pior do que és realmente?”. E isso encerrou um pouco a questão. Primeiro, é um sentimento adolescente este de sermos algo socialmente que não somos de facto, que passa essencialmente pela afirmação exacerbada de alguma coisa que nos identifique e distinga. O problema é que, de facto, como os adolescentes, o que afirmamos tão gritantemente não tem nada a ver connosco, não nos identifica ou distingue em nada.
Aliado à afirmação adolescente, vem obviamente o sentimento de culpa, tão bem retratado nas palavras daquela personagem tão inteligente (desculpem-me, mas eu sou fã histérica da dita série). Esse sentimento de culpa só alimenta o ciclo fechado da afirmação e da frustração, aniquilando de uma vez a possibilidade de REALMENTE pensarmos em nós mesmos.
Assim, e tendo a consciência de que fugi um pouco ao assunto, diria que de facto não estamos tão centrados assim na nossa vida, na nossa existência, nas nossas emoções. Estamos apenas a lutar com o nosso ego e a perceber por que caminhos nos mete ele, sem qualquer pudor, sem qualquer sentido de orientação. Sim, estamos egocêntricos.
E o mal, claro, parece estar no tempo do mundo, demasiado atolhado de coisas, funções, ofertas, exigências e por aí fora. Não nos deixa tempo para nós, para respirarmos fundo e, aí vem a parte piegas previsível, olharmos um pouco para aquilo que somos.
Tudo isto é um trabalho. Um trabalho árduo, prioritário, que não passa pelo mundo, nem pelas pessoas no seu convívio social habitual. É um trabalho que não exige nada de nós a não ser o mais essencial: a nossa vontade.
Fechemos (ou alarguemos) o campo de interesse, não culpemos o mundo nem nos culpemos a nós. O mundo está apenas sobrelotado de coisas sem importância, assim como o nosso ser social, e há que confiar no nosso discernimento para saber avaliar essa importância. Ao mesmo tempo que percebemos que um encolher de ombros nunca é apenas isso.
Estou tão profunda, sou tão boa.
Até breve!

quarta-feira, setembro 24, 2003

Uma casa no fim do mundo

Acordei com a notícia sobre a proposta do Vaticano. No Fórum TSF todos se mostraram indignados e foi impressionante a lista imensa de padres que ligaram a oporem-se à proposta. Somente uma chefe de escuteiros do Miratejo achou bem a proposta.
Estou com o analista para as questões religiosas da TSF, este é um caminho para o conservadorismo no seu pior. Preocupa-me, no entanto, que isto seja feito numa altura em que o Papa está a definhar. Terá ele noção disto? É o mesmo Papa que se desloca aos velhos países comunistas e que fala dos jovens com paixão?

terça-feira, setembro 23, 2003

Os Eleitos – Elogios, dúvidas e acrescentos à lista dos 50 mais da cultura em Portugal publicada pelo Expresso esta semana

Os dados foram lançados e a sorte sorriu aos afortunados. No entanto, uma lista é sempre uma lista e as omissões são sempre mais que as presenças, até porque são sempre mais. Ainda que a lista seja surpreendente em vários aspectos, entre os quais:

1) escolhe e distingue Maria João Pires não só pelo seu virtuosismo, mas sobretudo por Belgais;
2) exclui as actividades desportivas enquanto manifestações culturais;
3) distingue a visibilidade da responsabilidade (ex: Teresa Salgueiro);
4) não cai no óbvio de escolhas duvidosas por simples afirmação internacional (ex- Maria de Medeiros, Joaquim de Almeida);
5) Não elege trabalhos de conjunto, sabendo separar as importâncias (ex: Maria João)

Assim, e, em primeiro lugar, como se fosse possível não acreditar que uma lista é só uma lista e por isso nada diz para além do que diz e, em segundo lugar, e mais importante, são acrescentos e não substituições o que aqui se sugere.

E porquê? Porque não se acredita que o teatro em Portugal se possa reduzir a três nomes (ainda que seja surpreendente a exclusão de um actor – o que diz muito, para quem assim o quiser ver, da responsabilidade dos actores na memória dos espectadores) e a literatura se possa reduzir aos mais vendidos; porque a cultura de Portugal não se faz, e cada vez mais, sem o contributo daqueles que nos olham e pensam e constróem, mas não são portugueses, de pátria nascida; porque a cultura não é só a execução criativa, mas também, e muito, o trabalho de definição, de planeamento, de construção de linhas ou lançamentos de nomes; porque a organização não deveria ser numérica mas alfabética; porque... porque...

Assim, estes são os meus acrescentos – também esta lista com omissões graves:

- Ana Hatherly (poeta, professora, ensaísta)
- Carlos Pinto Coelho (jornalista, criador do programa «Acontece»)
- Filipe lá Féria (encenador)
- Helder Macedo (escritor, ensaísta)
- Helena Sá e Costa (pianista, professora)
- Fernado Lanhas (pintor, arquitecto, poeta)
- João Mota (actor, encenador, director do teatro A Comuna, professor)
- Jorge Molder (fotógrafo, Director do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian)
- José Augusto França (ensaísta, professor)
- Julião Sarmento (artista plástico)
- Manuel Rosa (director da Assírio & Alvim)
- Manuel Sobrinho Simões (cientista, Director do IPATIMUP, Prémio Pessoa 2003)
- Maria Teresa Lago (astrofísica, ex-directora da Porto 2001)
- Miguel Lobo Antunes (programador cultural)
- Natércia Freire (poeta, directora da página Artes e Letras do Diário de Notícias entre 1955 e 1974)
- Paulo Branco (produtor de cinema)
- Paulo Rocha (realizador de cinema)
- Teresa Patrício Gouveia (Presidente do Conselho de Administração da Fundação de Serralves, ex-Secretária de Estado da Cultura)
- Urbano Tavares Rodrigues (escritor)
Blogo, logo existo?

Esta não é, com certeza, uma questão que não tenha já, numa ou noutra altura, surgido a quem criou um blog. A mim, confesso que esteve, entre outras, na origem deste blog, não tanto pelo lado narcisista de me mostrar ou expor as minhas posições, mas mais num certo pendor cívico, malgré toda a demagogia que nesta afirmação se possa ler.

Mas à medida que mais e mais estudos, notícias, comentários e opiniões vão permitindo identificar quem é o quê neste mundo dos blogs e a necessidade de se desenhar um perfil é mais premente, somos mais ou menos bloggers consoante o que escrevemos?

De acordo com o artigo de Pedro Fonseca, ontem no suplemento de computadores do PÚBLICO, os bloggers dividem-se em grupos (será já o início das divisões, conforme se anunciava no Santa Ignorância?), sendo estes: os inovadores (2.5%), os “early adopters” (13.5%), os “early” e os “late majority” (ambos com 34%) e os “laggards” ou “atrasados” (34%). Ora eu, e por consequência este blog, deverei estar entre os “late majority” e os “laggards”, ainda que esta última posição depressa deixe de ser a última à medida que o fenómeno se estende.

Mas vem isto a propósito, mas não só, das arrumações que ontem levei a cabo, ao deitar fora os jornais do verão, depois de devidamente seleccionadas as notícias que aguardarão o devido encaminhamento. E, assumindo que não tenho nem o tempo, nem o dinheiro, nem mesmo a capacidade de absorção dos comentadores políticos (bom, daquele que pode carregar o epíteto) ou de bloggers de primeira divisão, outros que me levaram a fazer um e demais “vizinhos”, é impressionante o que se vai deixando para trás e se gostaria de comentar. Nesta espécie de filtro, em nome dos nossos leitores – essa massa anónima e cada vez menos silenciosa (agora se quisermos abrir o nosso espaço – como quem abre uma tasca (eis a razão da descrição que dá ênfase a este blog) – para dar a nossa opinião, fazemos um blog) e da permanência dos mesmos, vai-se construindo o perfil de um blog. Deste ainda é cedo para se dizer alguma coisa.

Já no que diz respeito ao perfil de quem tem um blog, não sei se possa concordar com a descrição que o Blog de Esquerda faz. É um tanto fechada em si mesma para poder definir algo que é tão abstracto. È certo que os bloggers terão que ser pessoas de um nível cultural e social mais elevado que a maior parte do cidadão comum, não devendo isso, no entanto, ser a razão pela qual se cria um blog. Mas, tal como os jornais não estamos, creio eu, a escrever para uma comunidade fechada, e por isso mesmo, em nome dessa responsabilização das elites, não podem os bloggers demitir-se dessa função, em nome, obviamente, desse contributo para a construção de um imaginário colectivo.

Se os blogs são sobretudo espaços de opinião e não tanto de informação é porque, muito provavelmente, a falta de espaços para a opinião pública é notória. Bem como, em grande parte por questões económicas, a profusão de jornais já não é tão grande como a existente durante a ditadura. Ou mesmo, se quisermos, o país é demasiado pequeno para tantos jornais. Talvez os blogs tenham vindo suprir essa carência. Ainda que sejam sobretudo opinativos.


Não me parece, contudo, que se possa exigir uma presença maior de blogs jornalísticos. Qual será então a diferença entre um blog jornalístico e um jornal digital? É certo, no entanto, que o facto de qualquer um poder criar um blog pode apresentar algumas deficiências, no que diz respeito à articulação dos textos, construções gramaticais ou mesmo incoerências, exactamente pela liberdade que se têm ao se emitir uma opinião.

É, por isso, que me parece ser possível citar aquela velha máxima: há primeira todos caem, à segunda só cai quem quer. A ver vamos daqui a um ano (será um ano muito tempo no virtual?) quem ainda cá anda. E contra mim falo, que isto nunca se sabe que voltas dá.

Queria escrever sobre aquilo que deixei por escrever. Acabei por reflectir, a pensamento solto, sobre a revolução que o blog provocou nos meus dias. Dos que aguentaram até ao fim deste post, aguardam-se comentários.
A falta que a cultura nos faz

Li ontem, no PÚBLICO, e ainda a propósito do post abaixo sobre a situação do Teatro Nacional S. Carlos, a notícia sobre a crise instalada no Teatro La Scala, em Milão, provocada pela ruptura que o seu director-geral, Carlo Fontana, quer impor ao insistir na apresentação de óperas populares para compensar o aumento de lugares que o novo espaço de apresentação representa: mais 600 que os 2600 que tem o La Scala. Ricardo Muti, o director musical desde 1986, opôs-se a tal opção avisando que o teatro está “em risco de declínio”.

Ás acusações de que o director musical e maestro quer fazer do La Scala um teatro de elites e a ideia do director-geral de que a cultura é para todos, junta-se a comunidade política de Milão, ciente do poder político e financeiro do teatro. Se uns acham que as decisões devem caber ao maestro, outros há que suspeitam das verdadeiras razões desta questão, nomeadamente a vontade do governo de Berlusconi querer impor a substituição do director-geral. Esquerda e direita concordam, no entanto, que o futuro do Teatro La Scala é demasiado importante para se perder assim, em acusações, algumas delas muito falaciosas. E estão dispostas a intervir, se for esse o caso.

Em Portugal, não ouvi ninguém da esquerda que sabe que a cultura não é só património a referir-se à ilusão que se chama Teatro Nacional S. Carlos. Questão de somenos? E quando for a altura de pedir convites?
“Loucos por amor” ou o frisson de um cabelo famoso

Confesso que a razão pela qual ainda fui ver a peça “Loucos por amor”, em cena no Centro de Artes de Lisboa, antes de ir para o Teatro Nacional (mas que sentido fará a apresentação da mesma peça em dois sítios da capital só porque é uma co-produção?) é porque, para além de achar pouco estimulante a apresentação da peça, nos mesmos propósitos em que decorreu a sua estreia em Portugal (mesma tradução, colagem demasiado evidente ao filme,...) temo que me façam perceber como é fascinante o cabelo de Catarina Furtado. Saíram mais reportagens sobre as mudanças de cor de cabelo da actriz do que sobre a peça propriamente dita, ficando sem perceber se foi o cabelo que se sujeitou ao texto ou se foi a peça um pretexto para uma mudança de cor. Não é isso o pressuposto de qualquer actor? Metamorfosear-se na personagem?
Um dia sem carros (II)

No eléctrico 12, a caminho do Castelo de S. Jorge, diz um passageiro, logo seguido por uma esbaforida senhora:
- Só é de borla porque já têm os bolsos cheios.
Momentos depois ouve-se uma voz masculina:
- Se é de borla, quero o dinheiro do passe deste mês.
Mas mesmo de borla, os miúdos da Calçada de Sto. André não deixaram de andar à pendura.

segunda-feira, setembro 22, 2003

A Lara Croft é feminista

Andam as pessoas a dizer mal da Lara Croft e como a fotografia da Angelina Jolie foi retocada no poster do filme porque os mamilos da menina estavam demasiado arrebitados, mas ninguém presta atenção ao mais importante. De facto, a Lara Croft é feminista, mais é pós-feminista!
Eu não vi o primeiro, por isso posso falar à vontade.
Pegando nos argumentos mais pertinentes que me colocaram acerca da Lara, gostaria de deixar-vos com algumas reflexões acerca do assunto.
1) É um facto que o fato de lycra, borracha, whatever, da dra.arqueóloga Croft lhe destacam as formas (tenho de reconhecer). No entanto, é também evidente que são do tipo mais adequado à façanha a que ela se está a prestar naquele momento. Ao contrário do que possam pensar, a nossa boa amiga lara não passa o filme todo com o tal fato (o que aparece no cartaz), longe disso. Aquele é um fato especial de mergulho. E, como sabem, os fatos de mergulho são sempre justos. Pois bem podem dizer que, enfim, não havia necessidade de o fazer tão brilhante, tão justinho, tão evidentemente sexy, mas é apenas um preconceito, já que todos os super-heróis homens, desde o super-homem ao próprio James Bond, usam fatos justos, lustrados e proeminentes no destaque das suas formas. Até podemos supor que qualquer homem ficará babado ao ver o filme (partindo erradamente desse preconceito de que o homem é um ser rebarbado) ao ver a angelina jolie a bater em alguém - com certeza isso foi tido em conta na venda e mesmo na produção do filme - mas a personagem nunca é apresentada como objecto sexual, a sério! Mesmo! É uma personagem sujeito. E é toda giraça e veste-se bem, mas é ela quem tem o poder.
2) nesse sentido, considero a Lara Croft uma heroína semelhante à Carrie do “Sexo e a Cidade”, só que menos humanizada e com menos inseguranças amorosas (ela mata o grande amor da vida dela, for god sake!). Tem um guarda-roupa melhor, vive numa mansão e salva a humanidade. Este também é um tipo de ícone no qual as miúdas se podem e devem rever, o que me leva ao 3).
3) É bom que surjam estes padrões referenciais novos para as miúdas, que em vez de terem de procurar reconhecimento numa bond girl, objecto de desejo, sem força e sem vontade, para um qualquer garanhão, passam a querer reconhecer-se em figuras que são alguma coisa por si, sem precisarem de um olhar exterior. Personagens que são o que são, não o que são em relação ao homem, neste caso. De facto, é estimulante ver uma personagem (mesmo sendo pouco credível) que não parece muito preocupada se é gira ou não, simplesmente é com toda a força. Pronto é óbvio que ela é gira!
Em conclusão, o filme, além de ser divertido, transmite também padrões um pouco subversivos para aquilo que é o normal num filme típico de aventura em Hollywood. E até aquele soco no tubarão tem uma explicação científica, para os que pensam que é uma grande banhada.
Fico-me. Até breve!