quarta-feira, dezembro 27, 2006

Balanço de 2006: factos

1) Espaços e programações

Há muito tempo que não se discutia tanto sobre programação e programadores como em 2006, numa deslocação que dá mais evidência a lógicas de políticas culturais que aos espectáculos eles mesmos. Mas algumas destas movimentações escondem a precariedade das condições de produção, criação e circulação dos espectáculos, bem como de todo um contexto cultural que carece de uma visão estratégica e a longo prazo. Situação que muito possivelmente não ficará resolvida com a possibilidade entretanto prevista pelo novo programa de apoio do Instituto das Artes no qual se passam a analisar individualmente as candidaturas de programação em vez de competirem com programações de criação. Continua a ser incipiente a possibilidade (ou visão) de co-produção de espectáculos por vários espaços, da mesma forma que o anunciado programa de circulação do Instituto das Artes, o Território Artes, ainda não saiu do papel, e só os esforços de conjunto de vários programadores permitiram a realização do Alkantara festival e do Temps d’Images (ambos em Lisboa), e a criação de um novo festival no Porto, o Trama.

Para os factos, registe-se que este foi o ano em que re-abriram dois novos espaços (Maria Matos, em Lisboa, Theatro Circo, em Braga), se fechou o Rivoli (Porto) e ameaçou fazer o mesmo ao Teatro Aveirense. O Teatro Azul (Almada) e o Teatro Camões (Lisboa) iniciaram as suas programações com novas filosofias, ao S. João (Porto) foi atribuída a programação do Mosteiro de São Bento da Vitória, e consolidou-se a Arte em Rede (área metropolitana de Lisboa), bem como a rede de cine-teatros viu-se aumentada com as novas programações do Teatro Municipal da Guarda e do Pax Júlia (Beja), e a Gulbenkian regressou, timidamente, à apresentação de espectáculos. No entanto, os festivais do Porto, FITEI e Fazer a Festa, viram as suas programações alteradas por causa da asfixia financeira, e o Festival de Marionetas, também no Porto, foi mesmo cancelado, o orçamento do CCB foi alterado devido à integração da colecção Berardo no Centro de Exposições, tendo algunsa espectáculos sido cancelados, a Casa dos Dias da Água (Lisboa) viu perigar o apoio do Instituto das Artes por causa da ausência de um programador, o S. Carlos anunciou o cancelamento, por falta de orçamento, de espectáculos de dança já previstos, o Citemor (Montemor-o-Velho) teve a programação mais fraca dos últimos anos e o A8 (Torres Vedras) foi profundamente alterado. Por fim, a Companhia Nacional de Bailado e o Teatro Nacional S. Carlos foram confrontados com uma fusão e, claro, o Teatro Nacional D. Maria II mudou de mãos e, por consequência, também o Teatro da Trindade (Lisboa).

Alguns casos merecem particular destaque positivo: o regresso do Alkantara agora alargado ao teatro e à performance (provavelmente o grande acontecimento do ano), o Festival de Almada como território de relação performática intemporal, o Trama, o ciclo Como eu e Tu, no Teatro Camões, a programação de teatro e dança da Culturgest, o contínuo trabalho do Centro de Animação e Pedagogia do CCB – último reduto do já descaracterizado espaço -, e a programação diversificada desenvolvida por Rui Horta no Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo, e no Teatro Garcia de Resende, em Évora.

2) O novo regulamento para as artes

A apresentação do novo regulamento para o apoio às artes, da responsabilidade do Ministério da Cultura, foi apresentado a meio de Novembro, depois de ter sido alvo de uma muito pouco participada discussão pública. Tenha essa quase ausência de participação ocorrido por enfado, cansaço ou simples inconsciência, a verdade é que com a aprovação do novo regulamento, abrir-se-á ainda mais o fosso entre criadores, companhias e programações. Numa altura em que já se deveria saber qual o futuro do Instituto das Artes - que, através das indicações no PRACE (Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado) devia passar para Direcção geral das Artes perdendo a tutela sobre as restantes direcções regionais -, o regulamento, para além de ir condicionar a acção dos novos directores pela apresentação de um regulamento que não conceberam, não é claro na objectivação dos contratos-programa, permite a acumulação de apoios pontuais com sustentados a companhias já subsidiadas e restringe o campo de acção da maior parte dos projectos existentes ao exigir determinadas garantias que o próprio mercado não sustenta. Ler aqui a análise ao documento.


3) Rui Rio

Se tivéssemos que destacar uma figura de todo o ano cultural, e para além dos nomes do Secretário de Estado e da Ministra da Cultura, o nome de Rui Rio, Presidente da Câmara do Porto ganhava sem margem para dúvidas. O processo que moveu contra o crítico Augusto M. Seabra por causa de uma opinião deste em relação às suas políticas culturais, a cláusula censória incluída nos contratos de apoio às estruturas e instituições da cidade do Porto, a polémica com o Túnel de Ceuta, e a privatização do Rivoli e subsequente passagem para as mãos do empresário-encenador Filipe La Féria, nisto incluindo a manifestação que alguns artistas da cidade promoveram no interior do teatro, à qual foram aplicados métodos sádicos de expulsão (música estridente, ar condicionado ligado no máximo, corte de comunicações), são mais do que razões para ver em Rio um autoritário e demagógico presidente de câmara, sem qualquer noção ou visão sobre cultura. Que existam nomes de relevo na cidade que não se tenham oposto a esta sinistra criatura é também sintomático de uma demissão do papel cívico que a muitos cabe, e neles se reconhece.

14 comentários:

Anónimo disse...

Caro Tiago

Lá está você a falsear os factos para defender os seus amigos.

A acção movida pelo Rui Rio contra o Senhor Seabra não se fundamentou nas opiniões deste sobre políticas culturais mas no facto deste ter proferido injúrias e difamações (condutas que são punidas pela lei portuguesa desde muito antes do dito Senhor Seabra ter descoberto a liberdade de expressão com a extensão que se arrogou e que o "Público" deixou de gostar).

Claro que o Senhor Seabra foi condenado... e bem!

Concordo que o Rui Rio não terá a visão sobre políticas culturais que se cultiva nas esquinas do Bairro Alto e entre as prateleiras da FNAC do Chiado. Mas ainda bem que são os eleitores do Porto que o julgam, não é?

Caso contrário, estar-se-ia simplesmente a substituir a "demagogia e o autoritarismo" do Porto pela de Lisboa!

E nós não queremos isso, pois não?

Anónimo disse...

Cobarde!

Porque não dizes os nomes de relevo do Porto?

É tão fácil bater em quem se sabe que não te dará saída....

O nome que tens medo de criticar é o Ricardo Pais, Tiago!

Triste país...

Tiago disse...

ó anónimo das 11h26, você tem cá uma legitimidade para falar em cobardia quando nem sequer assina os seus comentários... por acaso nem estava a falar do Ricardo Pais, que até falou sobre o caso. Mas se quer saber eu digo-lhe: Teresa Lago, Agustina Bessa-Luís, Sobrinho Simões, Pedro Burmester, Rui Veloso, Manoel de Oliveira, e tantos outros escritores, pensadores, e demais artistas (sobretudo de outras áreas que não as performativas).

Anónimo disse...

Caro Tiago,

Sou o mesmo de há bocado!

Como já tive oportunidade de lhe dizer, acho que você critica muitíssimo bem, quando não estão em causa os seus amigos, casos em que a escrita lhe sai um bocado enviezada.

Mas queria propôr-lhe um exercício: um contributo positivo para aquilo que você considera ser a política cultural certa para o actual momento (tendo em conta a situação das finanças públicas, claro).

Mas uma coisa com pés e cabeça!

Nomeie lá as direcções das instituições submetidas à tutela do MC e quanto acha que devem ganhar. Distribua e redistribua financiamentos escassos. Questione os modelos institucionais. Avalie o trabalho de quem lá está actualmente. Diga quanto paga de indemnizações para fazer sair quem não serve.

Fundia o S. Carlos e a CNB/Camões? Quem lá fica?

Acha que faz sentido manter a estrutura megalómana da CNB? O que pensa que irá acontecer quando a EDP deixar de ter participação do Estado (falta pouco...) e deixar de apoiar a CNB e o Camões (porque actualmente o faz por opção meramente política)?

Como acha que seria a situação financeira do S. Carlos sem a muleta do BCP (cujo apoio é, ainda assim, menos político). Acha que se aguenta?

Acha que os mecenas portugueses que vivem colados ao Estado vão continuar a apoiar este tipo de instituições quando deixarem ser participados por capitais públicos?

Retirava o Trindade ao Inatel? Quem lá punha? Como o financiava?

Mantinha a bipolarização CML/Egeac e organismos directamente tutelados? Acha que deve estar ao serviço da actual alternância do colorido político/artístico?

Diz que o regulamento de apoio às artes vai dar bronca com as autarquias e os acordos tripartidos e acena com o caso Rui Rio (nesta até parecia aquela personagem do Gulliver que está sempre a dizer "we'll never make it").

O que propõe em alternativa? Como faz a ponte entre os apoios públicos, a rede de teatros e os criadores/estruturas de produção?

Critica também a acumulação entre sustentados e pontuais (mas nunca criticou o facto de um dos seus amigos receber dos dois lados). Acha mal? Porquê?

Critica também as opções economicistas. Como pensa avaliar a concessão de apoios públicos às artes? Pelo trabalho dos críticos? Se discorda da aplicação de critérios objectivos, quais os que propõe em alternativa?

Acha que as estruturas de formação devem manter-se sob tutela da cultura, da educação ou de ambas?

Como defende que se faça a ponte entre as estruturas de formação e as estruturas de criação? Numa lógica de mercado (que parece defender apesar de ser meramente economicista) ou numa lógica integrada (e já agora diga quem mais tem contribuído para essa ligação entre as estruturas de formação e as estruturas de criação... diga...)?

Vamos lá ver como maneja os instrumentos daquilo que critica com tantas certezas!

Anónimo disse...

ó anónimo das 11:43AM,

Os críticos não são dirigentes nem políticos. Servem para criticar aquilo que acham que está mal para contribuirem dessa forma para a melhoria das políticas e decisões de quem tem o poder. Logo, a sua instigação é profundamente ridicula e inutil. O Tiago escreve o que quiser no seu blogue e permite comentários num espaço impar de discussão de assuntos afectos^à arte e à cultura.
Como não assina não merece que eu me identifique.

Anónimo disse...

Caro anónimo das 3:15

Ridícula e inútil foi a senhora sua mãe! Prefiro, de facto, que não se identifique.

Quanto ao resto, não lhe respondo porque o assunto não é consigo!

Anónimo disse...

se você tivesse conhecimento da alarvidade que disse. obrigado pois deu-me muita vontade de rir e o assunto é tão comigo quanto a minha mãe (que você sabe perfeitamente quem foi) foi chamada ao seu comentário. As suas palavras transpiram frustração e revolta. Típico de quem não consegue chegar a lado nenhum e se vinga de quem inveja sob a máscara do anonimato.
Parabéns. Você deve ser feliz.
E até adivinho o seu próximo comentário raivoso e vaidoso de quem acha tudo insignificante menos o espelho.

chato disse...

então meninos, onde está esse espírito natalício?

chato disse...

Falando de críticos, de arte e de estética que parecem ser os temas do momento neste blogue:

O trabalho mais importante do crítico de arte, se ele não se deixar confundir, é o de clarificar completamente o modo como concebe os seus conceitos; caso contrário, ele poderá passar do problema de tentar definir algo, para a tentativa de fechar o conceito com base em certas condições ou características que ele prefere, as quais resume numa recomendação linguística que erradamente julga tratar-se de uma verdadeira definição de um conceito aberto. Por conseguinte, ao perguntarem «O que é uma tragédia?» muitos dos críticos e estetas escolhem uma classe de amostras a partir da qual podem fazer uma boa descrição das propriedades que estas têm em comum, interpretando depois esta descrição das propriedades de um conjunto específico de amostras escolhidas como se fosse uma verdadeira definição ou teoria para toda a classe aberta de tragédia. Penso ser este o mecanismo lógico das chamadas teorias dos sub-conceitos de arte: "tragédia", "comédia", "romance", etc. Com efeito, todo este processo, subtilmente enganador, equivale a uma transformação de um critério correcto para reconhecer os membros de uma certa classe fechada legítima de obras de arte, num critério recomendado de avaliação de um qualquer putativo membro da classe.

Anónimo disse...

Caro anónimo das 4:26

Fico contente por ter cheirado o sovaco da minha escrita e por lhe ter suscitado tão violenta reacção.

Mas não aposte na psicologia! Dedique-se antes a fazer contribuições positivas!

Este Tiago tem cá uns amigos...

Anónimo disse...

hehehe. adivinhei. você não é nada vaidoso.

não dei conta da violência. peço desculpa se o violentei mas seus comentários não o caracterizam como muito sensivel.

Anónimo disse...

Largue-me o sovaco!

Anónimo disse...

epá, e continua narciso... sabe que existe algo para lá do seu umbigo (e do seu sovaco)

nem sequer conheço o tiago pessoalmente.

retiro-me do campo de tiro para continuar os seus treinos.

cumprimentos e bom ano.

Anónimo disse...

ISTO PARECE UM CAMPO DE BATLHA!