sexta-feira, abril 30, 2004

Verdes são os campos da cor o limão
Verdes são os olhos do teu coração


É qualquer coisa assim que escreve o Camões... bom, adiante, este blog vai a Braga pelo que regressa segunda feira.

Todos ao Estádio Nacional!!

quinta-feira, abril 29, 2004

Arte em Partes

O TUM - Teatro Universitário do Minho inaugura amanhã, em Braga, uma intervenção artística, chamada Pictures at an Exhibition, tal qual como a composição do Mussorgsky, coordenada por Rogério Nuno Costa numa série de galerias espalhadas pela cidade. O evento, que se repete - mas não na sua totalidade - no sábado, é o resultado de um workshop de teatro e conta com mais de 10 intervenções. Tentarei saber mais pormenores, mas, para já, fica a informação. Mas, atendendo ao trabalho que o Rogério já me mostrou (aqui e aqui), vai ser um belo fim de semana.

segunda-feira, abril 26, 2004

O dia passou e não se perguntou...

E tu, onde estavas no 25 de Abril?

domingo, abril 25, 2004

Chico, Abril

Foi bonita a festa, pá
fiquei contente
'inda guardo renitente, um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
mas, certamente
esqueceram uma semente nalgum canto de jardim

Sei que há leguas a nos separar
tanto mar, tanto mar
Sei também como é preciso, pá
navegar, navegar

Canta a Primavera, pá
cá estou carente
manda novamente algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque, 1976
Sons de Abril (IX)

A campainha do forno a anunciar o fim da cozedura de uma tarte de frutos silvestres, vermelha como os cravos.
Sons de Abril (VIII)

A filha da puta da gaivota que não se cansava, versão trompete
Sons de Abril (VII)

A voz rouca dos gritos revolucinários, também na Avenida:

- opo...o u...i...do ...amai... ...erá... ...encid...

- ---int... ...incu... ... a...il ...emp...e ...axismu ... ...unca mais
Sons de Abril (VI)

O anúncio de uma mensagem por telemóvel a dizer-me que um jornal pediu um depoimento a um amigo encenador/cenógrafo acerca da política teatral e o 25 de Abril e que à resposta de que nem com mais 30 anos a coisa lá ia, não foi publicado.
Sons de Abril (V)

A televisão que, ao fundo, passa o filme da Maria de Medeiros.
Sons de Abril (IV)

O som do compasso marchado dos manifestantes na Avenida.
Sons de Abril (III)

Turista francesa no Príncipe Real e de mapa na mão:

- Desculpa... ah... bonjour... parra que ládô fica a révolution?
Sons de Abril (II)

Os aviões a passearem por cima da Avenida da Liberdade.

sábado, abril 24, 2004

Sons de Abril (I)

Os foguetes no ar e os cães a latir.
Em busca do tempo perdido, volume I

onde se dá conta das primeira impressões de leitura da obra de Proust

1 pacote de açucar granulado - 0.94€
1 pacote arroz cigala agulha - 0.98€
1 embalagem sacos para o lixo com atilho - 1.24€
2 pernas de perú para assar - 2.61€
1 embalagem de massa quebrada - 2.06€
1 embalagem de 6 ovos classe L1 - 0.89€
6 kiwis - 0.97€
2 pacotes de natas magras president - 1.98€
1 lata de tomate guloso cortado em pedaços com manjerição e alho - 1.19€
1 embalagem de chocapic - 2.09€
1 embalagem de toalhetes auchan - 1.15€
2 cassetes de vídeo basic line 120 minutos - 2.50€
1 embalagem skip máquina 24 pastilhas - 4.75€
6 bolas de pão de mistura - 0.49€
1 embalagem de frutos silvetres congelados - 2.49€
1 embalagem de esparregado congelado auchan - 1.50€
1 embalagem de icing sugar - 1.05€
6 iogurtes aromatizados longa vida - 2.29€
6 cebolas auchan - 0.71€
1 recarga 4 lâminas wilkinson sword 3D - 7.97€
1 embalagem de 12 rolos papel higiénico folha dupla auchan - 2.67€
2 pacotes de leite mimosa meio gordo - 0.98

Esqueci-me de comprar alho e manteiga e devia ter trazido mais 4 pacotes de leite.

Total: 46.49€
Local: Pão de Açucar das Amoreiras, Lisboa

Parece-me que o Proust vai ter que esperar mais uns dias.

quinta-feira, abril 22, 2004

É pra amanhã, o que não podes fazer hoje...

Este blog regressa amanhã, já depois da meia noite, para o habitual e quem sabe outra coisa qualquer.
Publicidade em causa própria III

Novo mês, novo workshop, novas inscrições.

WORKSHOP de PRODUÇÃO de ESPECTÁCULOS

O papel do produtor no processo de criação

com Tiago Bartolomeu Costa
Local: Delegação Regional Instituto Português da Juventude
Via Moscavide lote 47 101, Lisboa (Parque das Nações)

N.º de horas: 22
Datas: 11 a 29 de Maio
Horários: terças e quintas: 19h – 22h; sábado 8: 15h-19h
Preço: 60 €
Informações: 96 550 9 550
tiagobartolomeucosta@hotmail.com

terça-feira, abril 20, 2004

Outros apitos

Ao mesmo tempo que Gilberto Madaíl diz não estar surpreendido com os resultados das investigações, pergunto-me quem é o dono do apito dourado e se fará o mesmo às suas vítimas que aquele vilão do 007 que dourava as vítimas depois de mortas no Goldfinger? Quem é que terão dourado desta vez?



O apito

A justiça pode estar a avançar, conforme parece acontecer com esta história do Major e da bola, mas o nome da operação: APITO DOURADO impede qualquer credibilidade. Quando paramos de rir por causa do nome já esquecemos do que estavam a falar.
Hasta la vista Iraque!

Eu confesso que não sei o que pensar acerca da retirada de tropas do Iraque por parte da Espanha. Percebo o contexto emocional, mas não entendo de que forma pode isso contribuir para uma melhoria do estado das coisas. Ainda que tenham sido declaradas tréguas, não se sabe se estas serão temporárias ou definitivas e muito menos se esta tomada de posição não fragilizará, ainda mais, a posição espanhola no plano internacional. Porque, a bem da verdade, o que Zapatero faria inteligentemente, era terminar a missão no prazo previsto para a transição, proibir a envolvência das tropas espanholas em ataques à rebelião e, em última instância, dizer que iria contribuir para a resolução de uma questão, que outros iniciaram tão mal. Isso sim era saber jogar com todas as armas, passe a infeliz expressão. Infelizmente, eu não vejo outra coisa que um receio de novos confrontos em solo espanhol que, ainda que legítimado, não são menores que em qualquer outro lado do mundo. Porque com os terroristas não se negoceia, Zapatero mostra-se assim, fraco, ainda que num plano imediato, corajoso aos olhos dos seus eleitores. Mas e depois? Parece-me uma atitude um tanto irreflectida e sobretudo demagógica. Eu que não defendi a invasão do Iraque, também não me parece honesto que agora se venham embora como se não fosse nada com eles. É-o, de facto, ainda que se queiram libertar dos fardos do anterior governo. Vamos a ver que custos trará esta decisão.
Eu gosto desta canção!

mas só a parte final


e mai' nada.

Señorita, Justin Timberlake

Now listen
I wanna try some right now
See they don't do this anymore
I'ma sing something
And I want the guys to sing with me
They go
"It feels like something's heating up, can I leave with you?"
And then the ladies go
"I don't know what I'm thinking bout, really leaving with you"

Guys sing
It feels like something's heating up, can I leave with you?
And ladies
I don't know what I'm thinking bout, really leaving with you
Feels good don't it, come on
It feels like something's heating up, can I leave with you?
Yea, ladies
I don't know what I'm thinking bout, really leaving with you
Sho feel good to me

Sing it one more time
It feels like something's heating up, can I leave with you?
Ladies
I don't know what I'm thinking bout, really leaving with you
Yea, yea..
It feels like something's heating up, can I leave with you?
Ladies
I don't know what I'm thinking bout, really leaving with you

Gentlemen, good night
Ladies, good morning
[laughs]
That's it


O resto está aqui, mas já não acho graça nenhuma, para além do Tímbalo boy me parecer um tanto arrogante. Em suma, "'Senorita' is a pop track. Plain and simple. Only, it's quite good for a pop track. If you're a closet pop fan, then this may be the one to come out of the closet to." Images do vídeo aqui, já que, ao que parece, o menino protege-se.

Now ladiiiiiiiiiiiiiieeeeeeeeeeeesssssssssssss!!!!!!!!!!!!!!!!!!

segunda-feira, abril 19, 2004

Cadernos da (r)evolução

Tomo I - os poemas

Abril com "R"

«Trinta anos depois querem tirar o r
se puderem vai a cedilha e o til
trinta anos depois alguém que berre
r de revolução r de Abril
r até de porra r vezes dois
r de renascer trinta anos depois

Trinta anos depois ainda nos resta
da liberdade o l mas qualquer dia
democracia fica sem o d.
Alguém que faça um f para a festa
alguém que venha perguntar porquê
e traga um grande p de poesia.

Trinta anos depois a vida é tua
agarra as letras todas e com elas
escreve a palavra amor (onde somos sempre dois)
escreve a palavra amor em cada rua
e então verás de novo as caravelas
a passar por aqui: trinta anos depois.»


Manuel Alegre

sábado, abril 17, 2004

Ensaio sobre o ruído

Haverá livro além da polémica, é o que pergunto acerca da barafunda Ensaio sobre a lucidez? Eu não li o livro (o que, de acordo com a ética me impediria de pronunciar sobre o caso) nem tenho intenção de ler. Nesse aspecto reconheço que sou um tanto obtuso, mas enfim... são escolhas. Agora, o que não é possível ignorar é a questão de fundo subjacente ao lançamento do livro: haverá obra literária para além da "bomba", do"choque", do "murro no estômago"? Pessoas amigas (que leram o livro além do ruído e que se chocam com o facto de eu opinar baseando-me em contextos e reacções) têm-me, repetidamente, dito que sim, o livro existe, ultrapassa até as posições do autor, as contextualizações são perniciosas e até que retiram, ao livro, a sua verdadeira força.

Eu não tenho por certa a ideia de que José Saramago seja mais do que um teórico-ensaísta a fazer as vezes de romancista, sobretudo nos seus últimos livros, em que a vertente da condição humana é mais explorada, em detrimento de outros aspectos, se quisermos, em que o protagonista não é um exemplo, uma característica, um modelo. No entanto, o que se espera de um escritor (asseguram-me como se este não fosse livre e espontâneo) é que reflicta exactamente sobre a condição humana, em particular a do seu tempo. Saramago, nos seus longos discursos, tenderá mais a pensar sobre o futuro do homem do que a discutir o presente, ainda que parta desse presente (ou de um conjunto de presentes por ele definidos como essenciais) . Dizem-me, ainda, que é o que se espera de um Nobel, que não fale para o seu país, mas para o mundo (deve ser por isso que Saramago esclarece, a lúcidas páginas tantas, que aos portugueses nunca tinha acontecido tamanho "erro"). Mas neste caso, eu ainda sou dos que preferem os que recusam o Nobel.

Nas acesas discussões que tenho tido acerca do Ensaio sobre a Lucidez (eu do lado da barricada de quem só leu reacções, eles com o autocolante a anunciar que conseguiram achar o livro atrás do ruído), têm surgido, não tão amiúde quantro eles queriam, uma tendência e um resvalar para essas mesmas questões paralelas: pode aceder-se a um objecto, quando ele está intrinsecamente contextualizado? Há quem ache que sim, eu, por outro lado, considero que recusar-se a leitura dos contextos é não aceder ao objecto completo. Há, contudo, a noção, de que a arte (ainda que não salve o mundo) contribui para um abrir de olhos, uma maior capacidade de atenção para o que nos rodeia. O que nos levaria, de novo, à questão dos contextos. É, ou não, um reflexo dos tempos, este livro? E analisado de acordo com esses mesmos tempos? E apresentado em altura tão propícia (pré-campanha - argumento demagógico, dizem-me -, 25 de Abril, imposição de regimes livres no oriente, ...)

Entre as diversas questões que se têm colocado, a mais consensual é a que defende que o voto em branco, por si só, é um voto inútil, dadas as múltiplas interpretações nele incluídas. Ora, a questão do voto em branco - problema maior de Saramago (diria eu) / das personagens do livro (diriam eles) - não está, de todo, desligada de uma ideia de desresponsabilização das elites (conforme defendia, há meses atrás, em editorial lúcido José Manuel Fernandes) que se alastra para as restantes classes. O que hoje se assiste, e que Saramago defende estar relacionado com a sobranceria dos políticos face ao poder que lhes foi consignado - e, portanto, não abandonado - é a um lento abandonar das funções subjacentes a todos e a cada um de nós, enquanto cidadãos adultos, responsáveis, conscientes, íntegros... logo, lúcidos. A questão (tão velha e vazia como a do ovo e da galinha) é saber onde começou a culpa de tal situação?

Entre diversos argumentos, aquilo que estes meus amigos defendem, acintadamente, é um regresso à ideia de livro como objecto que coloca questões e questões essas que têm um relexo individual, mais do que universal. No fundo, parece-me, um regresso à velha máxima de Kennedy, ask not what your country can do for you, but what can you do for your country, mas agora em versão egocêntrica (no sentido positivo da palavra, entenda-se). Não lhes interessa o ruído ou o facto da direita ter recebido este livro com melhores mãos que a esquerda. Muito menos lhes interessa saber que foi o próprio autor a colocar a tónica no discurso político e a fazer deste livro um lugar de reflexão acerca do estado das coisas. Insistem, mesmo que o autor não queira, em ler o livro. Assim mesmo, ler o livro comme il faut. Terão eles razão?

Que legitimidade temos nós em nos substituirmos ao autor nessa função? Que razões encontramos nós, maiores que a própria polémica, para o fazer? Podemos mesmo viver sem a contextualização? Saramago-autor é maior que Saramago-politólogo, defensor de causas duvidosas, auto-vítima cultural, Nobel ambíguo?

Pelo que me diz respeito, o que não me leva a ler este livro do Saramago, ou qualquer outro, não se prende com questões de pontuação ou outros apêndices, mas pelo facto de não conseguir abrir os olhos no meio de tanta poeira. Por não encontrar o livro. Há-o, dizem-me.

Mas depois eu penso no que este almoço com Durão Barroso pode significar (nesse ignóbil pedido de desculpas - pergunto-me se Saramago alguma vez pediu desculpa pelas perseguições a que foram votados muitos apolíticos após a queda do regime fascista em Portugal) e não entendo como se pode ver Saramago como um proscrito, um renegado, um apátrida. Vasco Pulido Valente dixit, hoje ao Diário de Notícias que não há como sermos perseguidos para a nossa obra ser reconhecida e que este "erro" fez mais pela carreira e pelo Nobel que todos os outros (depois penso nos discursos de que a arte não se deve misturar com a política, e que os artistas não se devem deixar reconhecer pelo Estado e ainda do que Cavaco Silva assume neste segundo volume autobiográfico acerca da relação políticos/artistas e de que como estes, porque ficam para a história e são imprevisíveis, convém saber com quem se pode contar). Nisto, até alguns desses meus amigos concordam. "Memorial do Convento" não é um livro brilhante. Eu só li o que me impingiram, e confesso que também não apreciei. A bem da verdade, José Saramago não foi ofendido de maneira nenhuma. Se calhar, se perdesse o prémio ia dizer que não tinham feito a promoção suficiente, ou então que o júri o tinha ostracizado. Pelo facto de não ter entrado a concurso, pode sempre apelar-se à especulação. O livro continuou nos manuais escolares, vende imenso, é citado, traduzido, adaptado, reconhecido e admirado. Bem como todos os outros. E se não houvesse polémica, haveria tanto Saramago? Haveria o peso de cada intervenção?

Entre o forte ataque à censura posta na questão e a irrelevância de um prémio, todos (eu e esses meus amigos) concordamos que há livros e há livros. Só não concordamos que uns livros devam ser lidos dentro de contextos e outros não precisem dele. "Ensaio sobre a Lucidez", precisa, efectivamente, de toda a polémica e de toda a contextualização. Caso contrário, segundo percebi de leituras críticas, não é mais que um exercício de ficção científica.

Mas repito, eu não li o livro.
A (r)evolução do anjo

A partir de segunda feira, anuncia-se a publicação de uma série de cadernos do anjo, acerca dos 30 anos do 25 de Abril. O anjo associa-se assim à efeméride. Revolução ou Evolução? Crónicas, poemas, fotografias, comentários, opiniões, observações, reflexões, apontamentos, considerandos, memorandos, apensos, excertos, notas e post-its.

A liberdade está a passar por aqui, diz a canção. Que diz o anjo?
Ao Acaso

corrente blogueira


1. Pegue no livro que estiver mais perto de si.
2. Abra-o na página 31.
3. Sublinhe a lápis a primeira frase completa que encontrar.
4. Publique-a no seu blog, juntamente com estas instruções (faça-o nos comentários deste postalhito, se não possuir o seu próprio weblog).

Vou começar a ler "O homem que via passar os comboios" de George Simenon, na colecção do Mil Folhas. O livro pousa em cima da cama, à espera que o abra já dentro dos lençóis e a primeira frase completa da página 31 é: "Mas quando vestisse de novo as roupas cinzentas de Kecs Popinga e desse consigo de pé, barbeado de fresco, bem lavado, com os seus cabelos louros colados pela brilhantina?"
Encontrei esta brincadeira aqui (da qual copiei todas as palavras excepto os acrescentos pessoais) que a leu aqui que a encontrou noutros blogues... Só não percebo o significado.

Diga lá qual é a frase?

sexta-feira, abril 16, 2004

Saudosismos e consolos

O Renas recorda a Sandra Kim, canção que não se cansa de tocar aqui no tugúrio. Esta coisa neo-glam-europeista-fin-de-siécle ainda vai terminar mal.

Nem a propósito, o grande tema de conversa esta semana das funcionárias-seguranças da Biblioteca Nacional era a qualidade da pele da Lara Li. Dizia uma para a outra: Ninguém dá 50 anos áquela mulher. Respondeu a outra para uma: Quem me dera a mim chegar lá assim. Será que anda apaixonada?
Ando sem inspiração

Ando sem inspiração e este sentar em frente ao computador, enfada-me agora que o sol desponta e até já ouso sair sem camisolas à rua. As desculpas a quem seguir em frente.
Em bicos de pés!!!

Esta história do pedido de desculpas ao Saramago, deixa-me irritado. Como se pudesse existir alguma outra coisa nessa intenção do que publicidade e mais publicidade e ainda mais publicidade. Estou mesmo a ver os autocolantes nos livros do vetusto Nobel: "Agora, também aprovado pela maioria".

Se a moda pega, teremos o Eusébio a querer que o Estado assuma as impossibilidades fascistas de ser transferido para outro clube de fora ou a Linda de Suza por ter sido obrigada a emigrar e a falhar no estrangeiro. O caso foi o que foi, Saramago vende como nunca, já tem o Nobel, os livros, mesmo fracos, são falados (mas serão lidos?!) e o resto são cantigas... ou fado, como diria o outro.

Mas a coisa deveria dar-se ao contrário. Por exemplo:a Dulce Pontes deveria pedir desculpas por ainda cantar, o Taveira por ter feito as Amoreiras, o Ministro da Cultura por assinar enquanto tal, etc.

terça-feira, abril 13, 2004

A Lei dos Amantes (22)

Nem todo o silêncio deriva na melhor das imaginações.
Em caso de sufoco, grite baixinho

Janela Indiscreta + Sliver - Violação de Privacidade + O Delfim transfigurado e ausente de sentido + desconhecimento do universo Marguerite Duras + Agustina Bessa-Luís lida na diagonal + todo o cinema do Antonioni escondido, revelado, escarrapachado, dissimulado e nós a percebermos tudo + a falta dos vapores de uma piscina + dry martinis sem angustura + Madonna sem paixão + solários + Julião Sarmento + os amigos todos artistas plásticos + vazio de intenções + uma grande performance da Ana Zanatti + duas ou três cenas que se não fossem os diálogos irreais, os figurantes obtusos e os planos insensatos e eram impressionantes + a sensação de que chegámos todos (público, actores, técnicos, realizador, argumentista) atrasados ao filme + um desiquilibrado naipe de secundários + uma Lisboa que não se afirma + o medo de chamar as coisas pelos nomes + achar-se sofisticado dizerem-se palavrões e reforçar-se a coisa como se o fizessemos no dia a dia + uma sósia da Ana Sousa Dias e do conceito do programa Por Outro Lado + o moderno em abstracto + o empolamento de situações + ... = Lá Fora.

domingo, abril 11, 2004

Notícias relacionadas

A propósito do que se no Renas e Veados, o PÚBLICO publica hoje uma breve notícia acerca do casamento entre homossexuais: diz então o jornal (link para a notícia não acessível) que "a maior parte dos americanos é contrária ao casaento entre homossexuais mas, apesar de considerarem que a união entre pessoas do mesmo sexo 'é contrária aos mandamentos de Deus', manifestam tolerância em relação às preferências sexuais de cada um, segundo o jornal 'Los Angeles Times'. Uma percentagem de 55 por cento dos inquiridos considera que, ao permitir-se o casamento entre pessoas do mesmo sexo, está a contribuir-se para a degradação e desacreditação deste acto. A sondagem, via telefone, foi feita junto de 1616 adultos, havendo ainda a destacar que, apesar de seis em cada dez pessoas entender que a união entre pessoas do mesmo sexo é contrária à lei de Deus, é igual a proporção dos que acreditam ser inevitável um aumento dos direitos dos homossexuais."
Em Abril, raivas mil

Há medida que os dias de revolução se aproximam (não é que nos outros dias o mesmo não aconteça), as manifestações de neo-saudosismo acentuam-se. Ele é o elogio à qualidade de vida do ancient régime, esses tempos em que se fazia a apologia ao português nobre, respeitoso da sua terra, orgulhoso do seu país, conservador da moral, dos costumes, das promessas de dias melhores que nunca viriam, mas pelo menos não se deixavam de querer.

Esta turba de gente, leitora compulsiva do 24 horas e do Correio da Manhã, que vive azeda com tudo, seja a direita ou a esquerda, o árbitro ou o seleccionador, a mulher ou o raio do neto que não se cala com a caderenta da bola, não quer sequer saber que ao domingo tudo é possível. O discurso é falacioso, contraditório, tendencial e extremista. (Ai se eu mandasse... é a expressão da ordem)

Ao encherem de migalhas e perdigotos os outros habitantes do café, do autocarro, da fila para o cinema, calcinam também toda e qualquer esperança de um domingo soalheiro. Derrotados e confusos (terão eles razão? seremos nós, de facto, utópicos, vulgo, parvos?) voltamos para casa onde nada nos espera a não ser a manhã cinzenta de segunda feira.
Guia de pequenos - almoços

Pode ser maravilhoso morar em zonas histórico-turísticas da capital, mas a verdade é que se quisermos tomar o pequeno almoço na rua, são poucos os cafés abertos, muito menos em dias festivos. Já nem falo dos verdadeiros "jornaleiros", que sabem o que queremos, sem parcimónias ou conversas demoradas, e nos estendem o jornal em troco de um mudo bom dia.

Não seria má ideia criar-se um "guia para pequenos - almoços ao fim de semana, dias feriados, férias grandes ou inter-semestrais, outras interrupções e demais azares". Um guia que desse conta desses oásis onde não há clientes azedos, empregados hiper-solícitos, maravilhosos bolos, cafés não queimados e mesas onde ninguém se atropela entre uma alheira dominical e um croissant recheado. Ajudaria imenso os que se deleitam com uma demorada leitura do jornal, já o sol vai a pique e alguns se dirigem ao supermercado em fato de treino e ténis.

Petição, já!!
A barriga de um arquitecto

Plagiando o nome do belíssimo filme de Peter Greenaway, uma surpresa. Este blog assume aquilo que Bruno Zevi defendia: a arquitectura é aquilo que fazemos com ela. Façam o favor de olhar para a barriga deste arquitecto

sábado, abril 10, 2004

Ben-Hur

Estou a ver o filme e a pensar que o pacifista Ben-Hur/Charlton Heston/Moisés é agora presidente da Associação Americana de Direito a Arma Própria. Cristo talvez tivesse uma parábola a dizer.

sexta-feira, abril 09, 2004

O lobo das estepes

Entre indecisões, fui surpreendido pela edição, na Erato, de mais uma gravação desse prodigioso pianista Nikolai Lugansky, russo de nascença e virtuoso desde sempre. Desta feita, e depois de Chopin e Rachmaninov, dá-nos Prokofiev e as suas sonatas bélico-trágico-amorosas, seguidas de transcrições para piano do celebérrimo bailado Romeu e Julieta.



Lugansky, (site oficial) que tem o porte de um príncipe de gelo, a leveza da mais fria neve (sim, é fácil perder-se a cabeça pelo pianista!), atira-nos para este universo estranho, entre o classicismo e a modernidade.

Eis a voz dos especialistas: "He articulates every fiendish accent and finds still centres at the hearts of the inner movements in a way that compels attention. He takes the final Vivace [of the Sixth Sonata] at a virtuoso pace that still allows for mania and slows for an especially uneasy reminiscence before a final slam unrivalled by Richter, Kissin, Pogorelich or Chiu - let alone the much-vaunted Trpceski, who... offers only a fraction of Lugansky's vigilant impact as the Sonata gathers weight and pathos." (BBC Music Magazine)

O canal de música Mezzo, está a passar, repetidas vezes, uma gravação de Lugansky a interpretar Chopin.
O Estado das coisas

onde se desespera com a oportunidade de escolha

Ir ao supermercado é, como se sabe, uma utopia. Nunca se vai só para comprar o que é essencial. Traz-se sempre mais qualquer coisa. O que quer que seja. Mostrem-me um ser humano que vá ao supermercado e saia somente com aquilo que o levou lá, e eu voto nele para Presidente da República.

Bom. Problema: escolher detergente e amaciador para a roupa. A tarefa podia ser simples, já que o objectivo é, ele mesmo simples. Mas o facto de hever a possibilidade de escolha, desequilibra essa simplicidade. Mesmo que a marca já esteja definida (conselho: as marcas de supermercado, ainda que mais baratas, não produzem o mesmo efeito e a roupa fica sempre a cheirar a suor), resta o tipo de detergente que se quer levar.

Tinha decidido levar Comfort, já que era o que se "gastava" em casa de mamãe, e nisto não há como as mulheres para decidir o que trazer, mas desde a última vez que comprei detergente - agora essa tarefa está, ingratamente pelo que pude perceber, entregue a outras instâncias - que o Comfort deixou de ser puro e simples Comfort para passar a ser com cheiros por regiões do mundo: Japão (com cheiro a cereja), Inglaterra (a cheirar a campo), Islândia (dizem que a saber - sim, a saber porque me saltou para a boca - a água gelada), Mediterrâneo (água quente -suponho!- e limão - mas porque é que não lhe chamam chá?), Pacífico (mais motivos marinhos) e Ilhas Gregas (cheirou-me a peixe podre, enfim...). Meu Deus, porque me abandonaste?! O que escolher? Acho que trouxe um que devia cheirar a laranja selvagem mas parece-me cheirar antes a concentrado industrial.

Escusado será dizer que demorei mais tempo nessa zona que qualquer pessoa, o que não só me deu vontade de trazer outras coisas (e trouxe!), como ser, também, alvo da chacota de uma série de mulheres que, despachadamente, sabiam ao que iam. É que elas podem achar muita graça a homens sozinhos no supermercado, mas não imaginam o que se sofre.

Ódios de Estimação II

- Pacotes com abertura fácil (ao contrário de Eduardo Prado Coelho: "Quando no mundo todas as aberturas forem fáceis, as pessoas serão finalmente transparentes e felizes." PÚBLICO 09/04/04)
Profissão de fé

onde se dá conta da experiência cinematográfica denominada A Paixão de Cristo

Em fim-de-semana santo - ou mini-férias, como lhe chamam os funcionários públicos que há muito deixaram de crer em Deus - fui à catedral - vulgo El Corte Inglés - para ver o Evangelho segundo Mel Gibson. Assim de uma assentada parece-me que o filme faz mais pela culpabilização dos fiéis do que as aulas de catequese durante a vida toda. Ao meu lado - dos dois lados - em baixo, por cima, no cinema todo, entre pipocas, sandes, coca-cola e telemóveis com toques polifónicos era ver as lágrimas correrem pela cara do mais resistente dos corações.

Não sei se é de ter visto os filmes do Cecil B. DeMille, de conhecer a Agustina, de reconhecer a iconografia secular ou de saber que AQUILO é só um filme e que bastam três minutos de um relatório da Casa Pia para ficar mais horrorizado, mas pareceu-me tudo um grande exagero. Antes de ser barroco, sepulcral, pictoricamente duvidoso e "parabolizante", o filme de Mel Gibson é tendencioso.

E é-o, não porque insista na ideia de que foram os judeus que entregaram Cristo - isso sabe-se, basta saber ler os Evangelhos - mas porque quer fazer crer que a culpa de tanto sofrimento - ou do facto daquele homem carregar tão pesado fardo - se deve à nossa incapacidade de olharmos "o outro" como um abnegado; alguém que morre pelos outros sem querer nada em troca. Em nome de. É-o, também, por seleccionar dos outros o que mais lhe convém a essa teoria. Ou seja, não se trata de um filme, mas antes de um "Evangelho-respigador"

Se estivermos atentos ao filme - por mais impressionantes que sejam as imagens, já não somos crianças e muito menos inocentes - percebemos que não é mais do que um mostruário da parafernália cristã. Está lá a coroa de espinhos carregada na cara, o santo sudário - manipulado digitalmente, na certa -, a estrela de David - repetida três vezes para o caso de não se perceber-, a primeira queda, e a segunda queda, e a terceira queda e todas as quedas - cada vez mais lentas, mais guturais, mais gráficas -, a pietà, os estereótipos, a homogeneização de posições... e até o pecado em forma andrógina - quem sabe fruto dos tempos modernos. Saber-se, depois, que Mel Gibson afirma tratar-se de uma mulher, porque o espectador deve fazer da figura uma leitura "magnética, é anular a ideia de que Cristo ascendeu aos céus como resultado dos homens e das mulheres, e não em confronto com o pecado em forma feminina. O Cristo é então, um homem; um objecto erótico - que outra leitura se pode fazer da cena em que constrói uma mesa e essa híbrida cena final - e não um objecto erotizável. Mas o erótico é pecado, e voltamos ao início.

Mel Gibson não fez um filme, mas antes insiste numa tese. A de que o Cristo, em vez de "sofredor" é, "redentor". E que a redenção deve chegar através do horror da percepção de que fomos todos nós - ainda hoje - que matámos. Morreu por nós, para nos salvar. E que fizemos nós com esse ensinamento?

Ele fez um filme. O outro, quando escreveu o Evangelho dele, foi censurado. O público emociona-se. Gostava de saber quantas vezes vai passar este filme em alturas da Páscoa. Acho que vou aproveitar para rever os clássicos este fim de semana. Pelo menos não se querem fazer passar por parábolas dentro das parábolas.

Eu, por mim, prefiro os originais.

quinta-feira, abril 08, 2004

Elogio à videocassete

a que se seguirá o elogio ao vinil e onde dou conta da minha angústia

São mais de 800 cassetes de vídeo arrumadas dentro de caixotes. As mais frágeis (os bens mais preciosos) estão embrulhadas em papel de jornal a ver se limita o acesso à humidade. Muita coisa russa, muita coisa muda, muito filme negro, cinema vérite, realismo italiano, expressionismo alemão, movida espanhola, algum cinema novo português, dezenas de documentários, reportagens, musicais, pérolas do entretenimento, marcos da história, etc. Neste momento, descontando aquelas outras preciosas que carrego comigo e mais algumas emprestadas, outras não recolhidas e umas que não lhes encontro o rasto, devem ultrapassar as oito centenas.

Com o advento do DVD, mais botão e menos botão, e as cassetes começaram a ficar obsoletas. Já ninguém quer saber das fitas partidas, dos drop-outs, regravações, capas perdidas e re-escritas... agora é tudo em DVD, essa pequena maravilha portátil, que se empresta porque demora meia hora a copiar. Essa coisa que custa os olhos da cara e cheia a moderno.

Eu não desisto das minhas cassetes. Elas podem desistir de mim, assumindo formas que não lhes reconheço ou, pior (ultrage!!!), desgravarem-se; fazerem um piquete de greve, não quererem entrar dentro do video, exigirem cabeças novas, esconderem-se atrás dos armários... o horror, o horror.

Fazem barulho quando caem, ganham mais pó, são pesadas e ocupam muito espaço. Não ficam bem numa casa desenhada a traço fino (não ficam bem senão num armário na despensa), merecem pontapés e vôos rasantes aos candeeiros quando não mostram o que dizem, desconhecem o que é um temporizador e, algumas delas, suicidam-se, cortando-se em pedaços de fita, que nos escorrega dos dedos à mesma velocidade que as imagens nelas inscritas.
Mas eu não me consigo livrar das cassetes de vídeo. Olho-as, transformo-as, classifico-as, defino-as, limpo-lhes o pó... observo-as como troféus de caça.

E depois o DVD ainda não permite gravar directamente da televisão; ainda não tem tudo o que eu quero; não sabe o que é a memória do tempo e precisa de muitos botões para funcionar. Dou dez anos para que as cassetes voltam a estar na moda outra vez. Com esta onda de revivalismo, em que até os anos 90 já são olhados com saudade, em breve os videogravadores serão caríssimos e depois irão todos chorar por terem feito substituir o mamute por uma gazela.
A lei dos amantes (21)

Que Reste-T-Il De Nos Amours? ( Charles Trenet)

Que reste-t-il de nos amours?
Que reste-t-il de ces beaux jours?
Une photo, vieille photo de ma jeunesse

Que reste-t-il des billets doux
Des mois d'avril, des rendez-vous?
Un souvenir qui me poursuit sans cesse

Bonheurs fanés, cheveux au vent
Baiser volés, rêves émouvants
Que reste-t-il de tout cela?
Dites-le moi

Un petit village un vieux clocher
Un paysage si bien caché
Et dans un nuage le cher visage
De mon passé
Explicações do atraso (I)

Onde esclareço os parcos leitores acerca da ausência de posts

Fui ver o último filme da Diane Keaton (que deveria ser visto em sessão dupla com o último de Woody Allen, para se perceber com as mulheres envelhecem melhor e que a Annie Hall é, por si só, um conceito) e assustei-me quando, na sala, era o único a reagir, encantada e bajuladoramente, à presença de uma canção do Charles Trenet (Que Reste-T-Il De Nos Amours?) na banda sonora. Registo que estava no cinema Londres a um domingo à tarde. Assustei-me com a gargalhada que tinha dado. O silêncio à minha volta era confrangedor.

Desapareci para ir buscar a juventude, é uma hipótese de explicação.

quarta-feira, abril 07, 2004

Qual é a novidade?

Anda tudo ESTÚPIDO com a descoberta de o nosso primeiro engrossa a fileira do epíteto quando digitado no google. E depois? Há alguma novidade nisso?

terça-feira, abril 06, 2004

Mais um filme para a lista dos que gostava de ter gostado mais

Belleville Rendez-vous


Datas alteradas

Foram alteradas as datas do WORKSHOP DE PRODUÇÃO DE ESPECTÁCULOS. Informações na coluna ao lado.
Para um regresso já anunciado

Ana Hatherly.Tisana.126


O autor e o leitor:estamos no limiar do prazer. Um de cada lado como anfitriões esperando tensos. Vivemos a problemática do segredo - se for divulgado deixa de existir se não for torna-se um horrível tormento. Alguns mestres dizem que o próprio do prazer é não poderer dito.

sexta-feira, abril 02, 2004

Em busca do tempo perdido

Amanhã vou ao campo. Vou, também, buscar o tempo que roubei a este blog. Voltarei melhor. (Era o que diziam antes de haver tecnologia, pelo menos!)