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quarta-feira, agosto 08, 2007

Sítio das Artes: o debate

Em resposta ao meu comentário intitulado A Pequena Memória, publicado no jornal Público do passado dia 30 de Julho e referente às apresentações finais da residência artística Sítio das Artes, no âmbito da programação d' O Estado do Mundo, organizado pela Fundação Calouste Gulbenkian, a coreógrafa e bailarina Vera Santos fez publicar uma carta no jornal que também pode ser lida no blog desse fórum cultural. Convidam-se os leitores a participar na discussão, aberta na caixa de comentários do blog O Estado do Mundo.

Excertos:

Se um programa é sempre genérico (mas este em particular era atento às carências nacionais) e as escolhas nunca se equilibram, a expectativa desta catalogação é fundamentada pela necessidade de perceber as hipóteses de artistas surgidos num contexto pós-dramático, trágico e sobre-referencial. De uma maneira geral, os protagonistas das artes do corpo presentes parecem ter desperdiçado uma oportunidade de reflectirem sobre o que significa criar hoje.
Entre a expectativa mínima e a esperança máxima, as propostas concebidas por Joana Craveiro, Juliana Penna, Vera Santos, Ana Trincão, Miguel Bonneville e Maria Gil, eram unidas por aquilo que o artista plástico Christian Boltanski classificou de «a pequena memória» – que Craveiro citava, e bem –, mas que se tornou um escape para muitos criadores: a defesa de que uma selecção de referências imediatas e geracionais pode substituir sem perda os processos evolutivos da História. Ora, Boltanski não diz apenas que a nossa memória é tão ou mais importante que a memória universal. Diz também, e muito concretamente, que a memória individual só tem importância se confrontada com os efeitos provocados pela memória universal. Ou seja, essa «pequena memória» exige distância e capacidade de auto-crítica, pontos que estas propostas fazem por ignorar através daquilo que lhes é mais imediato, reconhecível e, por vezes, descartável.
TBC

Apesar de já termos sido apresentados e de nos termos cruzado várias vezes (inclusive durante a programação de O Estado do Mundo), lamentavelmente, não foi [Tiago Bartolomeu Costa] um visitante disponível para falar, para questionar, para criticar ou para partilhar um bocado desse mundo imenso que, ao que li no seu comentário, estou longe de tocar enquanto artista porque só pressinto a importância da minha existência. Vi-o no Open Studio, dia da apresentação final, no dia em que esteve a trabalhar no Sítio das Artes, eu estava a observá-lo e posso dizer-lhe que sei que não é fácil estar nesse lugar... a pressão é imensa. A forma que encontrei estes meses para lidar com isso, foi descentrar-me de mim, olhar à volta, cultivar a curiosidade, trocar impressões, ouvir experiências, saber o que se passa, de onde vêm as pessoas... o mundo não é só o que vemos. Ao ler a sua pequena memória do encerramento, fiquei atónita com a natureza generalista de expressões como «Lamentavelmente parecem todos continuar a falar para dentro, para si e para nada» e a visão redutora relativa aos 6 protagonistas (designação tanto para um "herói" como para um "figurante") das artes do corpo, perante um conjunto de 20 artistas (designação não menos rica em sentidos) de 5 países - e como muito bem reconhece, «escolhas que nunca se equilibram» - fazendo parte da particularidade da residência.
Vera Santos

quarta-feira, agosto 01, 2007

Dalila Rodrigues demitida por discordância de política do governo (actualizado)


O Ministério da Cultura demitiu hoje a directora do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), Dalila Rodrigues, por "discordância do actual modelo de gestão dos museus nacionais, tutelados pelo IMC, e por ter exigido condições para continuar no cargo, nomeadamente a autonomia financeira e administrativa", escreve a LUSA. De pouco valeu o aumento de público no museu, reagiu indignada Dalila Rodrigues"as receitas também, e foram realizadas obras de remodelação urgentes porque consegui mecenas para as fazer". Verba essa que o próprio MC achou por bem distribuir por outros museus, apesar de ter sido negociado directamente, e para o MNAA, entre a agora ex-directora e o Millenium BCP.

Vergonha. Muita vergonha. Ou falta dela no MC que ainda ontem, na inauguração da nova exposição, abraçava, beijava e elogiava Dalila Rodrigues.

Foi convocada para hoje, quinta-feira, às 19h00, uma vigília de solidariedade para com a ex-directora, à porta do MNAA

segunda-feira, julho 30, 2007

Sítio das Artes: balanço

Hoje no Público, reportagem de Isabel Coutinho e comentário meu à apresentação dos resultados finais da residência artística Sítio das Artes.

Excertos:

Estes são só alguns dos 20 projectos que foram apresentados, alguns encontram-se em fase de progresso. "Este projecto tinha limitações", explica Pinto Ribeiro, que podiam ter constituído um desafio para os artistas. Os participantes tiveram que lidar com limites de tempo (em dois meses não podiam concretizar trabalhos de um ano), o museu tinha regras rígidas (os artistas não podiam intervir no espaço da Gulbenkian sem lhes obedecer) e o orçamento não era elástico.
Mais de 700 pessoas passaram pelo Sítio das Artes no sábado, dia em que nesta residência artística tudo terminou ou tudo começou; depende da perspectiva. Se os artistas residentes conseguiram aproveitar o desafio e a oportunidade que lhes foi dada, só o tempo o dirá. Como em tudo, haverá certamente quem vá ficar pelo caminho.
Isabel Coutinho


De uma maneira geral, os protagonistas das artes do corpo presentes parecem ter desperdiçado uma oportunidade de reflectirem sobre o que significa criar hoje. Entre a expectativa mínima e a esperança máxima, as propostas concebidas por Joana Craveiro, Juliana Penna, Vera Santos, Ana Trincão, Miguel Bonneville e Maria Gil eram unidas por aquilo que o artista plástico Christian Boltanski classificou de "a pequena memória" - que Craveiro citava, e bem -, mas que se tornou um escape para muitos criadores: a defesa de que uma selecção de referências imediatas e geracionais pode substituir sem perda os processos evolutivos da História.
TBC

Na foto: MB - Family Project, de Miguel Bonneville. Fotografia de Henrique Figueiredo.

domingo, março 04, 2007

Sasha Waltz – quando a coreógrafa programa



Em Setembro de 2006 Sasha Waltz inaugurou o Radial System, um novo espaço de trabalho nas margens do rio Spree, no centro de Berlim, a 200m de AlexanderPlatz, no lado Este da cidade, depois de quase cinco anos de co-programação da Schaubühne, teatro nacional por excelência, onde tinha sido, com o encenador Thomas Ostermeier, anos mais novo que ela (em ímpeto programático e fôlego artístico), responsável pela renovação de uma ideia de arte oficial.

Questões orçamentais levaram a que no fim do primeiro quinquénio os dois directores artísticos, ele no teatro e ela na dança, se digladiassem por orçamentos. Bateu com a porta (diz ela), Ostermeier ficou a tomar conta de tudo (projecto inicial do encenador, dizem os fãs dela e detractores dele).

De uma antiga refinaria, edifício brutalmente industrial, feito de tijolo e corredores largos nasceu um espaço sem auditório, salas convencionais ou outra memória artística. Só espaço forrado a paredes de betão por acabar e janelas com vista para o rio e outras fábricas. A metáfora ideal para uma cidade que se refaz a cada dia. Daí a importância de ser no lado Este, onde mais se sentem as mudanças físicas da cidade, mas também por ser do lado onde resiste a Volksbühne, símbolo de contra-cultura que hoje tem como artista residente a coreógrafa Meg Stuart, aspecto nada evidente ou consensual.

São estas duas mulheres que estão a definir (termo generalista mas provocatório) os modelos de programação de dois espaços numa cidade de tribos urbanas. Para a programação Waltz chamou cúmplices antigos, fossem eles bailarinos regulares nos seus trabalhos (Luc Dunberry, Juan Cruz Diaz de Garaio Esnaola) ou outros nomes geracionais (Helena Waldmann, Maguy Marin, Mathilde Monnier ou Anne Huber). E a maioria do público descansou quando percebeu que ia conseguir ver dança sem as metáforas radicais que caracterizavam a linguagem da Schaubühne. Seria?

O espectáculo inaugural, Dialogue System 6 deu continuidade lógica a uma série de intervenções que a coreógrafa foi fazendo em vários espaços da cidade, agora propondo um circuito pelo interior da sua nova casa. Entre o pó de cimento que ainda se soltava das paredes de betão e o verniz que cheirava a fresco do soalho das amplas salas, visons e saltos altos burgueses (bilhetes entre os 36 e os 60€) percorreram as mais de 30 breves performances que os bailarinos da Sasha Waltz & Guests e os músicos da Akademie für Alte Musik construíram. A crítica dividiu-se, o público também (apesar da maior parte ter adorado a experiência anti-formal… de pé, de pé… tão pózinho moderno), e a intervenção não passou disso mesmo: cartão de visita que depressa se esquece.

É essa a maior dificuldade que o resto do público – o que quer ter acesso à dança contemporânea – espera do trabalho de Sasha Waltz e o papel que o Radial System pode representar, visto terem o maior orçamento de Berlim, mais do que os “míseros” cinco milhões que tinha que negociar com Ostermeier. A sua programação é suficientemente lata, combinando o seu trabalho disperso por companhias de repertório, a sua própria, criadores convidados – sempre em compra, nunca em co-produção –, e música. Mas a filosofia do espaço parece responder apenas a uma janela sobre o que se passa, em vez de propor linhas orientadoras; em vez de assumir uma autoria; uma característica. E, por isso, não deixa de ser curioso notar que é a própria Sasha Waltz que não deixa de se apresentar na Schaubühne. Para uns é saudade de casa, para outros forma tentacular de marcar território.


[texto publicado no suplemento Ípsilon do jornal Público, 02 Março 2007]

Gulbenkian apresenta programação do fórum O Estado do Mundo - comentário

O mundo inteiro, ou quase


Depois de dois anos como Programador Geral do impositivo O Estado do Mundo, António Pinto Ribeiro (APR) anuncia, mais do que um programa, um “fórum cultural” – abandonando o plural “culturas” na construção de um só Mundo, multicultural. A expectativa não era pequena: o fim do Ballet Gulbenkian, Serviço ACARTE e Encontros de Música fora “justificado” na necessária reformulação imposta pelos 50 anos da Fundação. E APR vinha apontando uma crescente preocupação com o olhar do outro/sobre o outro. O discurso do pós-colonialismo e a emergência de África marcaram o final da sua presença na Culturgest, friamente recebida pela pouca reflexão e consciência crítica em Portugal.

O programador regressa agora sem retóricas atlânticas, num mundo feito de olhares periféricos, sem quotas, crítico, atento e civicamente empenhado. Consciente que é do Oriente (do Japão, de Taiwan, da Índia,…) e do bélico território do Médio-Oriente que vão chegar as questões, e as possíveis hipóteses, para pensar o Estado do Mundo. Que traz ele? Um programa preciso, exigente e comprometido, de que importa salientar a reflexão sobre o conflito entre clássico e contemporâneo, tradição e cosmopolitismo. Como o pensar e apresentar?

Recupera-se a memória do Teatro Nô (na foto), que ali não se via desde os anos 60, e sugerem-se deslocações da tradição para contextos urbanos ocidentais (Return to Sender, da alemã Helena Waldmann acerca do Irão e dos preconceitos, e Quiet Please!, da indiana Nina Rajarani, uma desconcertante inscrição da tradição indiana nas ruas da Londres multi-étnica).

A proposta exige um público que saiba dialogar, é um desafio e um risco. Trata-se uma programação sobre pessoas, para pessoas. Melhores pessoas? Talvez não. Mas certamente com menos armas para a inconsciência e a ignorância. Espectáculos como Gilgamesh 3, da palestiniana El-Hakawati Theatre Company, ou Plasticization, solo da sul-africana Nelisiwe Xaba, equacionam o eu em relação ao outro, importando uma dimensão política que vai para lá dos noticiários e dos corredores governamentais.

A aposta vai também para os que formou em anos recentes, no Programa de Criação e Criatividade Artística. Jorge Andrade, Vítor Hugo Pontes e André e. Teodósio são alguns dos escolhidos para representar a nova vaga de fundo da criação contemporânea, sem receio de classificação e pouco preocupada com o futuro. Sem razões de queixa, porque com meios. Para provar se faz sentido o discurso do apoio à nova geração de criadores. Se fizer sentido falar de uma nova geração.

Em resumo: risco e responsabilidade dividida por todos. Finalmente.


[publicado no jornal Público a 28 Fevereiro 2007]