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sábado, março 17, 2007

Culturgest anuncia programação para os próximos meses


A estreia mundial da nova peça do coreógrafo João Fiadeiro (Para onde vai a luz quando se apaga?, 04 e 05 Maio), a vinda a Portugal dos nova-iorquinos Elevator Repair Service (Gatz, 22 a 24 Junho) e da companhia alemã Rimini Protokoll (Mnmeopark, 12 a 14 Abril), a integral dos filmes do filósofo Guy Debord, comissariada por Ricardo Matos Cabo (13 e 14 Abril) e a segunda edição da iniciativa PANOS – Palcos Novos, Ideias Novas (25 a 27 Maio) são alguns dos destaques da programação que a Culturgest apresenta entre Abril e Julho.

Cinema, debates, dança, teatro, música e exposições para vários públicos e vários gostos compõem o leque de propostas de uma programação que inclui ainda o regresso em concerto da mítica Laurie Anderson (15 Julho), um ciclo dedicado à coreógrafa Meg Stuart, em colaboração com o CCB e o Teatro Camões (03 a 13 Julho), uma retrospectiva dos filmes do taiwanês Hou Hsiao-Hsien, desenhada por Augusto M. Seabra (16 a 20 de Maio) e o ciclo de conferências/debates Pensar a Criação Contemporânea (na foto), organizado por mim e com a participação de coreógrafos e encenadores (09 a 30 Abril).

A programação contempla ainda o novo-circo, com a reposição de Contigo, criação de João Paulo Pereira dos Santos e Rui Horta (19 e 20 Julho), uma colaboração com o Festival de Almada, onde são apresentadas de duas peças, Sete contra Tebas, de Diogo Dória (10 a 15 Julho), e Anathema, com texto de José Luís Peixoto, pela companhia belga tg STAN (07 a 11 Julho) e o regresso do teatro ao ar livre pelo Teatro ao Largo (A Viúva Astuta , 29 e 30 Junho). A dança completa-se com a primeira peça infantil de Tiago Guedes (Matrioska, 05 a 11 Maio) e Hors Sujet ou le bel ici, da francesa Martine Pisani (15 e 16 Junho).

Na música apresentam-se o pianista Mário Laginha (26 Junho), num diálogo de piano, bateria e contra-baixo pensado no âmbito da Trienal de Arquitectura de Lisboa, o compositor e cantor brasileiro José Miguel Wisnik (29 Junho), a francesa Elisabeth Kontomanou (02 Junho) e os russos Coro Sirin, em mais uma iniciativa do ciclo sobre religião Os Filhos de Abraão (19 Maio).

De referir ainda as exposições dedicadas aos Prémio União Latina (13 Abril a 13 Maio) e Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores (14 Abril a 13 Maio), a do colectivo esloveno Irwin e as instalações e esculturas do português Miguel Palma (ambas de 02 Junho a 02 Setembro).

quinta-feira, março 15, 2007

Festival d'Avignon apresenta nomes fortes da programação 2007


Foram apresentados na passada terça-feira os nomes fortes da programação do Festival d'Avignon 2007, a decorrer em França de 06 a 27 Julho. Os alemães Sasha Waltz e Raimund Hogue, na dança, e Frank Castorf no teatro, bem como o encenador argentino Rodrigo Garcia, o italiano Romeo Castelluci e os franceses Ariane Mnouschkine, Ludovic Lagarce e Jean-Pierre Vincent são alguns desses nomes para um festival pensado pelo encenador francês Frédéric Fisbach, artista convidado desta edição.

Com as secções paralelas a serem apresentadas apenas em Maio - nomeadamente as apostas na nova criação no programa Sujet à Vif, onde já se mostraram os portugueses Leonor Keil e João Paulo Pereira dos Santos - bem como o ciclo de leituras de jovens autores africanos, a edição 2007 do mais importante festival do Velho Continente, concentra esforços numa programação que recupere os públicos, a crítica e os profissionais que nas últimas edições tem posto em causa a função do Festival d'Avignon. Recorde-se que em 2003 o festival foi cancelado por causa das greves dos intermitentes (os profissionais do espectáculo sem contrato certo), e em 2005, em virtude de uma programação assinada por Jan Fabre, que deu à dança e aos novos diálogos entre as disciplinas o lugar de destaque no festival, usando a mítica Cour d' Honneur des Papes, se viu a braços com uma profunda crise de identidade.

A programação deste ano aponta para um consenso no cruzamento do teatro com a dança, as artes plásticas e mesmo a ópera ou as marionetas, dado o percurso de Frédéric Fisbash, um dos nomes que integra a associação Sans Cible (em francês, sem alvo, mas também sugerindo sensível) que junta vários encenadores na reflexão sobre o lugar do teatro no espaço público. É essa noção de presença num espaço partilhado que a direcção de Vincent Braudiller e Hortense Archambault, 34 e 32 anos respectivamente, deve reforçar, sobretudo depois de ter sido confirmada a renovação por mais dois anos da condução do festival.

A programação pode ser consultada no site.

Le Festival d'Avignon a présenté les noms les plus forts de l'édition 2007. Voir ici le programme

The French Festival d'Avignon has launched the first names of 2007 edition.
See the programme here

domingo, março 04, 2007

Sasha Waltz – quando a coreógrafa programa



Em Setembro de 2006 Sasha Waltz inaugurou o Radial System, um novo espaço de trabalho nas margens do rio Spree, no centro de Berlim, a 200m de AlexanderPlatz, no lado Este da cidade, depois de quase cinco anos de co-programação da Schaubühne, teatro nacional por excelência, onde tinha sido, com o encenador Thomas Ostermeier, anos mais novo que ela (em ímpeto programático e fôlego artístico), responsável pela renovação de uma ideia de arte oficial.

Questões orçamentais levaram a que no fim do primeiro quinquénio os dois directores artísticos, ele no teatro e ela na dança, se digladiassem por orçamentos. Bateu com a porta (diz ela), Ostermeier ficou a tomar conta de tudo (projecto inicial do encenador, dizem os fãs dela e detractores dele).

De uma antiga refinaria, edifício brutalmente industrial, feito de tijolo e corredores largos nasceu um espaço sem auditório, salas convencionais ou outra memória artística. Só espaço forrado a paredes de betão por acabar e janelas com vista para o rio e outras fábricas. A metáfora ideal para uma cidade que se refaz a cada dia. Daí a importância de ser no lado Este, onde mais se sentem as mudanças físicas da cidade, mas também por ser do lado onde resiste a Volksbühne, símbolo de contra-cultura que hoje tem como artista residente a coreógrafa Meg Stuart, aspecto nada evidente ou consensual.

São estas duas mulheres que estão a definir (termo generalista mas provocatório) os modelos de programação de dois espaços numa cidade de tribos urbanas. Para a programação Waltz chamou cúmplices antigos, fossem eles bailarinos regulares nos seus trabalhos (Luc Dunberry, Juan Cruz Diaz de Garaio Esnaola) ou outros nomes geracionais (Helena Waldmann, Maguy Marin, Mathilde Monnier ou Anne Huber). E a maioria do público descansou quando percebeu que ia conseguir ver dança sem as metáforas radicais que caracterizavam a linguagem da Schaubühne. Seria?

O espectáculo inaugural, Dialogue System 6 deu continuidade lógica a uma série de intervenções que a coreógrafa foi fazendo em vários espaços da cidade, agora propondo um circuito pelo interior da sua nova casa. Entre o pó de cimento que ainda se soltava das paredes de betão e o verniz que cheirava a fresco do soalho das amplas salas, visons e saltos altos burgueses (bilhetes entre os 36 e os 60€) percorreram as mais de 30 breves performances que os bailarinos da Sasha Waltz & Guests e os músicos da Akademie für Alte Musik construíram. A crítica dividiu-se, o público também (apesar da maior parte ter adorado a experiência anti-formal… de pé, de pé… tão pózinho moderno), e a intervenção não passou disso mesmo: cartão de visita que depressa se esquece.

É essa a maior dificuldade que o resto do público – o que quer ter acesso à dança contemporânea – espera do trabalho de Sasha Waltz e o papel que o Radial System pode representar, visto terem o maior orçamento de Berlim, mais do que os “míseros” cinco milhões que tinha que negociar com Ostermeier. A sua programação é suficientemente lata, combinando o seu trabalho disperso por companhias de repertório, a sua própria, criadores convidados – sempre em compra, nunca em co-produção –, e música. Mas a filosofia do espaço parece responder apenas a uma janela sobre o que se passa, em vez de propor linhas orientadoras; em vez de assumir uma autoria; uma característica. E, por isso, não deixa de ser curioso notar que é a própria Sasha Waltz que não deixa de se apresentar na Schaubühne. Para uns é saudade de casa, para outros forma tentacular de marcar território.


[texto publicado no suplemento Ípsilon do jornal Público, 02 Março 2007]

Gulbenkian apresenta programação do fórum O Estado do Mundo - comentário

O mundo inteiro, ou quase


Depois de dois anos como Programador Geral do impositivo O Estado do Mundo, António Pinto Ribeiro (APR) anuncia, mais do que um programa, um “fórum cultural” – abandonando o plural “culturas” na construção de um só Mundo, multicultural. A expectativa não era pequena: o fim do Ballet Gulbenkian, Serviço ACARTE e Encontros de Música fora “justificado” na necessária reformulação imposta pelos 50 anos da Fundação. E APR vinha apontando uma crescente preocupação com o olhar do outro/sobre o outro. O discurso do pós-colonialismo e a emergência de África marcaram o final da sua presença na Culturgest, friamente recebida pela pouca reflexão e consciência crítica em Portugal.

O programador regressa agora sem retóricas atlânticas, num mundo feito de olhares periféricos, sem quotas, crítico, atento e civicamente empenhado. Consciente que é do Oriente (do Japão, de Taiwan, da Índia,…) e do bélico território do Médio-Oriente que vão chegar as questões, e as possíveis hipóteses, para pensar o Estado do Mundo. Que traz ele? Um programa preciso, exigente e comprometido, de que importa salientar a reflexão sobre o conflito entre clássico e contemporâneo, tradição e cosmopolitismo. Como o pensar e apresentar?

Recupera-se a memória do Teatro Nô (na foto), que ali não se via desde os anos 60, e sugerem-se deslocações da tradição para contextos urbanos ocidentais (Return to Sender, da alemã Helena Waldmann acerca do Irão e dos preconceitos, e Quiet Please!, da indiana Nina Rajarani, uma desconcertante inscrição da tradição indiana nas ruas da Londres multi-étnica).

A proposta exige um público que saiba dialogar, é um desafio e um risco. Trata-se uma programação sobre pessoas, para pessoas. Melhores pessoas? Talvez não. Mas certamente com menos armas para a inconsciência e a ignorância. Espectáculos como Gilgamesh 3, da palestiniana El-Hakawati Theatre Company, ou Plasticization, solo da sul-africana Nelisiwe Xaba, equacionam o eu em relação ao outro, importando uma dimensão política que vai para lá dos noticiários e dos corredores governamentais.

A aposta vai também para os que formou em anos recentes, no Programa de Criação e Criatividade Artística. Jorge Andrade, Vítor Hugo Pontes e André e. Teodósio são alguns dos escolhidos para representar a nova vaga de fundo da criação contemporânea, sem receio de classificação e pouco preocupada com o futuro. Sem razões de queixa, porque com meios. Para provar se faz sentido o discurso do apoio à nova geração de criadores. Se fizer sentido falar de uma nova geração.

Em resumo: risco e responsabilidade dividida por todos. Finalmente.


[publicado no jornal Público a 28 Fevereiro 2007]