sábado, setembro 16, 2006

Notas sobre a programação do Teatro Nacional D. Maria II

Quando, no passado mês de Junho, o Teatro Nacional D. Maria II (TNDMII) se encheu de pompa e vácuo para anunciar a programação do MITE’06 – Mostra Internacional de Teatro de Lisboa 06, no que seria o primeiro passo para a remodelação de um teatro consoante os propósitos dos novos directores, Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira, foi também dito – ou foi-me dito, tanto por Fragateiro como por Pedro Mendonça, seu assessor – que a programação para a temporada 2006/2007 iria ser apresentada no fim de Julho. Passou Julho e Agosto. E em Setembro, com uma discrição que contrastou com o estardalhaço com que entrou no TNDMII, Fragateiro disse, finalmente, ao que vinha.

Curiosamente fê-lo através dos jornais, não em conferência de imprensa – ou seja, esquivando-se ao questionamento -, mas com um encarte publicitário que recuperava (ou prosseguia, já que este é o nº4) os jornais do MITE’06. A programação para Setembro/Dezembro foi assim distribuída aos leitores – pelo menos do Público, já não recordo a data -, sendo também possível encontrá-la em alguns cafés e espaços culturais, bem como no site do TNDMII. Para mais, este é um jornal (sem título) que apresenta textos que se confundem entre crítica e promoção, muitas vezes escritos com a maior deferência para com os espectáculos e, no caso do MITE’06, procuravam uma legitimação em comentários recolhidos junto do público mais ou menos mediático, como que a querer provar a visibilidade adquirida com a nova gestão. Espera-se, pelo menos, que tenha a inteligência de não se tornar num quartel-general que faça frente e defesa das suas propostas, como sucedeu com o Duas Colunas, do Teatro Nacional São João (TNSJ), entretanto extinto, depois de secar qualquer reflexão que ousasse fazer frente a algum pretensiosismo disfarçado de contemporaneidade. Para já dúvida-se.

Uma nota breve para fazer notar que o silêncio da comunidade (actuante e pensante) em relação à programação é tanto mais sintomático quanto se considerou, em vários quadrantes, que ocorreria uma transferência da programação popular e simplista praticada no Teatro da Trindade, de onde Fragateiro tinha saído (terá? Já lá vamos).

Dizem então, em editorial, os directores do teatro: “estes quatro primeiros meses reflectem, por um lado, a importância estratégica que para nós têm os clássicos enquanto elementos fundadores e estruturadores sem os quais não seríamos capazes de fazer hoje o teatro que é importante fazer. Por outro, reflectem a necessidade urgente de se reavivar a nossa memória enquanto estrutura social”. Convém esclarecer que os quatro meses aos quais os directores se referem vão de Maio a Agosto, sendo que em Agosto o teatro esteve fechado, e a única programação da qual são responsáveis (ou a única relevante) é o próprio MITE'06, entre meados de Junho e fim de Julho, já que até 11 de Julho, com o fim de Medeia, a programação tinha sido gizada por António Lagarto, o anterior director.

Referem ainda que o programa, que inclui Beckett, António José da Silva e Fernando Lopes-Graça, procura responder a questões do presente como “a temática do multiculturalismo e da mestiçagem”. Continuam os directores: “nos nossos dias, é fundamental para a sobrevivência desta Terra Pátria que haja um diálogo efectivo entre as diferentes culturas que aqui coexistem. Temos de assumir os cruzamentos e as mestiçagens que são hoje uma realidade por todo o Mundo: só essa atitude aberta e disponível nos poderá salvar. O teatro pode – e deve – ser um espaço privilegiado onde as questões centrais que atravessaram as sociedades tenham um espaço de mostra e reflexão”.

Se me interessam pouco estas retóricas sobre o cruzamento de realidades que muitas vezes não são mais do que disfarces para épater le bourgeois – veja-se o modo como Jean Genet respondeu a essas mestiçagens com o brilhante texto Os Negros, que estreou ontem no TNSJ, no Porto – interessa-me antes perceber de que modo um Teatro Nacional procura fazer face a desequilíbrios culturais e sociais. E nem sequer é preciso entrar no teatro para isso, já que à porta do TNDMII há um teatro bem mais rico e pertinente que qualquer peça mais ou menos implicada, e que não há esplanada de verão - como a que foi montada no frontão do teatro - que esconda.

Deve, portanto, entender-se que será na programação, naquilo que a constitui e nas regras de apresentação, que se encontram as propostas (não direi as respostas, porque seria incorrecto e demagógico avaliar espectáculos sem ver) da nova direcção do TNDMII. O que apresentam então? Quatro acolhimentos, duas co-produções e três produções. Um programa composto por nove espectáculos para três meses e meio de programação, distribuídos por quatro (?) salas. Notável, de facto. Será?

Há aqui várias questões. Primeiro o que diz respeito às políticas de co-produção e acolhimento; segundo as escolhas de produção; terceiro, os meios para a apresentação dos espectáculos.

Dos quatro acolhimentos que o TNDMII faz, dois são co-produções do TNSJ com companhias independentes, desde logo relevantes porque as produções do próprio TNSJ “optaram” por se apresentar no S. Luiz, como se verificou tanto com o mini-ciclo no último Festival de Almada, como com a programação já pensada para 2007. E dúvida-se que o TNSJ tenha interesse em programar o TNDMII, muito menos agora que se autonomizaram, e conhecida que é a relação surda que Ricardo Pais, director do teatro, mantém com o Nacional. Mas também relevantes porque os espectáculos se apresentam como alternativa à abordagem dos textos dos quais partem.

Os Encantos de Medeia, pelo Teatro de Marionetas do Porto (de 14 a 24 Setembro, Sala Garrett) e Anfitrião/Teatro de Papel (de 6 a 22 Outubro, Sala Estúdio), pelo Teatro das Formas Animadas, de Vila do Conde, constituem-se como exemplos de reformulações dos clássicos, ao mesmo tempo que dão visibilidade a uma prática bastante corrente no norte da Europa, o teatro de marionetas, e por cá relegada para um segundo plano. É, por isso, de aplaudir que o TNDMII abre a programação com tal proposta, no que se espera ser uma prática a seguir, com um investimento claro em outras formas de criação teatral de qualidade. Um outro acolhimento vem do Brasil (A Confissão de Leontina, 08 a 19 Novembro, Salão Nobre) e mais um que é um concerto “inovador” e que revisita “sonoridades marcantes da música portuguesa”, Cozido à Portuguesa (28 Setembro a 08 Outubro, Salão Nobre).

Curiosamente aquilo que o TNDMII não considera como acolhimento, mas antes como produção própria – e tanto mais sintomática porque será a primeira produção completamente assinada por esta nova direcção –, é, na verdade, a remontagem de uma peça apresentada, em reposição, no Teatro da Trindade, em 2001, e produzida originalmente pelo ACARTE, o Serviço de Artes Performativas do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, entreanto extinto. Guerras de Alecrim e Manjerona, a ópera joco-séria de António José da Silva, aqui encenada por Paulo Matos, “chega à Sala Garrett” (de 12 a 29 de Outubro), constituindo-se como “oportunidade única para ver um espectáculo verdadeiramente inspirado”. Uma “oportunidade única” que “daqui em diante ficará no repertório do Teatro Nacional”. Em que ficamos? E o repertório do TNDMII constitui-se como, com o quê, para que público-alvo, baseado em que critérios, para seguir para onde, apresentado com que regularidade?

Das outras três produções próprias, duas são textos portugueses: Vermelho Transparente, de Jorge Guimarães (07 a 30 Novembro, Sala Estúdio) e A Casa de Lenha, de António Torrado, em co-produção com a Comuna (16 Novembro a 30 Dezembro, Sala Garrett). Esta última, curiosamente, alternará com Hannah & Hanna, de John Rettalack, que estreia a 03 de Novembro na mesma sala. Como o fará não se explica. Da mesma forma que não se explica se será nova política do TNDMII a co-produção com companhias sustentadas pelo Ministério da Cultura/Instituto das Artes e naturais candidatas aos contratos-programa que a tutela quer instituir, como é o caso da Comuna.

O que se sabe é que se saúda o regresso ao TNDMII de um “talento multifacetado” como Jorge Guimarães, e o “texto notável” de António Torrado. Nenhuma das peças se apresenta, no entanto, como putativa parte do repertório (que lugar para os autores contemporâneos no TNDMII, afinal?), ainda que anuncie que Vermelho Transparente vai percorrer, em co-produção com o Nacional, o circuito da Arte em Rede – a rede de teatros municipais de Lisboa e Vale do Tejo – antes de chegar ao TNDMII. É por isso de fazer notar que talvez estejamos perante uma perversa ocupação de espaços que deveriam servir para projectos com menos sustentação financeira. Ou quer o TNDMII, que deveria circular pelos 18 cine-teatros construídos nos últimos anos em várias capitais de distrito, e/ou através de uma rede própria, sustentar uma política de descentralização ausente dos objectivos da tutela?

É que a gestão de programação pelas salas é uma das questões mais relevantes deste anúncio de programação. Sobretudo porque a disseminação dos espectáculos por vários espaços, inclui não só os do teatro (Sala Garrett, Sala Estúdio, Salão Nobre), mas também um outro: o Teatro da Politécnica, ao Príncipe Real.

Importa lembrar que o Teatro da Politécnica abriu, se não me falha a memória, há cerca de três anos, anexo ao Teatro da Trindade e, pelas suas condições, mais dedicado a peças para grupos e escolas. Fazia parte de uma aposta do Trindade, e de Carlos Fragateiro, na ciência – os famosos triângulos e quadriláteros de que agora já ninguém se recorda -, nunca tendo conquistado um público próprio. Chegou a ser usado pelas edições recentes do FATAL – Festival de Teatro Universitário de Lisboa e pelo FIMFA – Festival de Marionetas e Formas Animadas.

Neste nº 4 do jornal do TNDMII, o Teatro da Politécnica aparece já, discretamente, como a 4ª sala do Nacional, curiosamente partilhada com o Trindade, como se vê no site deste. Com que orçamento, para que género de espectáculos, pensada para que públicos, em relação com que critérios de programação e orçamentação, não se sabe. Sabe-se apenas “o Teatro Nacional apresenta, no espaço da Politécnica”, três peças, encenadas por Amândio Pinheiro, que se constituem como “uma oportunidade para observar a vida e as convicções de três condenados [Giordano Bruno, Galileu Galilei e Sócrates] que desbravaram os caminhos do conhecimento”.

Esta transferência de responsabilidades e tutelas deveria ser mais clara, até porque, me parece que é evidente a acumulação de cargos. Como se explica que um teatro anteriormente dependente do Ministério da Segurança Social, que tutelava o Inatel, logo o Teatro da Trindade, do qual dependia o da Politécnica, passe para o Ministério da Cultura, e apareça agora como novo espaço não-questionado TNDMII?

E ainda, em que medida é que é legítimo que Carlos Fragateiro e o Teatro Nacional programem um outro espaço em Lisboa, sem que estejam envolvidas outras instituições, nomeadamente a Câmara Municipal de Lisboa, numa altura em que escasseiam os espaços de apresentação para projectos sub-orçamentados. Onde é que está o capital de risco das instituições, a sua implicação com a envolvente, a constituição de laços permanentes com os agentes culturais?

A mesma relação perversa existe ainda entre o TNDMII e o Teatro da Trindade, não só porque se sabe que houve desejos de transferências de peças de um espaço para o outro, como é público que Carlos Fragateiro, mesmo que declare não receber qualquer honorário, ainda não abandonou a direcção do Trindade. Isso mesmo se percebeu pelas declarações de ontem ao Diário de Notícias, acerca da estreia de As Bodas de Fígaro, curiosamente na mesma semana em que abriu o TNDMII. “Esta produção marca, segundo Carlos Fragateiro (director do teatro) o início de uma ‘programação efectiva, consequente e continuada’ no domínio do teatro lírico por parte do Trindade e do Coliseu do Porto. As duas salas ‘propõem-se desenvolver um projecto de produção e apresentação de espectáculos líricos que assumam um lugar central na cena lírica portuguesa […] Fragateiro fala de ‘retoma da missão de Teatro Escola’ e da ‘tradição de proporcionar ópera de qualidade às camadas populares, e/ou menos populares’, com quatro vectores: ‘temáticas sociais’, ‘recuperação do repertório tradicional português’, ‘projectos líricos contemporâneos’ e atenção especial à ‘infância e juventude’. Em resumo, ‘um acto fundador’”.

Portanto, Carlos Fragateiro é director do Teatro da Trindade (3 salas), do Teatro Nacional (3 salas), do Teatro da Politécnica, apresenta espectáculos nos teatros da Arte em Rede, no Coliseu do Porto e está ainda ligado à Efémero, uma companhia em Aveiro, muitas vezes satélite de produções do Trindade. Estamos perante uma concentração de poderes, de dinheiros, de estéticas e programas, de opções eminentemente políticas e de objectivos que não deveriam ser comuns. Porque os públicos e as responsabilidades não são as mesmas. A não ser que se queira fazer do Teatro da Trindade, o Teatro Carlos Alberto (teatro pertencente ao TNSJ, no Porto) de Lisboa, contribuindo assim para uma política cultural ainda mais estrangulada.

Que tudo isto surja como natural, ou passe incólume ao juízo público, numa altura em que se fala de mais restrições orçamentais na cultura, é sintoma de uma ausência não só de responsabilidade, mas de consciência, ética e rigor. Que tudo isto possa ser feito fingindo que se está a dar ao público o que ele nunca teve, é tão demagógico que incomoda. Não há público sem renovação. Não há renovação na concentração.

2 comentários:

inês disse...

obrigada tiago por este "abrir de olhos". tanta celeuma aquando da nomeação do fragateiro e agora tudo se cala..pq n publicar este texto?

André disse...

Ui.