domingo, março 19, 2006

Dossier especial: A ponta do iceberg


À pergunta de Robert Storr, teórico e professor de Arte Moderna do Institute of Fine Artes da Universidade de Nova York, "quem vai contextualizar os contextualizadores, desconstruir os desconstructores e criticar os críticos?", feita na edição de Setembro 2005 da revista Frieze, podemos acrescentar os programadores . Quem pensa o seu trabalho e como pensam eles o seu papel no contexto criativo actual?

A questão não é recente e muito menos se encerra nas artes performativas. É transversal, não só em termos geracionais mas criativos e territoriais, como se pode ler no ensaio Os novos notáveis da autoria de Cláudia Madeira. Basta pensar no que aconteceu no Festival de Avignon de 2005, com a programação de Jan Fabre a ser contestada por parte da imprensa e do público, ou mais recentemente a anulação do espectáculo de Ana Borralho & João Galante no âmbito do Festival Mira 2006 ou ainda, e naturalmente, as mudanças de cadeiras no Teatro Nacional D. Maria II, para nos apercebermos que programar um espaço não é só abrir as portas aos projectos. Há dimensões políticas, sociais e culturais que podem e devem ser consideradas.

A partir de amanhã, e antecipando o Dia Mundial do Teatro, que se comemora na próxima segunda-feira 27 de Março, O Melhor Anjo publicará um extenso dossier intitulado A ponta do iceberg sobre programação de teatro que inclui entrevistas a cinco programadores de cinco espaços diferentes da capital. A saber: Diogo Infante, director artístico do Maria Matos - Teatro Municipal, Francisco Frazão, assessor para o teatro na Culturgest, Giacomo Scalisi, programador de teatro do Centro Cultural de Belém, Jorge Salavisa, director artístico do São Luiz-Teatro Municipal, e Marta Furtado, responsável pela programação de artes performativas da Galeria Zé dos Bois.

São cinco escolhas feitas a partir de critérios simples: situam-se todos em Lisboa, nenhum dos espaços pertence a uma companhia de teatro, todos têm tutelas diferentes (Câmara Municipal de Lisboa, Ministério da Cultura, Caixa Geral de Depósitos e projecto independente) e os seus programadores ou directores artísticos, com excepção de Diogo Infante, não são criadores no espaço. Esta amostra da realidade (caberiam aqui outros nomes certamente) procurará fazer um retrato do que se programa e como se programa em Lisboa, numa reflexão que se espera feita em conjunto com criadores, público, críticos e demais interessados, numa altura em que um novo espaço abre portas, o Maria Matos - Teatro Municipal inaugura dia 27, precisamente.

Parcela cada vez mais fundamental na criação de um contexto criativo, a discussão em torno do papel do programador de teatro procurará ser um contributo para pensar o teatro que se faz hoje em dia e até saber se faz sentido tal classificação (programador? teatro?). Um confronto saudável de discursos e posições que serve ainda para nos focarmos em problemáticas fundamentais como o lugar que o teatro ocupa efectivamente nos espaços a ele destinados e, sobretudo, atento ao que se assiste um pouco por toda a Europa: uma espécie de braço-de-ferro entre programadores e criadores, não se sabendo muito bem onde acaba o poder de um e começa a liberdade de outro. Quem cede o quê a quem?

Para além das entrevistas (será publicada uma por dia), o dossier inclui ainda um comentário final, fotografias exclusivas de José Luís Neves e, no dia 27 de Março, acompanhado de outros textos, o resultado do concurso Diz-me com quem queres falar... .

Boas leituras.




Espera-se que, desta forma, se dê por justificada a quase-ausência verificada nestas duas últimas semanas.

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