quinta-feira, julho 06, 2006

Maguy Marin provoca o escândalo em Montpellier

A coreógrafa francesa Maguy Marin, directora do Centre Chorégraphique National de Rillieux-la-Pape, dividiu o público na apresentação do seu mais recente espectáculo HA! HA!, no festival de Montpellier Danse, que decorre naquela cidade do sul de França até amanhã. Apresentado nos passados dias 02 e 03 de Julho, o espectáculo que é uma forte crítica ao superficialismo, seja ele cultural ou social, sustenta-se numa só pergunta: tu que ris, ris de quê?

Em cena estão vários manequins que vão explodindo ao mesmo tempo que os bailarinos vestidos de smoking se sentam no fosso de orquestra, de olhos fixos no público, e riem. E durante uma hora e dez riem do tudo e do nada, para esquecerem coisas e marcar outras, para apontar o dedo e para caricaturizarem... O caos não os demove de prosseguirem na denúncia de uma realidade cada vez mais enclausurante, desatenta aos verdadeiros problemas, incapaz de agir. No blog francês Tadorne, dedicado à cobertura de festivais, escreve-se: Dans le contexte actuel français, le rire, loin d’être créatif et libératoire, cache, masque la complexité des situations. Il s’articule sans aucun problème à la pensée linéaire, au discours politique le plus simpliste. Une société qui veut rire de tout, se distraire à tout prix, prépare le fascisme. Maguy Marin aponta o dedo sem pudor ao maníqueismo vigente. E o público, que de princípio, acha graça, começa a perceber que está a rir sozinho. E isso incomoda.

Foi assim que se sentiram alguns dos espectadores da sessão da passada segunda feira que invadiram o palco atacando o cenário, insultando a coreógrafa ou abandonando a sala por não encontrarem a dança que lhes parecia ter sido prometido. No final os que resistiram aplaudiram vigorosamente o desafio da coreógrafa que assumiu na conferência de imprensa de apresentação do festival, em Paris, no passado mês de Abril, ter feito esta peça em reacção às críticas violentas que recebeu por Umwelt (ver outras fotos aqui), acusada, entre outras coisas, de violência gratuita.

Depois de Avignon em 2005, onde se discutiu sobre a deriva da dança para um abstraccionismo que estaria a condenar a recepção, volta à discussão a sempiterma e retórica questão da leitura cénica evidente. Aqui, sem pretensão a mais, é ao receptor que se aponta o dedo. Para que o riso seja partilhável.

9 comentários:

Miguel disse...

A mim parece-me uma grande obra!
A arte, tal como os gostos, não se discute. Uns gostam outros não, há que saber perceber que o que é arte para uns não o é para outros...

Anónimo disse...

claro que se discute arte, não somos nem cegos nem burros! sobre o espectáculo não sei, não vi...

Anónimo disse...

bom... pelo que li, se fosse espectador não bateria palmas, não pela ideia ou conceito mas pelo tempo de duração do espectáculo. 1h10 é demais para marcar uma única ideia.

Anónimo disse...

sinceramente, esta mulher ( M. Marin)esta sempre me surpreendendo. quando vi seu primeiro trabalho, foi aquele soco no estomago...aquelas coisas que te fazem questionar e pensar a respeito. desde entao virei fa desta mulher corajosa e que faz arte para quem generosamente se permite questionar. e, sempre nas polemicas do ser humano muito bom!!!!!! eu quero poder ter a oportunidade de assistir isso

Anónimo disse...

Os gostos são a única coisa que se discute. É por eu gostar de uma coisa e tu não, que temos algo para discutir. Se gostassemos todos do mesmo, aí sim, nada se discutiria.

Anónimo disse...

É pá, isto deu-me uma ideia para um novo espectáculo. Meto os espectadores numa camioneta e levo-os até Sintra, pela IC19, em hora de ponta, para aí na semana em que pessoal costuma receber o décimo terceiro mês. É ainda mais forte: sem uma única ideia consigo um espectáculo, não de 1h 10, mas de 5 ou 6 horas. Estou curioso em saber se haverá resistentes a aplaudir de pé!

Anónimo disse...

Ah! Continuando com a história da camioneta até Sintra. Durante o percurso os espectadores vão ter direito a ouvir música pimba entremeada com haikus gerados por computador. Por alturas de Queluz, um performer disfarçado de passageiro vai tentar desviar o autocarro para Odivelas com recurso a uma granada em cada mão, mas é morto pelo motorista e as granadas revelam-se de chocolate. Hum... Isto já deve garantir-me o subsídio...

Anónimo disse...

Ainda a história da camioneta. Esqueci-me de dizer que o motorista leva uma máscara no rosto, e outra na nuca. A máscara do rosto é a cara chapada do Luís Miguel Cintra (tinha de ser, não é...) e a da nuca, a do director do Teatro Nacional D. Maria II.

Anónimo disse...

és tu, samurai? O da história da camioneta? Gostei bastante do argumento. Já pensaste em concorrer ao icam? Estou -me completamente a cagar para a maguy marin e o seu sensivel público, o que interessa mesmo é a produção nacional e ideias não-ideias como a da camioneta não se encontram todos os dias.
Acho mesmo bom, a ideia de não-ideia...
Força aí!