quarta-feira, outubro 12, 2005

Separar as águas

Quando o blog fez dois anos, escrevi que ia haver mudanças. Que era impraticável prosseguir nesta mistura de trabalho profissional com observações pessoais. Falei em credibilidade, falei em feedback, falei em responsabilidade. Falei sobretudo com o desejo de mudança. E disse: "Hoje este blog, que nunca foi sobre a minha vida, têm pouco de mim. Muito pouco mesmo. E aquilo que tem parece tão descontextualizado que, se não fosse o facto de cair em graça, corria o risco de descredibilizar por completo o trabalho que nele faço."

Por isso, há que separar as águas. Saio de cena. Este blog deixa hoje de contar com a minha colaboração. Ou melhor, o Tiago-pessoal sai deste blog, mas deixa cá o Tiago-crítico (ou qualquer outra coisa que queiram chamar áquilo que tenho vindo a fazer neste blog de forma cada vez mais insistente). As reacções ao meu post sobre a Pina Bausch foram a gota de água que fez transbordar o copo. Não pelas reacções negativas, mas pelo que me obrigou a reflectir sobre o espaço que eu, Tiago, ainda teria no meu blog. Descobri, com gosto, que provavelmente tinha habituado os leitores a um certo tipo de abordagem aos espectáculos, que não se adequava ao estilo do desabafo que fiz. E isso é bom. Significa que o feedback que eu muitas vezes reclamo não ter, afinal existe. Mesmo que só o veja em casos extremos ou, deliciado, em dias de aniversário.

Por isso, esta decisão de separar as águas não é nem de hoje, nem precipitada, e muito menos um esquema para poder dizer coisas que penso sem que me apontem o dedo. Se fosse essa a razão, era simples: retirava a possibilidade de se comentar neste blog. É algo que queria fazer há muito. É algo que preciso fazer. Sobretudo em nome de uma credibilização do meu trabalho, cada vez mais necessária. Por muito divertido que seja misturar o menino mijão, com declarações de amor, comentários políticos e crítica de espectáculo, a dada altura é preciso optar. E esse tempo chegou hoje. Isto vai certamente diminuir o número de leitores, ou até pode ser que não. Mas vai, sobretudo, permitir-me conhecer melhor quem lê este blog e porque razão o faz.

O Melhor Anjo inicia, assim, uma nova fase. Um período também ele de experimentação, cujo objectivo final será a passagem definitiva para um site, mais lá para o início do próximo ano. Continuarei a oferecer aos leitores deste blog um comentário atento sobre as artes performativas, seja através de análises críticas, divulgação de alguns espectáculos, recolha de textos, sugestões de autores, informações úteis e outras coisas que forem aparecendo. Mas, sobretudo, assumir-se-á como um espaço onde me permitirei pensar sobre o que se faz e como se faz. Aqui em Portugal, ou lá fora. O que significa que, muito provavelmente, este blog poderá começar a contar com a colaboração de outras pessoas.

Da coluna da direita serão retirados os links pessoais (nem todos...) e acrescentados outros que se espera serem úteis. Também o template será modificado e haverá nova organização das caixas. Um trabalho a desenvolver com o tempo.

Já eu, mais pessoal (mas não exactamente privado), estarei aqui. Um outro blog, também ele a plagiar um livro famoso: Moderato Cantabile, da Marguerite Duras. Este esteve, aliás, para ser o primeiro nome d'O Melhor Anjo. No MD, estará exactamente o que no Anjo não dizia respeito às artes performativas. Certamente que existirão posts partilhados. E até divulgação interna. Haverá, sobretudo, uma divisão. Mas não uma ruptura. Apenas duas divisões de uma mesma casa.

Com esta separação, espero poder conseguir, ainda, escapar à prisão que ter um blog representa. Quem o tem, sabe do que falo. A obrigação de se postar qualquer coisa, por mais inútil que seja. Assim dividido, não prometo posts todos os dias. Ora num, ora noutro. Às vezes nos dois, às vezes em nenhum.

Não há duas faces da mesma moeda. Há uma moeda por inteiro. Em nome de um trabalho mais organizado, em nome do respeito que o meu trabalho me merece. Em nome daquilo que os leitores procuram n'O Melhor Anjo. Em nome, sobretudo, de uma maneira de estar mais confortável, mais protegida, mais reflectida.

Por isso, as palavras finais vão para os quase 50 mil leitores deste blog que hoje se parte em dois. Obrigado por me terem ajudado a pensar. Espero poder contar com a vossa leitura. Aqui, ou no outro lado.

3 comentários:

Quem? disse...

Até já...Tiago, meu doce anjo.
*

Rogério Nuno Costa disse...

quem assim fala não é gago.

e cornos para a pina e mais essa mania historicamente absurda do 'reportório contemporâneo'...

e agora vá: crucifiquem-me!

Anónimo disse...

That's a great story. Waiting for more. Used coat tire changers