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quarta-feira, novembro 21, 2007

Augusto M. Seabra chega à blogosfera

"Letra de Forma será uma página de crítica e opinião, página de textos mais do que própriamente post, prosseguindo no espaço digital aquela que foi actividade na imprensa ao longo de muito anos". É assim que termina o primeiro texto do crítico e pensador Augusto M. Seabra que "usando ainda a ferramenta tecnica do Sapo Blogs" recupera aquela que foi a sua "actividade na imprensa ao longo de muito anos". Num texto de apresentação onde viaja através do tempo mais recente, cruzando a sua saída do jornal Público há um ano atrás com as razões para o fim da breve colaboração com o Diário de Notícias, bem como assumindo que: "a colaboração na imprensa escrita é um capítulo para mim encerrado, com algum desconforto é certo em função dos factos concretos, mas também, e tenho de o dizer com toda a sinceridade, com um indesmentível alívio. Sem prejuízo de manter a possibilidade de me exprimir na imprensa por razões de ordem civíca e desde que haja nesses casos de excepção espaço de acolhimento – tal como não me tenho recusado a responder a questões ou entrevistas que me êm sido solicitadas -, o passado é passado e os horizontes são agora outros".

Este blog, "técnicamente sim, mas o seu intento é outro", "será uma página de crítica e opinião" que Augusto M. Seabra entender enquanto "actividade profissionalizada", e junta-se à coluna mensal O Estado da Arte que recentemente abriu no portal Arte Capital e à coluna semanal Derivas, que se espera de actualização rápida, e que há meses mantém no site da Culturgest.

Seja muito bem-vindo Augusto.

quarta-feira, novembro 14, 2007

Porque é que não nos deixam bater no fundo de uma vez por todas?

Na verdade, o melhor que podia acontecer a este Portugal desenrascado era bater fundo no fundo. Fecharem os museus por falta de pessoal, terminarem as subvenções para as artes performativas (e para as outras todas) em vez de uma distribuição de merceeiro, instalar-se de vez o Hermitage em tudo quanto é capelinha com mais de dois metros de altura, fecharem os teatros municipais deixando que a belíssima arquitectura que nos orgulha fosse consumida pela bicharada. E já agora comprar cimento barato para que as fendas aparecessem mais depressa. Deixar que o ensino artístico e o trabalho com as populações mais desfavorecidas fosse, finalmente, entregue aos salões paroquiais, para que uma nova geração de devotos pudesse construir novo tempo debruado a ouro e esmirna daqui a dez anos, quem sabe no mesmo local onde agora se fez o de Fátima. Permitir que Berardo vendesse os seus quadros entre três croquetes e duas acções do BPI. Não criar lei nenhuma para os profissionais do espectáculo e audiovisual, que os mandassem todos para a fila do centro de emprego que há por aí muita loja da TMN a pedir funcionários a part-time. Enfim… deixar que a coisa bater no fundo, porque só a promoção contínua da desigualdade parece funcionar neste país ridículo e laxista.

A apresentação do Orçamento de Estado, feito à pressa, como conta o DN hoje, porque a sala precisava ser ocupada por outra coisa qualquer, não é mais do que exemplo do lugar que a cultura têm hoje: ornamental, de abrilhantamento, de passagem de tempo. Em entrevista recente à SIC, o ministro da Economia, em jeito de antecipação do programa paralelo à visita de Putin, dizia: "e depois há um momentozinho musical para os nossos convidados descontraírem".

Porque haveríamos de andar todos a discutir o papel do artista na sociedade se a sociedade parece não querer importar-se dois tostões com o artista? Esta coisa da arte mendigante é aflitiva, promove o desenrascanço, substitui-se à verdadeira reflexão, permite que a mediocridade reine. Do Ministério da Cultura à própria classe artística e ao público. A produção sistemática nem sempre traz bons resultados, antes mimetiza, distorce e ridiculariza o que de bom existe. Esta insistência na produção sem meios é fatal a um tecido que se quer exigente. Este laxismo, esta confiança de que as coisas um dia vão melhorar, esta esperança num vazio imenso é o que acaba por nos consumir. E se assim é, não vale a pena acabar-se com o Ministério da Cultura. Que se acabe com a cultura de vez. Afinal, está mais do que provado que ninguém percebeu que quando falamos de cultura falamos de identidade. Ora, um país sem alma nem espinha dorsal como o nosso, não precisa de identidade para nada. Canta um fado e segue em frente. Num autocarro a caminho da emigração. Foi sempre assim, vai ser sempre assim. Má sorte. Ou exactamente aquilo que fizemos por merecer.