terça-feira, janeiro 02, 2007

Crítica de dança: Lago dos Cisnes, Companhia Nacional de Bailado



Lago dos Cisnes
pela Companhia Nacional de Bailado
Coreografia de Mehmet Balkan segundo Marius Petipa
Cenário e Figurinos de António Lagarto
Música de Tchaikovsky interpretada pela Orquestra Filarmonia das Beiras
Direcção Musical de James Tuggle
Teatro Camões, Lisboa
21 Dezembro 2006, 21h00
Sala cheia

A peça apresenta-se até entre 04 e 07 de Janeiro em Lisboa, seguindo-se digressão nacional.


A segurança da tradição



Não deve haver bailado mais conhecido que o «Lago dos Cisnes», peça fixada, depois de muitas versões, em 1877 e desde então imagem de marca de um ideal balético. A música de Tchaikovsky, a lenta morte do cisne negro, os trinta e dois fouettés de Odile, o confronto entre o mundo encantado mas prisioneiro dos desígnios do conde de Rothbart e a alegria burguesa do palácio, foram elementos-chave para a perpetuação desta história de princesas enfeitiçadas, vilões mefistofélicos e corajosos guerreiros. Um clássico, se calhar ingénuo, mas nem por isso menos eficaz. Isso mesmo provam as sucessivas revisitações que deram ao bailado uma dimensão mítica.

No livro «Que mais podemos fazer senão dançar?», editado pela Companhia Nacional de Bailado (CNB) em 1998, há uma fotografia da entretanto célebre versão de 1986 assinada pelo director da altura, Armando Jorge, com cenários de Cruzeiro Seixas e figurinos de Da Silva Nunes. Nessa fotografia, na qual os bailarinos Cristina Maciel e Pedro Romeiras aparecem num dos vários pas-de-deux da peça, desenha-se a imagem perfeita do que representa esta peça clássica. A pose segura, o olhar distante, a delicadeza do movimento, a segurança e a cumplicidade que transmitem são o exemplo para compreender porque é que «Lago dos Cisnes» não é só mais um bailado, mas antes um poderoso tratado sobre o lugar do intérprete no interior de uma estrutura formal (veja-se, por exemplo, o difícil desenho dos cisnes nas cenas da floresta). Mais ainda quando, precisamente porque desde sempre se reconheceram desequilíbrios na estrutura coreográfica, uma vez que a versão perpetuada reúne sequências de Marius Petipa e do seu assistente Lev Ivanov, é dada margem aos coreógrafos para a redimensionarem de acordo com o público para o qual se dirigem. Mas foram precisos vinte anos, e nas vésperas do seu 30º aniversário, para que a CNB voltasse a apresentar «Lago dos Cisnes». Desta vez em coreografia assinada, novamente, pelo seu director artístico Mehmet Balkan, com liberdades menos consensuais, e cenários e figurinos de António Lagarto.

Praticamente todas as leituras feitas a partir da coreografia de Petipa/Ivanov sublinham que a peça existe através das figuras femininas, e sobretudo na complexa metamorfose entre Odette e Odile. Razão pela qual os papéis masculinos lhes servem de suporte e pouca densidade, se alguma, têm. Por isso mesmo, exercícios freudianos como o de Mats Ek (1987), onde os cisnes estão de cabeça rapada e são sexualmente ambíguos, ou o de Matthew Bourne (1995), no qual as delicadas princesas são substituídas por agressivos e tribais bailarinos, ou ainda a decomposição obsessiva proposta por Raimund Hoghe (2005), mais não fazem do que simular estratégias de abordagem ao universo feminino. Se este três casos citados são radicais na sua percepção, quer do corpo, quer do pensamento e equilíbrio homem/mulher, não deixam, ainda assim, de colocar sérias questões sobre o modo como se pode ser inocente na apreensão de uma história banal.

O maior problema da versão apresentada por Mehmet Balkan está, precisamente, em alguma ligeireza com que aborda a peça. Estendendo-se nas sequências no interior do palácio, sendo descritivo e por vezes mesmo banalmente ilustrativo nos movimentos, mas sobretudo dando um final feliz onde ele não existe (a morte de Rothbart é, nesta versão, suficiente para libertar os cisnes do feitiço e juntar o par amoroso), o coreógrafo cede ao enquadramento natalício, prejudicando o lado dramático sugerido pelo música e pela própria complexidade coreográfica. O problema não está nesta solução, mas antes em ela não se sustentar dramaturgicamente, não só porque o facto de Odette e Siegfried não ficarem juntos ter sido um rasgo na tradição clássica que merece ser considerado, mas também porque Balkan não imprime a força que a partitura pede, com excepção da cena da morte de Rothbart onde as águas do lago são reproduzidas por um imenso lençol que cobre o palco e a movimentação célere dos cisnes é hipnotizante. Para além disso, parece esquecer o que é dado pelos próprios cenários e figurinos desenhados por António Lagarto, que carregam o dramatismo que deveria ser dado pela coreografia. Os espelhos cónicos que prolongam o interior do palácio e se transformam em arbustos remetem para a «Bela e o Monstro» de Jean Cocteau, enquanto os módulos que delicadamente se substituem cambiando as tonalidades de acordo com o pathos trágico da coreografia lembram Klimt. E os figurinos, com particular destaque para a mozartiana e maçónica capa púrpura de Rothbart, os vestidos das princesas, que respondem aos sargaços do lago onde estão retidas, bem como a enorme lua prateada que ilumina o cenário, são exemplos de uma combinação adequada e discreta, num cenógrafo que gosta de carregar a mão na cor, nas formas oblíquas e na combinação de géneros. Nota menos feliz para o desenho de luz, de Vitor José, pálido e generalizado quando podia ser mais estruturado e presente.

Não obstante, a versão de Balkan é suficientemente elegante para proporcionar uma noite de bailado como há muito tempo a CNB não apresentava. A isso deve-se um corpo de baile de uma coerência rara, atendendo sobretudo às diferenças de tamanho, de postura, de idade e de experiência que existem entre as bailarinas. Se é verdade que há algumas que pareciam correr em vez de dançar nas longas sequências passadas na floresta, não é menos verdade que a visão de conjunto oferecida pelas intérpretes muito deve a uma segurança que não se reconhecia em Mehmet Balkan, a atender a obras de grande porte, como «D. Quixote», apresentado há um ano atrás e à própria leitura que faz da obra. Da mesma forma, importa realçar o trabalho exemplar dos cisnes pequenos (na noite da estreia interpretados por Filipa de Castro, Alba Tapia, Irina de Oliveira e Anabel Segura) que no pas-de-quatre do primeiro acto se sustêm seguras na execução de uma das mais complexas cenas de toda a peça.

Este é, como se disse, um bailado com e para papéis femininos, razão pela qual o lugar atribuído aos homens é pouco ou quase nada relevante. À parte do bobo (interpretado por um efusivo Carlos Lábios na primeira noite) praticamente não existem figuras masculinas. As excepções do Conde de Rothbart, o vilão (um Rui Alexandre mais “pesado” do que o habitual e algo perdido no espaço e no imenso figurino) e de Siegfried, o herói, interpretado por Carlos Acosta, existem para dar suporte à bailarina principal. Por isso importa pensar nas escolhas que se fazem. Precisamente Acosta, a estrela cubana que a CNB tem acolhido nos seus últimos programas, acusou alguns maneirismos de primeira figura que mereciam ter sido controlados pelo coreógrafo, e que deixaram Ana Lacerda, no difícil papel de Odette, a braços com a árdua tarefa de fazer passar a cumplicidade que deve existir entre os protagonistas. Tarefa que garante com a solidez habitual, e sem pudor em revelar a emoção de interpretar senão “o” papel, certamente “um dos” papéis mais relevantes da carreira de uma primeira bailarina.

Em resumo, este «Lago dos Cisnes» cumpre, sem máculas trágicas, aquilo que se espera de companhia de repertório, garante de uma tradição que force a um olhar com a contemporaneidade. Saiba a CNB estar à altura dos desafios e conceba a recusa de alguns facilitismos e certamente encontrará, na plateia, o cruzamento de públicos que lhe assiste.


fotografia de Alceu Bett
Ler outras críticas e textos publicados sobre a CNB aqui.

3 comentários:

Anónimo disse...

ola! é sempre bom ler criticas sobre os nossos espectaculos,ajudam-nos a crescer como artistas principalmente se os criticos sao informados e imparciais.

só nao entendi o que quis dizer com o meu "peso" maior do que o habitual...

n entendi se se referia ao peso do figurino,ao meu proprio peso fisico,ao peso do personagem...visto que se referia ao rui alexandre bailarino,e nao ao barao von rothbart personagem...

gosto sempre de saber como o publico me ve em cena,e mais uma vez agradeço a critica,por isso a minha duvida...

se pareço assim tao pesado tratarei imediatamente de fazer menos musculaçao e adoptar um trabalho mais longelineo

obrigado e parabens pelo seu trabalho! rui alexandre

ruimiguelalexandre@hotmail.com

Duarte disse...

Que pena não ter assistido a este espectaculo.
Falando em Pedro Romeiras a minha filha frequenta o Conservatório Regional do Algarve Maria Campina onde Pedro Romeiras lecciona e é sempre um prazer ver este bailarino quer a leccionar quer por vezes a dançar na companhia das suas alunas

Um bem haja a todos

Anónimo disse...

como é possivel dizer bem daquela cenografia...como se permitem a tal... não respeita o principio da dramaturgia coreografica do lago dos cisnes... a lua encandeava o publico, era neon, os fatos rosa e azul eram um pavor... todo o bailado, do periodo romantico, perdeu nexo, assim como o final feliz, que nunca existiu... Para criticar um clássico do bailado como é o lago dos cisnes é necessário saber-se muito de dança e ter uma clara noção do que é o bailado clássico e ter termo de comparação... que mal lhe pergunte tiago, quantas vezes já tinha assistido ao lago dos cisnes... e conhece os pressupostos coreográficos... enfim... com o dinheiro com que o cenografo gastou para fazer tal disparate podiam se ter aoiado muitos outros cenografos.