domingo, outubro 08, 2006

Crítica de dança: It´s not funny!, de Meg Stuart

Crítica de dança

It’s entertainment (is it?)

It’s not funny!
de Meg Stuart/Damaged Goods
Volksbühne am Rosa-Luxemburg Platz, Berlim
27 Setembro 2006, 19h30
Sala cheia

É muito fácil esperar de uma peça chamada «It’s not funny!» uma sátira ao humor e, claro, um espectáculo divertido. Por isso mesmo as expectativas de uma noite bem passada são muito elevadas. Nada poderia estar mais errado, como aliás também é previsível. Este espectáculo desengraçado da coreógrafa norte-americana, baseada há mais de dez anos na Europa, Meg Stuart é, provavelmente, das mais amargas, desencantadas e cínicas peças que nos foram dadas a ver nos últimos tempos. «It’s not funny!» não tem graça nenhuma, mesmo que tenhamos rido. Muito. E da desgraça dos outros, como convém.

Não deixa de ser curioso que este espectáculo – criado para o Salzburger Festspiele, sendo claro o propósito de fazer uma peça bem humorada -, surja na mesma altura que uma outra coreógrafa, a francesa Maguy Marin, criou uma peça, intitulada «Ha! Ha!», onde punha em causa quer uma corrente de espectáculos engraçadinhos que estão em voga, sobretudo nas novas gerações de coreógrafos e muito em particular em solos que derivam em anedotas, quer uma demanda do público pelos espectáculos leves, divertidos, legíveis e unidimensionais.

Se Maguy Marin, com os seus manequins que explodiam e intérpretes que se riam desesperadamente durante grande parte do espectáculo, criou uma barreira entre cena e público, levando esta ideia de humilhação (para o coreógrafo que se vê obrigado a ceder, para o público que é confrontado com o vazio da sua argumentação) a um limite inimaginável – e isso mesmo provam as reacções inflamadas da audiência, quer em Montpellier, onde estreou, quer por onde tem passado, e que não são muitos sítios porque não é um espectáculo fácil -, Meg Stuart confronta-nos com as nossas próprias gargalhadas. Seja porque são integradas no espectáculo – há, tal como nas sitcoms e stand up comedy, um tempo para a piada se instalar e um tempo para o público rir e o espectáculo prosseguir -, seja porque o que nos faz rir não tem assim tanta graça.

O percurso coreográfico de Meg Stuart é habitado por noções como teatralidade e representação, excesso e falhanço do movimento, numa obsessiva busca por um certo fil rouge que possa dar ao corpo, ao gesto e à estrutura uma coerência (uma linearidade) que o resgate da simples exposição de virtuosas sequências ou coerentes dramaturgias. Ou seja, balança permanentemente entre a queda no abismo e a certeza de um terreno seguro. «It’s not funny!» não é diferente de outras pesquisas centradas na dificuldade em aceitar a passividade - a raiva contida nos movimentos desesperados de «Alibi» (2001); a fragmentação do indivíduo em «Visitors Only» (2003), o comportamento do outro quando exposto nas suas fragilidades, em «Forgeries, Love and Other Matters» (2004), com Benôit Lachambre, só para citar os mais recentes). Mas aqui o binómio acção-reacção vive de um constante questionar da validade da palavra, da acção e do sentido. Depende, por inteiro, da reacção já que é nela que se joga a legitimação do que se diz. Aqui o diálogo é mais directo, é menos metafórico, é mais crú.

A «dança do desastre», como lhe chamou Jean-Marc Adolphe, editor da Mouvement em «Alibi», é também a dança da tragédia. Aliás, e citando Woody Allen, «a comédia é a tragédia com tempo». É verdade que Meg Stuart não faz comédias, mas o humor, risível ou denunciador, tem sido uma característica do trabalho. Sobretudo pelo grau de exposição a que se sujeita, o que anula qualquer ideia de comic relief. Dois exemplos distantes no tempo dão bem conta desse jogo com o humor: em «XXX for Arlene and Colleagues» (1995) denunciava o ridículo das posições da papisa da crítica de dança nova-iorquina Arlene Croce que se recusou a ir ver peças de Bill T. Jones por preconceitos relacionados com posições conservadoras em relação à sida, à homossexualidade ou ao género; em «Forgeries, Loves and Other Matters» o casal que compunha com Lachambre tinha tanto de burlesco quanto de dramático.

Em «It’s not funny!» é um outro tipo de humor que nos é proposto. O espectáculo é composto por diversos números, como se de um grande show de entretenimento se tratasse. Las Vegas não está longe, não só pela imensa escadaria em madeira crua do ocupa o palco, mas porque tudo começa com um número de dança, à la Busby Berkley, no qual sete intérpretes (três mulheres e quatro homens, entre os quais a estrela convidada, o coreógrafo francês Boris Charmatz), fazem de pin-ups. As cabeleiras louríssimas de plástico, os ridículos fatos e os maillots berrantes dão ideia de estarmos num casino. De fim de mundo (televisões, móveis, mesas escondem-se debaixo da escada), mas num casino. A comédia slapstick (comédia física) toma, depois, conta do palco e dos intérpretes que caem de escadas, lançam tartes de creme à cara uns dos outros, guerreiam-se, criam armadilhas, divertem-se a gozar com tudo e com todos, contam anedotas, tentam subir vários móveis com patins, atiram-se, enrolados em tapetes, pela escadaria, dançam desajeitadamente uma qualquer música de salão, … Mas tudo é feito como se de uma hipótese última de redenção se tratasse. Estes palhaços tristes vivem presos na necessidade de fazerem rir.

Depressa a peça se torna em algo completamente diferente. Porque se esta é uma reflexão sobre o humor e o cómico, é também, e como reafirma o dramaturgista Bart Van den Eynde nos textos do programa, uma “teoria sobre a seriedade e a sua importância na sociedade”. Razão pela qual importa perguntar: afinal rimos de quê?

Exemplos recentes mostram que o humor, se pode ser uma arma, é também um caminho fácil para a provocação. O exemplo dos cartoons dinamarqueses é claro nessa demonstração de ridícula superioridade. A matéria com a qual «It’s not funny!» se propõe lidar, revela uma sociedade profundamente perdida, já que partindo do humor, este espectáculo transforma-se numa agridoce posição sobre a facilidade e o equívoco provocado pelo humor.

O texto que Tim Etchells e Meg Stuart assinam na folha de sala é sintomático da dificuldade em distinguir o que pode ser matéria de humor e o que, de forma alguma, é engraçado. A guerra no Iraque, a bomba atómica, os novos role models impostos pela futilidade da sociedade americana, os discursos pacifistas, a salvação do mundo, os espectáculos de casino, o stand-up comedy, os reality shows, o furacão Katrina, os prisioneiros em Guantanamo, a autobiografia… tudo pode ser muito engraçado (sobretudo em palco, porque ficcional), mas, e novamente do programa, “uma piada é muitas vezes engraçada quando contada num contexto. Um comentário sexista no dia-a-dia é doloroso; na boca de um comediante transforma-se em anedota e, por isso, ‘inofensivo’”.

Há aqui uma ideia de voyeurismo escatológico que atinge proporções alarmantes no momento que a peça passa de um conjunto de gags para um terreno mais negro e muito menos confortável (para o espectador, claro). Os intérpretes juntam-se para agredir um deles, Leja Jurišič, e o que parecia uma brincadeira torna-se numa selvagem agressão à intérprete que, saindo naturalmente ilesa, não mais será olhada – nem o espectáculo -, da mesma forma. A passagem para o lado negro do humor (e que não é a mesma coisa que humor negro) é ampliada pela presença cruel e sádica de Boris Charmatz que se impõe aos outros através de uns longos braços de borracha de cor púrpura e, com eles, maltrata e importuna os parceiros. Percebemos que já não há grande esperança, nem para aqueles palhaços-tristes nem para nós, incapazes de sair da posição passiva de espectadores expostos ao nosso próprio gozo na tragédia dos outros. Ridículo e embaraço são sobrepostos num espectáculo em discurso de directa confrontação.

Razão pela qual o último número de stand-up (e este é um espectáculo que destrói por completo toda e qualquer ideia que possamos ter sobre a validade do stand-up comedy) é um longo manifesto sobre o futuro. Um dos intérpretes lança-se no desafio de enunciar os temas sobre os quais já não se pode fazer humor. Entre eles a concentração e campos de concentração, acidentes de aviação, violência desnecessária, pessoas que não conseguem raciocinar, a Volksbühne (o espaço que co-produz a peça) e a sua ideia de tudo saberem sobre o mundo, o público, sobre como as coisas poderiam ter sido diferentes, sobre como as coisas são, sobre a ténue linha entre o divertido e a loucura, etc., etc., etc..

Depois disto, pouco resta a «It’s not funny!». Aquilo que começara como uma desmontagem humorada do humor, transforma-se numa dolorosa tomada de consciência dos riscos do humor. Meg Stuart, na sua iconoclastia e consistente questionamento, oferece-nos a possibilidade de reflexão. Apanhados que fomos na liberdade perversa do riso, somos obrigados a perceber que limites devemos impor a nós mesmos para que não sejamos dominados pela superficialidade do riso. Mais uma vez a relação com a responsabilidade, palavra-chave na obra desta autora.


It’s not funny! pode ainda ser visto, em Berlim, a 16/10, 05/11 e 17/12 e em Paris, no Thèâtre de la Ville, entre 28 e 30 de Março 2007.


Texto escrito com o apoio do Programa de Apoio à Dança do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian, Goethe Institut e Roberto Cimetta Fund

9 comentários:

pedro disse...

porquê o pop up com publicidade?

Tiago disse...

nao faco ideia alguma. nem sei como tirar. é do proprio servidor.

Anónimo disse...

Quando falaste do espectáculo da Maguy Marin fiquei interessada, mas gostava mesmo de ver este da Meg Stuart. Fazes ideia se poderá vir a Portugal? Tem uma estrutura complicada e cara como o Visitors Only?

Ficaremos à espera.
Obrigada.

Sílvia

Tiago disse...

tem uma estrutura imensa, uma escadaria que assusta e imensos móveis. É, no entanto, mais portatil que o Replacement ou o VIsitors Only. Se n vier cá, os bilhetes para Paris estao ao preco da chuva.

pedroludgero disse...

Parece-me que o humor é um dos avatares da ética, e que acima de tudo se traduz em gestos metafísicos. Se analisarmos o cinema de Buster Keaton, ficamos espantados com a sua agressividade.
Pena não poder ir a Paris ver este espectáculo...

Anónimo disse...

go meg!

joão disse...

embora não tenha visto, a peça parece-me bastante urgente.
o humor também pode ser uma faca, uma tomada de consciência, um grito de transformação, catártico como qualquer emoção verdadeira.
o distanciamento e o "não se levar a sério demais" são instrumentos sublimes do humor. puxar o tapete às vezes é uma revelação. entretanto, o entrenimento mercadológico aniquila qualquer possibilidade de reação, adormece os sentidos.
qualquer obra de arte é engajada, basta saber a favor de quais interesses.
belo texto, abraço

Anónimo disse...

Mais sobre a Meg é bom. Mas para a próxima, escusas de pedir apoio ao IA para vir a Berlin... .Ou mesmo quando não quiseres vir,

Estou sempre por aqui:
www.rotweilllerweinennicht.blogspot.com


Boas, do canil de Berlin

Anónimo disse...

aqui fica a correcção do link

www.rotweillerweinennicht.blogspot.com