terça-feira, junho 13, 2006

Abordagens ao Alkantara (IX): Discotheater


Crítica de teatro

Picadeiro do Museu da Politécnica
02 Junho, 00h
sala cheia


The show is about to begin…

We feel as if we were in a dream, dizem eles no coro grego-pop inicial. E depois garantem que nos acordam quando a manhã chegar. Começa assim Discotheater, a mais recente extravagância do Teatro Praga, incluída no Alkantara festival e que ocupou, literalmente, quatro madrugadas nos passados dois fins de semana. Seis horas de espectáculo, a começar sempre à meia-noite, que deram para tudo. Para se citarem, recriando cenas de espectáculos anteriores, uma vezes fazendo um upgrade, outras tábua rasa do que já tinham atingido; para proporem novos elementos para o seu universo (por exemplo, os objectos cénicos nunca foram tão operáticos como em Discotheater, fruto da colaboração com o artista plástico Vasco Araújo); para assumirem um teatro de forte componente visual, no qual a palavra é modulada em nome de uma noção dramatúrgica que desloca o texto do corpo do actor para o simbólico do conjunto.

No total são mais de setenta quadros (cada um com um nome que identifica uma ideia: início, plágio, alteridade, protesto, novo ...) cuja estrutura formal parte da ópera Os Mestres Cantores de Nuremberg, de Wagner, entre outras definições uma parábola sobre a arte. Para o Teatro Praga a peça também quer ser uma parábola sobre a criação e o acto criativo. Daí ao caos o passo é curto, coisa que lhes é fácil atingir e neste espectáculo testa novo limite.

Seria exaustivo discorrer sobre a quantidade de imagens que criam (há de tudo para todos os gostos, é um sonho, avisaram), até porque muitas das imagens apresentadas, não sendo supérfluas contêm também uma dimensão descartável (é o que valida a ideia de podermos entrar e sair quando quisermos). Uma espécie de paisagem cénica em que as cenas (os Masters) se vão sucedendo a um ritmo vertiginoso, barroco e excessivo, acompanhadas por uma banda-sonora por vezes opressiva, outras vezes instigadora, mas, também ela, a contribuir para uma mole visual que nos deixa meio dormentes. Seis horas dá para muita coisa mas não dá sono. Algumas vezes é-nos indiferente o que se passa (como se estivéssemos sentados num banco de jardim e olhássemos, at random, para o que nos rodeia), outras vezes irritamo-nos (e podemos sair – os Praga finalmente a serem democráticos), há alturas em que somos hipnotizados pelas ideias e execução das mesmas, a maior parte das vezes querermos perceber até onde é que isto tudo quer chegar. É pop, é retro, é kitsch, é chiq, é mau, é bom, é contemporâneo e anacrónico, é ridículo e absurdo… é teatro. No fundo, vale tudo. Valerá?

Não há blocos temáticos nem sequências organizadas para sugerirem uma dramaturgia, mas quadros que apontam para linhas facilmente reconhecíveis no percurso da companhia: a identidade do teatro, a responsabilidade dos envolvidos, a fronteira da definição, o valor da imagem, a retórica dos discursos, a manipulação das referências, o confronto actor/personagem ou a contaminação por outras linguagens que não as performativas (no caso é a literatura que tende a dominar). Tudo isto serve a ideia de um teatro que se auto-questiona no momento em que acontece. Ou seja, força-se a ideia de um teatro actuante e pensante que quer mostrar a sua validade enquanto existe e não protegido pela fixação à posteriori.

O espectáculo vive de regras e armadilhas que querem condicionar o resultado, sendo a duração a mais evidente, já que faz confundir, à medida que as horas avançam, se o formato se justifica pelo conteúdo ou o sustenta. Convém lembrar o alerta de Baudelaire acerca do tempo: «Souviens-toi que le Temps est un joueur avide/ qui gagne sans trincher, à tout coup ! c’est la loi.» Ou seja, o tempo vence sempre, não permitindo tudo, ou melhor, expondo tudo. Se existe a dúvida é porque, dando-se a possibilidade de entrar e sair em qualquer altura, não necessitando o espectador de contexto, o espectáculo deveria apresentar uma coerência e sustentabilidade permanentes. Coisa que nem sempre é verdade (e podendo o espectador zappar, mais relevante se torna a necessidade de insistir num equilíbrio cénico).

Por isso mesmo é um pressuposto errado admitir-se (na verdade, ceder) que em seis horas nem tudo tem que ser coerente ou pode estar ao mesmo nível. Já há auto-complacência e auto-legitimação suficientes neste discurso praguiano para permitir algo menos que um equilíbrio no espectáculo (afinal são eles que auto-atribuem medalhas no fim de cada quadro). Há que partir do princípio que ninguém apresenta nada sem estar plenamente consciente da solidez do que dá a ver. Ainda que esta ideia comporte uma certa retórica, são os próprios Praga que colocam a fasquia demasiado alta, não por se estarem durante tanto tempo em cena, mas porque têm nos últimos tempos apresentado sucessivas peças, quase sem deixar respirar a memória da anterior. Por isso mesmo, sendo um espectáculo desequilibrado (porque é, resta saber se essa era uma dimensão já prevista) é, provavelmente, a explosão de que todos estavam à espera. E era a única solução possível para perceber o que se vai seguir.

O que se questiona em Discotheater (o seu grande trunfo) é a solidez argumentativa de uma companhia que arrepia caminho no contexto nacional, apresentando espectáculos que estabelecem diálogos mais evidentes com exemplos estrangeiros (os Forced Entertainment são o lugar comum da referência quando se quer dar um exemplo, mas eu falaria em Jérôme Bel – a fórmula dentro da fórmula – e Armin Petras, Thomas Ostermeier ou Jacob Wren, mesmo que estes partam sempre do texto e os Praga tenham, de há alguns anos a esta parte, abandonado essa matriz enquanto fonte única) do que com a realidade nacional. Isto não pressupõe nem obriga a uma originalidade, mas à consciencialização (no público sobretudo) desse zeitgeist, o espírito do tempo. Que se espera então de uma companhia de teatro contemporâneo e que dá ela a ver?

Neste teatro-mosaico, o Teatro Praga fala (mesmo quando hermeticamente) de política, sociedade de consumo, entretenimento, globalização, amor, jogo ou manipulação (em qualquer nível). Ou seja, fala do que o rodeia. Fala de si mesmo (são aqui claras, e ainda bem, as linhas traçadas por elementos como André e. Teodósio e Pedro Penim – sobretudo se pensarmos nos espectáculos imediatamente anteriores, Super Gorila e Eurovision, respectivamente) e dos outros (no já tradicional, e algo estafado, jogo comparativo de nomes e referências). Fala de teatro, de filosofia, de retórica, de literatura, de música e de arte. Faz um retrato (não tão implacável e mordaz quanto se enunciava, mas suficientemente provocatório) de um modo de pensar o teatro que se não os aniquila, torna-os mais fortes.

Mesmo podendo criar os maiores anti-corpos, Discotheater é um espectáculo que não nos deixa indiferentes (gostemos ou não) e a partir do qual se podem começar a desenhar as linhas que vão fazer o Teatro Praga dos anos mais próximos. Arrisco: o desenvolvimento de uma definição de teatro menos preocupada com a legibilidade e mais atenta à responsabilidade social e artística de uma prática que tende ao facilitismo, a procura de um lugar no contexto nacional que radicalizará (ainda mais) opiniões e, sobretudo, a consciência de que o teatro, sendo efémero, obriga a um recomeçar constante que (e é essa a lição que se pode tirar de Discotheater) necessita de fechar portas e fazer opções. Neste opus magnum de seis horas pode ter havido tempo para tudo, a partir de agora o tudo pode ser fatal. E, por isso mesmo, muito mais interessante.

1 comentário:

inês lopes disse...

Só agora consegui ler a crítica ao Discotheater (e ao resto).Tanta impaciência na altura e afinal...Ajudou-me a organizar ideias,agrada-me sobretudo o último parágrafo..É bom ter sempre uma noção de futuro...
PS:O link para o diálogo entre Teatro Praga e Forced Entertainment não está correcto..