domingo, junho 04, 2006

Abordagens ao Alkantara (I): Isabella's room

Crítica de teatro
Isabella's room
de Jan Lauwers & Needcompany
São Luiz -Teatro Municipal
02 Junho 2006, 21h
Sala cheia

Um quarto secreto



por Pedro Manuel


Isabella’s room é um lamento, um luto, um cerimonial de homenagem ao pai do encenador belga Jan Lauwers, Felix Lauwers (1924-2002), que lhe terá deixado uma vasta colecção de objectos etnográficos africanos a partir dos quais se desenha a história de Isabella (Viviane De Muynck), uma mulher cega com noventa anos, e que acaba por funcionar como um festivo memento mori. A ficção em torno da vida desta personagem serve não só como linha dramatúrgica que organiza as diversas linguagens de expressão (música, teatro, dança) - e impondo o género teatral a partir da narrativa - como serve para expressar uma série de impressões em torno da condição do artista em relação ao objectos que cria, em última análise, sobre a condição humana no confronto com a morte. O sentido da morte dos outros. Mas aqui este sentido fúnebre é apenas intuído por uma dramaturgia de oposições e expressa no final pela dedicatória/ epitáfio ao pai de Lauwers.

A primeira oposição estabelece-se num espaço cénico dominado pelo branco e pela transparência: a técnica do espectáculo e expressão artística são interiores à cena, desde a música à projecção das legendas até à presença do encenador que manipula os objectos etnográficos em frente a uma câmara e apresentados em ecrã. Depois, existe também um contraste entre a disposição museológica das peças históricas e imagem fashion, contemporânea, dos figurinos dos intérpretes. Esta convivência entre o actual e o inactual acaba por ser a porta de entrada para o quarto secreto de Isabella e para o sentido íntimo, pessoal, do espectáculo. Em vários momentos é abordada a questão da relação entre o velho e o novo e o ultrapassado e a novidade, sobre as suas formas de convivência, de influência e, uma vez mais, qual a pertinência destas questões face à força do acontecimento do envelhecimento e da morte. No auge da agitação das vanguardas, Isabella estava mais preocupada em aprender sobre as antigas culturas africanas; no final da vida, Isabella apaixona-se pelo seu neto, Frank (Maarten Seghers), figurando a derradeira inversão e confronto entre actual e inactual; os objectos etnográficos, também eles guardam uma tensão, a do artista anónimo que as criou e que não lhes sobreviveu.

A presença dos objectos serve, então, para essa tematização subtil da morte e da perenidade da vida. Os intérpretes apresentam animais mortos e objectos destituídos do seu uso original, objectos que sobrevivem apenas pela sua história, pelo seu passado. E aí entra-se no domínio da ficção. Exemplo disso é a apresentação dos objectos, do seu uso e origem. A cada um corresponde uma pequena ficção que enriquece a sua presença. Já não o seu uso, mas apenas a possibilidade, a sua história. Podemos acreditar que todas as informações correspondem à realidade mas também podemos não o fazer. Porque o que está em causa parece ser a possibilidade de, através da ficção, devolver a presença do passado.

E através da ficção encontramos o terceiro tema do espectáculo, a mentira. Isabella nunca mentiu na vida, foi sempre uma personalidade livre e sincera, mas viveu rodeada de mentiras e mentirosos. O seu grande amor, o neto, acaba por morrer por uma mentira ao regressar de África. A mentira de África, da qual Isabella se nutriu ao longo da vida, através das pequenas ficções dos objectos, unidas pela figura de um pai perdido, o Príncipe do Deserto que chamava de Budanton (uma combinação de Buda com Marco António). A mentira acaba por destituir os objectos do seu valor pessoal e por fazer desabar as verdadeiras paredes-mestras do seu quarto. È o momento em que Isabella acaba por cegar.

Se no início do espectáculo, a associação entre a música, teatro e a dança parece forçada e referencial – sobretudo o momento em que Anna (Anneke Bonnema), a mãe, canta as suas próprias exéquias, num exercício que facilmente recorda Masurca Fogo de Pina Bausch, a intérprete também é carregada pelos outros -, a narrativa impõe-se como eixo aglutinador e o ritmo desequilibrado do início dá lugar a uma dinâmica comum e heterógenea, cedendo espaço a uma noção alargada da dramaturgia. A narrativa passa a ser tematizada através da coreografia, da interpretação distanciada e irónica de personagens – em que os vivos dialogam com os mortos – e sobretudo, através da música. De facto, Isabella’s room é um musical alegre e festivo mas atravessado por uma subtil melancolia e desencanto. O quarto secreto de Isabella acabaria talvez com os objectos cobertos por lençóis brancos, como fantasmas que deixam adivinhar as formas por debaixo e das quais nos resta apenas a possibilidade da sua história.

Contextos:
site da companhia Jan Lauwers & Needcompany

3 comentários:

Andre disse...

Também já comentei: http://moreallofme.blogspot.com/2006/06/qual-piada-1-qual-piada-de-ter-um.html

...

vvoi disse...

Pedro, discordo. Tambem eu ja comentei.

Quem? disse...

Gostei particularmente da banda-sonora...;)
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