sábado, abril 02, 2005

Trio, de Tiago Guedes (estreia mundial)

Estreou ontem, em Armentières, França, no âmbito do Festival Le Vivat, a nova criação de Tiago Guedes, Trio. O espectáculo, que repete hoje e estreará em Portugal na Culturgest no próximo dia 14 de Abril [seguindo depois para o Porto, em Junho], é a primeira proposta do coreógrafo para o ciclo de 3 anos como artista-residente do espaço em França.

Image hosted by Photobucket.com
Foto: Patrícia Almeida

Trio para além de uma coreografia também é um espaço. Um espaço dentro do teatro e por sua vez circunscrito no palco. Um espaço habitado por uma imagem composta por intérpretes. Em Trio coexistem sobreposições e variações. Sobreposições de diferentes níveis de leitura de uma mesma cena e variações a partir da mesma. Alguns pontos comuns activam a memória do espectador que, ao deixar-se levar por esta "paisagem" coreográfica, não esquece a origem da imagem que se transforma à sua frente. Como é que uma imagem pode ser manipulada, limpa, poluída ou alterada sem que o seu "radical" (a sua base) seja esquecido? Que diferentes níveis de percepção e de leitura um espectador pode ter acerca de uma mesma imagem coreográfica?

Tiago Guedes



O Melhor Anjo deu já conta do percurso deste espectáculo, através de uma análise à proposta de Tiago Guedes para os 11º LAB. Na altura, o projecto estava em desenvolvimento e escreveu-se isto:

"Tiago Guedes procura pensar o corpo como elemento de ocupação/contaminação. Seja através da 'presença branca' em palco ou carregando-o de outros materiais. Outras pessoas incluídas.

Para isso requisitou a presença de cúmplices/corpos, de forma a questionar o seu poder individual, quer como coreógrafo, quer como intérprete. Portanto, depois do 'resto', chegou a 'sua vez'. Esta ideia de trabalhar o eu-corpo/pessoa relaciona-se pouco com o mito de Narciso, mas mais com o que Lipovetsky definiu como cultura do individualismo. A necessidade de compreender o seu lugar dentro dos objectos artísticos que cria. Perceber, no fundo, o que há de seu nas coisas que faz.

O criador utiliza, deliberadamente, os outros como espaços de criação. Como extensões do eu. E, no fundo, o espectáculo vai-se desenvolvendo dentro de Tiago Guedes. E neste baralhar e voltar a dar, vai definindo o que procura. Vai transformando gestos que podem não ser nada em pontos de contacto. Vai procurando defender-se de eventuais vazios interpretativos. (...)

No caso concreto desta proposta, a sua utilidade reside na vontade de devolver ao corpo e à intenção a organicidade. Ou seja, o momento em que poderia ser visto/lido sem qualquer interpretação para lá do que é. O momento-zero, se quisermos. O radical. É, portanto, uma proposta a caminhar em flashback. Para que se perceba de onde e porque veio. «A representação do outro ou de si surge pois como manifestação de uma presença no mundo, como ponto de vista sobre esse mundo, mas também como forma de potencialmente o recriar ou restaurar.», continua Margarida Medeiros
[in Fotografia e Narcisismo, 2000]."

Na altura da estreia em Portugal, apresentar-se-à uma nova análise ao espectáculo.

Concepção Tiago Guedes Interpretação Tiago Guedes, Inês Jacques, Martim Pedroso Luzes Caty Olive Assistente Pietro Romani Produção RE.AL Apoio O Espaço do Tempo / Centro Coreográfico de Montemor-o-Novo, Forum Dança, Lusitânia Companhia de Seguros Co-produção Culturgest, Lisboa (Portugal); Le Vivat, Armentières (França); far, festival des arts vivants, Nyon (Suíça) Projecto iniciado no âmbito da 11ª edição do LAB, laboratório de experimentação artística produzido pela RE.AL Espectáculo financiado pelo MC (Ministério da Cultura) / IA (Instituto das Artes)

1 comentário:

grzl disse...

obrigada pela visita.
tu tens sido o meu prof de artes cénicas.
um abraço