sexta-feira, fevereiro 27, 2004

Sessão contínua I

Monster



É um filme confuso e ambíguo este Monster. Se, por um lado não vai além do boneco e da pincelada a traços largos de uma história, por outro não nos permite sequer escolher entre compaixão ou nojo, pela figura que Charlize Theron interpreta. Talvez se formos por partes: de facto, quando os actores se transformam completamente, é dificil acreditarmos que há algo mais para além da máscara. Há excepções, claro: DeNiro (Touro Enraivecido), Day Lewis (O meu pé esquerdo), Di Caprio (What's eating Gilbert Grape?) e depois, quando há mulheres as máscaras são mais interiores. O nome que me vêm à cabeça é sempre Meryl Streep que se transmuta mas não se acredita que aquilo não lhe saia com quem bebe um copo de água. Ora o caso de Charlize Theron é impressionante por isso mesmo, ambíguo quanto baste para nos fazer confundir o exagero da personagem e a necessidade de credibilidade.
As suas curvas e pele cor de areia, lábios húmidos e olhos verdes inebriam, mas onde estão eles? Neste fime foram rapados, engordados, encardidos, mal tratados... em nome da transformação completa. Consegue-o? Sim, parece-me. A primeira vez que a vimos saltamos da cadeira. E saltamos porque antes ouvimos a voz dela, quente e sensual, mais engrossada e cínica. mas ainda assim suficientemente reconhecível. Depois o choque. É bom que não se chegue atrasado ao filme. Molhada, seca, para lá do desespero. Depois Theron perde-se, por vezes, em gestos e trejeitos mais rudes e pouco críveis que nos fazem desconfiar da necessidade dos mesmos e dizemos: oh, estava tudo a correr tão bem, não te faças aos prémios rapariga...

Se há um filme que a suporte e alivie tamanho peso, a resposta é que não há. E isso parece-me assumido. Não há filme para lá da personagem de Charlize Theron porque a ideia é ela ser o filme, a razão de ser, o fim e o princípio. Assim, faz sentido uma interpretação onde não há história? Faz sentido criar-se uma ficção quando se quer mostrar uma realidade? Qual o sentido de um filme - logo uma ficção - se nos quer remeter para a realidade. Ora, aqui é que a confusão se instala. Não é um filme redentor, que procure a compaixão ou entender as razões. E quando tenta a explicação, logo nos mostra a irracionalidade. A única pena que pode causar é o facto de desejarmos que ela seja apanhada para que não sofra mais. E isso não é sofremos por ela, é sofrermos com ela. E isso nem nos choca. Aillenn Wuornos não é uma mulher que possa estar à solta, à deriva... precisa ser controlada porque não tem nada, não lhe resta nada e ela não sabe estar sozinha, cuidar de si, ser adulta. E é aí que temos pena. Não por ela ter sido violada, espancada, ignorada, ter falta de amor. Mas por não ter força de sobreviver. E aí, nós podemos perceber que às vezes não basta encontrar forças onde elas não existem. Às vezes não se é capaz de mais.

É nessa altura, que coincide com o final do filme, que Aillen Wournos diz à amante Sellby (inexpressiva, mimada e inconsequente Christina Ricci) que tudo o que fez foi por amor e que assumirá todas as culpas. Que mesmo que ela não perceba porquê - porque nunca ninguém percebe a importância que pode ter para nós determinado olhar, só a presença, a palavra certa - o amor falará mais alto. E isto é feito sem consessões à piedade, ao sentimento... o olhar frio está lá, a certeza está lá, a razão está lá. A confusão instala-se. O que se deve sentir por uma muler assim? O que fazer a uma mulher assim?

Acabou o filme e eu saí da sala. Mais à noite apercebi-me que ainda carregava o peso dessas questões. Quase que sentia a sujidade do corpo dela no meu.

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