terça-feira, janeiro 23, 2007

Uma fusão para interesse de quem? - opinião



A fusão entre o Teatro Nacional São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado é um erro. Uma vez mais, o estilo ziguezagueante do Ministério da Cultura sobrepõe-se aos objectivos das casas, desconhece o impacto público da decisão e, mais do que decapitar direcções, anula projectos, como o Teatro Camões.


O recente pedido de esclarecimento ao Ministério da Cultura (MC) por deputados do PS sobre a fusão entre a Companhia Nacional de Bailado (CNB) e Teatro Nacional São Carlos (TNSC) peca por tardio e enviesado. A fusão, anunciada no Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado, encontra-se em processo de concretização. E centra-se no desempenho do TNSC quando está em causa a remodelação de casas com dinâmicas, objectivos e orçamentos diferentes. O orçamento previsto para a fusão é de 19 milhões euros, sendo que no Orçamento de Estado 2007, em números redondos, o TNSC tem 15,6 milhões e a CNB 6,2 milhões (inclui mecenas e receitas próprias). Poupam-se 2 milhões, se tanto. “Nada”, feitas as contas à reestruturação e indemnizações, disse Pinamonti, director do TNSC, ao Diário de Notícias (30/11). Por isso, que pretende o MC?

Diz a lei orgânica de 27/10/06, feita à revelia dos directores, que serão “transformados, embora sem perda das identidades respectivas enquanto pólos de produção (…) tendo em vista uma melhor coordenação dos meios e dos recursos respectivos, ao serviço do desenvolvimento da cultura músico-teatral.” Não me perco no arcaísmo dos termos, mas recordo que Pinamonti assumiu que os primeiros cortes à sua programação foram as coreografias previstas (Diário de Notícias, 30/11) e que partilhar a orquestra “seria desnaturar a única orquestra sinfónica pública de Lisboa” (Expresso, 25/11). Mais, em 1992 foi revogada a primeira fusão de 1985 por se reconhecer a autonomia e o projecto da CNB. E o modelo proposto pelo MC tem como exemplos a Ópera de Paris, o La Scala e a Royal Opera House de orçamentos cinco vezes superiores ao acumulado CNB/TNSC.

Está dado o tom ao abrandamento da CNB quando comemora 30 anos e se prova, apesar da sub-orçamentação, o aumento de público e de receitas. Uma vez mais o estilo ziguezagueante do MC sobrepõe-se aos objectivos das casas, desconhece o impacto público da decisão e mais do que decapitar direcções (esta é uma opção política fulanizada), anula projectos, como o Teatro Camões (TC), que em conferência de imprensa de 16/11/05 era elogiado pelo mesmo MC. A CNB gere, em detrimento da sua própria função e com resultados positivos públicos, o futuro do TC enquanto teatro da dança desde 2003, não se tendo alterado o seu orçamento, apesar da sustentabilidade financeira deste lhe ter sido prometida em OE. Se o défice de 2004 foi coberto pelo OE rectificativo de 2005, em 2006 foi-lhe retirada a verba do PIDDAC de 1 milhão de euros. No total são 4,7 milhões de euros só de despesas fixas e segurança social, incluindo a gestão, programação e manutenção de três espaços - sede na Victor Cordon, Camões e armazém.

Se o MC quer poupar porque não garante a partilha de músicos e bailarinos em vez de programações anunciadas separadamente com sobreposições que levam à contratação de uma nova formação sinfónica para os bailados? Porque não liberta do orçamento da CNB os gastos com a segurança social dos bailarinos inactivos e autoriza que a idade de reforma desça de 65 para 45 anos, tal como os atletas de alta competição, por ser uma profissão de desgaste rápido? Porque não agiliza as autonomias financeiras das duas casas permitindo uma regularização das contas que não necessitem de contornos inevitáveis como reconheceu a recente auditoria às contas de 2004 da CNB?

Importa ainda perceber que papel atribui o MC aos mecenas, Millenium BCP (TNSC) e EDP (CNB), já que dificilmente se concebe que um e outro promovam um aumento de despesa. O secretário-geral do Millennium disse ao Expresso (08/12), a propósito de um jantar organizado pelo MC, que já davam “apoio suficiente”.

Registo ainda os silêncios públicos de quem tem laços com a CNB: coreógrafos que partilham espaços cedidos, ex-directores e sub-directores, alguns com funções nas duas casas, e Comissão de Trabalhadores que não entende que a falta de solidariedade não implica uma cedência nos eventuais problemas laborais, mas uma contribuição para um futuro que os afectará de modo irreparável.


[publicado ontem no jornal Público. Fotografia de José Luis Neves]

5 comentários:

cdoeiras disse...

Meu caro TIAGO: raramente consulto blogs mas leio os jornais diariamente e HOJE fiquei algo surpreendido com o teor do seu artigo do Público. Apesar de bem documentado, falta-lhe algo de MUITO IMPORTANTE - o conhecimento intrínseco da realidade da dança portuguesa, que, naturalmente, vem do conhecimento profundo da sua própria História. Ora, com a sigla SEC, eu respondo à pergunta que dá título ao artigo! Mas não foi para desvendar esse mistério que lhe escrevo. Mas, sim, para que saiba que o seu texto encerra um pecado mortal ao referir-se levianamente a um relatório de uma auditoria que está na Net desde Julho de 2006. Não sei se, propositadamente, ou não, faz crer que os mais de 3,6 Milhões de Euros em falta (evitei, delicadamente, a palavra ROUBADOS) só no ano de 2004 - quando você ainda não escrevia notas para os programas da CNB - são consequência de "inevitáveis regularizações de contas" da CNB. Saiba que o Tribunal de Contas enviou o processo para o Ministério Público e que TODOS NÓS, ARTISTAS, esperamos ver a direcção da CNB, em breve, sentada no banco dos réus acusada de má gestão, abuso de poder, desvio de dinheiros públicos e corrupção! O que, aliás, não teria tamanha gravidade e importância se o reportório, o elenco e os resultados artísticos da CNB nas últimas temporadas não fossem tão indigentes, incompetentes, despesistas e ofensivos para os coreógrafos, bailarinos e público portugueses. Mas isso é um campo que, certamente, uma pessoa da sua idade e com a sua falta de experiência, tem alguma dificuldade em dominar. E onde é que está provado, como afirma, que "a CNB teve aumento de público e de receitas"? Pela minha experiência como espectador e pelo conhecimento das entrevistas que (a mentirosa compulsiva) ANA CALDAS tem dado ao Público - veja o jornal de 12 de Nov de 2003 - e ao DN (20 Out 2006) acontece exactamente o contrário ! O que não deve acontecer é que nos leitores fique qualquer dúvida ou equívoco e, muito menos, perguntas por responder. Na pior das opções não será que o OPART acabará de vez com um cargo de Directora que, no futuro, é, completamente, dispensável com a presença de um director artístico digno desse nome, como há muito não se vê na CNB? A saída de Caldas, que, curiosamente, nunca emitiu uma palavra sobre a futura "fusão" das duas instituições, é uma obra de caridade para a dança portuguesa, já que se trata de uma personagem patética que nunca pôs um pé num palco e cuja nomeação - pelo demitido Comendador Sasportes - se deu à revelia da própria Lei Orgânica da CNB, por aquela não apresentar nem curriculum nem preparação artística e académica suficiente para tal!
Muitas outras questões ficarão por abordar, mas 300 caracteres é tão pouco comparado com as 61 páginas de irregularidades, ilegalidades e crimes que a direcção da CNB cometeu SÓ entre 2003 e 2004. Um “follow up” da supra citada auditoria já está em marcha e veremos toda a bandalheira financeira em que a CNB se enterrou, já para não mencionar o clima de terror em que os artistas vivem naquela casa. Uma situação você levanta e muito bem: o silêncio cúmplice do Engenheiro Vargas, que aterrou na CNB directamente de uma fábrica de cartão canelado por interferência expressa do “amigo” Vieira Nery e hoje já chegou ao topo do São Carlos . Pergunte-lhe qual a sua responsabilidade no desaparecimento de 3,6 Milhões de Euros e qual o seu papel no futuro OPART e verá que a RESPOSTA será, no mínimo, surpreendente !

AL - antigo bailarino da CNB

Tiago disse...

Caro António Laginha,

A caixa de comentários não permite a fluidez de um discurso mais articulado, razão pela qual voltarei a este tema da fusão rapidamente, assim me deixe respirar o lançamento da revista OBSCENA.

Quero apenas registar algumas notas para que a eventual discussão que surja deste meu artigo não esteja inquina e possa manter o nível que merece o delicado tema que estamos a abordar.

Certamente que há, por limite de caracteres e clareza na argumentação, alguns aspectos que foram deixados de fora. E mesmo assim, apesar de falar de números, citar nomes e declarações, houve bastantes pessoas que tiveram contacto com esta fusão através dele. Logo aí se vê que estamos a tratar de um nicho e que nem tudo é evidente.

O que me parece evidente é que não se chegará muito longe com condescendências e gratuitidades do género “uma pessoa da sua idade e com a sua falta de experiência, tem alguma dificuldade em dominar”, “quando você ainda não escrevia notas para os programas da CNB” ou ainda “conhecimento intrínseco da realidade da dança portuguesa, que, naturalmente, vem do conhecimento profundo da sua própria História”.

Sejamos sérios, já que quero crer que o António, tal como eu, acredita no papel fundamental que a crítica, para mais de dança num país onde ela é escassa, se deve pautar por um rigor, uma integridade e uma rectidão ímpares.

É de tal forma evidente que o seu comentário denota um mal-estar personalizado em relação à CNB e à sua direcção, bem como a outros ex-sub-directores, de tal forma que as suas notas críticas aos espectáculos não conseguem ultrapassar o julgamento em vez da análise, que qualquer discussão, por maiores que sejam as suas razões, sai vencida.

Antes de regressar ao tema, quero apenas garantir-lhe que o artigo que escrevi no PÚBLICO faz uma leitura do relatório da lei orgânica que anuncia, sem regulamentar, a fusão, da auditoria de 2006, do Orçamento de Estado, dos dados transmitidos à imprensa sobre receitas e número de público, das entrevistas dadas pelos vários intervenientes nesta história, de opiniões recolhidas junto de pessoas conhecedoras desta situação (aqui incluindo o que chama de “clima de terror” que se vive na CNB)…

Ou seja, não há aqui qualquer manipulação dos dados para que corram de feição a quem quer que seja.

A argumentação que usa para se referir à direcção da CNB é lamentável, mas não serei eu a defendê-la. O António certamente pesou o uso das palavras. Há quem lhe chame coragem, eu chamo-lhe ressentimento.

Última nota para registar aquilo que me parece uma contradição. Diz o António que nada disto “teria tamanha gravidade e importância se o reportório, o elenco e os resultados artísticos da CNB nas últimas temporadas não fossem tão indigentes, incompetentes, despesistas e ofensivos para os coreógrafos, bailarinos e público portugueses”.

Ora, está a querer dizer que se estivéssemos todos contentinhos, venerando e obrigado não valia a pena ser discutida a fusão, o papel da CNB, do Ministério…? Quererá o António dizer que se tudo correr bem (ao gosto de quem?) nada deve ser questionado?

Parco argumento para quem gosta se assinar enquanto, e cito do seu site, “decano dos jornalistas de dança em Portugal publicando, regular e ininterruptamente, desde 1986, em jornais e revistas da especialidade, portuguesas e estrangeiras”.

A não ser que a vergonha pelo estado das coisas seja tanta que o leve a assinar enquanto “antigo bailarino da CNB” em vez de crítico. Mas não acredito que assim seja já que, para além da exposição que o relatório teve no Correio da Manhã, certamente com mão sua, o António anuncia, em jeito de ameaça, que “um “follow up” da supra citada auditoria já está em marcha e veremos toda a bandalheira financeira em que a CNB se enterrou”.

Espero que agora possamos iniciar o verdadeiro debate. Um que devia ter acontecido há mais tempo. A tempo de se poder evitar esta absurda fusão que, como o António certamente saberá, ainda por cima se assina “com a sigla SEC”, tem contornos muito pouco claros.

Tiago Bartolomeu Costa – crítico de dança

Anónimo disse...

Ó Tiago... Lá está você outra vez...

A gente sabe que você não pode dizer mal da Ana Caldas e porquê (é feio acusar a mão que nos dá de comer). Também se sabe que nunca diria mal da direcção do S. Carlos (porque enquanto há vida há esperança). Basicamente o que você faz é dizer mal de quem toda a gente diz mal... porque assim não corre riscos... e porque apesar de crítico, você é claramente um tipo "do sistema"!!!!

Já toda a gente sabe que o Director Artístico do S. Carlos recisa a fusão pelo único (e relevantíssimo) motivo de não estar para voltar a acolher o aborto artístico e financeiro chamado CNB.

Poderá não se recordar, mas a melhor notícia que o S. Carlos recebeu nos últimos 20 anos foi, claramente, a separação da CNB. Sabe aquelas cirurgias de separação de gémeos siameses unidos pelos pulmões??? Foi mais ou menos assim!

Só que o pulmão da CNB já na altura padecia de alguns males (institucionais e financeiros) que não tiveram cura entretanto (pelo contrário).

Agora imagine o pânico do gémeo siamês S. Carlos ao ver já o material cirúrgico pronto para levar outra vez com a sua mana em cima!!!

É que entretanto o S. Carlos limpou-se! Você lembra-se da cambada de bêbados roucos que lá andavam pelo coro à espera de reforma?

Deixe-me dizer-lhe que a priori a fusão das duas instituições é, sim, uma óptima solução do ponto de vista jurídico e financeiro para o S. Carlos e para a CNB.

Teoricamente, claro está.

Nada impede que as duas estruturas tenham o mesmo responsável financeiro, o mesmo responsável jurídico, as mesmas equipas administrativas... em vez de duas...

Como nada impede que tenham direcções artísticas autónomas, programações específicas, etc etc etc.

Você conhece o modelo. Basta passar a fronteira ali para os lados de Badajoz, ir sempre, sempre em frente e começar a tomar notas!

Mas cá ninguém parece querer. E acha que é porquê? Porque não corresponde "ao sentir" dos que estão em ambas as instituições?

Estava à espera que a CNB ou o S. Carlos concordassem? Já pensou que vai haver gente a ir para a rua?

Já agora... deixe-me dizer-lhe (outra vez) que sou partidário de uma situação (ainda) mais radical. Uma pura e simples refundação da CNB, no seio institucional do S. Carlos. Bailarinos e funcionários para o quadro de disponíveis e depois toca a formar quadros de origem por concurso público.

Isso é que era, hem???

Ah! E sim... deixava o Camões (e o respectivo público) ao Mark Deputter (porque essas basófias que você anda a dizer sobre público devem-se a ele e não à Ana Caldas).

E assim livrávamo-nos do Turco, do Lagarto...

E punhamos a CNB ao serviço do país e da dança!

Ok! Ok! Eu sei que é utópico!

Nem o Salavisa deixava!!!!

Ah!
Não sou bailarino... nem crítico... sou advogado!

Tiago disse...

Recebeu-se esta resposta de António Laginha no e-mail do blog, e como tal pensei que não seria para publicação no blog. Reproduz-se agora depois de esclarecimento do autor.

Caro TIAGO :

Como comecei por lhe dizer NÃO LIGO ESPECIALMENTE a blogs.

Creio que terão o mesmo futuro que essa defunta arte que deu pelo nome de
vídeodança e que, em Portugal, serviu apenas para uns "chicos-espertos" que
nunca fizeram nada na vida artística se promoverem patrocinando uma
"novidade" afrancesada cá no burgo! Mas issso foi chão que deu uvas porque,
evidentemente, se tratava de "muita parra e pouca uva".

Também não lhe mandei um "pequeno comentário" ao texto que você escreveu no
Público com a intenção de ser "afixado" no seu blog nem, muito menos, de
alimentar qualquer polémica, no sítio errado.

Todavia fico triste porque colocou debaixo do meu texto a SUA RESPOSTA mas
não teve a sereidade não dar aos seus leitores a MINHA resposta - que segue
abaixo.
Depois de ter deixado muito agoniada a sua amiga Ana Caldas, que não lê
blogs. Coitada, só deve ler mesmo as entrevists em que aldraba o "Público" e
as em que se delita com os seus delírios no DN. Deve ser por tal que ficou
tão abalada com o facto de eu lhe ter, com a maior das propriedades, chamado
mentirosa comnpulsiva !

Embora não tenha tempo para esse frenesim "globista", aos olhos dos leitores
NÃO GOSTARIA DE PASSAR NEM POR DESCUIDADO NEM POR COBARDE. Duas coisas que,
como muitos sabem, não sou.

Já agora, gostaria de conhecer a identidade do seu leitor ANÓNIMO que tão
bem coloca a
questão da CNB e do São CARLOS no blog, com ironia e, até, alguns
conhecimentos da matéria!


António Laginha - Director do Centro de Dança de Oeiras


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Caro "crítico de dança" TBC :

se há uma coisa que eu me permito não
discutir, no vazio, são evidências tais como "“uma pessoa da sua idade e com
a sua falta de experiência, tem, certamente, alguma dificuldade em dominar
certas temáticas” porque “quando você ainda não escrevia notas para os
programas da CNB” ou ainda nem era nascido, já eu, por força de muito
trabalho sério e consistente, tinha um “conhecimento intrínseco da realidade
da dança portuguesa, que, naturalmente, decorre de uma carreira artística
regular e contínua, e do conhecimento profundo da sua própria História”.

Naturalmente que poderia argumentar consigo, bem mais do que imagina, uma
vez que (como não deve saber) trabalho para a dança há mais de três décadas,
servindo-a mas, jamais, me servindo dela.
Também neste campo estou muito à vontade para fazer este tipo de afirmações,
sem falsas modéstias nem a por-me em bicos de pés. Creia que não preciso
disso e, como também é fácil perceber, já tantos críticos de dança passaram
pelos nossos jornais, desde que comecei a escrever, que lhes perdi a conta.
Infelizmente eu sou o mais velho deles e o que tem mais obra publicada
dentro e fora do país e, como tal, - quer você goste ou não - sou o decano
dos críticos de dança portugueses! Mas sou muito mais que crítico de dança,
já que possuo carteira profissional de JORNALISTA!

Curiosamente o TBC parece acreditar muito mais no papel da crítica, em
Portugal, do que eu. É normal...
Isso faz me lembrar alguém que, no passado, se tomou tanto a sério e foi tão
longe na sua desmedida ambição de se tornar o porta estandarte da crítica e
da "inteligenzia" da dança portuguesa que hoje tem quase tudo o que desejou
da vida menos um conjunto de reais valores pelos quais devia pautar a sua
vida!
É porque a crítica, seja ela útil mas nem sempre fundamental, "se deve
pautar por um rigor, uma
integridade e uma rectidão ímpares" que me dei ao trabalho de lhe escrever
porque nem quero acreditar que a sua relação com a CNB, e as análises que
fez no seu texto, possam estar contaminadas por factores de outra ordem que
não sejam os, puramente, jornalísticos!

Vou ser muito claro, eu jamais escreveria notas para programas - mesmo que
tivesse que morrer de fome -, de companhais cujo trabalho e seriedade
profissional me levantassem quaisquer dúvidas! Facilmente poderá perceber
que tenho sido, ao longo de 20 anos, convidado a fazê-lo na CNB, e nos
últimos 10 sempre o recusei.
Não é porque sinta qualquer "mal estar" relativamente a uma companhia onde
trabalhei 15 anos, mas porque não tenho um pingo de respeito por gente
trambiqueira e oportunista, não sou obrigado a tolerar este tipo de
situações e nem tenho feitio (nem paciência) para escrever artigos deixando
interrogações no ar. O meu trabalho fala por si e a seriedade com que sempre
pisei um palco ou escrevi uma linha, nunca foram questionados nem em
Portugal nem no estrangeiro, por isso não tenho que alimentar com os MEUS
IMPOSTOS uma companhia que é uma vergonha para qualquer cidadão português!
Se você acha o contrário, só pode ter um entendimento assaz diverso do meu,
sobre três palavras fundamentais: companhia, nacional e bailado.

Se denomina "atitude de coragem" ou "ressentimento" (esta palavra
frequentemente serve de arma de arremesso para qualificar o inqualificável)
a maneira desassombrada com que eu escrevo ou falo - e sempre falarei - de
gente pouco escrupulosa e sem princípios morais nem artísticos em que
prepassa a desonestidade intelectual, é um tipo de adjectivação ao qual,
creia, sou completamente imune.
Não a vejo nem de uma maneira nem de outra. Está algures no meio.
Como você não me conhece e quaisquer conclusões que tire serão sempre
precipitadas, confesso-lhe, que, verdadeiramente, está muito mais para a
banda da coragem já que tenho um processo para responder em tribunal em
Julho próximo, por "ofensa a pessoa colectiva". Porque tive o dessassombro
de, como bom cidadão que creio ser - para além de um ser humano respeitado e
querido - denunciar junto das autoridades competentes uma situação à vista
de muitos mas que todos, continuadamente, calaram.
E nesse capítulo, como "críticos" de dança, estamos conversados!

Por não ter a menor vontade que estejamos "todos contentinhos" e por já ter
dito a algumas pessoas que estão envolvidas no OPART aquilo que pouca gente
terá ousado dizer, aguardo calmamente o desfecho de um processo que, há mais
de seis meses, percebi que nem os artistas, os jornalistas ou a opinião
pública, terão qualquer capacidade de intervenção. Mas creio sinceramente
que, por muito mal que este processo termine, algo de positivo ele trará. E
isso você já percebeu!
Só não percebeu que é tarde demais para o "verdadeiro debate" de que você
fala.
Até porque na CNB de Ana Caldas e de M. Balkan jamais haverá diálogo pois,
propositadamente, a companhia não possui um importante orgão consultivo
estabelecido pela Lei.

Gostava que soubesse, a terminar, que eu não trabalho nem trabalhei "a dias"
em qualquer das várias publicações em que tenho vindo a escrever há mais de
duas décadas.
Por isso nunca fui a um jornal ou a uma rádio (leia-se TSF) "dar uma
mãozinha". O que sempre foi publicado no jornal em que, actualmente,
trabalho, para seu esclarecimento, está devidamente assinado. É só ler com
um pouco de atenção.

Em circunstâncias em que o facto de ter sido artista da CNB dê maior
credibilidade às minhas posições revelando um maior e mais profundo
conhecimento de causa, por uma questão de inteligência, faz-me assinar como
tal. Mas, como atrás afirmei, prefiro a designação, menos redutora, de
jornalista.

E quanto ao seguimento da Auditoria à CNB pelo Tribunal de Contas, não
estamos no reino das suposições nem, muito menos, das ameças, ela é uma
feliz realidade para quem prefere não viver na ingorância nem no faz-de
-conta.
Assim, TODOS os portugueses saberão como o dinheiro dos seus impostos é
deitado à rua pela direcção da CNB.


António Laginha - antigo bailarino da CNB



NOTA: a sigla SEC refere-se numa certa gíria jornalística” à SECRETARIA de
ESTADO da CULTURA.
Por vezes a mesma também se aplica ao Secretário de Estado da Cultura.

Anónimo disse...

Caro António Laginha

Terei todo o gosto em identificar-me se me deixar aqui o seu e-mail. Não me identifico aqui e não lhe deixo aqui o meu mail por motivos que terei todo o gosto em explicar-lhe depois e que certamente entenderá!

Quanto ao nosso anfitrião... não o leve tão a sério! O Tiago nunca dançou, é pouco provável que ainda venha a dançar e escreve sobre dança por osmose com o Tiago Guedes que também tem aquelas dificuldades no movimento que você bem conhece.

E como em democracia até o disparate é livre, o Tiago cá nos vai entretendo com estas simulações de respeito pelo contraditório quando escreve sobre assuntos importantes... como se deles percebesse alguma coisa.

A gente lê porque de facto entretém!

Mas não o leve a sério!

Dificilmente o Tiago lhe conseguirá explicar porque é que ir parar à CNB é a última coisa que passa pela cabeça quem se tenha formado no escalão da frente da ESD, da EDCN ou da ADC, apesar da CNB ser das únicas companhias NO MUNDO que ainda dá empregos para toda a vida.

É irónico, não é?

Cumprimentos