quarta-feira, dezembro 06, 2006

O Melhor Anjo no 35º Festival d’Automne: Thomas Hauert & Boris Charmatz

crítica de dança


Walking Oscar
de Thomas Hauert
Thèâtre de la Ville, Paris
28 Novembro 2006, 20h30
Lotação esgotada

Quintette Cercle
De Boris Charmatz
Centre Pompidou, Paris
29 Novembro, 19h30
Sala a metade

O corpo e a memória


Já na recta final do 35º Festival d’Automne duas propostas de dança vieram (re)lançar para a recepção da dança a questão da memória e da referência. Thomas Hauert com «Walking Oscar», em estreia mundial, e Boris Charmatz com «Quintette Cercle», estreado no último Festival de Montepllier, apresentaram espectáculos onde o trabalho sobre o modo como a construção coreográfica se organiza a partir da relação que cada um dos autores tem com a história, sua e colectiva, mas também como essa mesma história contamina um processo criativo. Contudo, os dois espectáculos não podiam ser mais distantes um do outro, seja ela forma, pela ambição ou pela capacidade de auto-suficiência.

O suíço, mas residente na Bélgica, Hauert – que se apresentará em Lisboa, no Teatro Camões, a 24 Janeiro com «Walking Oscar» e a 26, no CCB, com «Modify» (2004) – parte dos diários de Oscar van den Boogard, um advogado holandês nascido em 1964, e que a dada altura da sua vida decidiu abandonar o conforto e comodidade dos escritórios por uma errância literária. Queria viver a vida, disse. E as suas confissões detêm-se na depurada observação do quotidiano, no questionamento da vida enquanto súmula de realidades virtuais e outras bem mais duras de suportar, na deslocação do eu e da identidade para outros corpos e outras vidas… Os textos usados por Hauert servem de base para um espectáculo que vive essencialmente da palavra. Dita pela voz grave do escocês Stuart MacQuarrie, projectada na tela que separa o palco da plateia, cantada pelo conjunto de intérpretes que a transportam, dela partindo para improvisações sobre aquilo que já parece improvisado, interpretada por corpos meio sonâmbulos que se repetem até a exaustão em sequências também elas circulares e paralelas ao texto.

Percebe-se o que Irene Filiberti quer dizer quando escreve no programa do espectáculo que Thomas Hauert acredita na «voz como prolongamentoo do corpo, ele renova-a à sua maneira como uma comédia musical». A reescrita do movimento a partir da palavra e o prolongamento de um sentido a partir da criação de novas formulações, amplia o discurso do poeta e dá aos actos uma sustentação menos primária. E há, de facto, uma tentativa de humor no movimento e na ironia das palavras de van den Boogard, mas «Walking Oscar» é um espectáculo que parte para demasiadas direcções ao mesmo tempo sem nunca chegar a concretizar alguma. È uma deambulação onírica na qual os intérpretes vivem prisioneiros de uma estrutura verbal complexa, inultrapassável e redundante. O hiper-omnipresente texto castra qualquer possibilidade de recriação de um movimento que amplie e vinque o imaginário proposto.

Há um piano e muitos microfones que passam de mão e mão, e há cortinas que se abrem e fecham revelando corpos de anjo, marinheiro, vedeta de cabaré, raparigas virgens, bonecos de madeira, perversos manipuladores… Há, sobretudo, um excesso de imagens, de intenções, de palavras. Um excesso que não se compreende, que não se digere e não se sustenta (cerca de cem pessoas acabaram por ir abandonado a sala ao longo da apresentação). É, mais do que tudo, um exercício falhado, incompreensivelmente datado de um autor que vinha, com o tempo, a traçar um percurso de permanente reformulação das suas próprias convicções.

O francês Boris Charmatz, por seu lado, regressa a uma peça de 2002, «héâtre-elevision», para um espectáculo desconcertante e enigmático. Depois do lírico «Regi», com Raimund Hoghe, e um dos mais brilhantes espectáculos apresentados nos últimos dois anos, «Quintette Cercle» prova que Charmatz, mais do que um criador sem paralelo, é um re-inventor do movimento e da reflexão sobre o movimento. O seu mais recente espectáculo é uma espécie de jogo de referências entre o seu trabalho e a história da dança. O que antes, em «héâtre-elevision», aparecia quase secretamente numa televisão perdida no meio de uma imensa instalação, vive agora com legitimidade e autonomia próprias, no centro do palco transformado em gaiola dourada. Os corpos dos cinco intérpretes, todos eles também criadores – e entre eles Julia Cima e Benoit Lachambre -, vivem de uma construção milimetricamente estudada, mas de tal forma imprevisível, porque feitas de impulsos quase eléctricos, de espasmos incontrolados, de raivas por explorar.

O que Charmatz propõe é, em breves quarenta minutos, um revalidar do corpo exposto à pressão do olhar e, por isso, sujeito a uma carga de implicação muito mais evidente. A peça vive de um imaginário referencial que atravessa o século XX, desde o corpo libertário de Isadora Duncan, ao dispositivo cénico e dramatúrgico que remete para «Der Grune Tish» («A mesa verde», 1932) de Kurt Jooss, aos maillots azul eléctrico que recuperam as rupturas de Merce Cunningham. Os corpos estão soltos e num devir transcendente, as sequências organizam-se a partir de lógicas internas auto-suficientes e, como ele próprio diz «certos gestos não passam». Não têm que passar. O que fica é uma construção coreográfica livre, na qual é evidente que cada intérprete carrega o seu próprio percurso e Charmatz o organiza em nome de uma homogeneidade feérica.

São-nos raramente dados a ver objectos que, pelo seu experimentalismo, assumem a memória de forma tão evidente. O que o coreógrafo, mais do que mostrar, testa, é a capacidade de encontrar uma coerência nas mutações históricas. Como que insistindo naquilo que é mais do que uma evidência, mas tantas vezes ignorado: a dança, como as artes em geral, carregam códigos genéticos reconhecíveis. Cabe a cada criador saber retirar deles o que de mais acutilante interessa, no momento, apresentar.


Texto escrito com o apoio do Programa de Apoio à Dança do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian.

1 comentário:

pedro disse...

a discussão continua aqui: http://omelhoranjo.blogspot.com/2006/11/reaces.html

vão aparecendo