Há quem diga que Ivan Vasiliev é o novo Baryshnikov da ballet russo. Tem tudo para ser uma estrela: humilde, de origens modestas, do interior da Rússia, despreocupado, com outros interesses para além da dança, a fazer aquilo como quem bebe um copo de água... O jornal britânico The Telegraph não poupa os elogios: "Tawny-skinned, handsome and quick-witted, Ivan Vasiliev is a babe magnet as well as an exultantly talented young artist, a natural stage performer and yet with a serious attitude to his profession way beyond usual 18-year-olds", numa era em que a escola russa atravessa momentos de redefinição dada a escassez de talentos que continuem a provar a excelência da técnica. A ler (e a ver o vídeo do rapaz a dançar), com o devido desconto ao encantamento quase servil da jornalista. segunda-feira, julho 23, 2007
O bailarino que vem do frio para salvar o Bolshoi
Há quem diga que Ivan Vasiliev é o novo Baryshnikov da ballet russo. Tem tudo para ser uma estrela: humilde, de origens modestas, do interior da Rússia, despreocupado, com outros interesses para além da dança, a fazer aquilo como quem bebe um copo de água... O jornal britânico The Telegraph não poupa os elogios: "Tawny-skinned, handsome and quick-witted, Ivan Vasiliev is a babe magnet as well as an exultantly talented young artist, a natural stage performer and yet with a serious attitude to his profession way beyond usual 18-year-olds", numa era em que a escola russa atravessa momentos de redefinição dada a escassez de talentos que continuem a provar a excelência da técnica. A ler (e a ver o vídeo do rapaz a dançar), com o devido desconto ao encantamento quase servil da jornalista. sábado, julho 21, 2007
Bienal de Veneza no You Tube
Sam Taylor-Wood
Tracey Emin
Bill Viola
Sophie Calle
Felix Gonzalez-Torres
e os comentários de Waldemar Januszczak, crítico do The Sunday Times
Tracey Emin
Bill Viola
Sophie Calle
Felix Gonzalez-Torres
e os comentários de Waldemar Januszczak, crítico do The Sunday Times
quinta-feira, julho 19, 2007
Warlikowski, Angels in America e a sida na Polónia
O encenador polaco Krzysztof Warlikowski apresentou esta semana no Festival d'Avignon, em França, a sua leitura de Angels in America. Como aliás se esperava é mais sobre a actualidade - e em particular a realidade polaca - do que sobre os anos 80 em Nova Iorque que ele quer falar. A crítica do Le Monde dá conta disso: "ele quer dar a ver uma perspectiva mais lata do sentimento nacional e do aparecimento da sida. A sua adaptação ancora-se na realidade de hoje - como viver enquanto homossexual - e no plano religioso - como conciliar a culpa e o perdão. O resto da crítica pode ser lida aqui, em francês, bem com outros textos sobre o festival.
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Culpem o Fidel, pois, mas ide ver o filme
Chama-se Por Culpa de Fidel, estreou na passada quinta-feira, é um filme assinado por Julie Gravas e um retrato fascinante sobre a deriva revolucionária de um ex-casal de burgueses franceses que lutam, em 1970, pela liberdade no Chile e o aborto livre em França. Só que a história é contada pela pequena filha de 9 anos, Anna, habituada a descascar laranjas com uma faca, a aprender tudo sobre o Génesis na sua escola de freiras, e a passar férias cheia de primos e primas no castelo dos avós. Até ao dia em que tudo começa a mudar. E a culpa só pode ser de Fidel que acusa o Mickey de ser um símbolo fascista, claro. A não perder, absolutamente.
terça-feira, julho 17, 2007
Eat my green
Pode parecer pretensioso que pessoas com 21 anos como nós achem que podem tentar mudar o mundo. Mas desde que utilizemos a energia de dez casas simplesmente para iluminar um palco de concerto...
A frase foi dita pelos Arctic Monkeys, e citada pela Inrockuptibles, que se interrrogavam sobre as verdadeiras razões de concertos como o Live Earth, organizados por Al Gore a favor do ambiente.
O vídeo acima chama-se A View From The Afternoon
Almada na recta final
O Festival de Almada entrou na recta final e, no entanto, há espectáculos para ver no Teatro Nacional D. Maria II, no Instituto Franco-Português, no Teatro Azul, no CCB e no Palco Grande da Escola D. António da Costa. Uma das estreias mais aguardadas é a encenação da peça A Charrua e as Estrelas, pelo encenador francês Bernard Sobel. A belíssima conversa que manteve com o jornalista José Mário Silva, e que foi publicada no dossier que a OBSCENA dedica ao 24º Festival de Almada, está também disponível no seu blog.
Hoje é também o último dia para se poder ver no âmbito do festival, às 19h00 no Instituto Franco-Português, a delicada, discreta e sensível encenação de José Maria Vieira Mendes do difícil texto História de Amor (Últimos Capítulos), da autoria de Jean-Luc Lagarce. A peça continua em cena até dia 20.
domingo, julho 15, 2007
Os meus livros
Respondendo ao desafio lançado pelo Adolfo, do A Arte da Fuga, deixo então a minha lista de cinco obras mais ou menos referenciais. Mas, na verdade, o calor e o critério proustiano do questionário, levam-me mais a revelar o que ando a ler, ou li recentemente. A saber:
- Vertigem Americana, de Bernard Henri-Lévy
- Le Roman de Jean-Luc Lagarce, de Jean-Pierre Thibaudaut
- Século Passado, de Jorge Silva Melo
- Butt Book, edições BUTT
- Retábulo das Matérias, de Pedro Tamen
A bola segue agora para o Francisco Valente [que afinal também já me tinha lançado o desafio mas só agora vi e, por isso, fica a desculpa para uma segunda lista], o Pedro Ludgero, o Luís Royal, a Madalena Santa-Marta e o Filipe Bonito.
sexta-feira, julho 13, 2007
terça-feira, julho 10, 2007
O fim da crítica nos jornais é da culpa dos blogs
Se a crítica está a desaparecer dos jornais, a culpa é dos blogues. É pelo menos o que diz o Wall Street Journal, de Washington, num artigo intitulado Whatever Happened to Regional Critics?, saído, ironicamente, na edição online do jornal, no passado dia 7 de Julho. O contexto não tem ajudado, diz o jornal, salientando a fraca circulação de jornais, o surgimento de vários media na Internet e a pressão dos patrões. Certo é que, nos Estados Unidos, pelo menos, a crítica de livros, cinema e teatro tem vindo a perder terreno no papel para dar lugar a blogguers amadores que “publicam os seus textos sem receber”. A discussão pode ler-se aqui.
por indicação do Cidade Queimada
Crítica de dança: Blessed, de Meg Stuart
A relação pode não ser evidente, porque Meg Stuart não gosta de trabalhar sobre metáforas, mas ajuda à leitura de Blessed se se souber que a coreógrafa nasceu em Nova Orleães, no Sul dos Estados Unidos, a mesma cidade devastada pelo furacão Katrina no verão de 2005. É daí que vem a constante chuva que devassa a fragilidade dos papelões em forma de abrigo, palmeira e cisne desenhados por Doris Dziersk, que estabelecem diálogos frágeis e poéticos, de um simbolismo desarmante, com uma utopia quase religiosa. É também daí, dos escombros húmidos e dos restos de uma cidade que revelou o outro lado do sonho americano, que vem a força da resistência daqueles seres, impressa na visceral busca dos pertences por Francisco Camacho, mas também no tosco samba de Kotomi Nishiwaki. Corpos errantes que remetem para a natural capacidade humana de cicatrização, contra todas as expectativas e até mesmo a moral e ética.
Ajuda ainda saber que esta peça, minimal não pela simplicidade dos movimentos mas pelo modo como se vai impondo, de surpresa, surge da relação fraterna que Meg Stuart mantém com Francisco Camacho desde os tempos de Disfigure Study, de 1991, peça-fundadora de um discurso de pesquisa sobre o movimento numa sociedade hiper-mediatizada e eminentemente trágica. É que se sente, física e emocionalmente, nos traços de Camacho uma cumplicidade, uma memória, um reconhecimento da linguagem que partilham.
Não é por acaso que a peça manteve, durante muito tempo, o provisório título de Um Solo para Francisco. É que esta carta dela para ele – esse corpo estranho, tão pouco bailarino e tão humanamente cru – é um regresso a um discurso iniciático, de aspiração a um primitivismo e a uma sensorialidade que as mais recentes peças dela, sobretudo as de grupo, tinham levado já para o domínio da irrisão, da frieza descrente, cínica e desesperançada.
Blessed retoma questões exploradas, por exemplo em Alibi, de 2001, marcada inevitavelmente pela tragédia do 11 de Setembro. Também aqui é um corpo em confronto com a sobrevivência ao desastre que resiste e se renova. E não deixa de ser curioso que se possa sugerir que “as peças americanas” de Meg Stuart são aquelas que mais de perto tocam em uma das linhas maiores do seu trabalho: como lidar connosco e em relação ao que movemos?
A peça, austera pelo rigor matemático com que Camacho desenha precisas linhas no espaço cinzento, vai acumulando tensões, seja pela extraordinária banda-sonora de Hahn Rowe, seja pela impossibilidade de imaginar o que mais sucederá. Há uma impassividade no seu rosto, uma constânciamusical, uma ocupação de espaço pela chuva permanente que tornam a peça dramaturgicamente comovente. Mesmo que possamos achar que há uma extensão no tempo que pode fazer perigar as frágeis sequências – e a mudança de figurinos final, auxiliado por Abraham Hurtado, surge aqui como um elemento adicional pouco consistente pois duplica e caricaturiza a tragédia –, há em Blessed um trabalho de profundo rigor e implicação com o mundo negro em que vivemos.
Blessed apresenta-se hoje, às 21h, no Centro Cultural de Belém.
Texto publicado no jornal PÚBLICO a 5 de Julho.
Fotografia de Chris van der Burght
Hoje, às 18h30, na Culturgest, decorre uma conversa sobre a obra de Meg Stuart com as presenças de Gil Mendo, programador de dança da Culturgest, Mark Deputter, director do Festival Alkantara, Myriam van Imerschoot, dramaturgista, e Meg Stuart.
segunda-feira, julho 09, 2007
Vietname no Festival de Almada em sessão única
Hoje, às 19h, no Fórum Romeu Correia, em Almada, apresenta-se em sessão única a peça Les Paradis Aveugles, a partir de um texto da autora proscrita Vietnamita Duong Thu Hong. A peça é assinada pela companhia francesa M-G Pessoa e faz uma digressão pela memória de um país assolado pela guerra e a repressão. Um texto sobre a peça, da autoria do jornalista Bruno Horta, pode ser lido na página 46 da revista OBSCENA, disponível para download aqui e em distribuição nos vários espaços do festival, mas também em Castelo Branco (Ambienta Café e Livraria Amar Arte), Porto (TNSJ, Serralves e Maus Hábitos) e Coimbra (TAGV, Centro de Estudos Artísticos).
Europa já escolheu vencedores do Prémio de Teatro 2008
O anúncio oficial será feito somente na próxima semana mas O Melhor Anjo pode já adiantar que o encenador de teatro e ópera, mas também realizador, Patrice Chéreau será o vencedor do Prémio Europa de Teatro 2008, a ser entregue entre 9 e 11 de Abril do próximo ano em Tessalónica, na Grécia.
A escolha, feita por um conjunto vasto de instituições - Associação Internacional de Críticos de Teatro, Instituto Internacional de Teatro/Unesco, Instituto Internacional de Teatro do Mediterrêneo, Convenção Teatral Europeia e União dos Teatros da Europa, e coordenado pela associação que lhe dá o nome, Premio Europa per il teatro - segue-se à atribuição, este ano, do prémio aos encenador Robert Lepage, canadiano, e Peter Sadek, alemão.
Para além do Prémio será ainda atribuído, ex-aequo, ao encenador polaco Krzysztof Warlikowsky (que apresentou recentemente Krum, no CCB, e estreia por estes dias, em Avignon, a sua versão de Angels in America, de Tony Kushner, adaptada à realidade polaca) e à coreógrafa alemã Sasha Waltz o 9º Prémio Europeu de Novas Realidades Teatrais, este ano entregue ao encenador lituano Alvis Hermanis e à dramaturga sérvia Biljana Srbljanovic.
A organização decidiu ainda atribuir uma menção especial ao colectivo suíço Rimini Protokoll, que esteve na Culturgest, em Abril, com Mnemopark.
quinta-feira, julho 05, 2007
Santarcangelo recebe nova edição do seu festival de artes performativas
Começa hoje na bela vila de Santarcangelo, perto de Bolonha, em Itália, o 37º Internacional Festival of the Arts de Santarcangelo que reúne quarenta e cinco propostas que "constituem pontos de partida para uma viagem através da criação contemporânea italiana e internacional". A programação pensada por Olivier Bouin e Paolo Ruffini reúne teatro, dança, performance, música, artes visuais, arquitectura, literatura, desgin, artes gráficas e moda em propostas que "dão sentido às noções de singularidade, experiência e comunidade". Entre os nomes presentes encontram-se Edith Kaldor, Thomas Hauert, Tiago Guedes, René Pollesch, Tim Crouch, Yasmen Godder e Yan Duyvendack, entre outros, num programa que se estende até dia 15 de Julho. Já no primeiro fim-de-semana é neste festival que se reúne a TEAM Network, a rede europeia de revistas de artes performativas do qual faz parte a OBSCENA, onde se decidirão as actividades do próximo ano. Sexta-feira à tarde há uma conversa com o público sobre crítica e cena. A revista italiana Art'O fez um dossier especial sobre o festival que pode ser lido aqui. Toda a programação do festival pode ser vista aqui. Mais informações sobre a TEAM Network podem ser obtidas aqui. Textos sobre o festival poderão ser lidos na próxima OBSCENA.
quarta-feira, julho 04, 2007
24º Festival de Almada começa hoje
Até dia 18 de Julho é do outro lado do rio Tejo que se faz e vê teatro. A 24ª edição do Festival Internacional de Teatro de Almada faz-se com espectáculos vindos da Argentina, Colômbia, Vietname, França, Lituânia, Noruega, Chile, Espanha e Portugal. Escusado será dizer que a OBSCENA traz tudo sobre o festival e vai ser distribuída aos espectadores durante as várias sessões. Consulte a programação no site da Companhia de Teatro de Almada e leia os artigos que preparámos.
terça-feira, julho 03, 2007
Meg Stuart em Lisboa até dia 13
Começa hoje no CCB, com a estreia nacional de BLESSED, o ciclo que o Teatro Camões, a Culturgest e o CCB organizam em torno do trabalho da coreógrafa norte-americana Meg Stuart. A OBSCENA#5 dedica-lhe extenso dossier com críticas às peças e aos filmes, perfil e bibliografia. Reproduz-se abaixo o texto saído no Ípsilon da passada sexta-feira. Pode ainda ler aqui uma entrevista à coreógrafa.O corpo, lugar de acção
“Por onde deverá alguém começar uma abordagem ao trabalho de Meg Stuart e da Damaged Goods [a sua produtora], mas uma que saiba apreciar a multiplicidade de imagens e ideias nele presente? Uma abordagem que não seja histórica nem conceba uma teoria filosófica interna e intensa nem queira a criação de um discurso coerente?”
“Por onde deverá alguém começar uma abordagem ao trabalho de Meg Stuart e da Damaged Goods [a sua produtora], mas uma que saiba apreciar a multiplicidade de imagens e ideias nele presente? Uma abordagem que não seja histórica nem conceba uma teoria filosófica interna e intensa nem queira a criação de um discurso coerente?”
As perguntas são de Jeroen Peteers, crítico e dramaturgista belga, colaborador regular da coreógrafa Meg Stuart, e abriam o texto do programa do espectáculo Highway 101, um projecto em seis partes iniciado em 2000 e que passou por várias cidades europeias. A exposição da dificuldade era-lhe cara porque havia sido na qualidade de observador que se tinha colocado desde cedo. E, então, avisava: “É que a teoria já acontece e de forma muito óbvia, enquanto o trabalho circula, exactamente, na oposição de forças”. Nesse espectáculo havia uma frase recorrente em Meg Stuart que simboliza bem este desapego da coreógrafa à forma: “Não me sinto uma presença fixa e finita. Destaco do seu contexto partes da minha identidade”.
É a partir desta “terra de ninguém” que podemos começar a perceber o trabalho de Stuart, radicada na Europa desde o início da década de 90, mais exactamente em Bruxelas e desde há dois anos a residir artisticamente em Berlim, na Volksbühne – o que desde logo amplia, e refaz, a ideia que temos de territorialidade e identificação, mas também desagrega, paradoxalmente o postulado de Peteers.
Das perguntas o próprio partia depois para uma desestruturação do trabalho de Stuart assente em palavras-chave que, se eram presenças determinantes nesse ciclo deambulatório, também se estendem e vincam na totalidade do percurso desta coreógrafa A saber: figura/espaço, hiper-realismo, in situ [no local], intimidade, paisagem, meio/veículo, mutação, omnipresença, sobre-exposição, privado, processo, repetição, estrada/caminho, vigilância e espectador.
Mais do que simples linhas que unem os espectáculos, tratamos aqui de um programa de intervenção pública que quer ver aplicada uma função no corpo, no gesto e na consequência. Se é possível encontrá-las, também é possível ler o trabalho de Meg Stuart como uma tentativa de libertação desses agrilhoamentos teóricos, tanto internos como externos.
O ciclo que veremos em Lisboa dá bem conta dessa (necessária) instabilidade. It’s not funny (2006) assenta na efemeridade da intervenção pública e alerta para as várias demagogias que criamos para nos protegermos do outro. Blessed (Março 2007) recentra a nossa fragilidade humana na tragédia e na busca de uma dignidade. Maybe Forever (Maio 2007) propõe um novo olhar sobre o íntimo, mas um que necessite e reclame a presença do outro, um cúmplice. Sand Table (2000) obriga-nos a desejar o inalcançável, a procurar o conteúdo em detrimento da forma. Auf den Tisch! (a primeira apresentação deste programa de improvisação colectiva data de 2005) quer regressar a uma inocência coreográfica, à partilha de saberes e experiências sem a pressão de um discurso.
É a própria coreógrafa que, em conversa com o Ípsilon, diz que “a dança tem múltiplas camadas, diversos níveis de interpretação. Não acho que seja muito interessante fixar essas interpretações de modo a que sejam identificáveis e se fechem em si mesmas. Importa-me a qualidade do ‘como’. E esse ‘como’ chegará de diversas formas a quem vê. Há sempre mudanças que são dependentes de uma série de factores”.
É verdade que o facto de ter encontrado na Europa as condições que nunca teve, ou teria, nos Estados Unidos da América, de onde é originária, a fez aproximar-se de uma consciência cívica mais complexa, mais culpada e, provavelmente, menos prática. Mas não a impediu, certamente, de conceber uma cena activa e atenta ao modo como o corpo deve comportar-se enquanto organismo vivo e actual. Jean-Marc Adolphe, editor da revista francesa Mouvement, chamou à dança que ela faz uma “dança do desastre”, epíteto que a coreógrafa só concebe porque lhe interessa “explorar os efeitos daquilo que me rodeia neste meu corpo que é um receptáculo e que também participa na construção da realidade. Somos nós que criamos o que nos rodeia”.
Num ensaio sobre Visitors Only (2001), publicado em 2003 na revista brasileira Art, os investigadores Rogério Moura e Ciane Fernandes, iam, naturalmente, mais longe, numa exploração dramatúrgica mais aberta e mais actual. Diziam: “Num tempo onde homens-bomba e seus corpocídios mobilizam exércitos inteiros, aumentando o esfacelamento das fronteiras e extinguindo por vez o significado de Estado e Nação e mesmo de cultura, é de se perguntar por quanto tempo o corpo e o ser que nele habita ainda portarão a missão de unir, de celebrar”. Meg Stuart não celebra, antes confronta: “acho sobretudo que lido com actos e consequências. Eu quebro o copo, reconheço que o fiz, há uma reacção a isso. Ou limpo ou ignoro. E é sempre sobre isso”, diz-nos.
E por isso é que é importante que nos foquemos na dificuldade sugerida por Peteers que ao pensar no trabalho de Stuart defendeu a ideia de que este se estabelecia por “degraus de falsidade”. Ou seja, hipóteses de representação que nos levam a questionar a importância do que vemos. Em peças como Visitors Only, Replacement (2003) ou It’s not funny – exemplos maiores de um período pontuado por colaborações diversas, várias encomendas e muitas improvisações –, verifica-se que para Meg Stuart a noção de construção de uma coreografia está dependente do modo como esta deve representar “o” momento da criação e, ao mesmo tempo, abrir uma brecha na realidade fazendo confundir os planos do verdadeiro e do falso. A coreógrafa garante que “não há uma linha directa para a cabeça das pessoas” e, muitas vezes, crê estar num diálogo consigo mesma.
Nesse sentido It’s not funny leva mais longe essa pesquisa de evidente confronto entre realidade e ficção, entre criação e interpretação, entre acção e sentido, recuperando o que Jeroen Peteers questionava já em Visitors Only: “Porque é que consideramos falsa uma casa só porque foi construída num teatro? E haverá mesmo um original ou não passa tudo de uma construção que fazemos mentalmente?”
Há no seu trabalho um desejo de percepção do corpo, dos seus limites e das suas margens, tendo vindo a construir ao longo do tempo um perfil coreográfico que se vai ajustando, seja por via do movimento, da música, das artes plásticas ou visuais, da filosofia ou do teatro. Não estamos longe dos pressupostos clássicos nos quais o corpo estava no centro da acção, servindo tanto de elemento concentrador como repulsor. Mas, indo mais longe na reformulação da tradição e, muito em particular, ainda mais longe nas rupturas provocadas pelos movimentos das novas danças europeias – dos quais ela foi cúmplice activa e interveniente implicada –, propõe-nos um corpo essencialmente efémero. Um que se esgote no momento da acção porque só nesse momento importa agir. E será por isso que Jeroen Peteers nos alerta para uma certa impossibilidade histórica na abordagem ao seu trabalho.
É que ao contrário de tantos outros, este não é um discurso luminoso, de exposição celebratória, de ego assumido, com desejo de expressão futura. Está a um outro nível, mais fundo, subterrâneo e intrinsecamente ligado à condição trágica do ser humano: a de se ser responsável – e por isso, arrisco, sem distância –, pelo modo como precisamos encontrar uma solução de convivência comum. Meg Stuart é, assim, uma coreógrafa profundamente crente na busca de uma solução. Pode recusar o estatuto de líder mas há muito poucos a saberem guiar-nos tão bem quanto ela.
[texto publicado no Ípsilon - 29 Junho 07]
[texto publicado no Ípsilon - 29 Junho 07]
segunda-feira, julho 02, 2007
Manifesto
O acto de criticar não está isento de culpa. Esta ideia de legitimação não pode estar isenta de culpa. Criticar é um acto de intervenção pública, é uma escolha política, é uma afirmação cujos ecos deverão fazer-se sentir no momento em que está a ser proferida, sem receios ou pudores de moinhos de vento que mais não fazem do que rugir. Por isso, criticar é escolher e, mais do que julgar, é apontar linhas que possam ajudar a compreender o presente. A crítica é um acto de reacção que não pode ser dissociada de quem a profere. Não há uma crítica higiénica, asséptica e educada. Há sim um processo de pensamento em público que não pode abdicar de uma relação intensa com o terreno de onde provém. É o terreno que legitima a crítica. É o terreno que aniquila a crítica. Ser-se crítico não é um posto final, é um lugar que se conquista diariamente. Em cada texto, em cada escolha, no próximo espectáculo.
sexta-feira, junho 29, 2007
OFFSIDE #1 no Teatro Nacional S. João
OFFSIDE #1 Teatro Praga – 12 anos
um documentário-conferência de Sofia Ferrão e Tiago Bartolomeu Costa
produção Teatro Praga
30 Junho 2007 sáb 16:00
Teatro (de) Praga. 12 anos. Os nomes, os espectáculos, as referências, as músicas, os textos, os colabo-radores, os autores, os espaços, os cruzamentos e as recusas, os vários quilómetros nas estradas, as resi-dências, as co-produções, os títulos e as facas, as vidas privadas e as virtudes públicas, os papéis nas pare-des, os confetis no final, o rizoma e o que fica fora, o texto, o reverso do texto, a morte do texto e a missa de sétimo dia ao autor, o fantasma do autor, os outros fantasmas todos, os que saem e os que ficam, os que nunca entraram e os outros que não sabem onde estão. 12 anos, para baralhar e voltar a dar. Do fim para o início. Replay.
Vou fazer-te gostar de uma bela companhia
uma conferência-provocação de Tiago Bartolomeu Costa
Primeiro pressuposto: Ninguém deve falar por muito tempo da mesma coisa, pois corre o risco de cansar e deixar de ser credível. Logo, se um crítico conhecer bem o trabalho de uma companhia deve saber também que a dada altura chegou o momento de parar, colocar-se em causa e começar de novo.
Segundo pressuposto: Uma crítica não se substitui ao espectáculo, não é o espectáculo, não explica o espectáculo. Quanto muito, o papel de jornal (onde foi publicada) pode substituir o saco de plástico (que é uma peça onde cabe tudo). E é só.
Terceiro pressuposto: Num país de 92,391 km² não se compreende porque é que uma companhia deva ter que ser apresentada a uma cidade que fica a duas horas e meia de comboio da capital.
Quarto pressuposto: Ninguém está aqui para facilitar a vida a ninguém. Isto sempre foi cada um por si, eu aqui, tu aí, ele onde calhar. No final celebra-se, pois.
Quinto pressuposto (e último): Diz o Stanisław Ignacy Witkiewicz que “o teatro é um lugar onde as coisas mais loucas devem parecer normais”. Diz. •
OFFPRAGA
um video-documentário de Sofia Ferrão
edição vídeo Francisco Ferrãoduração 1:05
agradecimentos Francisco Ferrão, Nuno Carinhas
quarta-feira, junho 27, 2007
please explain
este blog encontra-se em pousio porque eu estou no Porto a preparar uma conferência sobre os 12 anos do Teatro Praga que acontecerá no sábado 30, às 16h00, no Teatro Nacional S. João. Chama-se Vou fazer-te gostar de uma bela companhia e acompanha a estreia, hoje, da peça O Avarento ou a Última Festa, em cena até 8 de Junho.
sábado, junho 23, 2007
info
O lançamento da OBSCENA #5 foi ontem, em Almada, durante a apresentação da programação do 24º Festival de Teatro de Almada. Consulte o programa aqui, compre a sua assinatura, siga as sugestões que lhe damos na revista e apareça em Almada de 4 a 18 de Julho.
sexta-feira, junho 22, 2007
OBSCENA #5

com Alvis Hermanis, Bernard Sobel, Costa Pinheiro, Christophe Slagmuylder, Eugénia Vasques, Fischli & Weiss, Gil Mendo, Isabella Soupart, Jean-Luc Lagarce, João Mendes Ribeiro, João Paulo Pereira dos Santos, Jorge Silva Melo, José Maria Vieira Mendes, Leonor Keil, Luís Miguel Cintra, Marionetas de Água do Vietname, Mauro Bigonzetti, Meg Stuart, Mpumelelo Paul Grotboom, Peter Brook, Pierre Coulibeuf, Pippo Delbono, Rabih Abou-Khalil, Richard Maxwell, Rodrigo García, RoseLee, Goldberg, Teatro de Marionetas do Porto, TgStan
e ainda
24º Festival de Almada, Festival d’Avignon, KunstenFestivaldesArts, Processo de Bolonha e Quadrienal de Praga
Faça o download em http://www.revistaobscena.com/ ou apareça na apresentação do 24º Festival de Teatro de Almada na Casa da Cerca – Centro de Arte Contemporânea (Almada), depois das 21h00 e leve uma OBSCENA para casa. Depois pode procurá-la, a partir deste fim-de-semana, na lista de locais indicados no site. São só cinco mil exemplares.
A OBSCENA #5 é editada em parceria com o 24º Festival de Teatro de Almada.
A OBSCENA faz parte da TEAM - Network
quinta-feira, junho 21, 2007
Return to Sender, de Helena Waldmann, até sexta na Gulbenkian
Um Irão íntimo
Afinal que sabemos nós do Irão, da sua cultura e das suas gentes? Que temos nós a dizer sobre o que lá se passa? Em que lugar – e a que distância higiénica – nos colocamos para dizer que aquilo não tem a ver connosco? Helena Waldmann, a coreógrafa alemã que esta semana traz ao Estado do Mundo Return to Sender (21 a 23, Fundação Calouste Gulbenkian) sabe um pouco mais do que a maior parte de nós. “Mas não sei tudo”, diz, afirmativa e aguerrida. A peça estreou em França no Festival Montpellier Dance 2005 substituindo uma outra, também de Waldmann, chamada Letters from Tentland, que havia sido proibida pelo regime iraniano menos de um mês antes da apresentação.
Começou tudo em 2001, num workshop para o qual foi convidada, ainda o governo de Mahmoud Ahmadinejad não tinha imposto um regresso à repressão nem ameaçara o mundo com ataques nucleares. Quatro anos depois, em Janeiro de 2005, estreava Letters from Tentland (o site lettersfromtentland.com mostra excertos da peça e relata o processo de trabalho), um poderoso retrato social sobre as mulheres iranianas, muito para lá do exotismo. As intérpretes eram actrizes de teatro, cinema e televisão, entre os 30 e os 50 anos, bastante conhecidas do grande público iraniano. A peça foi, apesar de polémica, bem recebida. E circulou pelo mundo, sobretudo ocidental, mostrando que a dança contemporânea também existe no Irão. Mesmo que seja ilegal ter aulas, que os corpos das mulheres não se possam mostrar, sobretudo e em especial, aos homens, que tivessem que usar metáforas para falar de liberdade, de sexualidade, de partilha, de identidade, de religião, de como se sentem, de como são vistas, do que significa viver com o estigma de serem vistos, todos, como potenciais terroristas. Mas, também, e isto sem metáforas, de como se pode ser feliz no Irão.
Letters from Tentland tornou-se demasiado perigoso para as autoridades iranianas que proibiram as intérpretes de saírem do país para se apresentarem em Montpellier, que co-produzira a peça. E Helena Waldmann, que “não quis acreditar que alguém no Irão achasse que lhe podia dizer o que fazer”, reagiu. Nasceu Return to Sender, um espectáculo independente que também é uma continuação e um acto político. De resistência e de activa consciência cívica. Um espectáculo raro portanto que quer tanto descolar-se da imagem gratuita do multiculturalismo que se torna, na sua simplicidade, desarmante para um olhar europeu, viciado e convencido de que o que se passa na televisão não tem nada a ver consigo. Têm.
“Queridas Banafshe, Mahshad, Pantea, Sara, Sima e Zohreh”, escreveu Helena e lê-se no inicio de Return to Sender, “a correspondência foi interrompida e agora tudo o que tenho são envelopes vazios. O vosso cheiro ainda habita nas tendas. Agora existem apenas abrigos a habitar por seis mulheres que saíram do vosso país. Hoje iremos responder-lhes. Com amor da H.”.
Return to sender vai recuperar a memória do espectáculo anterior para mudar de perspectiva que, mantendo-se feminina, permanece enquanto olhar sobre uma realidade desconhecida. Não só as intérpretes são mais novas como algumas delas nunca viveram no Irão. São filhas de exilados em Londres, Paris e Berlim. Mas, ao contrário do que seria expectável, têm muitos mais receios das consequências de participação numa peça como esta. Durante o processo Waldmann enfrentou um outro tipo de receios. Se as primeiras iam, passo a passo, “experimentado coisas às quais não tinham acesso, muitas vezes sem noção de quão longe podiam ir”, as jovens, com idades que vão dos 20 aos 30 anos, “criaram mais problemas ao nível dos limites porque projectaram medos que desconhecem”. A coreógrafa diz que essa foi uma dificuldade que lhe custou a ultrapassar: “não deixo de sentir que é um medo por vezes irracional”. E, por isso, o período de apresentação dos espectáculos tornou-se num outro processo de aprendizagem. Waldmann descobriu que nem sempre lhe contavam o que estavam a sentir, que muitas vezes não faziam o que lhes pedia, que entraram em duelo com o trabalho. “Houve um trabalho de cedência de parte a parte”. E, no entanto, a peça é sobre elas. Esta e a outra. “Disse-lhes claramente que para fazer as peças precisava de informação que só elas tinham. Isto quer dizer que as peças não são sobre mim no Irão, mas sobre aquelas mulheres”.
As tendas são, então, o espaço de todas as revelações. Aparecem porque são as tendas o que de mais forte guardou da sua estadia em Teerão. Nas estradas, nos parques, nas ruas, famílias inteiras ocupam tendas multicolores, indiferenciadas e frágeis. O que se passa no seu interior está interdito ao olhar estrangeiro. É preciso ser-se convidado e os homens não entram. Por isso, já no final, o espectáculo subverte esta lógica e convida o espectador a descobrir um pouco mais. Sobretudo questionando porque, por vezes, vive no absoluto desconhecimento. Atrás do palco as tendas são substituídas por rodas onde se serve chá e se fala de quase tudo. “Ninguém se aproxima de um iraniano para perguntar como é a sua vida”, diz a coreógrafa consciente, no entanto, que é “a partilha”, mais do que “a solução” que importa descobrir. Acabaram-se as desculpas.
[texto publicado no Ípsilon, 15 de Junho 2007]
ENVELOPES VAZIOS
Return to Sender não devia ter existido, ou não da forma como acabou por existir. Espectáculo-resposta a um outro que levantava demasiadas perguntas, é também um espectáculo-pergunta porque quer ouvir as razões de um nascimento tão repentino. As seis jovens raparigas são sombras de outras seis mulheres que antes ocuparam aquelas tendas, que lembram o chador, que são as suas casas, refúgio, prisão. Os seus movimentos, livres no interior das tendas, percorrem o palco à procura de um caminho, desbravando terreno, deixando marcas. O corpo delas, se está protegido pelas tendas (escondido era mais correcto), é porque nem no exílio, onde se encontram, se sentem seguras. Têm receio do que possa acontecer-lhes, pelas suas famílias, do que não sabem. Waldmann constrói uma peça-poema, onde tenta perceber o que sucedeu àquelas primeiras mulheres impedidas de continuar. Fá-lo através da exposição das cartas de que não obtém resposta, da duplicação do movimento que já existia na peça anterior, do querer dar a estas e às outras a liberdade que reclamam, exibindo as fotografias de tendas em Teerão, no deserto iraniano, ou colocando-as no metro de Nova York, ou em Alexanderplatz (Berlim), ou junto à Torre Eiffel. E por isso convida a um olhar emocionado sobre a condição humana, mais do que sobre a condição feminina. Despe-se de todos os artefactos para apresentar uma coreografia sobre o desejo de se ser livre. E estende esse convite à partilha, de forma explícita, quando prolonga o espectáculo para os bastidores, convidando os homens a falar com as raparigas (nenhum homem poderia entrar dentro das tendas por questões morais e religiosas), colocando em perspectiva as imagens feitas que existem sobre o confronto Irão-Ocidente. Uma obra tocante que faz mais pela queda de preconceitos do que qualquer metáfora multicultural.[publicado na OBSCENA #1, 30 Fevereiro 2007]
Leia na OBSCENA #1 uma entrevista à coreógrafa Helena Waldmann e um dossier sobre o contexto cultural do Irão.
Return to Sender apresenta-se de hoje até sábado na Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do fórum cultural O Estado do Mundo
terça-feira, junho 19, 2007
segunda-feira, junho 18, 2007
domingo, junho 17, 2007
Crítica de teatro: Ensaio, de Victor Hugo Pontes
Imagens desfocadas ou um ensaio por completar
Ensaio
De Victor Hugo Pontes
integrado na programação O Estado do Mundo
12 a 14 de Junho, Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian
Victor Hugo Pontes é, digamos, um nome que nos últimos dois anos tem sido recorrentemente citado como dos mais relevantes da nova geração de criadores, passando com facilidade as fronteiras do teatro e da dança, mas mantendo uma mesma coerência programática. A sua mais recente proposta, Ensaio, estreada no âmbito do fórum cultural O Estado do Mundo, é disso evidente sinal. As suas peças imediatamente anteriores – Laboratório (Curso de Encenação do Programa de Criatividade e Criação Artística 2005, Sala Polivalente do Centro de Arte Moderna/Fundação Calouste Gulbenkian), Ícones (um excerto da peça anterior que recebeu o Prémio na categoria de dança Jovens Criadores do Clube Português de Artes e Ideias 2006 e o 1º lugar no 2nd International Choreography Competition Ludwighafen 07 - No-Ballet, em Ludwigshafen, Alemanha) e Fotomontagem (estreado em Março deste ano no Circular – Festival de Artes Performativas, em Vila do Conde, e apresentado depois na BoxNova, Centro Cultural de Belém) – cruzam, de facto, o teatro e a dança, centrando-se sempre no modo como se pode conceber um discurso sobre a representação, enquanto campo de experimentação e constrangimento.
Ensaio
De Victor Hugo Pontes
integrado na programação O Estado do Mundo
12 a 14 de Junho, Auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian
Victor Hugo Pontes é, digamos, um nome que nos últimos dois anos tem sido recorrentemente citado como dos mais relevantes da nova geração de criadores, passando com facilidade as fronteiras do teatro e da dança, mas mantendo uma mesma coerência programática. A sua mais recente proposta, Ensaio, estreada no âmbito do fórum cultural O Estado do Mundo, é disso evidente sinal. As suas peças imediatamente anteriores – Laboratório (Curso de Encenação do Programa de Criatividade e Criação Artística 2005, Sala Polivalente do Centro de Arte Moderna/Fundação Calouste Gulbenkian), Ícones (um excerto da peça anterior que recebeu o Prémio na categoria de dança Jovens Criadores do Clube Português de Artes e Ideias 2006 e o 1º lugar no 2nd International Choreography Competition Ludwighafen 07 - No-Ballet, em Ludwigshafen, Alemanha) e Fotomontagem (estreado em Março deste ano no Circular – Festival de Artes Performativas, em Vila do Conde, e apresentado depois na BoxNova, Centro Cultural de Belém) – cruzam, de facto, o teatro e a dança, centrando-se sempre no modo como se pode conceber um discurso sobre a representação, enquanto campo de experimentação e constrangimento. Todas as suas peças passam por uma mesma linearidade que vai buscar ao processo de revelação fotográfica a estrutura narrativa, sofrendo depois de um excesso referencial que impede uma mais flúida apreensão dos objectivos finais. Por isso Ensaio é um passo em frente, e ao mesmo tempo finalizante – espera-se – de um discurso sobre as várias possibilidades da representação de um discurso performático sujeito a contaminações várias e, por isso mesmo, dispersivas. A validade da pesquisa de Victor Hugo Pontes encontra-se na necessária fundamentação de uma posição que integre, assimile e regurgite as lógicas de representação, de modo a que aquilo que é uma persistência argumentativa válida não se torne numa obsessão retórica.
É verdade que indo beber ao material referencial que existe sobre fotografia, e por natural consequência à performance, se desloca o duelo realidade/ficção para um outro campo: o da necessidade de entender os limites – quem os estabelece, porquê e como – entre acção e exposição. Ao optar por sustentar a sua pesquisa performática num campo que está sujeito a um outro tipo de regras, desde logo mais subjectivas e manipuláveis, Victor Hugo Pontes introduz, através dos seus trabalhos, um desejo em pensar de que modo podemos conceber o acontecimento encenado num palco a partir daquilo que nos chega já encenado. Ou seja, aquilo que a escolha do enquadramento fotográfico definiu como acção.
Contudo, a grande mais valia deste Ensaio não está na dramaturgia, mas em Vítor d’Andrade, verdadeiro actor low-profile que, consciente da responsabilidade em substituir o corpo de Victor Hugo Pontes – figura ominpresente nas peças anteriores que sugeria a identificação do texto com o corpo –, força o discurso a uma clarificação. A capacidade que demonstra em nunca se impor ao texto, conduz-nos, através da sua generosíssima interpretação à aventura de pensar, em directo, o modo como uma imagem, mais do que valer por mil palavras, altera o modo como identificamos o que nos rodeia. Há algo de Beckettiano na sua figura, sobretudo de Krapp, o velho trágico que escutava as gravações do passado para entender o presente. È para isso que remetem as gravações que vamos ouvindo, com vozes diferentes (eventualmente a quererem relacionar-se com os vários fantasmas indicados nas cadeiras vazias: Sontag, Walter Benjamin, Antonioni, Agatha Christie, Niepce, Cartier-Bresson…) que vão interrompendo a catatónica representação da figura sem nome, entre o entertainer e o filósofo.
Mas faz mais: liberta o espectáculo de alguma ineficácia dramatúrgica pois na opção de cruzar dois ensaios da mogul Susan Sontag (On Photography, 1973, e Regarding the pain of others, 2003) o autor acaba por não conseguir dar-nos a ver aquilo que, realmente, considera como fundamental para o seu percurso e para a sua própria argumentação. Chegamos ao fim do espectáculo – onde não falta o momento queer da praxe, com a canção Wishing (If I had a photograph of you) dos A Flock of Seagulls cantada a plenos pulmões (do refrão: “If I had a photograph of you/ It's something to remind me/ I wouldn't spend my life just wishing”), e o devolver do olhar ao espectador, com uma polaroid a mostrar que, afinal, as cadeiras onde julgávamos estar sentados estão, afinal, vazias – ficamos sem perceber de que modo a fotografia, e a fixação de um momento, são, para Victor Hugo Pontes, a finitude necessária para ultrapassar o trágico que nos domina.
Há uma qualquer impossibilidade dominante no espectáculo, seja esta a omnipresença das palavras de Sontag, a evidente fragilidade da contra-argumentação, ou a impressão de que aquilo que nas outras peças era claro – a tradução do processo fotográfico em sequência performática –, cede agora à impraticabilidade de encenar textos teóricos. Mas, de novo, espera-se que tendo-se encontrado (ou mostrado) alguma da fundamentação teórica de que careciam as propostas anteriores, não sejam agora outros aspectos os mais prejudicados.
Teatro Praga estreia nova versão de O Avarento
No próximo dia 27 de Junho o Teatro Praga estreia no Porto, no Teatro Nacional S. João, a versão que José Maria Vieira Mendes fez de O Avarento, de Molière. A peça estará em cena até 8 de Julho apresentando-se em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, somente em Janeiro de 2008. Enquanto estreia e não estreia, o site do São João já permite ver os textos que constam do programa, entre os quais uma entrevista ao Teatro Praga e um ensaio sobre o percurso da companhia, ambos de minha autoria, um perfil do trabalho de José Maria Vieira Mendes, assinado por Jacinto Lucas Pires, e a publicação de excertos de uma conferência de Peter Sloterdjik. Uma coisa se garante: nunca o Teatro Praga foi tão cínico e politicamente incorrecto como nesta peça, verdadeiro anti-clímax aos 12 anos de existência.sexta-feira, junho 15, 2007
Clipping: A última vénia
"AFTER the show the curtain falls, and there are those for whom it will not rise again. Some discover only in retrospect that they will no longer perform because of injury or illness. Others leave the stage quietly, telling nobody their plans until after their last performance. Some, however, choose the moment and the manner of their going and give advance notice to the world. There are never so many true ballerinas that it’s comfortable to say goodbye even to one of them, but coincidence has ordained that this month brings the formal farewell performances of four international ballerinas, all of whom have been admired in New York. Four!" A ler no NY Times
terça-feira, junho 12, 2007
Protótipo de cão-robô
The Most Advanced Quadruped Robot on Earth
BigDog is the alpha male of the Boston Dynamics family of robots. It is a quadruped robot that walks, runs, and climbs on rough terrain and carries heavy loads. BigDog is powered by a gasoline engine that drives a hydraulic actuation system. BigDog's legs are articulated like an animal’s, and have compliant elements that absorb shock and recycle energy from one step to the next. BigDog is the size of a large dog or small mule, measuring 1 meter long, 0.7 meters tall and 75 kg weight.
Uma ideia da Boston Dynamics para continuar a ler aqui.
quarta-feira, junho 06, 2007
Inrockuptibles escolhe 600 factos, entre elas a Casa da Música e João César Monteiro
Para celebrar a edição nº 600 a francesa Inrockuptibles escolheu os nomes, os filmes, os livros, os espectáculos, as exposições, os jogos vídeo e os acontecimentos mais marcantes dos últimos oito anos. Entre eles contam-se alguns nomes nacionais, ou em português.
No cinema: A Comédia de Deus, de João César Monteiro, O Fantasma, de João Pedro Rodrigues, Vou para Casa, de Manoel de Oliveira, No Quarto de Vanda, de Pedro Costa, e Vai e Vem, de João César Monteiro;
Nos livros: Manual dos Inquisidores, de António Lobo Antunes;
Nos acontecimentos: a Casa da Música, no Porto
Outras escolhas em português incluem o livro Afirma Pereira, do italiano Antonio Tabucchi, passado em Lisboa, os discos Cabo Verde, de Césaria Évora, Livro, de Caetano Veloso, Tanto Tempo, de Bebel Gilberto, Jogos de Armar, de Tom Zé, e Cansei de Ser Sexy, da banda homónima e a peça Não olhe agora, dos brasileiros Enrique Diaz e Mariana Lima/Colectivo Improviso.
Última, e breve, nota: na introdução dizem que lhes chamaram de tudo quando anunciaram que iam passar de mensal a semanal. Que não haveria material, que não teriam tempo, que não haveria leitores. Foi tudo ao contrário, claro. Como eu os percebo.
No cinema: A Comédia de Deus, de João César Monteiro, O Fantasma, de João Pedro Rodrigues, Vou para Casa, de Manoel de Oliveira, No Quarto de Vanda, de Pedro Costa, e Vai e Vem, de João César Monteiro;
Nos livros: Manual dos Inquisidores, de António Lobo Antunes;
Nos acontecimentos: a Casa da Música, no Porto
Outras escolhas em português incluem o livro Afirma Pereira, do italiano Antonio Tabucchi, passado em Lisboa, os discos Cabo Verde, de Césaria Évora, Livro, de Caetano Veloso, Tanto Tempo, de Bebel Gilberto, Jogos de Armar, de Tom Zé, e Cansei de Ser Sexy, da banda homónima e a peça Não olhe agora, dos brasileiros Enrique Diaz e Mariana Lima/Colectivo Improviso.
Última, e breve, nota: na introdução dizem que lhes chamaram de tudo quando anunciaram que iam passar de mensal a semanal. Que não haveria material, que não teriam tempo, que não haveria leitores. Foi tudo ao contrário, claro. Como eu os percebo.
sábado, junho 02, 2007
Crítica de dança : Uma lentidão que parece uma velocidade
Coreografia de Tânia Carvalho
Estúdio da Bomba Suicida, Lisboa
28 de Maio, 22h00
Sala cheia
Até dia 03 de Junho
Ao piano, um copo de veneno
Ao contrário da geração da Nova Dança Portuguesa, que poderíamos datar entre 1989-2000, com nomes como os de Vera Mantero, João Fiadeiro, Francisco Camacho ou Clara Andermatt entre outros, a nova geração de coreógrafos, a fazer-se notar a partir de 2000 (alguns já trabalhavam antes), não se sustenta numa instável posição de confronto e ruptura com o cânone e o legado mais directo da dança. Prosseguindo o trabalho de casos atípicos na cena nacional – como Miguel Pereira, Filipa Francisco e Ana Borralho/João Galante –, tiveram, na liberdade adquirida com e por aqueles outros criadores – precisamente porque continuam activos –, um lato campo de experimentação que não se socorre da referência para se (auto) justificar, como aconteceu com muitos. Uma tendência generalizada nos vários movimentos coreográficos europeus e que, em Portugal, gerou vários equívocos.Sendo genérico, sou também generoso, pois falar de uma nova geração é, em si mesmo, uma facilidade crítica que cria ilusões como a existência de agrupamentos. Uma situação que, se já era difícil para os outros, para estes é praticamente impossível.
Contudo, Tânia Carvalho é, com Tiago Guedes, Cláudia Dias e Sónia Baptista, um dos nomes com mais destaque nessa nova geração, ampla, independente e liberta da necessidade de propor uma nova organização espacial, filosófica e coreográfica. O seu mais recente espectáculo é disso um bom exemplo.
Sentada ao piano, interpreta a Sonata para Piano kvk545, de Mozart, numa busca pessoal que leva mais em consideração o processo que o resultado. Qualquer purista dirá o óbvio: quem se propõe a tocar piano ou o sabe fazer ou poupa-nos ao exercício. Para o caso, tanto importa se Tânia Carvalho o faz bem ou mal (não o faz mal, já é um bom princípio), porque o que ali está em causa não é tanto o virtuosismo da interpretação mas a leitura que a coreógrafa quer propor entre o rigor e o limite do intérprete de uma composição e aquele exigido a um bailarino.
Já há muito se reconhecia no seu percurso uma seriedade matemática (ouso a expressão à falta de melhor) que facilmente se associava à composição musical. Orquéstica, peça de grupo de 2006, era essencialmente a transposição de uma partitura para um corpo múltiplo.
Se agora não vai tão longe quanto se esperava, ou desejaria, a coreógrafa joga, ainda assim, com um princípio de composição paralelo, oferecendo-nos a desestruturação sonora, poética e visual de uma mesma partitura. Primeiro a música, experimentada na visível dedicação a que se entrega, tornando-nos cúmplices de um esforço real. A meio, associando o texto de Patrícia Caldeira à desagregação da partitura. Depois no movimento, onde explora aquilo que de mais característico se lhe reconhece: a austeridade e a aridez no gesto controlado, a pesquisa de um limite temporal, a organização de acordo com princípios físicos claros e, diria mesmo, dogmáticos. O modo como combina estes elementos, em particular na fantasmagórica sequência onde o piano toca sozinho e todo o corpo a ele se subjuga, marca a traço trágico um modelo de criação obstinado e autoral.
Se agora não vai tão longe quanto se esperava, ou desejaria, a coreógrafa joga, ainda assim, com um princípio de composição paralelo, oferecendo-nos a desestruturação sonora, poética e visual de uma mesma partitura. Primeiro a música, experimentada na visível dedicação a que se entrega, tornando-nos cúmplices de um esforço real. A meio, associando o texto de Patrícia Caldeira à desagregação da partitura. Depois no movimento, onde explora aquilo que de mais característico se lhe reconhece: a austeridade e a aridez no gesto controlado, a pesquisa de um limite temporal, a organização de acordo com princípios físicos claros e, diria mesmo, dogmáticos. O modo como combina estes elementos, em particular na fantasmagórica sequência onde o piano toca sozinho e todo o corpo a ele se subjuga, marca a traço trágico um modelo de criação obstinado e autoral.
publicido no jornal Público a 31 de Maio 2007
sexta-feira, junho 01, 2007
OBSCENA #5 em papel (brevemente)

Este mês a OBSCENA sai mais tarde. Mais exactamente a 22 de Junho. Mas há uma boa razão para isso. Esse será o dia em que lhe apresentaremos a primeira edição em papel da revista, distribuída em vários pontos do país a partir dessa data.
É um número especial, gratuito e relativo aos meses de Junho e Julho, que responde ao desafio lançado pelo Festival Internacional de Teatro de Almada, de associar a OBSCENA à 24ª edição deste Festival, que decorre de 4 a 18 de Julho.
Espectáculos, livros, exposições, novas colunas de opinião, entrevistas, colaborações internacionais, antecipação do que se irá apresentar nos próximos tempos, notas de trabalho de espectáculos, cartas brancas, novas parcerias internacionais e um leque de colaboradores alargado são tudo boas razões para esperar mais uns dias. Até já.
É um número especial, gratuito e relativo aos meses de Junho e Julho, que responde ao desafio lançado pelo Festival Internacional de Teatro de Almada, de associar a OBSCENA à 24ª edição deste Festival, que decorre de 4 a 18 de Julho.
Espectáculos, livros, exposições, novas colunas de opinião, entrevistas, colaborações internacionais, antecipação do que se irá apresentar nos próximos tempos, notas de trabalho de espectáculos, cartas brancas, novas parcerias internacionais e um leque de colaboradores alargado são tudo boas razões para esperar mais uns dias. Até já.
quarta-feira, maio 30, 2007
domingo, maio 27, 2007
Livraria Especializada: Pavillion Noir
Pavillion Noir, o livro
“Que livro para esse espaço recente, sem história, sem memória, onde ainda não se apresentou uma obra coreográfica?” A pergunta-desafio abre o negro e modular livro dedicado ao Pavillion Noir. Organizado por Éric Reinhart e publicado pelas Éditions Xavier Barral, a obra homónima, sem indicação de páginas, índice ou capítulos, divide-se entre imagens retiradas do filme de Pierre Coulibeuf e entrevistas a Preljocaj, onde se fala de corpo, movimento e espaço, e ao arquitecto Rudy Ricciotti, que recusa a utopia porque esta renuncia o futuro e prefere “transformar o real”. Conta ainda com contributos do astrofísico Michel Cassé, que reflecte sobre o vazio e a relação espaço-tempo, e da filósofa Jehanne Dautrey, que contextualiza a obra do coreógrafo a partir de palavras-chave como representação ou o diálogo com outras disciplinas. O volume não oferece a possibilidade de uma leitura contínua e formal, já que apresenta os excertos dos discursos de cada um dos intervenientes em terços de páginas independentes. Mas pensado enquanto objecto que dialoga com o potencial de uma obra em aberto, amplia uma das questões maiores do trabalho de Preljocaj: a sincronização. “Com a sincronização o espaço ganha uma textura particular (…), uma dinâmica particular, com certas velocidades e certas trajectórias”, diz. Tal como este livro, aberto na sua organização e labiríntico na sua forma, que permite ao leitor construir a sua própria viagem ao interior do edifício matemático de Ricciotti e à linguagem de Preljocaj (€35).texto publicado na revista OBSCENA #1
sábado, maio 26, 2007
Livraria Especializada: Panorama de la danse contemporaine
Com mais uma edição das Feiras do Livro a decorrer em Lisboa e Porto, O Melhor Anjo dedica os últimos dias do mês de Maio aos livros, à semelhança do que já aconteceu o ano passado, numa rubrica intitulada Livraria Especializada.
Panorama de la danse contemporaine
de Rosita Boisseau
Mapa para a dança contemporânea
O que há de comum entre Ushio Amagatsu, Lucinda Childs, Alain Platel, Pina Bausch, Rachid Ouramdane, Meg Stuart, Josef Nadj, Sidi Larbi Cherkaoui, La Ribot ou Robyn Orlin, para além de serem coreógrafos cujo trabalho, salvaguardadas as distâncias e gostos pessoais, questiona permanentemente a dança e atravessa fronteiras artísticas, estéticas e nacionais? Para a francesa Rosita Boisseau, crítica do jornal Le Monde e da revista Télérama, são alguns dos noventa protagonistas da dança reunidos em Panorama de la danse contemporaine, um trabalho em curso, “sem conclusão”, não “um dicionário exaustivo mas a recolha de percursos escolhidos”.
Por isso o livro abre com uma apresentação genérica onde fala da influência de Maurice Béjart, Anna Halprin e Merce Cunningham na definição daquilo que se entende por dança contemporânea, traçando um percurso genérico sobre o modo como evoluiu a concepção de dança do final dos anos 70 até hoje. Os nomes são apresentados por ordem alfabética e acompanhados por extensa iconografia, muitas vezes do mesmo espectáculo, biografia seleccionada, breve perfil e questionário proustiano. Na selecção nota-se uma vontade de destacar a França e a sua realidade, “berço da dança contemporânea e o país onde os artistas são mais vigorosamente apoiados pelas instituições”, ficando claro tratar-se de uma obra dirigida ao público francês que busca “ainda e sempre os códigos de acesso a uma arte mais próxima do irracional que da lógica: não para enquadrar uma obra, mas para saborear os interstícios, lá onde a liberdade de cada um desliza e se descobre”. Razão pela qual não falta nenhum dos dezanove directores dos Centros Coreográficos Nacionais, tal como nomes que se têm destacado na/da cena francesa: Boris Charmatz, Allain Buffard ou Geisha Fontaine. Há ainda coreógrafos de Espanha, Bélgica, Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Japão e Itália, bem como do Burkina-Faso e Israel, com os quais a realidade cultural francesa mantém relações.
No que respeita ao seu conteúdo, são particularmente fascinantes algumas fotografias, as anotações de Bill T. Jones ou Anne Teresa de Keersmaeker, o croqui do espectáculo Régi, de Charmatz ou o esquema coreográfico de Susan Buirge. Mas a abordagem à la Proust impede conhecer, pela sua forma limitada, o fascinante processo de criação de alguns destes nomes. Boisseau quer saber “o espectáculo marcante”, “o lugar do íntimo”, “o sentido a dar ao trabalho” de cada um, um som ou uma cor ou parte do corpo que sirva de inspiração e, entre outras mais ou menos genéricas, o calcanhar de Aquiles de cada coreógrafo. Entre os que sintetizam as respostas e os que não responderam (sobretudo nomes fora de França), existem aqueles que se expõem, como Gilles Jobin que busca uma cena que o leve à prisão e os que consideram, como Daniel Larrieu, que o último tabu é “o fim da arte”. Sendo um trabalho meritório e louvável, não deixam de ecoar como metáfora desta incompletude as palavras de Caterine Sagna: “se encontrasse o último tabu, teria tema para a obra-prima que todos esperam, autores e espectadores” (Ed. Textuel, €59).
Panorama de la danse contemporaine
de Rosita Boisseau
Mapa para a dança contemporânea
Por isso o livro abre com uma apresentação genérica onde fala da influência de Maurice Béjart, Anna Halprin e Merce Cunningham na definição daquilo que se entende por dança contemporânea, traçando um percurso genérico sobre o modo como evoluiu a concepção de dança do final dos anos 70 até hoje. Os nomes são apresentados por ordem alfabética e acompanhados por extensa iconografia, muitas vezes do mesmo espectáculo, biografia seleccionada, breve perfil e questionário proustiano. Na selecção nota-se uma vontade de destacar a França e a sua realidade, “berço da dança contemporânea e o país onde os artistas são mais vigorosamente apoiados pelas instituições”, ficando claro tratar-se de uma obra dirigida ao público francês que busca “ainda e sempre os códigos de acesso a uma arte mais próxima do irracional que da lógica: não para enquadrar uma obra, mas para saborear os interstícios, lá onde a liberdade de cada um desliza e se descobre”. Razão pela qual não falta nenhum dos dezanove directores dos Centros Coreográficos Nacionais, tal como nomes que se têm destacado na/da cena francesa: Boris Charmatz, Allain Buffard ou Geisha Fontaine. Há ainda coreógrafos de Espanha, Bélgica, Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Japão e Itália, bem como do Burkina-Faso e Israel, com os quais a realidade cultural francesa mantém relações.
Mas entre a escolha pessoal e “o impacto flagrante da marca coreográfica” de cada um dos escolhidos, se Boisseau opta por recusar movimentos ou escolas e evita convocar nomes como Matthew Bourne ou Marie Claude Pietragalla, criadores vedetas reconhecidos pelo grande público, também não arrisca na apresentação de outros que correm os circuitos de crítica e programação, alguma dela institucional, como Cláudia Triozzi, Xavier Le Roy, Jérôme Bel, Vera Mantero ou Lia Rodrigues. Opções certamente legítimas numa viagem acrítica e didáctica que Boisseau defende com “razões práticas e económicas” e, como sempre nestes casos, onde o que entra diz mais sobre o que fica de fora.
No que respeita ao seu conteúdo, são particularmente fascinantes algumas fotografias, as anotações de Bill T. Jones ou Anne Teresa de Keersmaeker, o croqui do espectáculo Régi, de Charmatz ou o esquema coreográfico de Susan Buirge. Mas a abordagem à la Proust impede conhecer, pela sua forma limitada, o fascinante processo de criação de alguns destes nomes. Boisseau quer saber “o espectáculo marcante”, “o lugar do íntimo”, “o sentido a dar ao trabalho” de cada um, um som ou uma cor ou parte do corpo que sirva de inspiração e, entre outras mais ou menos genéricas, o calcanhar de Aquiles de cada coreógrafo. Entre os que sintetizam as respostas e os que não responderam (sobretudo nomes fora de França), existem aqueles que se expõem, como Gilles Jobin que busca uma cena que o leve à prisão e os que consideram, como Daniel Larrieu, que o último tabu é “o fim da arte”. Sendo um trabalho meritório e louvável, não deixam de ecoar como metáfora desta incompletude as palavras de Caterine Sagna: “se encontrasse o último tabu, teria tema para a obra-prima que todos esperam, autores e espectadores” (Ed. Textuel, €59).
texto publicado na revista OBSCENA #1
quinta-feira, maio 24, 2007
Um engodo chamado OPART
Hoje no Público:
A lei de 27 de Abril, que define o Opart, o organismo que oficializa a junção da Companhia Nacional de Bailado (CNB) com o Teatro Nacional São Carlos (TNSC) - disponível em http://www.dre.pt/pdf1sdip/2007/04/08200/27792786.PDF -, é de tal forma desfasada do seu tempo que só um Estado como o nosso, ausente de memória e consciência pública, o pode permitir. Esta caricatura do que se entende por cultura sustenta-se numa argumentação pífia que acusa a pequenez e o fechamento a uma realidade em tudo contrária às recentes directivas europeias, tão depressa aclamadas pelo Ministério da Cultura (MC). continua aqui (por gentileza da Teresa Cascudo).
Troca de Olhares/Exchanging Visions em Luanda

Depois de Maputo, é a vez de Luanda receber a exposição Troca de Olhares/Exchanging Visions, comissariada por Isabel Carlos para o Instituto Camões. A exposição reúne "trabalhos que reflectem, nas artes plásticas, e em registos tão diversos como a escultura, a fotografia, o vídeo e o desenho, a vivência pós-colonial. Nesse sentido, «Troca de Olhares» procurou ser uma troca de experiências, vivências, memórias e identidades entre estes artistas e o contexto onde são apresentados". A exposição inaugura dia 06 de Junho na sede do Instituto Camões em Luanda. A imagem acima faz parte da obra O jardim, de Vasco Araújo.
Informações várias
O Alkantara procura, até 31 de Maio, um colaborador para as funções de contabilidade e administração. A apresentação de currículos deve ser feita para catarina.saraiva@alkantara.pt .
Technologically Expanded Dance é o nome do congresso internacional sobre as relações entre tecnologia e dança, organizado por Daniel Tércio, crítico de dança do Expresso e professor na Faculdade de Motricidade Humana. Decorrerá na Culturgest, de 22 a 24 de Novembro, e as inscrições para comunicações já abriram. Mais informações aqui.
Abriram as inscrições para as residências artísticas no âmbito do Fronte[i]ras 07 - Encontro Internacional de Artes Transdisciplinares, que decorrerá de 17 de setembro a 31 de dezembro entre a Galiza e o norte de Portugal. Mais informações aqui.
terça-feira, maio 22, 2007
A Europa teatral em Lisboa e no Porto
Pippo del Bono (Itália) com Il tempo degli Assassini, hoje, às 22h, no Auditório de Serralves, Porto
Àlex Rigola (Espanha) com European House – prólogo a un Hamlet sin palabras, amanhã e depois, às 21h30, no Teatro Nacional S. João, Porto
domingo, maio 20, 2007
Suely Rolnik explora o trabalho de Lygia Clark
às 18h30, no Auditório 2 da Gulbenkian, a programação do ciclo A urgência da teoria, integrado no Estado do Mundo, apresenta uma conferência da psicanalista, crítica cultural e curadora brasileira Suely Rolnik sobre o trabalho da artista visual Lygia Clark intitulada Lygia chamando
Martim Pedroso encena Bergman em Lisboa
seres humanos de martim pedroso
no teatro taborda, lisboa
17 de maio a 3 de junho - 4.ª a domingo/21:30
sábado, maio 19, 2007
Revista Águas Furtadas apresentada hoje em Lisboa

Hoje, às 16h00 na Livraria da Mariquinhas, ao Largo de Santo Antoninho, no Bairro da Bica, apresenta-se o 10º número da revista Águas Furtadas, editada pelo Núcleo de Jornalismo Académico do Porto.
Garante a editoria que Óssip Mandelstam, Stéphane Mallarmé, William Shakespeare, Winnie-the-Pooh, Gez Walsh, Carlos Seixas e Jorge Pinto já confirmaram as suas presenças. Os autores de alguns dos textos, eu incluído, também lá estaremos para falar do (mal) que fizemos.
Prometem-se surpresas várias, bolos grátis e vinho a copo (oferta limitada ao stock existente).
Só se cobram 10€ por cada exemplar. A leitura é gratuita.
sexta-feira, maio 18, 2007
Estado do Mundo começa hoje na Gulbenkian
Começa hoje na Gulbenkian o programa O Estado do Mundo, programado por António Pinto Ribeiro. A abrir esta reflexão sobre os vários olhares que nos podem ajudar a construir um discurso sobre o que nos envolve estará, às 18h30 no Auditório 2 da FCG, Marc Ferro, eminente professor e director de Estudos na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, bem como co-director da revista Annales. O título desta primeira conferência do ciclo de grandes lições A Urgência da Teoria como título O Ressentimento: Força obscura e produto da história.
Às 21h30, no Grande Auditório, o filme Desert Dream, inaugura o ciclo de cinema Todo o mundo é um filme, pensado por Jacob Wong, programador do Festival Internacional de Cinema de Hong Kong.
Leia na OBSCENA #3 (p. 10-19) um dossier dedicado à programação do Estado do Mundo, com um guia de espectáculos, conferências, filmes e outros eventos absolutamente a não perder. No mesmo dossier inclui-se uma conversa com António Pinto Ribeiro, e ainda com Miguel Honrado, comissário da progrtamação Jardim do Mundo e um comentário de Isabel Gil, Directora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Nova. Leia aqui um comentário à programação, publicado no jornal Público.
quinta-feira, maio 17, 2007
Contra a homofobia lutar, lutar

Hoje é Dia Mundial da Luta Contra a Homofobia. Que melhor dia para se lerem as entrevistas a Edmund White, John Cameron Mitchell, Michael Lucas, Gus Van Sant, Wolfgang Tillmans, Paul Rutherford, John Waters, Bruce LaBruce, Bruce Benderson, Peter Berlin, Michael Stipe, Stephen Galloway, Marc Jacobs e Mathias Vriens, que a BUTT, claro, disponibiliza no seu site? We're here, we're queer and so proud of it.
quarta-feira, maio 16, 2007
domingo, maio 06, 2007
sábado, maio 05, 2007
Peça infantil do coreógrafo Tiago Guedes regressa a Lisboa
Matrioska, estreado em França no passado mês de Janeiro, e apresentado já em Lisboa, no CCB, regressa para uma semana de apresentações, agora na Culturgest. Leia a crítica publicada no jornal Público, aqui.
sexta-feira, maio 04, 2007
Jones e Fiadeiro dividem público este fim de semana
Bill T. Jones no CCB, com Blind Date (ler na OBSCENA #4 dossier sobre o autor) e João Fiadeiro, com a estreia mundial, na Culturgest, de Para onde vai a luz quando se apaga?, vão dividir o público da capital nas noites de sexta e sábado, ambos às 21h30. O programa da peça de Fiadeiro pode ser lido, em pdf, aqui. Uma conversa com Bill T. Jones, assinada por Marcos Cruz e publicada no Diário de Notícias de quarta-feira, pode ser lida aqui.
Kunsten começa hoje em Bruxelas
Começa hoje em Bruxelas mais uma edição do Kunsten Festival que reúne nomes como Tim Etchells, René Pollesch, João Fiadeiro, Kris Verdonck, Hiroaki Umeda, Alvis Hermanis, Isabella Soupart, The Wooster Group, Eszter Salamon, The New York City Players ou William Forsythe (na foto). Até dia 26 a cidade enche-se de espectáculos de dança, teatro, performances, instalações, leituras, vídeos, encontros, manifestações de rua e um sem-número de actividades que fazem deste um dos mais importantes festivais de artes performativas da Europa. A programação pode ser vista aqui e o blog do Kunsten é actualizado regularmente. O Melhor Anjo estará presente no festival de 6 a 15.Últimos dias para ver ITSOFOMO em Serralves

ITSOFOMO é uma instalação multimédia assinada pelo performer e escritor David Wojnarowicz e o músico Ben Neill que pode ser vista até dia 06, domingo, na Sala Multiusos do Museu de Serralves, no âmbito da programação Anos 80: Lastro e Rastro. O poderoso retrato social e político de uma América assustada com o vírus da SIDA foi concebido entre 1988 e 1989 e, escreve-se no programa, "os vários elementos da música, texto e vídeo são integrados de acordo com um esquema multi-dimensional baseado na ideia de aceleração e nas respectivas manifestações nos sentidos, fornecendo assim o enquadramento para o confronto presente nos textos de Wojnarowicz com a aceleração da acção do vírus da SIDA e a política dos Estados Unidos nesta matéria". Wojnarowicz lê um texto-denúncia sobre um amigo internado num hospital, enquanto quatro projecções mostram corpos nus que dançam, manifestações extremistas e religiosas contra os homossexuais, corpos em decomposição ou alegóricas imagens que se relacionam com as leituras que a Bíblia fazia do dinheiro e do sangue. Há também vários insectos que contaminam as imagens aceleradas e repetidas, tal como a voz de Wojnarowicz que, "no final dos anos 80, depois de lhe ser diagnosticada SIDA, se envolveu em debates públicos sobre investigação e financiamento na medicina, censura e moralismo nas artes e sobre os direitos legais dos artistas".
quarta-feira, maio 02, 2007
Bill T. Jones em Serralves
O coreógrafo norte-americano Bill T. Jones apresenta-se hoje, a partir das 20h00, no Auditório do Museu de Serralves para um programa especial que inclui a peça Blauvelt Moutain, de 1980, o filme Bill & Bjorn: Bill and Arnie Duets Compilation e uma leitura de excertos da biografia Last Night on Earth, de 1995. A peça é apresentada no âmbito do programa paralelo à exposição Anos 80: uma topologia. Em declarações à OBSCENA, onde se publica um dossier sobre o coreógrafo, Cristina Grande, programadora do Auditório de Serralves, "aponta precisamente esse 'olhar não topológico', mas com várias orientações. 'O trabalho dele carrega evocações políticas, da luta de classes, do racismo, da sida'", diz. E acrescenta: "'É um olhar sobre a América que ainda hoje tem muito de reconhecível'. A programadora tece rasgados elogios à “generosidade” do coreógrafo, cuja presença em Serralves, e com este programa, se deve inteiramente ao seu desejo de 'dar a ver uma parte da sua história'”.A crítica norte-americana Deborah Jowitt, no Village Voice, falava da abertura a que Blauvelt Mountain respondia, aquela que fora protagonizada pelo movimento da Judson Dance Theatre. “Hoje, podemos estar sentados e esperar tudo”, escreveu, “mas há algo de imaculado no ritmo de Jones e Zane juntos. Uma sequência de pára-arranca feita de belíssimas e simples poses no chão, onde as mudanças são feitas com uma economia tal que não se vêem outras preparações ou ajustes. De repente, mexeram-se. Mas não com estridência ou precisão mecânica – com o poder e controlo dos grandes gatos, Jones, com os seus longos membros e corpo pequeno, é um mestre na movimentação no espaço e, no entanto, parece que acaricia o sítio onde aterra, como se graduasse e refocasse o seu próprio ímpeto”.
terça-feira, maio 01, 2007
OBSCENA #4 já disponível
A OBSCENA #4 já está disponível.Pina Bausch e Bill T. Jones são os nomes em destaque nesta edição onde publicamos a transcrição da conversa que Bausch teve com o público, no passado dia 03 de Abril no Teatro Camões, a propósito da apresentação da peça Para as Crianças de Ontem, Hoje e Amanhã. Mas antevemos, ainda, a presença de Jones em Serralves e no CCB, com textos dos críticos e investigadores André Lepecki e Helmut Ploebst e do coreógrafo Martin Nachbar.
Outro dos destaques vai para o dossier sobre a polémica em torno do ensino artístico, após a saída de um estudo encomendado pelo Ministério da Educação. Falámos com Jorge Ramos do Ó, professor universitário e um dos autores do relatório, e contamos ainda com um depoimento de Luísa Mesquita, deputada do Partido Comunista Português.
Publicamos um ensaio do investigador alemão Franz Anton Cramer sobre o desejo na dança e na pornografia, onde nos é perguntado como olhamos e desejamos aqueles corpos, pensando aquilo que os separa de simples objecto de desejo. E entrevistámos Mickael de Oliveira, primeiro vencedor do recuperado Prémio Maria Matos de Dramaturgia. E ainda duas reportagens: uma sobre a recém-aprovada declaração de diversidade cultural da UNESCO e outra sobre o teatro brasileiro que chega a Portugal. Dois olhares que procuram perceber que intercâmbios constroem o mundo.
Damos conta das exposições de David Lynch em Paris, de Robert Wilson na Fundação Ellipse e de João Tabarra na ZDB/Galeria Graça Brandão. Nos espectáculos falamos da mais recente encenação de Romeo Castelluci, de Pina Bausch, naturalmente, mas também de Loud Reed e dos filmes mediterrânicos de Luciana Fina.
Mais: o cartoon do Bandeira, as colunas de opinião, as críticas, as reportagens e as notícias habituais num número com 83 páginas e contributos de críticos, investigadores, fotógrafos, jornalistas e criadores.
Boas leituras.
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