quarta-feira, setembro 26, 2007
domingo, setembro 23, 2007
sábado, setembro 22, 2007
Ballettanz escolhe melhores do ano
Feitas as contas os resultados saíram no número anual da Ballettanz, disponível desde o início deste mês, e indicam a companhia belga Les Ballets C. de la B., de Alain Platel (que dias 13 e 14 de Outubro apresenta na Culturgest Import/Export, de Koen Augustijnen, esolhida por Lilo Weber, do suíco Neue Zürcher Zeitung como importante colaboração entre artistas e coreógrafos) , e a The Forsythe Company, do norte-americano William Forsythe (no primeiro semestre de 2008 no CCB) entretanto sedeada em Frankfurt, como companhias do ano, as russas Natália Osipova e Polina Semionova como bailarinas do ano, e Sascha Waltz, alemã e prémio Novas Realidades Teatrais Europeias 2008 e já este ano se apresentou no CCB, o francês Nasser Martin-Gousset, mas também a alemã Susanne Linke e a sul-africana Robyn Orlin como coreógrafos do ano.
Curiosas são as escolhas para significativo desenvolvimento entre política e arte. Desde a escolha da crítica israelita Ora Brafman, do Jerusalém Post, que refere a “estagnação e a falta de apoio público realista” já que “a maior parte dos bailarinos não ganham sequer o salário mínimo, independentemente da legislação israelita”, ao crítico canadiano Michael Crabb, do The National Post (Toronto), que fala do “declínio do valor do dólar americano” com implicações na “circulação de companhias americanas” e nas “expectativas de treino profissional na Europa”, os comentários registam um desfasamento entre as necessidades do meio da dança e as intenções políticas dos governos. Mike Dixon, da revista inglesa Dance Europe, alerta para o facto de que “a chegada dos Jogos Olímpicos a Londres [em 2012] está a criar um vácuo financeiro nas artes britânicas, já que os fundos provenientes da lotaria [que sustenta, em parte, os apoios públicos à criação artística] estão a ser desviados para projectos relacionadas com os Jogos Olímpicos” e Suki John, do New York Times, fala dos entraves criados pela Administração Bush à entrada de artistas nos Estados Unidos, um aspecto também referido pelo belga Pieter T’Jonck, da revista Etcetera, que afirma estarem ainda a sentir-se os efeitos do 11 de Setembro de 2001. Por outro lado há quem dê exemplos positivos, como a alemã Eva-Elisabeth Fischer, do Süddeutsche Zeitung, que refere a criação de um arquivo de acesso livre das obras de Pina Bausch, eu próprio, que refiro o relançamento da plataforma DBM – Danse Bassin Méditerranée, ou a grega Natasha Hassiotis, do To Vima, que dá conta do anúncio da criação de um Centro para a Dança na Macedónia.
É também com algum interesse que se verifica a escolha dos mesmos acontecimentos em categorias antagónicas. É esse o caso do espectáculo Snow White, da jovem coreógrafa norte-americana Ann Liv Young, que se apresenta em Lisboa, na ZDB, em Janeiro do próximo ano, escolhida por mim como jovem coreógrafa a ter em atenção e por Mindy Aloff, do nova-iorquino Voice of Dance como evento enervante ou a minha escolha para enervante o episódio 6 de Dialogue, de Sasha Waltz, que Renate Klett, do berlinense Freie Autorin escolheu como produção importante.
Entre as escolhas figuram ainda alguns nomes nacionais como Patrícia Portela, escolhida pelo austríaco Helmut Ploebst como coreógrafa relevante, Francisco Camacho, a opção de Pieter T’Jonck para bailarino, na peça Blessed, de Meg Stuart (peça também referida por Arnd Wesemann, editor da Ballettanz, e Sandra Luzina, do Der Tagesspiegel Berlin, como importante), Vera Mantero, como Até que deus é destruído pelo extremo exercício da beleza, escolhida por mim e por Pieter T’Jonck, mas também do crítico e investigador André Lepecki, cujo livro Exausting Dance foi escolhido por Franz Anton Cramer como importante produção (a crítica a este livro sai na próxima edição da OBSCENA, a 1 de Outubro) e a sua performance-conferência Re-Doing, a partir de Allan Kaprow, assinalada por Helmut Ploebst como importante colaboração entre artistas e coreógrafos.
terça-feira, setembro 18, 2007
You Tube Festival: prazer estético
quarta-feira, setembro 12, 2007
Sweet & Tender - a experiência
Todas as histórias têm um início mas esta, porque se quer especial, não tem um mas dois inícios. O primeiro aconteceu em 1992, período que para a dança europeia é de particular significado. As rupturas com aquilo a que se convencionara chamar de novas modernidades tinham possibilitado já uma segunda geração de criadores que começavam agora a agitar as águas da dança. Por iniciativa de Jean-Marc Adolphe nomes como Alain Platel, Meg Stuart, Hahn Rowe, Caterina et Carlotta Sagna, Vera Mantero, Lilia Mestre, Jocelyne Montpetit, Damiano Foa e Laura Simi ou Thierry de Mey passaram um mês em Paris, no Théâtre de la Cité Internationale num projecto a que se deu o nome de SKITe. Cada um deles, a maior parte começando uma carreira internacional e aproveitando a oportunidade para dar largas a colaborações que se prolongariam nos anos seguintes, era responsável pelo convite a mais cinco nomes, não necessariamente da área da dança. E o resultado, intitulado num misto de ingenuidade e de abertura de possibilidades Fragmentos de Experiências, apresentou-se em Paris, Londres e Leuven (Bélgica) criando assim uma plataforma que permitia entender quais os desígnios de uma geração entretanto chamada de contemporânea. Havia uma clara disruptura nas formas e nos modelos de aprendizagem que levavam a que o momento de partilha – o anúncio de um acto de partilha – fosse mais importante. E foi nesse contexto que surgiu a frase-chave para compreender o espírito deste encontro: não proponhas nada que não queiras partilhar.Chamem-lhes tudo menos nova geração
Podemos usar qualquer exemplo que o resultado vai sempre dar ao mesmo: já não há artistas sitiados nem artistas limitados. Tommy Noonan, 24 anos, americano a trabalhar em Freiburg, Alemanha, só porque lhe perguntaram se queria e ele decidiu deixar a instabilidade de Nova Iorque por uma experiência artística mais cúmplice; Tim Darbyshire, 27, australiano que estudou em Angers sem falar palavra de francês e que vacila de cada vez que lhe perguntam se quer mesmo voltar para o outro lado do mundo, Begüm Erciyas, 25, turca que não vai a casa há três anos e está de malas feitas para a Alemanha, Min Kyuong Lee sul-coreana a viver na Nova Zelândia há sete anos e de coração posto na Europa, Monserrat Payró, 32, mexicana, dois filhos e com uma sede de provar que o mundo pode viver de pão e cebolas ou António Pedro Lopes, 26, português, que tem sido intérprete de Fiadeiro e Bel são apenas seis exemplos entre os 32 nomes vindos de Itália, Portugal, México, Áustria, Suiça, Grécia, Bélgica, França, Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Eslovénia, Brasil, Irão, Estados Unidos da América, Noruega e Roménia que durante um mês, de 15 de Agosto a 15 de Setembro, se reuniram em St. Erme, no utópico PA-F do coreógrafo e encenador holandês Jan Ritzema para, simplesmente, tomarem o pulso da criação actual numa troca rica de experiências entre coreógrafos, intérpretes, fotógrafos, artistas plásticos, encenadores e críticos (sim, eu fiz parte do grupo e este é, claro, um texto feito por dentro).It’s breathing time!
Se pensarmos nos casos de Pieter Amper, 25, nascido no Burundi, e de Domenico Giustino, 31, italiano com adolescência passada no Texas, ambos a residir em Bruxelas onde frequentam ou frequentaram a escola de Anne Teresa de Keersmaeker, PARTS, reconhecemos nos seus movimentos aquilo que solidificou a escola belga: o virtuosismo interpretativo sem mácula e a generosa exploração das capacidades extensíveis do corpo. Se olharmos para Hajime Fujita, 25, e Sayaka Kaiwa, 26, ambos japoneses, a última a viver na Alemanha, apercebemo-nos do modo como vão ocupando um espaço discretamente enchendo-o depois com uma gestualidade rica em detalhes e ilusoriamente sem rede. Se observarmos os corpos da sul-coreana Min Kyuong Lee, 33, da alemã Jenny Beyer, 28, da mexicana Monterrat Payró, da suiça nascida no Lesotho, Lucie Eidenbenz, 23, ou de Mariella Greil, 28, austríaca, compreendemos de que forma podem ser traduzidas acções banais para movimentos consequentes, devido, na maior parte dos casos, a uma formação que passou pelo ou começou no bailado clássico. Os casos de Thelma Bonavita, 44, vinda do Brasil, Pavlos Kountouriotis, grego, 25, a residir em Londres, Marko Milic, sérvio de 26 anos, ou do australiano Tim Darbyshire mostram também uma prática concertada e uma vontade em explorar, de forma mais primária, os modelos formatados da dança.O site www.sweetandtender.org reúne material de todos os participantes, incluindo vídeos, fotografias, links para sites, blogs e páginas de cada um dos participantes. Dias 14 e 15, na Comédie de Reims, Le Palais de Tau e La Manége de Reims, o grupo apresenta os seus Fragmentos de Experiências.
segunda-feira, setembro 10, 2007
My body is a text - experiência
Os dois vídeos que se seguem registam a coreografia My body is a text, feita pelo coreógrafo esloveno Marko Milic no âmbito da residência artística Sweet & Tender Collaborations que decorre até dia 15 deste mês no PA-F (Performing Arts Fórum), em St. Erme, no nordeste de França. Interpretada por mim no passado dia 31 de Agosto, fará parte dos Fragmentos de Experiências, o nome dado aos resultados desta residência que reúne artistas de 26 países diferentes, que serão mostrados este fim-de-semana em Reims. O registo foi feito durante a apresentação informal ao grupo e mostra o resultado de dois dias de improvisações que depois foram fixadas e adequadas ao meu corpo não treinado. Não procurando sugerir qualquer leitura, mas partindo de um diálogo sobre modelos de aproximação entre artistas e críticos, My body is a text tem como sub-título não oficial Uma hipótese de coreografia para alguém que nunca dançou antes. Não é novo nem é original e também não significa mais nada do que aquilo que ali está. As reflexões sobre a experiência serão publicadas esta semana no blog no site da revista Mouvement.
sexta-feira, setembro 07, 2007
E agora, 4 anos depois, o quê?
«E agora segue-se o quê?!», é pergunta recorrente, com mais ou menos interesse, com mais ou menos sentido especulativo. «E agora não sei, logo se vê, estou tão surpreendido quanto tu», é normalmente a resposta que dou. E, no entanto, ela não deixou de ser feita de cada vez que dava um passo em frente. Primeiro quando comecei a escrever no Público, depois quando o blog deixou de falar de outra coisa que não fossem artes performativas e crítica, depois quando passei a publicar na Mouvement, a seguir quando começaram a ser frequentes as idas a encontros internacionais, as participações de convidados com textos, os dossiers especiais, as polémicas públicas e, claro, quando a OBSCENA apareceu o interesse em saber se representava o fim do blog. «Pois, não sei, logo se vê, estou tão surpreendido quanto tu», continuo a dizer.Este blog faz amanhã quatro anos mas é hoje que os celebra, com uma conferência-conversa especial pela crítica búlgara Kalina Stefanova, às 18h00, na Culturgest. O modo como ela tem vindo a expressar-se nos vários círculos em que se move, muitas vezes correndo o risco de ir contra o pensamento estabelecido provando assim das diferenças de perspectiva – que não deveriam ser antagónicas mas apenas complementares – de quem faz da crítica a sua profissão, é razão mais do que suficiente para concentrar nesta sua generosa participação o programa de celebração deste espaço virtual, que só existe porque existe quem o lê.
Há um ano atrás o programa das festas era maior, mas há um ano atrás as coisas eram bastante diferentes. O blog tinha passado por um ano de intensa exposição devido às permanentes crises entre cultura e política e, sobretudo, não havia a OBSCENA que, sim, afectou bastante a regularidade de postagem neste blog. Um ano depois as coisas mudaram, os ritmos mudaram, as responsabilidades aumentaram e, de certa forma, houve mais margem de fôlego para se ser menos presente no blog. De certa forma, e de uma forma não ausente de presunção, o trabalho feito anteriormente permitia-se já a um abrandamento.
Ao longo deste quatro anos fui tentando fazer d’O Melhor Anjo um espaço de reflexão sobre modelos de aproximação aos espectáculos, aos discursos artísticos, à recepção desses mesmos objectos. Já muitas vezes me perguntaram porque nunca apaguei os primeiros 20 meses de blog quando era menos presente essa vertente. Mas respondi sempre que achava importante que os leitores soubessem de que modo foi evoluindo o meu discurso. È um risco, mas um risco calculado. Não acredito que se possa conceber um crítico-instantâneo, ou melhor, conceber que um discurso não se deve sujeitar às evoluções de quem o produz. E, por isso, sentindo eu que muitos textos prévios a Outubro de 2005 mereciam ser revistos, e muitos deles simplesmente apagados, sei também que é nessa margem de erro que quero continuar a trabalhar. Na experimentação de uma intervenção pública, assinada, militante, condicente com as várias facetas de quem assina os textos. Uma crítica sensitiva se quiserem.
Razão pela qual é da mais elementar justiça referir que este processo, este caminho, só se fez porque existiram nomes que ao longo do tempo se foram aproximando de mim e do meu trabalho, e eu deles, naturalmente. Nomes sem os quais não haveria blog, nem revista, nem conferências, nem vontade de continuar, porque, sim, escrever é um acto de solidão, de profunda solidão, mas que só faz sentido, por mais paradoxal que soe, se acontecer acompanhado. Se não fosse a cumplicidade e seriedade de comprometimento e colaboração dos meus dois mais próximos amigos e colegas Mónica Guerreiro e Miguel-Pedro Quadrio, com quem tem sido um prazer incalculável aprender e trabalhar, mas também pessoas como o Augusto M. Seabra, o João Carneiro e a Maria José Fazenda que nunca se escusam a ajudar-me a pensar, a reflectir, a apontar direcções, a discutir o modo como se pode ter um discurso público, nada disto seria possível. Todos eles, e um grupo imenso de outros nomes, desde criadores a programadores, de críticos – mesmo, e sobretudo aqueles com quem são públicas as divergências – a amigos que nada têm que ver com as artes performativas, do público-leitor ao público-desconfiado (e eu sou o primeiro deles) tomam parte deste longo processo de evolução a que gosto de dar o nome de pensar em público. É com eles que vou improvisando, testando, ensaiando respostas a perguntas que nem sequer foram formuladas, discutindo, discordando, rebatendo e amuando, celebrando e fazendo de cada acto mais um passo para esse desejo de ser constantemente surpreendido.
A imagem que ilustra este texto foi feita pela artista visual Ramona Poenaru que, no âmbito da residência artística em que participei nas últimas três semanas no PAF, em França (e cujos resultados poderão ser lidos neste blog, e na revista Mouvement, na próxima quarta-feira). A autora pediu a cada um dos participantes que se descrevesse tendo em conta o modo como se via e como achava que era visto, enquadrando depois a imagem num fundo religioso. A imagem, da qual esta é apenas um ensaio técnico (as provas finais serão publicas no próximo ano em livro autónomo), faz parte de um ciclo de 30 retratos, um por cada nome presente nessa residência. No papel que me envolve está escrito, a vermelho-sangue naturalmente, o meu manifesto, já aqui apresentado. A fotografia quer representar uma ideia de aproximação e cumplicidade tácita entre quem escreve e quem lê, no mesmo sentido que o crítico francês Gérard Mayen defendia no ensaio Relações auto-críticas, publicado no nº 2 da OBSCENA.
É assim, não sabendo exactamente o que se segue, desejando ser constantemente surpreendido, e esperando que nesse caminho continuem a existir aqueles com quem fizer sentido partilhar, que espero entrar no 5º ano de blog. Sem saber o que se segue…
Obrigado.
quarta-feira, setembro 05, 2007
Agenda: sexta-feira, conferência na Culturgest
Flight of the Conchords: a descobrir
Ninguém que saber se foi a ficção que se impôs à realidade ou o contrário, certo é que Flight of the Conchords, a série, se tornou um fenómeno de popularidade nos Estados Unidos, tendo já garantidas mais duas temporadas na HBO. Bret McKenzie e Jemaine Clement são uma dupla de actores neo-zelandeses que tentam a sorte enquanto conjunto musical em Nova Iorque. A falta de talento vocal é largamente compensada pela ironia e displicência das letras, verdadeiros poemas do quotidiano que a dupla aproveita para reinventar. Sendo um projecto de banda existem, naturalmente, várias canções que o You Tube (gentilmente) disponibiliza, podendo ainda ver-se episódios inteiros onde estas aparecem contextualizadas. Cada canção evoca diferentes estilos musicais, em jeito de paródia, naturalmente. Dos Bee Gees aos rappers, das Demoiselles de Rochefort a David Bowie, de Elton John a Eric Clapton e, claro – ou não fossem eles neo-zelandeses e por isso terem entrado na trilogia O Senhor dos Anéis – Frodo don’t wear the ring. É absolutamente a não perder. A ilustrar este post o hit de verão, Foux Da Fa Fa (ou a música mais ouvida, e imitada, numa certa pequena aldeia no norte de França). terça-feira, agosto 14, 2007
There's no such thing as silence
quinta-feira, agosto 09, 2007
Times Square Big Brother

quarta-feira, agosto 08, 2007
Sítio das Artes: o debate
Excertos:
Se um programa é sempre genérico (mas este em particular era atento às carências nacionais) e as escolhas nunca se equilibram, a expectativa desta catalogação é fundamentada pela necessidade de perceber as hipóteses de artistas surgidos num contexto pós-dramático, trágico e sobre-referencial. De uma maneira geral, os protagonistas das artes do corpo presentes parecem ter desperdiçado uma oportunidade de reflectirem sobre o que significa criar hoje.
Entre a expectativa mínima e a esperança máxima, as propostas concebidas por Joana Craveiro, Juliana Penna, Vera Santos, Ana Trincão, Miguel Bonneville e Maria Gil, eram unidas por aquilo que o artista plástico Christian Boltanski classificou de «a pequena memória» – que Craveiro citava, e bem –, mas que se tornou um escape para muitos criadores: a defesa de que uma selecção de referências imediatas e geracionais pode substituir sem perda os processos evolutivos da História. Ora, Boltanski não diz apenas que a nossa memória é tão ou mais importante que a memória universal. Diz também, e muito concretamente, que a memória individual só tem importância se confrontada com os efeitos provocados pela memória universal. Ou seja, essa «pequena memória» exige distância e capacidade de auto-crítica, pontos que estas propostas fazem por ignorar através daquilo que lhes é mais imediato, reconhecível e, por vezes, descartável.
TBC
Apesar de já termos sido apresentados e de nos termos cruzado várias vezes (inclusive durante a programação de O Estado do Mundo), lamentavelmente, não foi [Tiago Bartolomeu Costa] um visitante disponível para falar, para questionar, para criticar ou para partilhar um bocado desse mundo imenso que, ao que li no seu comentário, estou longe de tocar enquanto artista porque só pressinto a importância da minha existência. Vi-o no Open Studio, dia da apresentação final, no dia em que esteve a trabalhar no Sítio das Artes, eu estava a observá-lo e posso dizer-lhe que sei que não é fácil estar nesse lugar... a pressão é imensa. A forma que encontrei estes meses para lidar com isso, foi descentrar-me de mim, olhar à volta, cultivar a curiosidade, trocar impressões, ouvir experiências, saber o que se passa, de onde vêm as pessoas... o mundo não é só o que vemos. Ao ler a sua pequena memória do encerramento, fiquei atónita com a natureza generalista de expressões como «Lamentavelmente parecem todos continuar a falar para dentro, para si e para nada» e a visão redutora relativa aos 6 protagonistas (designação tanto para um "herói" como para um "figurante") das artes do corpo, perante um conjunto de 20 artistas (designação não menos rica em sentidos) de 5 países - e como muito bem reconhece, «escolhas que nunca se equilibram» - fazendo parte da particularidade da residência.
Vera Santos
terça-feira, agosto 07, 2007
Judy Bamber
segunda-feira, agosto 06, 2007
Kalina Stefanova vem a Lisboa para conferência especial
Intitulada A crítica de teatro: como gostava que fosse e como é, a conferência decorrerá na Culturgest, dia 7 de Setembro, às 18h00.
Seguindo a estrutura de uma história pessoal, recontando uma busca que por todo o mundo se faz de um ideal de crítica, esta conversa irá, ao mesmo tempo, investigar as diferentes realidades da crítica. Com uma abordagem claramente pessoal e com sinceridade, pretendo inspirá-lo, instigá-lo e estimulá-lo a perseguir o seu próprio sonho sobre o que a crítica devia ser, e torná-lo realidade. Por outras palavras (e num outro nível de comunicação): esta conversa procurará despertar a nossa propensão inata para o idealismo, bem como a sua necessidade – este raro traço humano romântico de que o nosso mundo tão prático está cada vez mais terrivelmente necessitado.Kalina Stefanova: Professora Associada da National Academy of Theatre and Film de Sofia (Bulgária). Crítica e investigadora, foi vice-presidente da Associação Internacional de Críticos de Teatro e é responsável pelos simpósios da Associação. Os seus livros sobre teatro, nas áreas da dramaturgia e políticas culturais, estão editados em quinze países. O seu ensaio Pode a crítica ser pós-dramática? Está publicado no n.º1 da OBSCENA – revista de artes performativas. Bibliografia da autora aqui.
na imagem: that night follows day, de Tim Etchells
domingo, agosto 05, 2007
Petição contra saída de Dalila Rodrigues reúne diversos nomes das artes visuais
Acrescentam ainda que esta demissão recente prossegue "a prática dos actuais responsáveis do Ministério da Cultura", nomeadamente: "promover a obediência, concentrar a decisão, controlar ideologicamente as instituições. No presente caso, com total desrespeito pela competência, pelos resultados, pelo arrojo. Estamos, assim, confrontados com uma mistura de autoritarismo e autismo, de populismo e controlo". Contra aquilo que apelidam de "centralismo e falta de visão de futuro" e pugnando pela "competência, o rigor e a determinação dos responsáveis certos no lugar certo", os assinantes exigem um museu capaz de "seguir o caminho que permita uma maior ligação à comunidade científica, prestar um melhor serviço ao público, desenvolver um plano educativo e de divulgação mais consistente, ter flexibilidade e construir laços com parceiros mecenáticos e institucionais".
Crítica de dança: Ópera, de Tiago Guedes e Maria Duarte
Manifesto operático
Ópera
De Tiago Guedes e Maria Duarte a partir de uma ideia original de Tiago Guedes
Negócio/ZDB, Lisboa
termina hoje (21h30)

No seu célebre manifesto Não ao espectáculo, de 1965, a coreógrafa norte-americana Yvonne Rainer opunha-se, entre outras coisas, “ao virtuosismo, às transformações e magias e faz-de-conta, (…) ao não envolvimento do intérprete ou do espectador (…) aos desejos do espectador, à excentricidade, ao movimento ou ao ser movido”. Esta noção de liberdade (ou este desejo de libertação) inscrevia-se já numa busca incessante pelo primado da criação: o permanente questionamento. De certo modo, mais do que uma preocupação pela forma, ou pelo formato, deveriam os artistas pugnar por um efectivo diálogo e conjugação entre diferentes noções de representação num mesmo espaço e ao mesmo tempo. Ora, enfrentamos hoje, mais de quarenta anos depois, uma inversão desta ideia ao concebermos como mais relevante a categoria na qual o espectáculo se deve inserir do que o que este contém. Deixámos de lado a noção de arte total para nos preocuparmos com categorizações por vezes pífias que surgem, muitas vezes, de equívocos dos próprios criadores.
Ópera, a mais recente criação de Tiago Guedes, faz lembrar esse manifesto por parecer propor uma outra forma de pensar “o espectáculo”, partindo de uma apropriação de algumas das mais constantes preocupações do seu percurso, aqui sujeitas a um diálogo com Dido & Eneias, de Henry Purcell. Nomeadamente a relação com o tempo, o corpo como reagente a um conjunto de manifestações quotidianas, a memória da dança e a sua reformulação e a construção de quadros-vivos, com evidentes relações com as artes plásticas, numa paisagem árida como a cena vazia.
Ao chamar “ópera” a algo que, manifestamente, surge a partir de, primeiro, uma re-organização de materiais e formulações, assente em pressupostos coreográficos e, segundo, de um manifesto sobre a disciplina “dança” a partir do prolongamento, ampliação e perversão daquilo que, no conjunto do seu trabalho pode ser considerado como solipsista, cede o centro desse questionamento a algo maior, e mais relevante, do que os efeitos a que habitualmente recorre. O rigor e a formalidade dos movimentos tendiam, por vezes, para um jogo de resistência(s) entre as fontes de trabalho e os efeitos que cada uma delas exerce nas outras, obrigando a uma cumplicidade do espectador treinado nem sempre vantajosa.
À semelhança do efeito provocado por Pina Bausch em Café Müller, onde soa a mais célebre ária desta ópera Remember Me (que Guedes substitui por uma versão em russo ainda mais trágica), também aqui se trata de uma “confissão extrema de um estado de crise criativa” (Leonetta Bentivoglio, O Teatro de Pina Bausch, 1994), onde o coreógrafo expõe, como ainda não tinha feito, a irresolubilidade da problemática da representação aplicada ao diálogo entre música e dança. Factor tanto mais relevante quanto, noutras ocasiões, o uso de música servia para sublinhar a sua assinatura (Materiais Diversos, 2003), denunciar a dissolução e impotência dos corpos (Trio, 2005) ou caricaturar o que esses corpos faziam (Matrioska, 2007).
A relação entre esta “falsa” ópera, gerada com humor nos sucessivos jogos de aliteração e “tributo” à tradição coreográfica, e o uso da gestualidade através de um playback exigente e expressivamente contido, executado juntamente com a actriz Maria Duarte, remete-nos para um plano mais ambicioso que o coreógrafo usa para resgatar dos códigos estritos da disciplina a noção de espectáculo “livre” postulada por Rainer. A banda sonora é agora um recurso performático desmontável onde o campo referencial se perde (ou se deixa perder). Razão pela qual vamos abandonando a possibilidade de seguir a narrativa para nos concentrarmos na forma como os intérpretes criam uma mecânica própria, que resulta de uma codificação corporal, estilizada e ritual, dos episódios e das personagens narradas na ópera de Purcell. Estabelece-se um exercício de delimitação territorial que volta a impor uma reformulação dos conceitos disciplinares e da tradução contemporânea de expressões artísticas multíplices.
Texto publicado no Ípsilon de 03 de Agosto de 2007. fotografia de ensaio de José Luís Neves.
quarta-feira, agosto 01, 2007
Dalila Rodrigues demitida por discordância de política do governo (actualizado)

Vergonha. Muita vergonha. Ou falta dela no MC que ainda ontem, na inauguração da nova exposição, abraçava, beijava e elogiava Dalila Rodrigues.
Foi convocada para hoje, quinta-feira, às 19h00, uma vigília de solidariedade para com a ex-directora, à porta do MNAA
terça-feira, julho 31, 2007
segunda-feira, julho 30, 2007
Sítio das Artes: balanço
Hoje no Público, reportagem de Isabel Coutinho e comentário meu à apresentação dos resultados finais da residência artística Sítio das Artes.Excertos:
Mais de 700 pessoas passaram pelo Sítio das Artes no sábado, dia em que nesta residência artística tudo terminou ou tudo começou; depende da perspectiva. Se os artistas residentes conseguiram aproveitar o desafio e a oportunidade que lhes foi dada, só o tempo o dirá. Como em tudo, haverá certamente quem vá ficar pelo caminho.
Na foto: MB - Family Project, de Miguel Bonneville. Fotografia de Henrique Figueiredo.
sexta-feira, julho 27, 2007
Sítio das Artes abre portas amanhã
É já amanhã que se abrem as portas do Sítio das Artes para apresentação dos resultados das residências que vinte artistas fizeram nas instalações do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito da programação do fórum cultural O Estado do Mundo. Das 12h00 às 20h00 as obras de, entre outros, Miguel Bonneville, Joana Craveiro, Pedro Barateiro, Bárbara Assis Pacheco e João Paulo Serafim poderão ser visitadas pelo público interessado em descobrir como é que estes criadores, alguns em início de percurso, quiseram pensar o mundo que os rodeia. Performance, música, instalações, fotografia, pintura, teatro, dança que "explicitam os sentidos conceptuais, estéticos e técnicos privilegiados pelos artistas ao longo dos quase dois meses de residência". O programa detalhado, bem como as biografias dos participantes e tutores, pode ser consultado aqui. No blog d'O Estado do Mundo podem ser lidos diversos textos sobre os processos criativos dos artistas.





