sábado, abril 28, 2007

OBSCENA #4


Pina Bausch, Bob Wilson, Bill T. Jones, Romeo Castelluci, David Lynch, João Tabarra, Kurt Vonnegut, Luciana Fina, Mickael de Oliveira, Luísa Mesquita, Franz Anton Cramer, Helmut Ploebst, André Lepecki, Martin Nachbar...


A declaração de Diversidade Cultural da Unesco, o relatório sobre o Ensino Artístico em Portugal, o teatro que chega do Brasil, o desejo pelo corpo na pornografia e na dança...


Críticas, opinião, entrevistas, reportagem, ensaio...

OBSCENA #4 - brevemente


Secretário de Estado substitui direcção da CNB



Na passada terça-feira, 24 de Abril, uma semana antes do término da sua comissão de serviço e dois dias antes da publicação em Diário da República da lei orgânica da OPART que juntará a Companhia Nacional de Bailado (CNB) ao Teatro Nacional de São Carlos (TNSC), Ana Pereira Caldas, directora da CNB , foi informada pelo Secretário de Estado da Cultura (SEC), Mário Vieira de Carvalho, de que não lhe seria renovado o convite para o cargo que ocupava desde 2000.

Pereira Caldas, que se manifestara, no passado mês de Dezembro, e em reunião com o SEC, contrária à ideia de juntar a CNB com o TNSC, medida anunciada como parte do PRACE, o programa de reestruturação do governo, e comummente designada por OPART, precisamente por desconhecer o modelo de funcionamento dessa supra-estrutura, viu assim confirmada a intenção de se avançar para um modelo que levantou dúvidas a vários sectores.

Nesse encontro, sem a presença da Ministra da Cultura - que se limitou a confirmar, no dia seguinte, a decisão -, ou qualquer outra testemunha, sem mais adiantar, para além de não terem sido dadas outras explicações para lá da divergência de posições relativamente à OPART, o SEC também não deu a entender por quanto tempo mais seriam requisitados os serviços de Ana Pereira Caldas à frente da CNB, já que a lei a obriga a permanecer no cargo até à nomeação dos novos corpos dirigentes. No caso, e já de acordo com a estrutura da OPART, um director artístico, com funções não executivas, que representará a CNB junto da administração. Se, no TNSC, o SEC nomeou Carlos Vargas, sub-director de Paolo Pinamontti, como director-interino até à entrada de Christopher Dammann, prevista para 2008, na CNB, e juntamente com Ana Pereira Caldas, continua em funções, sem que tenha sido informado de decisão contrária à sua permanência, Nuno Pólvora, sub-director, em acumulação com o cargo de vogal da direcção do TNSC.

Ana Pereira Caldas informou ontem, numa reunião à hora de almoço, os trabalhadores da CNB da decisão do SEC, dia em que também se ficou a saber que Mehmet Balkan, director artístico da CNB desde 2004, foi dispensado, em encontro, com o SEC, ao fim da tarde. Tanto um como outro tinham já afirmado, junto de várias fontes, não terem vontade de permanecer em funções para além daquilo que os contratos obrigam. No caso de Ana Pereira Caldas porque todo o processo de reestruturação da CNB foi feito à margem, e sem conhecimento das casas.

Com a saída da directora da CNB, e conforme declarações publicadas no número passado da revista OBSCENA, Mark Deputter, programador do Teatro Camões, irá também abandonar o cargo que desde 2006 o liga ao teatro da dança. Para Deputter trata-se de “uma questão de lealdade e deontologia” para com a direcção que o contratou. Mas a sua decisão pode também ser lida como uma resposta à falta de diálogo com o SEC que continua sem dar garantias de concretização da programação após Julho deste ano. Mário Vieira de Carvalho justificou a decisão pela entrada em funções da OPART, remetendo assim a discussão e decisão orçamental para a nova direcção.

Apesar das, nas declarações de hoje ao jornal Público, o SEC garantir que a CNB irá manter a independência artística e financeira, bem como a utilização dos dois espaços que lhe são afectos, sede na Rua Victor Cordon, ao Chiado, e Teatro Camões, no Parque das Nações, sabe-se que o SEC tem a intenção de transferir para o edifício do Chiado o futuro Estúdio de Ópera, estrutura desejada e prevista na reformulação da orgânica do TNSC. Isso mesmo se supõe depois das visitas que o SEC fez às instalações da CNB, conforme contou Mark Deputter nessa entrevista à OBSCENA.

A decisão do SEC poderia ser fundamentada pelo facto do edifício pertencer ao TNSC, situação que permaneceu desde o tempo da primeira fusão das duas entidades, na década de 80. Mas desde a separação que a CNB tinha total controlo sobre o edifício, por decisão do proprietário, a Câmara Municipal de Lisboa. O que a levou a ter margem para ceder o espaço, por diversas vezes, a companhias independentes, como as de Olga Roriz e Rui Lopes Graça. Uma vez que essa era uma situação dependente de um acordo não-formal, a direcção da CNB e a vereação da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, assinaram ontem um protocolo de cedência efectiva do edifício, com aplicação imediata.

Ana Pereira Caldas vai agora solicitar ao SEC uma definição clara daquilo que a tutela entende por gestão corrente, uma vez que os vários actos administrativos – nomeadamente a assinatura de contratos e aquisição de serviços para as próximas peças –, ficam condicionados, não devendo, ou não podendo, comprometer a nova direcção. Sabe-se apenas, e apesar de não existirem ainda nomes, que os directores artísticos das duas casas não terão funções executivas e que terão que dialogar com gestores financeiros e culturais, justificados pela necessidade de “optimizar a prestação do serviço público”, esclareceu o SEC ao Público.

De notar ainda que o mecenas da CNB, a EDP, não foi informado desta decisão, e que o seu contributo para o orçamento da casa tem sido o garante de um equilíbrio financeiro, mesmo que precário.

foto: José Luís Neves

sexta-feira, abril 27, 2007

Dramaturgias europeias: o fim de uma era?

A notícia que se segue veio ontem publicada no jornal alemão Süddeutsche Zeitung:

A era do sangue e esperma acabou


"German theatre is a pigsty where the people spend their time puking, pissing and drooling. Or at least that's what last year's debate about 'blood and sperm' theatre would have had us believe," comments Christine Dössel, theatre critic and juror at this year's Theatertreffen in Berlin. "If you believe reports, our theatre is home to barbarous, berserk directors living out their perverse obsessions and bathing their actor-minions in blood, shit and sperm, and where defenceless critics have their notepads torn from their hands (more here). But even at the time this alarmism was nothing more than threadbare. And one look at the plays selected for this year's Theatertreffen, which starts on May 5, shows it's a thing of the past. What's all this talk of a 'theatre of disgust' (Ekeltheater)? 'Theatre of luxury' (Edeltheater) would be the better term for the unmistakable tendency to glamour, entertainment and elegance reflected in the ten most 'noteworthy' theatrical productions selected this year."


Será mesmo? Eis um excerto do ensaio que apresentei na passada segunda-feira, 23 de Abril, no âmbito do ciclo de conferências Pensar a Criação Contemporânea.


"Hoje, aquilo a que assistimos nos palcos reclama uma autonomia da realidade, que pode conduzir a representações viscerais da sociedade, em peças que provocam epidérmicas reacções de repúdio, como a textos que esventram o cânone dramático. Pelo meio, as pessoas tendem a dizer que não se reconhecem na decadência social e moral mostrada pela dramaturgia. Mas não será que, simplesmente, não a querem ver?

É nessa linha de conflito que têm seguido várias correntes dramatúrgicas de origem europeia, em particular, porque mais relevante e influente, a inglesa in yer face theatre (ou, o teatro atirado à tua cara, que em português traduziríamos por “teatro-murro-no-estômago”), –, mas também uma outra, no eixo Alemanha-Áustria-Polónia chamada, convenientemente, blood and sperm (sangue e esperma), de características semelhantes. Trabalhos que têm demonstrado um mundo negro, deprimido, sem salvação, ansioso pelo apocalipse ou a comportar-se como se estivéssemos já no interior desse apocalipse. Mas não estaremos mesmo?

Nomes como os dos autores e encenadores Mark Ravenhill, Sarah Kane, Martin Crimp, David Harrower, Conor McPherson, Mark O’Rowe ou Max Stanfford-Clark e companhias como a Plaines Plough e a Out of Joint vêm insistindo em dramatizar a miséria humana, o abuso sexual, o alcoolismo, a droga, o consumismo, a acção política mas também um desprezo enorme pela intervenção cívica, o uso do vernáculo e o retrato da violência física, a sexualidade explícita, os confrontos ideológicos, o falhanço do poderio masculino e, por consequência, a impotência e a falência do homem como referência moral, a vitimização permanente e a descrença absoluta. Chamam-lhe zeitgeist, ou “o espírito do tempo”. O que me leva a perguntar: que mundo estaremos nós a produzir para que o teatro nos devolva um reflexo tão negro? Mas não terá sido sempre assim, desde os gregos?

Uma crítica búlgara, Kalina Stefanova, acha que não; e é peremptória: “o que se encontra por detrás da Nova Dramaturgia Europeia é uma máquina de marketing que trabalha na perfeição (posta a funcionar precisamente por aqueles que de outro modo demonstraram desprezo pelo comercial!). A tendência elimina as últimas regras existentes de propriedade em palco, provocando desse modo um interesse despertado pelo sensacionalismo garantido. Por fim, é exactamente a demagogia política e estética que desimpede o caminho para decretar a tendência (quem estiver “contra” é “conservador e de direita”!)”.

Jorge Silva Melo, um encenador e dramaturgo baudeleriano, escreveu recentemente, num artigo no jornal Público, uma espécie de resposta. Referiu a inutilidade daquilo que se ensina à “mestrada crítica, militantemente iletrada”, fazendo crer que se trata de um problema de académicos e teóricos. Passará a solução, então, por uma reformulação dos clássicos? Ainda Silva Melo, citado num outro artigo: “para se chegar a um determinado estatuto, é preciso encenar Shakespeare”. Que é “como pôr uma gravata”. Um clássico é um clássico é um clássico. De facto. Funciona sempre, com maior ou menor aproximação à realidade. Usando Shakespeare como exemplo, e nas palavras de Maria Helena Serôdio, hoje “há um tipo de vida que, de repente, torna contemporâneas algumas coisas atrozes das peças de Shakespeare, que pareciam inverosímeis”. Ponto. Os valores, a honra, a violência, surgem-nos hoje como quase justificados pelo estado actual das coisas – e o teatro contemporâneo o que haveria de mostrar? O in yer face theatre é, afinal, a tragédia grega dos tempos modernos, é o teatro isabelino dos dias de hoje, é a angústia beckettiana do século XXI. Falta saber durante quanto tempo continuará esse teatro radical a ser representado…

O problema de Shakespeare ou dos textos gregos não é a sua validade e pertinência, mas uma impossibilidade prática: mais facilmente recusamos esses autores, porque nos exigem uma reflexão mais distante e abstracta, que abraçamos os contemporâneos. Mesmo se não lhes damos o benefício da dúvida. Nas peças do in yer face theatre, cuja qualidade é aliás bastante irregular, podemos achar que aquela representação do mundo parece caricatural; mas é-nos fácil aceitar que a sociedade em que vivemos, no essencial e no superficial, é assim. Já Shakespeare e os gregos pedem-nos que concebamos a vida enquanto percurso moralizador, coisa para a qual, convenhamos, não há tempo.

É possível definir o trabalho daqueles autores como parte de uma tendência no contexto cultural Europeu, especialmente depois de Hans Thies Lehmann ter chamado a todas estas movimentações “o teatro pós-dramático”, onde o drama habitual e “antigo” foi substituído por reformulações cénicas, que concebem um espectáculo onde coexistem dramaturgia, interpretação, encenação, as várias disciplinas artísticas, mas também, e sobretudo, uma projecção directa daquilo que são as referências dos espectadores – não necessariamente as dos autores. Nesse sentido, este tipo de teatro já não invoca uma moral generalizada, mas reclama acima de tudo um discurso pessoal. E, se se dirigem a cada um dos espectadores, chegando-lhes de diversas formas, não partem de certezas dos autores, mas de dúvidas que querem ser partilhadas."

Imagem: Shopping & Fucking, de Mark Ravenhill, encenação de Thomas Ostermeier

é (d)a Primavera



Pina Bausch, The Rite of Spring, 1975





Pina Bausch fala do seu percurso na próxima OBSCENA, em breve disponível.

quinta-feira, abril 26, 2007

Hoje no IndieLisboa: Tsai Ming-Liang e John Cameron Mitchell

I don’t want to sleep alone
de Tsai Ming-Liang
Forum Lisboa, 19h00



"Tsai Ming-liang, um dos mais conceituados realizadores de Taiwan, filmou este que é o seu último filme na Malásia, país onde estão as suas origens. Rodado em diversos locais de Kuala Lumpur, a história centra-se nas divisões étnicas que existem naquela sociedade. A lembrar um pouco a história do “bom samaritano”, a personagem principal é um emigrante do Bangladesh, que vive miseravelmente mas mesmo assim compadece-se de um chinês que foi espancado e abandonado no meio da rua, e cuida dele. Quando este está praticamente recuperado conhece uma empregada de mesa, e a sua relação com o homem que cuidou dele vai ser posta à prova... Uma história sombria e carregada de desejos perversos que, apesar da sua quase dantesca abordagem, tem como base e fio condutor a emigração e a segregação a que os imigrantes estão sujeitos."


Shortbus
de John Cameron Mitchell
São Jorge, sala 1, 21h45



"SHORTBUS dá-nos a conhecer a vida de várias personagens com algo em comum: uma vida emocional e sexual insatisfatória. Uma viagem, ao mesmo tempo trágica e cómica, pelos meandros de um bar especial. Uma terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo, uma dominadora que não consegue manter relacionamentos, um casal gay que tenta decidir se deve ou não manter uma relação mais liberal, e as pessoas que entram e saem nas suas vidas. John Cameron Mitchell junta-os a todos numa festa semanal chamada Shortbus, uma louca mistura de arte, música, política e de diversos desejos e fantasias sexuais. SHORTBUS acontece numa Nova Iorque pós 11 de Setembro, onde os ritmos se aceleram a cada segundo que passa. Um filme que aborda, com uma estonteante frontalidade, as novas formas de conciliar o racional com os prazeres da carne e as necessidades imperativas do coração. Uma interessante e franca abordagem à psique humana das novas gerações, no contexto das grandes cidades."

quarta-feira, abril 25, 2007

Crítica de teatro: Variação sobre a Última carta de Krapp

Variação sobre a Última carta de Krapp
de Mónica Calle
Casa Conveniente, Lisboa
até 19 de Maio


Silêncio

Primeiro ela apaga as luzes, deixando apenas uma, suspensa, onde se expõe. Depois olha para lado nenhum, silenciosa. Parece querer ir falar mas não lhe sai som algum. Ou apenas o ar. A seguir vai à procura de qualquer coisa. Há bananas plantadas nas vigas do tecto. Mas da boca dela não se ouve qualquer som. Da rua sim, da rua ouvem-se todos os sons. E lá de baixo, da cave também. Angustiante início este, o de Krapp.

Krapp é Mónica Calle, que assim regressa, finalmente, à casa que é sua, a Conveniente, no Cais do Sodré. Variação sobre a Última carta de Krapp marca o regresso a um território indefinido que é aquele, arriscado, onde Calle gosta de estar: a verdade do acto teatral. Krapp devia ser um homem; devia ser um homem velho; devia ser um homem velho e louco; devia ser um homem velho, louco e angustiado. Calle faz mais. Dá ao Krapp, de Beckett, a distância necessária para o tornar paradigma de todas as crises. Como a dela, afastada da encenação desde Julietas – cartas a um amor fragmentário, projecto de decomposição dramatúrgica. Como este, mas agora a solo, como sempre esteve, perto do sublime. Vemo-la sozinha, em frente a nós, despojada e religiosamente pronta para a cruz, tal como antes em A Virgem Doida (1992) e Rua de Sentido Único (2001). Há qualquer coisa no corpo, na voz, no olhar e na presença de Calle que torna difícil vê-la. Aquela entrega fere. Aquele olhar magoa. Aquela voz incomoda. Pode ser do local, antro maldito, zona de perdição. Pode ser que seja o Cais do Sodré a marcar-lhe o discurso, descrente e cru. Pode ser. Mas não é só. Se fosse só o lugar há muito que havia nisto uma fórmula. Foi para recusar a fórmula que ela parou, dois anos.

E, depois, fala. Krapp e Calle. Mas que diz ela? Bobine cinco? Debaixo do chão de tijolos há um alçapão, dentro do alçapão há caixas, nas caixas bobines, nas bobines nada. Devia estar lá uma voz, a dela, a de Krapp, a contar-lhe como havia sido. A fazê-la lembrar o que já aconteceu. A contar-nos porque é que ela chegou àquele ponto: mas das bobines não sai nada. Nada. É lá de fora que vêm os sons todos. Música, gritos, buzinas, preços de cerveja e sexo. E ela ali, à procura das palavras certas que lhe deveriam explicar como chegou ao estado a que chegou.

Esta é, como se percebeu, uma peça feita de silêncios. E sendo a partir de uma peça de palavras, que procuram restituir a memória, Calle radicaliza o gesto. Mais do que se procurar (ou de procurar Krapp) nas memórias, busca-o naquele espaço anacronicamente vivo, escuro e rude. Como se só ali, naquele inferno silencioso, fosse possível encontrar as razões para tal descontrolo. Sujeita o corpo ao espaço, a dramaturgia ao momento, a acção à espera. Torna, à nossa frente e sem rede, viva a vida de Krapp, forçosamente silenciosa, porque já tudo foi dito. Não se espere da peça a ordem, a regra, a lógica. Busque-se antes um percurso interior, de memória e reflexão. Krapp, de Beckett, ali, pobre e miserável clown, enfrentando o silêncio, o vazio, o desaparecimento de si, no nada que sai da bobine. Krapp, Calle, nós. Será que alguém podia gritar?

terça-feira, abril 24, 2007

Peeping me em Marselha

A performance-instalação peeping me, de Paulo Guerreiro, que O Melhor Anjo apresentou em estreia nacional no âmbito do seu 3º aniversário, no passado mês de Setembro, estreia esta semana em Marselha, numa versão revista e ampliada, no espaço La Compagnie. O jornal La Marseillaise já viu e criticou aqui.

Um excerto do texto de Denis Bonneville: "Um espelho de Alice e uma frustração permanente vão reinverter os papéis, até à passagem para uma outra dimensão, onde as relações voyeurismo/exibicionismo e exposto/escondido vão novamente inverter-se, numa mise-en-abîme cíclica que não é forçosamente aquela na qual cremos. Lúdico e sexy (sobretudo no seu epílogo epicuriano, com o regresso aos vermelhos), a proposta sublinha todo um fluxo de sentimentos contrastantes, entre sensualidades e perversões, que colocam à prova todos os sentidos – ver, tocar, olhar, até ao odor e ao gosto – amputando-os um a um, e fazendo apelo a uma inocência que não julgávamos possível perder-se no fluxo artístico-comercial-mediático dos porno-soft e porno-chiq… Uma inocência, e mesmo uma virgindade, já que não poderemos viver peeping me uma segunda vez tendo o mesmo olhar sobre a ‘coisa’”.

Hoje no IndieLisboa: The Pervert's guide to cinema


Cinema Londres, sala 1, 15h45


O que pode a psicanálise dizer-nos sobre o cinema? Esta é a pergunta a que THE PERVERT´S GUIDE TO CINEMA se propõe responder. O filme conduz o espectador através de uma estimulante viagem por alguns dos maiores filmes de sempre. O guia e apresentador é Slavoj Zizek, o carismático filósofo e psicanalista esloveno. Na sua apaixonada abordagem ao pensamento, vasculha a linguagem escondida do cinema, revelando o que os filmes podem dizer-nos sobre nós próprios. Seja destrinçando os enigmáticos filmes de David Lynch, ou deitando por terra tudo o que se pensava saber sobre Hitchcock. O filme estrutura-se a partir do próprio mundo dos filmes que discute; filmado em ambientes originais ou em réplicas dos cenários, cria-se a ilusão que Zizek fala a partir do interior dos próprios filmes. “The Birds” e “Psycho”, de Hitchcock são abordados por Zizek, considerando que aquele realizador é, provavelmente, o mais freudiano de todos. Prestem atenção à comparação que Zizek faz entre os três andares da assustadora mansão de Norman Bates (“Psycho”) e o conceito freudiano de Id, Ego e Superego. O psicanalista esloveno expõe os seus argumentos de forma tão natural e convincente e ao mesmo tempo tão rápida, que a nossa mente começa a girar vertiginosamente. Uma viagem imperdível.


Eis dois excertos do documentário encontrados no You Tube:




segunda-feira, abril 23, 2007

Pensar a Criação Contemporânea: Texto


Pensar a criação contemporânea
ciclo de conferências por Tiago Bartolomeu Costa
com Pedro Penim e Tânia Carvalho


Que lugar para o texto num espectáculo? Que uso se dá, hoje, ao texto e à palavra? E de que modo estão as dramaturgias contemporâneas a (re)tratar a sociedade? Num percurso feito de nomes e textos, mas também, de recusas e novas abordagens, falar-se-á da importância da dramaturgia, da morte do autor, dos desequilíbrios na hierarquia cénica e das relações entre teatro, dança e texto.

sábado, abril 21, 2007

Hoje no IndieLisboa: V.O

V. O. de William E. Jones, Cinema São Jorge, 18h45




V.O. combina imagens de filmes pornográficos homossexuais produzidos antes de 1985 com os diálogos de grandes clássicos da história do cinema, tais como "La Chienne" de Jean Renoir, "Los Olvidados" de Luis Buñuel, "Society of Spectacle" de Guy Debord e "Amor de Perdição” de Manoel de Oliveira. As colisões resultantes – por vezes cómicas, normalmente melancólicas – prestam tributo a uma época passada, não apenas da vida "gay", mas também da cinefilia.

sexta-feira, abril 20, 2007

Hoje no IndieLisboa: Destricted







Eles são sete, tantos quantas as curta-metragens que constroem Destricted, o filme. "O resultado é uma colecção de argumentos estimulantes e provocadores, livres de censura, com humor e apelo sexual", assinados por Marina Abramovic, Gaspar Noé, Matthew Barney, Larry Clark, Sam Taylor-Wood, Marco Brambilla e Richard Prince. Hoje, às 22h15, no Fórum Lisboa, no âmbito do IndieLisboa.

quarta-feira, abril 18, 2007

Os blogs de...

... José Mário Silva, Francisco Frazão, Luís Miguel Oliveira e Pedro Vieira já deviam ter sido adicionados há muito na lista da direita. Fica o lembrete to the self.

Castelluci apresenta-se na Bélgica

O mais recente espectáculo do italiano Romeo Castelluci, Hey Girl!, é apresentado no deSingel, em Antuérpia, Bélgica, de hoje até dia 21 de Abril. A análise que fiz ao espectáculo, desenvolvendo a crítica publicada neste blog aquando da estreia em Paris no passado mês de Novembro, pode ser lida aqui, em flamengo, na edição electrónica da revista Rekto:Verso. A versão portuguesa deste texto será publicada no próximo número da revista OBSCENA, a sair no fim deste mês.

Workshop de Teatro de Sombras em Lisboa


Richard Bradshaw, mestre na arte de fazer teatro de sombras, dará um workshop em Maio organizado pela Tarumba, a estrutura responsável pelo Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas. “Richard Bradshaw utiliza as sombras e o seu grande génio para enamorar o público com as suas imagens. As suas marionetas são criaturas simples e delicadas, capazes de múltiplas transformações que ajudam a criar um mundo cheio de ilusões num pequeno ecrã. Os seus espectáculos a solo com mais de uma centena de marionetas, demonstram todas as suas técnicas especiais.” Bradshaw era considerado por Jim Henson, o criador dos Muppets, um mestre, dada “originalidade de alto nível, de tal forma, que lhe dedicou um dos programas da série On Puppetry World dedicada à arte mundial das marionetas” e apresentado pelo não menos famoso Cocas. A inscrição no workshop pode ser feita através do telefone (212 427 621 91 428 8136) ou e-mail nfo@tarumba.org até 2 de Maio.

Brevemente (II)


Brevemente (I)

domingo, abril 15, 2007

Pensar a Criação Contemporânea: Espaço


Pensar a Criação Contemporânea
ciclo de conferências por Tiago Bartolomeu Costa
09, 16, 23 e 30 de Abril 07
Pequeno Auditório da Culturgest, 18h30
Entrada Livre (mediante os lugares disponíveis)

Amanhã, 16 de Abril: Espaço
com a presença da coreógrafa e programadora Madalena Vitorino e a actriz e encenadora Mónica Calle


A inscrição de um espaço e de um tempo, físico e social, próprios colocam desafios particulares a espectáculos que radicalizam o modo como os olhamos. As noções de pertença e identificação modificam-se quando assistimos a um espectáculo que não decorra numa sala convencional. Por escolha ou inevitabilidade, estarão esses espectáculos limitados a discursos sobre o espaço? A partir de exemplos que podem indicar mudanças na relação com o espaço cénico, apontarei linhas para um discurso sobre a influência do lugar de representação. Quando o espaço físico escapa ao nosso controlo em que devemos acreditar? E até que ponto podemos, realmente, modificar um espectáculo?

sexta-feira, abril 13, 2007

A integral do cinema de Guy Debord na Culturgest

Começa hoje na Culturgest o ciclo Com e Contra o Cinema, que apresenta a integral da filmografia do filósofo Guy Debord, comissariada por Ricardo Matos Cabo. A programação pode ser consultada aqui.

Um excerto do ensaio O cinema da não-separação, de Susana Nascimento Duarte, videasta e docente da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, publicado no último número da revista OBSCENA.

"O sentido do cinema de Guy Debord é inseparável do seu pensamento e, ao lado da escrita, constitui-se como lugar privilegiado de visibilidade da sua teoria, actualizando-a, por outros meios que não a palavra. A zona de reflexão que determina toda a obra de Debord, e em função da qual é possível auscultar toda a dimensão de intervenção política do seu pensamento e da sua respectiva materialização cinematográfica, é a sua crítica da sociedade do espectáculo, ou seja, do capitalismo acabado como afastamento radical da vida. Esta crítica é, por sua vez, indissociável de uma mobilização total da própria vida do autor na direcção do confronto e da luta contra o seu tempo. Contudo, tal luta é levada a cabo a partir de dentro e não feita à margem da linguagem do espectáculo. De facto, para Debord, na desordem do presente, estariam simultaneamente contidas quer a destruição da vida perpetuada pelo espectáculo, quer a possibilidade da aparição concreta do seu reverso, identificada com o projecto situacionista. Tratar-se-ia de, no mesmo lugar a partir do qual “a sociedade do espectáculo e o capitalismo organizam concreta e deliberadamente os meios e os acontecimentos para diminuir a potência de vida”, e trabalhando sobre os mesmo elementos, libertar dele um projecto de sinal oposto, capaz de inverter o sentido da destruição, deslocando-o da vida para a desagregação da própria sociedade do espectáculo".

continua aqui.

quinta-feira, abril 12, 2007

Audição para novo projecto coreográfico de Tiago Guedes


O coreógrafo Tiago Guedes abriu audições para o seu novo projecto coreográfico Tudo tem que mudar, com data de estreia prevista para Fevereiro de 2008, em Armentiéres, França. As audições decorrerão dias 26 e 27 de Maio, em Lisboa, no espaço da REAL, sendo a data limite de inscrição o dia 11 de Maio. O criador procura dois intérpretes que devem levar um instrumento de música, não sendo, no entanto, necessário um conhecimento musical específico.

A peça, cujos ensaios decorrerão entre 05 de Novembro 07 e 31 Janeiro 08, em Lisboa, Montemor-o-Velho, Bruxelas e Armentiéres, tem estreia marcada para 01 Fevereiro em França, estando também marcada a sua apresentação, na Culturgest, em Maio, no âmbito do Alkantara Festival.

Para mais informações: Dina Lopes (Produção) - 21 390 92 56 ou email: prod.materiaisdiversos@gmail.com

quarta-feira, abril 11, 2007

Madalena Vitorino estreia nova peça em Aveiro


A coreógrafa Madalena Vitorino, que recentemente apresentou Caruma, na Culturgest, e até 15 de Abril tem em cena, na sede do Bando, em Vale de Barris, Palmela, a peça infantil A Linha da Viagem, apresenta no sábado, 14, em Aveiro, a peça Lembranças.

Na Praça Marquês de Pombal, 10 carros estacionados receberão dois espectadores aos quais será proporcionada "uma curta História, que usando as ferramentas do humor, do amor, do terror e da acção".

Este espectáculo tem a lotação máxima de 20 pessoas por sessão, sendo as sessões às 16:00, 17:30, 21:30 e 23:00. Os bilhetes tem o custo de 10€, sujeito a descontos. Depois de adquirido o bilhete, nas bilheteiras do Teatro Aveirense, o público é encaminhado à Praça Marquês de Pombal, onde o LEMBRANÇAS acontecerá.

quarta-feira, abril 04, 2007

Pensar a Criação Contemporânea - ciclo de conferências na Culturgest


Pensar a Criação Contemporânea
por Tiago Bartolomeu Costa
Conferências, 09, 16, 23 e 30 de Abril
Entrada Livre (mediante os lugares disponíveis)

9 de Abril
Corpo
com Paula Sá Nogueira e Tiago Guedes

Que uso dar ao corpo e como o transformar apenas num elemento dentro de uma hierarquia? Leituras possíveis para uma dramaturgia corporal onde a noção de personagem está presente.


[por razões óbvias, o blog faz uma pausa até dia 10 de Abril. Apareçam na Culturgest.]

As palavras de Bausch com Tejo ao fundo

Ontem, no Teatro Camões, cerca de centena e meia de pessoas escutaram as palavras da coreógrafa Pina Bausch, numa conversa conduzida por Mónica Guerreiro, editora-associada da OBSCENA. A integral das palavras de Bausch poderá ser lida na OBSCENA #4, no fim de Abril. Para já, os registos do Diário de Notícias, Jornal de Notícias e Correio da Manhã.
Foto: Paulo Spranger (DN)

terça-feira, abril 03, 2007

Hoje, às 17h00, no Teatro Camões, a jornalista, crítica e editora associada da revista OBSCENA, Mónica Guerreiro, conversa com Pina Bausch, coreógrafa. A não perder.

segunda-feira, abril 02, 2007

OBSCENA #3 já disponível

A OBSCENA #3 já está disponível.

O destaque vai para o dossier especial que celebra os 30 anos da Companhia Nacional de Bailado. Olhámos para o passado, num texto de Elisabete França que dá conta do percurso da companhia, mas também através das fotografias de espectáculos marcantes, do clássico ao contemporâneo. Mas porque um aniversário serve também para reflectir sobre o futuro debruçamo-nos sobre o OPART, que juntará a CNB com o Teatro Nacional São Carlos, fazendo o debate que não aconteceu. Falámos com Ana Pereira Caldas, directora da CNB, Mark Deputter, programador do Teatro Camões, a Comissão de Trabalhadores da CNB, a coreógrafa Olga Roriz e os ex-directores Jorge Salavisa e Luísa Taveira. Recolhemos ainda as opiniões dos críticos Eduardo Pitta e Henrique Silveira, bem como do ex-vogal do TNSC, João Gonçalves.

Neste 3º número da OBSCENA homenageamos ainda o encenador João Mota pelos seus 50 anos de carreira, num texto de Eugénia Vasques, e o primeiro Prémio Thalia, atribuído no passado mês de Outubro pela Associação Internacional de Críticos de Teatro ao influente teatrólogo Eric Bentley. Apresentamos-lhe uma entrevista feita pelo Vice-Presidente da AICT, o sul-coreano Yun-Cheol Kim, um perfil emocionado do canadiano Don Rubin, seu discípulo, e uma bibliografia fundamental para conhecer a obra desta figura maior do teatro contemporâneo.

Porque o mundo é vasto, percorremos a programação do evento que comemora os 50 anos da Fundação Calouste Gulbenkian, O Estado do Mundo, com entrevistas a António Pinto Ribeiro, programador-geral, e Miguel Honrado, consultor. Tempo ainda para lhe sugerirmos um percurso pela programação e saber a opinião de Isabel Capeloa Gil, directora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica.

O mundo é também aquele que o cinema nos traz, em mais uma edição do IndieLisboa, e, muito em particular, aquele que se quer pensado. Razão pela qual a aposta do mês de Abril da OBSCENA vai para o ciclo Com e Contra o Cinema, a integral dos filmes de Guy Debord, comissariada por Ricardo Matos Cabos e que se apresenta a 13 e 14 na Culturgest, Lisboa. E ainda mais mundo, desta vez, o da moda, numa viagem pelos bastidores da 28ª Moda Lisboa.

Mas a OBSCENA tem mais: críticas, notícias, opinião, reportagem, e uma carta branca ao cenógrafo e artista plástico António Lagarto. E a terminar, um ensaio sobre o corpo do crítico, assinado pela sul-coreana Bang-Ock Kim. E se, afinal, houver a possibilidade de o crítico poder usar o seu corpo para pensar os espectáculos?

Em Abril, mês em que se celebra o Dia Mundial da Dança, a OBSCENA expande-se para várias frentes. Siga-nos.


quarta-feira, março 28, 2007

Uma conversa com Pina Bausch - anúncio


Três desejos para o Dia Mundial do Teatro

Gostava de reiterar as fundamentais palavras do autor da mensagem oficial do Dia Mundial do Teatro, o Sultão Bin Mohammed Al Qasimi: “Nunca antes houve um tempo como o nosso, em que nos cabe a todos denunciar as guerras fúteis e as diferenças doutrinárias que, tantas vezes, erguem as suas cabeças de hidra, imperturbáveis perante a consciência plena de responsabilidade”.

Também eu gostava de falar sobre responsabilidade: de quem faz, de quem pensa, de quem decide. Uma responsabilidade que assumisse um contributo útil e cooperante, juntando vozes concordantes e dissonantes, sem receio de se verem ou sentirem ultrapassados. Sem o desejo furioso de impor projectos pessoais a estratégias globais. Impressiona-me que num contexto tão frágil se opte pela hipocrisia e a falsidade, com o mero intuito de defender essas estratégias, em vez de se abrir o diálogo e a acção a todos.

Porque continuamos a recusar um teatro que seja espelho real da sociedade, apostamos em metáforas pífias e inconsequências justificadas pelo ego e a ausência de memória.

Somos todos culpados pelo incumprimento das leis que nos regem, quando as há. E quando não existem, somos também por isso culpados. Somos todos culpados pela subalternização da arte e a ideia de mero entretenimento ao defendermos coutadas em vez de diversidade. Somos culpados, todos, pela discriminação sexual, ao fomentarmos peças homofóbicas disfarçadas de subversão e humor. Culpados pelo racismo e xenofobia, ao não abrirmos as portas à dramaturgia e às companhias que sobre esses temas trabalham. Culpados pelas diferenças sociais, ao nos recusarmos a ver, fazer e pensar uma outra ideia de intervenção cívica.

E seremos eternamente culpados se, conscientes disto tudo, continuarmos a celebrar, deitar foguetes e brindar, esquecendo tudo pouco depois. Muito por culpa nossa, a sociedade que temos é a sociedade que merecemos. E o teatro merece melhor.

texto lido ontem no São Luiz-Teatro Municipal, em Lisboa, no âmbito da iniciativa Três Desejos para o Dia Mundial do Teatro

terça-feira, março 27, 2007

Hoje é Dia Mundial do Teatro



Em 1961 o Instituto Internacional do Teatro (IIT), associado à UNESCO, criava o Dia Mundial do Teatro, marcado a 27 de Março para celebrar a inauguração do Théâtre des Nations, em Paris. Diz o IIT que é “uma ocasião para que os artistas partilhem com o seu público uma certa visão da arte e o modo como essa arte pode contribuir para a compreensão e a paz entre os povos”.

O Dia Mundial do Teatro comemora-se hoje por todo o mundo, indo ao encontro das palavras do autor da mensagem oficial, o Sultão Bin Mohammed Al Qasimi, membro do Supremo Conselho dos Emirados Árabes Unidos e Emir de Sharjah: "Teatro é vida. Nunca antes houve um tempo como o nosso, em que nos cabe a todos denunciar as guerras fúteis e as diferenças doutrinárias que, tantas vezes, erguem as suas cabeças de hidra, imperturbáveis perante a consciência plena de responsabilidade. Temos de pôr fim a cenas de violência e de matança aleatória. Constituindo ocorrências trivializadas no mundo de hoje, estas cenas são agravadas pelas diferenças abissais entre uma abundância perversa e a pobreza mais abjecta, por doenças como a SIDA que minam muitas partes do globo e derrotam os melhores esforços para as erradicar. Estes males andam acompanhados por outras formas de sofrimento, as resultantes da desertificação e seca, calamidades que vão sendo aumentadas pela ausência de diálogo genuíno que é, indubitavelmente, a maneira mais segura de fazer do nosso mundo um lugar melhor e mais feliz." (leia a mensagem oficial, em português, na OBSCENA #2).

Em Lisboa alguns teatros oferecem entradas gratuitas para os espectáculos e outros preparam festas. Dois exemplos: No São Luiz, entre as 17h e as 20h, cerca de 200 personalidades do mundo do teatro, da criação à técnica, da produção à crítica, da gestão à programação, revelam os seus três desejos para o teatro. No Maria Matos aproveita-se a data para celebrar o 1º aniversário do teatro, com DJs e After-show, a partir das 23h. A entrada para ambos os encontros é gratuita.

OBSCENA #3 disponível brevemente




Uma conversa com Mónica Calle, actriz e encenadora



Ao contrário do que sucedeu na dança no início dos anos 90, o surgimento da Nova Dança Portuguesa permitiu pensar-se na hipótese de um movimento que rompia com um modo de pensar e fazer a dança. Mas no caso do teatro esse rompimento deu-se muitos anos antes, com o surgimento dos grupos independentes que, hoje, são as companhias institucionais. Pelo meio ficaram nomes como o de Mónica Calle, o da Lúcia Sigalho, o Luís Castro, o colectivo OLHO, entre outros, provavelmente muito mais próximos de nomes que se consolidaram a partir de 2000, como o Teatro Praga, apenas para citar um deles. Por outro lado, ao mesmo tempo que estes surgiam, havia uma outra corrente, da qual fazem parte Álvaro Correia, Miguel Seabra (Teatro Meridional) ou Carlos J. Pessoa (Teatro da Garagem) que foram capazes de estabelecer ligações com esses grupos surgidos no fim dos anos 70. Quase que poderíamos dizer que existem duas camadas de gerações. Foi sustentada na dificuldade de definição geracional que começou esta conversa, naturalmente cúmplice, como só podem ser as conversas com Mónica Calle, actriz, encenadora e directora artística da Casa Conveniente.

«São as imagens que partem das palavras, não o contrário» - Mónica Calle

Começo com uma dúvida: onde te posicionar geracionalmente?

Em relação ao teatro não me identifico com a minha geração. Os meus modelos não são os modelos portugueses, e os anteriores a mim não servem de referência. Incomoda-me, por exemplo, que o Teatro da Cornucópia seja apontada como um modelo de grande qualidade de teatro de Portugal. É uma companhia estruturada com um determinado modelo, com um tipo de abordagem estética. Mas falo da Cornucópia apenas por isso, porque as minhas referências vêm do cinema, da literatura das artes plásticas. Os criadores que mais me marcaram foram a [coreógrafa] Pina Bausch e [o encenador e teórico] Tadeusz Kantor.

E estendes essa ideia de não-identificação aos que surgiram na mesma altura que tu, como aconteceu na dança?

Não é um movimento organizado, mas de um grupo de pessoas que na viragem da década de 80 para 90 procuraram outros espaços, até porque não tínhamos acessos a apoios, não existiam subsídios pontuais. Não sendo um movimento tão organizado como o da dança, que tinha um discurso, havia afinidades pessoais, por exemplo, com o João Garcia Miguel, a Lúcia Sigalho, o Teatro da Garagem, o Teatro Meridional. Entretanto, passaram quinze anos e a minha geração tem vindo a ser asfixiada. E isso percebe-se no trabalho da Lúcia, do João, que teve de inovar, o Meridional fez um interregno e agora voltou a encontrar uma energia, e também eu precisei de fazer uma paragem. Hoje sinto-me mais próxima de pessoas mais novas do que eu, nas questões que colocam, nas condições de trabalho.

Mas houve experiências colectivas que denunciavam uma procura de um caminho, e que inclusive levaram à criação da Casa Conveniente, a partir do espectáculo A Virgem Doida, em 1992.

Na Virgem Doida havia a preocupação de reunir uma série de colegas do Conservatório, de reforçar empatias. Mas éramos muito novos, ainda agarrados a modelos académicos. Eu tinha apenas um discurso sobre mim como performer. Recordo-me de fazer um espectáculo chamado Crónicas [CCB, 1997] de cujo elenco faziam parte do elenco a Lúcia Sigalho, a Maria Duarte, o Luís Castro e o José Meireles e foi um espectáculo duríssimo. Houve um choque de personalidades, havia necessidade de afirmação por todos, afirmação de diversas linguagens e discursos. Pessoas que ainda não tinham uma linguagem, e cujos discursos estavam em construção. E eu própria também não tinha um pensamento estruturado, sobre que actor é que queres, que actor é que queres? Mas as coisas foram evoluindo e a partir daí, senti-me com maturidade, senti que podia fazer um trabalho em continuidade e com o mesmo grupo de pessoas, construindo com eles uma linguagem.

Que se define como?

Eu nunca tive muitas certezas sobre que tipo de teatro queria fazer porque um espectáculo tem vários planos de leitura, vários tempos, e cada espectador agarra o que puder agarrar, entra nos planos que puder. As coisas foram acontecendo de forma lenta. Vais descobrindo, o discurso ainda é disperso, estás a formar-te como pessoa, a formar-te como criador, vais definindo opções. Tudo aquilo que foi acontecendo no meu trabalho não estava definido, o discurso, a relação com o espectador, as coisas foram sendo estruturadas. Em 2002 com O bar da meia noite, encontrei um grupo de pessoas novas que naquele momento me faziam sentir vontade de construir qualquer coisa, pesquisar uma linguagem. Em 2003 tentei transportar o que queria da Casa Conveniente para o CCB, em Um dia virá, mas houve alguma coisa com que não soube lidar. Na Culturgest, com Os paraísos do caminho vazio, que fiz no anfiteatro, na rua, houve uma recusa em entrar na sala. O bar da meia noite [2002, CCB] foi o terceiro espectáculo fora da Casa Conveniente e serviu para reflectir sobre essas saídas. Tem também a ver com essas experiências anteriores, entre 1995 e 1999. Por fim, as pessoas, que eram muito novas e tinham uma grande disponibilidade, obrigando-me a construir um discurso sobre o actor.

O actor mas não sobre a personagem?

Há questões que para mim são essenciais. Desde logo o actor e a questão da não representação ou da não construção da personagem. Quero eliminar isso. Mas também a implicação do uso da palavra, tal como o que implica usar-se texto. São as imagens que partem das palavras, e não o contrário. E assim criar um discurso estruturado sobre um estar em cena, como aconteceu com As três irmãs [2003]. Tem que se dar a possibilidade de o espectador escolher o que está a ver.

Essa é uma questão fundamental para a compreensão do teu teatro, que se relaciona intimamente, ou depende muitíssimo, do espaço onde decorre. Situação que Julietas [2005] também acusou, ao se apresentar na Culturgest, espaço menos pessoal que a Casa Conveniente. Há nesta busca de um espaço uma busca de um território que se prolonga na relação com o espectador.

Falo para todas as pessoas. Uma das razões para vir para o Cais do Sodré era tentar misturar pessoas. Não falo para ninguém em particular, falo para as pessoas. Nos espectáculos em que sou criadora e perfomer tenho domínio absoluto sobre a criação. Posso fazer experimentar coisas, descobrir questões novas, que na realidade só posso fazer comigo própria. Mas também me permite abrir isso aos outros. São pontos de chegada que se tornam pontos de partida. Por exemplo, quando tens um filho, tu deixas de ser o centro. O que talvez tenha acontecido é que tenha ficado mais forte. Nestes últimos dois anos pus tudo em causa. Tentei construir um determinado modelo de estrutura mas que não foi possível. Acho que Julietas foi um espectáculo que indicou essa falência.

Que se relaciona com a mudança de espaço
[em 2001 a Casa Conveniente mudou-se para uma antiga discoteca em frente ao bar Jamaica, também no Cais do Sodré]?

A Casa antiga colocava-me sempre a questão do lugar. O lugar do discurso artístico, o lugar da palavra, que lugar da arte, que lugar na vida. Que lugar é este que se procura? É uma coisa gradual. Precisa de um tempo de maturação. A relação entre o interior e o exterior. O tempo real e o tempo do teatro, a consciência da simultaneidade destes dois tempos são das coisas mais importantes. Eles coexistem sempre, em paralelo, o tempo real e o tempo fora do tempo, não os anulas. Mesmo hoje, quase seis anos depois, a nova Casa Conveniente ainda não é o meu espaço.

Mas sabes o que procuras?

Quero explorar um teatro pobre assente na palavra, na proximidade, na partilha. E sinto vontade de estar sozinha, de voltar a fazer um espectáculo sozinha. Preciso de o fazer. É muito bom trabalhar com outras pessoas mas também é muito importante fazer trabalhos sozinha. Tudo o que posso experimentar pode ser mais radical. Ir à inocência das minhas questões.



Com a colaboração na edição de Pedro Manuel. Fotografia de José Luís Neves. Mónica Calle é uma das convidadas da conferência Pensar a Criação Contemporânea dedicada ao Espaço, a decorrer na Culturgest no próximo dia 16 Abril 07. Está, neste momento, a preparar a estreia do espectáculo Krapp's last tapes.

segunda-feira, março 26, 2007

Càmara de Lisboa homenageia nomes do teatro de revista

Foram ontem entregues, no Teatro Maria Vitória, em Lisboa, quatro medalhas da Cidade a artistas do teatro de revista, antecipando outras que serão entregues ao longo desta semana, no âmbito do Dia Mundial do Teatro, que se celebra amanhã. A cerimónia decorreu no intervalo da revista Já viram isto?, em cena no Parque Mayer, e justificada pelo Presidente da Câmara, Carmona Rodrigues, como “uma homenagem às pessoas que deram tanto ao teatro, mas também à vida da cidade de Lisboa”.

O actor Octávio de Matos, o também actor e cantor Artur Garcia, a fadista Deolinda Rodrigues e o empresário, já falecido, Sérgio de Azevedo, receberam as medalhas das mãos do Presidente da Câmara, que se fez acompanhar pelo Vereador da Cultura, Amaral Lopes. Este agradeceu ainda aos actores o facto de “serem pessoas que nos aproximam do Olimpo”. E, a dois dias do Dia Mundial do Teatro, desejou que “todas as pessoas das finanças deste país fossem mais ao teatro, à música e à dança ver porque é que os actores nunca vão à falência”: E disse ainda que esperava poder continuar a “rir, a chorar e a sentir a falta do teatro”. Ideia que foi, aliás, aproveitada por Artur Garcia que disse não querer morrer “sem pisar o palco onde se estreou em 1965”, o Maria Vitória.

Foi uma noite de celebração que reuniu muitos amigos dos quatro homenageados mas também nomes do espectáculo. Entre eles Vítor Espadinha, Fernanda Baptista, Anita Guerreiro, António Calvário, Vera Mónica, Tito Lívio, Ruy de Carvalho, Norberto Barroca, Alina Vaz e Linda Silva.

Carmona Rodrigues disse que, em relação ao futuro do Parque Mayer, não queria fazer promessas, mas “sendo uma pessoa determinada”, trabalhava todos os dias para que brevemente tivessem todos novidades. A sala, praticamente cheia, aplaudiu ruidosamente. O Presidente da Câmara referiu ainda que “não há nenhum motor na sociedade que não esteja baseado numa cultura sólida e abrangente que não é só de uma elite mas de um povo inteiro”.

domingo, março 25, 2007

Olga Roriz: gestos que vão do corpo à alma



excerto do texto Momentos de Transição publicado no programa do espectáculo Programa da Primavera, da Companhia Nacional de Bailado, que se apresenta hoje em Lisboa, dia 29 em Aveirto e dia 31 em Leiria.






Treze Gestos de Um Corpo estreou no Ballet Gulbenkian em 1987 (na foto), dois anos depois de Olga Roriz conceber para a Companhia Nacional de Bailado As Troianas. O diálogo entre estas duas peças era evidente, tendo Roriz, na altura em franca ascensão, encontrado margem de trabalho que lhe permitia conceber, para companhias de repertório, uma linguagem assumidamente pessoal e íntima. Ligavam as peças a forte presença do corpo marcado por um movimento ousado e reivindicativo, uma plasticidade tanto ao nível da disposição cénica como da própria estruturação coreográfica, e ainda uma proximidade e identificação da autora com as potencialidades dos elencos.

Só em 2003 é que Roriz regressou à CNB para conceber Pedro e Inês e mais tarde, em 2005, para remontar Sete Silêncios de Salomé, de 1993. Vinte anos depois, regressa a Treze Gestos…, necessariamente repensando-a de acordo com uma filosofia de trabalho que a obriga a conceber uma remontagem numa massa de corpos que não são os da sua companhia, nem sempre são conscientes da sua força enquanto intérpretes e, sobretudo, vivem de uma permanente adaptação/adequação às linguagens de cada coreógrafo com quem trabalham. São, ao mesmo tempo, corpos experimentados mas corpos viciados. É esta dimensão de prática que importa resgatar numa peça que marcou uma época, tanto ao nível do percurso da coreógrafa como da própria dança em Portugal.

Em 1987 começávamos a ter acesso aos primeiros trabalhos dos coreógrafos da Nova Dança Portuguesa que tinham vivido em Nova Iorque e em França, chegando agora com novas ferramentas que imprimiriam outras dinâmicas ao modo de fazer, pensar e ver dança. Era o tempo da série de televisão Fame, que libertava a presença dos rapazes na dança de ridículos preconceitos e democratizava o movimento. O papel das instituições, e em particular o papel das companhias de repertório, necessitava de uma definição, de uma reformulação. Em boa hora a Gulbenkian encontrou em Olga Roriz a audácia necessária para recentrar o intérprete no interior da coreografia, indo ao encontro das perguntas fundamentais da teórica Laurence Louppe [1]: “como pode o corpo contemporâneo encontrar a sua liberdade? Mas sobretudo a possibilidade de inaugurar um espaço que lhe seja próprio?”.

Treze Gestos de um Corpo respondia àquilo que eram as novas abordagens coreográficas da dança independente introduzindo-as no contexto de uma companhia de repertório, nomeadamente essa da individualidade. Cada um dos 13 homens e das 13 mulheres, dos solistas aos estagiários, ocupavam um mesmo destaque na peça, entre os quais Gagik Ismalian, solista do Ballet Gulbenkian. A democratização que isto pressupõe não se explica sem ter em consideração as revoluções estéticas, burocráticas e filosóficas que aqui se conjugavam. Não era de todo evidente que a peça conseguisse impor uma linguagem própria, e para esse sucesso em muito concorreu a conjugação do trabalho de Roriz com os de Nuno Carinhas, nos figurinos e cenário, de Orlando Worm, no desenho de luz, e de António Emiliano, na composição sonora. Mais do que uma peça de um só nome, antes um trabalho de colectivo para outro colectivo. Um confronto de forças. De um lado os génios criativos de quem procurara um espaço artístico mais amplo e transversal. Do outro uma massa de corpos ansiosos por serem notados.

Aquilo que esta peça propõe é uma dissecação de um só corpo em vários outros através de solos pessoalíssimos, no qual são exploradas as valências de cada intérprete. Na estreia da peça foi fundamental que os elencos de dividissem em homens e mulheres, abrindo assim o leque de possibilidades de leitura. Eles numa linha bastante mais sensual, porque viril e tensa (e Olga Roriz sempre criou peças onde os homens eram mais sensíveis – mesmo mais humanos – que as mulheres), elas numa procura mais explosiva. O verso e o reverso de um mesmo gesto, explorado que era por corpos diferentes que buscavam a mesma unidade. Corpos que eram, eles mesmo, verso e reservo de si.

Há no modo como Roriz sequencia os vários solos uma qualquer melopeia que quase trabalha em sentido contrário à extraordinária e profundamente urbana banda sonora de António Emiliano. Na agressividade do gesto reside um poder imenso de sedução que também é de procura e de carência. Peça marcadamente humana, Treze Gestos de um Corpo constrói-se a partir das energias de cada bailarino que precisa saber encontrar a coerência da sua personalidade no confronto com o desenho proposto pela autora. Ela nitidamente projecta-se naqueles corpos. Veja-se, por exemplo, Jardim de Inverno, o solo que criou para si em 1989, onde o corpo solitário explode num território marcado. Mas, sobretudo repare-se na recorrência imagética de peças que vivem de solos, Sete Silêncios de Salomé e Pedro e Inês, dando aos intérpretes um confronto corporal exposto a todos, mas profundamente privado.

Ecos de um legado precioso que Roriz sempre soube explorar, nem sempre da melhor forma, mas suficientemente coerente para se compreender que o gesto e o corpo de que fala são um gesto e um corpo interiores, prisioneiros, necessitados de uma explosão. Que o tenha sabido fazer aqui e que, vinte anos depois, conserve uma força, uma identidade e um desígnio próprio, é a prova de que a história é feita de momentos que não só captam com a acuidade certa o ar do tempo como o perpetuam. Ajudando-nos assim a abrir janelas pelas quais respirar. Ou, no caso, portas por onde escapar.


[1] Poetique de la danse contemporaine, Contredanse, Bruxelas, 2004,
Fotografia de Eduardo Saraiva

sábado, março 24, 2007

Crítica de teatro: A Filha Rebelde

A Filha Rebelde
De Margarida Fonseca Santos
Encenação de Helena Pimenta
Teatro Nacional D. Maria II
Até 20 Maio 2007



De vergonha em vergonha, até à derrota fatal



Que vivemos num tempo de revisionismos históricos não é novidade. E que cada vez mais esses revisionismos são disfarçados como apropriações da História em nome de estratégias pessoais, menos ainda. Mas que o Teatro Nacional, por consequência a representação directa do Estado (e deste Estado), para mais democrático, possa branquear a História em nome da eficácia dramatúrgica é coisa que eu achava não ir assistir. Inocência minha. Bastou-me ir ao D. Maria II, particularmente em noite de estreia de A Filha Rebelde, para ver o Estado de direito, da esquerda reaccionária à direita bafienta, a aplaudir de pé o novo opus cénico da gestão Carlos Fragateiro-José Manuel Castanheira a fazer as vezes de recuperação da memória.

A peça é uma versão telenovelesca da cuidada investigação de Valdemar Cruz e José Pedro Castanheira, publicada no Expresso, do lateral e muito pouco relevante fait-divers que é Annie Silva Pais, bonequinha do regime e filha do director geral da PIDE, se ter tornado passionária da causa cubana. Não me incomoda particularmente que se faça da História o que bem se achar, desde que os factos que são factos não sejam escamoteados em nome de dramaturgia que a bem da verdade nem existe. Ora, depois da redução da vida quotidiana da aborrecida burguesiazinha de Lisboa, entre a maior ou menor vigilância de Salazar, ao grau zero do retrato social, e da transformação da revolução cubana num festim social sem mácula, chegar ao fim de hora e meia de peça e ter que assistir à regeneração de Silva Pais, porque afinal o escroque sofria de profunda mágoa pelo desvio da filha, é não só ridículo como vergonhoso numa democracia saída de uma ditadura que nem coragem teve para se assumir enquanto tal, como a nossa. Que desgraça esta a de termos que pagar por estes serões para trabalhadores de esquerda, como brilhantemente designou Elisabete França no Diário de Notícias de 21/03.

Se a intenção era entreter as hostes, que se abrissem os salões do Nacional para uma noite de música cubana. Uns mojitos servidos na esplanada do Nacional – agora que o bom tempo parece de regresso – eram bem mais úteis e certamente ajudariam a que muitos dissessem o que realmente pensam desta farsa em forma de peça de teatro. Não havia necessidade de se promover a dramaturgia nacional as inconsequências desta peça, alimentada a caricaturas de personagens perdidas em fragmentos de ideias e de cenas intervalas numa lógica muito própria e nada evidente que confunde mitos com verdades. Não há pathos, não há linhas fortes, não há uma frase que fique na cabeça, nem uma ideia, um ensinamento, uma ponta de interesse por se saber, ou mesmo justificar, a verdadeira história. Nada. Apenas o vazio na imensa corrente de ar que existe entre as várias portas desenhadas por José Manuel Castanheira, entretanto também ele, e por enquanto, designado cenógrafo oficial do regime.

Que num teatro que se quer Nacional se fale da história do país, não é nem uma conquista nem um feito maior do que a obrigação, até moral, de quem o dirige. Mas nem tudo serve de desculpa. E esta filha rebelde nem de desculpa serve. Falta-lhe, entre outras coisas também elas graves, um contexto. Como explicar às gerações mais novas que estão perigosamente a esquecer que já vivemos em ditadura e que houve uma polícia política que não dava apenas um sustos? Como explicar, ainda, o que representou Silva Pais? E que efeitos a revolução cubana teve na Europa? Como se vivia naquela altura em Portugal? Que alta roda era aquela de onde a rapariguinha saiu? Mas, sobretudo, alertar todos para os perigos de nos determos somente nos fait-divers esquecendo que a História foi outra coisa.

E não há fait-divers maior do que o perpetuar de uma ideia romântica de um Che Guevara que com o tempo se tornou o ídolo pop imortalizado na fotografia do Korda e estampado em tudo quanto é revolucionário acneico de festival de verão, fazendo esquecer que foi, sobretudo, participante activo na guerrilha que tomou de assalto Cuba e ainda hoje se perpetua enquanto ditadura. Estivesse ele vivo e o que nos garantia que não era tão ou pior ditador que o outro? Ou Cuba são só as praias de Varadero, os charutos feitos por mão escrava e os longos e patéticos discursos do moribundo Fidel? Ou o teatro, sobretudo o Nacional, serve só para se passarem umas horas a ver uns fantoches manietados em vez de actores a dizerem umas coisas que deviam ser diálogos de uma peça mas não passam de amontoados de palavras?

Eu escrevo isto e até parece que me esqueço que, já no Trindade, Carlos Fragateiro fizera da História gato-sapato, com os delírios juvenis de Freitas do Amaral (O Magnífico Reitor, 2000) e os remendos do nacional-cançonetismo feitos manifestação estudantil (O Navio dos Rebeldes, 2002). E agora que se anuncia o regresso de férias de Salazar, para mais escolhido em casting nacional ("um Salazar em cada esquina", não era o que se dizia?) não há quem ponha cobro a este arrivismo estético, cénico e dramatúrgico? A esta leveza e desorientada linha que faz do TNDMII o palco do branqueamento da história? Da promoção do mais básico argumento? Da total incapacidade em criar um acesso à memória que não passe por nivelamento rasteiro e indigno? Não há, neste Estado de direito, quem ainda acredite que o teatro não se limita a criar ficções, mas a interpretar realidades? E que a interpretação desta realidade, porque grosseira, primária, superficial, inadequada e ofensiva, é contrária a tudo aquilo que se defendeu e conquistou ao longo dos últimos trinta anos? Ou o hasta la victoria, só é siempre se acabar a tempo de ainda se apanhar o bar aberto?

sexta-feira, março 23, 2007

Críticos de música juntam-se em jantar de homenagem a Pinamonti



Um conjunto de críticos ou ex-críticos de música, entre os quais Cristina Fernandes (Público), Bernardo Mariano (Diário de Notícias), Jorge Calado (Expresso), Maria Augusta Gonçalves (Jornal de Letras) e Vanda de Sá (Antena 2), juntar-se-ão num jantar de homenagem a Paolo Pinamonti, o futuro ex-director do Teatro nacional S. Carlos, na próxima segunda-feira, em Lisboa. A estes nomes juntam-se os de Augusto M. Seabra (actualmente com uma coluna semanal no site da Culturgest), Alexandre Delgado (compositor) e Rui Vieira Nery (ex-Secretário de Estado da Cultura e sub-director do Departamento de Música da Fundação Calouste Gulbenkian), entre outros.

Na nota que fizeram circular justificam-se dizendo que "nunca os signatários se haviam reunido como o fizeram para prestar o seu reconhecimento a Paolo Pinamonti, no momento em que vêem interrompida a continuidade de uma direcção que, face a repetidos constrangimentos orçamentais, tinha manifestado um esforço e uma imaginação continuadas em tentar responder às missões de um teatro nacional de ópera e aos níveis artísticos desejáveis". E acrescentam que apesar das "opiniões diferenciadas sobre as propostas artísticas dessa direcção e suas realizações" que tiveram ao longo dos seis anos de direcção de Pinamonti à frente do S. Carlos, não entendem como "compreensíveis os termos expeditos com que a tutela dispensou quem tanto tinha prestigiado o São Carlos".

Acusam o Ministério da Cultura de praticar "um exercício de arbitrariedade política" que pode "interromper a continuidade de trabalhos artísticos para mais constatando que os responsáveis do Ministério da Cultura procederam ao contrário do disposto no programa do governo, no sentido da existência de 'direcções artísticas menos dependentes da lógica de nomeação governamental'".

Recorde-se, a este propósito que o Secretário de Estado da Cultura, Mário Vieira de Carvalho, afirmou em declarações ao Diário de Notícias (26/01) "o São Carlos não é para servir o projecto do director artístico. Este é que serve o projecto do São Carlos. E este é definido pelo Governo." A polémica da saída de Pinamonti do São Carlos deve-se à anunciada fusão com a Companhia Nacional de Bailado, situação contra a qual este se manifestou.

Este será o segundo jantar que reúne apoiantes de Pinamonti, depois de na semana passada um grupo de 20 nomes da crítica, política e cultura se terem juntado num jantar privado, também em Lisboa.

Escrevem os críticos que o jantar acontecerá no Hotel Vila Galé Ópera (Travessa do Conde da Ponte, junto ao edifício da Orquestra Metropolitana de Lisboa), pelas 20h30. As inscrições e confirmações poderão ser feitas através do mail: bravopinamonti@gmail.com , ou por sms para 969534172 até ao próximo sábado, às 20h00.

quinta-feira, março 22, 2007

aguasfurtadas 10. Agora também disponível em Lisboa.



A revista "aguasfurtadas" está à venda na livraria Da Mariquinhas, na Rua dos Cordoeiros, ao Largo de Santo Antoninho, em Lisboa.

Sábado, 24 de Março, às 16h30. Espaços JUP, Rua Miguel Bombarda, 187, Porto.

APRESENTAÇÃO DA ÁGUAS FURTADAS 10.

10 CONVIDADOS ESCOLHEM 10 OBRAS PUBLICADAS NOS 10 NÚMEROS DA REVISTA ÁGUAS FURTADAS.
Com a participação de Carlos Guedes, Daniel Pedrosa, Jorge Palinhos,Luís Trigo, Nelson d'Aires, Nelson Quinhones, Nuno F. Santos, Pedro Carreira de Jesus, Rui Dias, Rui Lage, Rui Penha, Samuel Silva, Sérgio Couto e Virgínia Pinho.

quarta-feira, março 21, 2007

Landscape, de John Romão, amanhã em Almada


22 Março 2007
duração: 20min.
sessões contínuas entre as 20h-23h.
entrada livre.



Land Escape, a primeira vídeo-instalação de John Romão, apresenta em forma de díptico um dia da vida de um rapaz e de uma rapariga, mas desde o início um elemento de estranheza parece atravessar todo o trabalho. Cada projecção corresponde a cada uma das personagens e o facto de serem sincronizadas e instaladas paralelamente sugerem-nos à partida um diálogo directo entre as mesmas. No entanto, apenas existem monólogos ou pensamentos que se vão intercalando durante os cerca de 20 minutos de vídeo e que acompanham as acções que vamos assistindo.


"A particularidade deste trabalho reside na forma como o artista explora a ideia de movimento e na forma subtil como o regista, de tal forma que as posições que os corpos das duas personagens adoptam parecem estáticas e quase escultóricas".
Sofia Nunes


concepção e direcção: JOHN ROMÃO câmara e fotografia: SÉRGIO BRÁS D' ALMEIDA montagem: JOHN ROMÃO e SÉRGIO BRÁS D' ALMEIDA actores: DIOGO BENTO e SARA CIPRIANO assistência: MARIANA VASCONCELOS apoio: CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA integrado na Quinzena da Juventude de Almada


Casa Municipal da Juventude de Cacilhas (Ponto de Encontro)
Rua Trindade Coelho 3, Cacilhas
Informações: 212748210
infos enviadas no press-release e da responsabilidade dos autores

Ajagato edita 7º número da revista Cena's


Já está disponível online, mas também nas livrarias, o nº 7 da revista Cena's editada pela Ajagato, de Vila Nova Santo André. O número traz uma entrevista a Teresa Ricou, directora do Chapitô e a famosa mulher-palhaço Tété, que diz, claramente: "Viver a liberdade é algo que se aprende".

Uma ideia que vai ao encontro dos objecttivos de publicação desta revista, acto de resistência de um projecto marginal e descentralizado. O percurso da Ajagato é, aliás, contado em amplo dossier com números, factos, contas e relatórios. Escreve-se no editorial: "Face, antes do mais, à “ditadura” do défice e da crise, que cerceia os apoios públicos indispensáveis a este tipo de projectos. Política que se quer erigir como fatalidade, como qualquer coisa de inevitável, mas também de “sensato”, de “lógico”, com que a querem tornar verdade inquestionável, imposta a criadores, agentes, práticas culturais e inculcada na opinião pública. Mas acto de resistência, também, face aos que, apoiando-a directamente ou não, a olham como potencial pólo desequilibrante das suas representações da realidade. Acto de resistência, ainda, face à disputa que se trava no domínio do cultural e que remete para a questão, velha de séculos, da alienação".

Este número inclui ainda um ensaio de minha autoria sobre o Teatro Praga, um texto de Carlos Fragateiro, director do Teatro Nacional D. Maria II, sobre a peça Viriato Rei, encenada por João Mota e apreentada no último Festival de Mérida, em Espanha, e um texto de Mário Costa sobre o projecto Viv'arte.

21 de Março, Dia Mundial da Poesia



tchekov anton rebocava o seu
pulmão pelos ares da crimeia
mais ou menos quando a engomadeira
de cesário passava os seus pulmões
pelo carvão do ferro


gorki vai visitá-lo palmilhá-lo e à cancela
observa-o no umbroso jardim chapéu na mão
aparando no côncavo um cambiante raio
do sol que pela folhagem trémula se infiltra


gorki retém-se vê o tostão de sol
cair no chapéu de um anton neto de servos
vê anton virar tac o chapéu e espreitar para dentro
como quem tirado o chapéu nele procurasse
a sua própria cabeça


tchekov brincava com o alheio sol
na pessoal solidão



Alexandre O'Neill, O chapéu de Tchekov


foto do espectáculo Les Histrions/ Elisabeth Carecchio

Les bloggeurs sont-ils des partenaires du spectacle vivant ?




A rede informal internacional Scénes 2.0, que reúne seis blogs de crítica de dança, 5 franceses (Clochettes, Images de danse, Tadorne, Un soir ou un autre, Danse à Montpellier), 1 belga (Da...nce) e 1 português (O Melhor Anjo), anima-se num debate sobre o que pode e não pode ser a crítica online. Pergunta-se: Les bloggeurs sont-ils des partenaires du spectacle vivant ? . A suivre ici.

terça-feira, março 20, 2007

Revista Àguas Furtadas 10 já à venda


Já está disponível para venda o nº 10 da revista Águas Furtadas, editada pelo Núcleo de Jornalismo Académico do Porto. Traduzem-se poemas de Gez Walsh, Óssip Mandelstam, Stéphane Mallarmé e William Shakespeare, e publicam-se outros de Rogério Rola e Vitor Oliveira Jorge.

O também poeta e contista Manuel António Pina escreve um belo ensaio sobre o Winnie the Pooh, e há outro ensaio, de minha autoria, sobre o lugar do espectador no teatro contemporâneo português. Traz, como sempre, um cd, desta feita com música de Ângela Ponte e Nuno Estrela.

A revista custa 12€, tem 300 páginas e está à venda na livraria Da Mariquinhas, na Rua dos Cordoeiros, ao Largo de Santo Antoninho, em Lisboa.No Porto, a revista encontra-se disponível em vários pontos: Matéria Prima, Maria vai com as outras, Poetria, Galeria Sargadelos, etc. Também pode ser encomendada por e-mail.

A revista terá uma primeira apresentação, dia 24 de Março, nos Espaços JUP (Rua Miguel Bombarda, 187), no Porto, às 16h00, no âmbito das comemorações dos 20 anos do NJAP/JU, a associação que a edita.

domingo, março 18, 2007

William Forsythe: a ambígua verdade

excerto do texto Momentos de transição publicado no programa do espectáculo Programa da Primavera, da Companhia Nacional de Bailado em cartaz até 24 Março no Teatro Camões, em Lisboa.



Numa crua análise à figura e ao percurso de William Forsythe, as autoras de La Danse au XXe Siècle [1], Isabelle Ginot e Marcelle Michel, apresentam-no como “o símbolo mais marcante de integração de uma certa modernidade no mundo clássico”. Mas não deixam de referir “que atrás das suas lentes de ferro, ele mantém um olhar frio sobre uma época de crise e decadência. Pensando-o em relação a Merce Cunningham, que persegue como que sob hipnose uma aventura com o movimento, Forsythe não tem nada de revolucionário. É sobretudo um divulgador utilizando todos os estilos, todos os procedimentos já utilizados por outros coreógrafos para descrever o estado do fim de século”.

Não nos podemos esquecer que Forsythe é contemporâneo de uma corrente artística que teve como equivalentes nas artes plásticas um Andy Warhol, na música um David Bowie e no cinema um Jean-Luc Godard. Ou seja, a reformulação como resposta ao contexto é quase genética. Há uma consciência situacional que o força a este jogo de reciclagem. E Forsythe nunca escondeu a ambição de dar à sua assinatura uma ambiguidade que lhe permitisse a reformulação estética, de forma e conteúdo, consoante os ventos soprassem. O seu percurso, de um pós-neo-clássico à manipulação das novas tecnologias e da vídeo-dança levaram a que se questionasse se era uma fraude ou o grande génio do século XX.

A dúvida permaneceu sempre e assombra o legado deste coreógrafo norte-americano, essencial para compreender a profunda crise que atravessou (e atravessa) a dança nos Estados Unidos depois de George Balanchine, Merce Cunningham e do Judson Dance Theater Group. Mas sobretudo após o advento da dança contemporânea ter deslocado para a Europa, e em particular para o eixo França-Alemanha, o epicentro das reformulações coreográficas. Forsythe inscreveu o seu nome na dança do último quartel do século XX através de um percurso onde reciclou os códigos, sabendo sempre da falibilidade do que fazia. É por isso que mais facilmente se contextualiza o seu trabalho no panorama europeu que no americano – isso mesmo provam as sucessivas encomendas e, desde 1984, a direcção do Ballet de Frankfurt, na Alemanha.

Ele diz: “Eu não sou mais herdeiro de Balanchine que ele era de Petipa. (...) Vivo no tempo da bomba atómica, da poluição e da SIDA, na época do stress, da violência e dos computadores… Sou um coreógrafo de hoje. Trabalho com o vocabulário clássico porque é o meu e me apercebi que na sua desestruturação retiramos as partes estranhas até aqui ocultadas pelo ballet. Considero o meu trabalho como uma actividade de reposicionamento”[2].

The Vertiginous Thrill of Exactitude é disso exemplo. Na peça de 1996 recordamos a resistente organicidade e a precisão suíça de um Concerto Barroco, de Balanchine (1941), mas também a necessária desmontagem contemporânea que recusa a narrativa. Mas sobretudo evita a cedência à dança moderna, vistosa e fátua. Existe, num espaço e num tempo particulares, o do momento da apresentação, como se um hiato temporal extremo ocupasse o palco. É uma elegantemente anacrónica e emocionada peça onde Forsythe leva mais longe a ideia de uma coreografia que vive de cruzamentos referenciais. Ao imprimir, apenas através da música, uma organização dos intérpretes, joga a partir de dados identificáveis regenerando-os.

Não estamos já, e apenas, no diálogo coreografia-música, no que isto pressupõe de cedências mútuas (naturalmente com a subjugação da primeira à segunda). Há um outro elemento-chave: o intérprete, agora humanizado. Forsythe explora o esforço físico (“bailarinos-atletas” chamaram certa vez aos seus intérpretes), mas integra-o na estrutura cénica. É ele o centro desta peça, e não apenas o movimento. A prova disso está na apropriação especial do último andamento da 9ª Sinfonia de Schubert. Criando de forma extraordinária um jogo coreográfico de solos, trios e duetos, ora sincopados ora sincronizados, provoca um jogo de xadrez entre os bailarinos que resulta numa estrutura cumulativa, cada vez mais vertiginosa, quase transcendente. Os intérpretes perdem-se numa espiral de movimentos intensa, noção reforçada pela necessária exactidão com que a devem dançar. Ficamos com a sensação de que poderiam continuar por horas já que a peça não tem necessariamente um princípio, meio e fim. E num tempo de indefinições como este em que vivemos não poderia haver melhor representação.


[1] Larousse, Montreal, 2002;
[2] idem
Legenda da foto: interpretação pelo Kirov Ballet/autoria: John Ross
No You tube encontram-se excertos desta peça.