Pina Bausch, Bob Wilson, Bill T. Jones, Romeo Castelluci, David Lynch, João Tabarra, Kurt Vonnegut, Luciana Fina, Mickael de Oliveira, Luísa Mesquita, Franz Anton Cramer, Helmut Ploebst, André Lepecki, Martin Nachbar... sábado, abril 28, 2007
OBSCENA #4
Pina Bausch, Bob Wilson, Bill T. Jones, Romeo Castelluci, David Lynch, João Tabarra, Kurt Vonnegut, Luciana Fina, Mickael de Oliveira, Luísa Mesquita, Franz Anton Cramer, Helmut Ploebst, André Lepecki, Martin Nachbar... Secretário de Estado substitui direcção da CNB
Na passada terça-feira, 24 de Abril, uma semana antes do término da sua comissão de serviço e dois dias antes da publicação em Diário da República da lei orgânica da OPART que juntará a Companhia Nacional de Bailado (CNB) ao Teatro Nacional de São Carlos (TNSC), Ana Pereira Caldas, directora da CNB , foi informada pelo Secretário de Estado da Cultura (SEC), Mário Vieira de Carvalho, de que não lhe seria renovado o convite para o cargo que ocupava desde 2000. sexta-feira, abril 27, 2007
Dramaturgias europeias: o fim de uma era?
A era do sangue e esperma acabou
"Hoje, aquilo a que assistimos nos palcos reclama uma autonomia da realidade, que pode conduzir a representações viscerais da sociedade, em peças que provocam epidérmicas reacções de repúdio, como a textos que esventram o cânone dramático. Pelo meio, as pessoas tendem a dizer que não se reconhecem na decadência social e moral mostrada pela dramaturgia. Mas não será que, simplesmente, não a querem ver?É nessa linha de conflito que têm seguido várias correntes dramatúrgicas de origem europeia, em particular, porque mais relevante e influente, a inglesa in yer face theatre (ou, o teatro atirado à tua cara, que em português traduziríamos por “teatro-murro-no-estômago”), –, mas também uma outra, no eixo Alemanha-Áustria-Polónia chamada, convenientemente, blood and sperm (sangue e esperma), de características semelhantes. Trabalhos que têm demonstrado um mundo negro, deprimido, sem salvação, ansioso pelo apocalipse ou a comportar-se como se estivéssemos já no interior desse apocalipse. Mas não estaremos mesmo?
Nomes como os dos autores e encenadores Mark Ravenhill, Sarah Kane, Martin Crimp, David Harrower, Conor McPherson, Mark O’Rowe ou Max Stanfford-Clark e companhias como a Plaines Plough e a Out of Joint vêm insistindo em dramatizar a miséria humana, o abuso sexual, o alcoolismo, a droga, o consumismo, a acção política mas também um desprezo enorme pela intervenção cívica, o uso do vernáculo e o retrato da violência física, a sexualidade explícita, os confrontos ideológicos, o falhanço do poderio masculino e, por consequência, a impotência e a falência do homem como referência moral, a vitimização permanente e a descrença absoluta. Chamam-lhe zeitgeist, ou “o espírito do tempo”. O que me leva a perguntar: que mundo estaremos nós a produzir para que o teatro nos devolva um reflexo tão negro? Mas não terá sido sempre assim, desde os gregos?
Uma crítica búlgara, Kalina Stefanova, acha que não; e é peremptória: “o que se encontra por detrás da Nova Dramaturgia Europeia é uma máquina de marketing que trabalha na perfeição (posta a funcionar precisamente por aqueles que de outro modo demonstraram desprezo pelo comercial!). A tendência elimina as últimas regras existentes de propriedade em palco, provocando desse modo um interesse despertado pelo sensacionalismo garantido. Por fim, é exactamente a demagogia política e estética que desimpede o caminho para decretar a tendência (quem estiver “contra” é “conservador e de direita”!)”.
O problema de Shakespeare ou dos textos gregos não é a sua validade e pertinência, mas uma impossibilidade prática: mais facilmente recusamos esses autores, porque nos exigem uma reflexão mais distante e abstracta, que abraçamos os contemporâneos. Mesmo se não lhes damos o benefício da dúvida. Nas peças do in yer face theatre, cuja qualidade é aliás bastante irregular, podemos achar que aquela representação do mundo parece caricatural; mas é-nos fácil aceitar que a sociedade em que vivemos, no essencial e no superficial, é assim. Já Shakespeare e os gregos pedem-nos que concebamos a vida enquanto percurso moralizador, coisa para a qual, convenhamos, não há tempo.
É possível definir o trabalho daqueles autores como parte de uma tendência no contexto cultural Europeu, especialmente depois de Hans Thies Lehmann ter chamado a todas estas movimentações “o teatro pós-dramático”, onde o drama habitual e “antigo” foi substituído por reformulações cénicas, que concebem um espectáculo onde coexistem dramaturgia, interpretação, encenação, as várias disciplinas artísticas, mas também, e sobretudo, uma projecção directa daquilo que são as referências dos espectadores – não necessariamente as dos autores. Nesse sentido, este tipo de teatro já não invoca uma moral generalizada, mas reclama acima de tudo um discurso pessoal. E, se se dirigem a cada um dos espectadores, chegando-lhes de diversas formas, não partem de certezas dos autores, mas de dúvidas que querem ser partilhadas."
é (d)a Primavera
Pina Bausch, The Rite of Spring, 1975
Pina Bausch fala do seu percurso na próxima OBSCENA, em breve disponível.
quinta-feira, abril 26, 2007
Hoje no IndieLisboa: Tsai Ming-Liang e John Cameron Mitchell
de Tsai Ming-Liang
Forum Lisboa, 19h00
Shortbus
de John Cameron Mitchell
São Jorge, sala 1, 21h45
quarta-feira, abril 25, 2007
Crítica de teatro: Variação sobre a Última carta de Krapp
de Mónica Calle
Casa Conveniente, Lisboa
até 19 de Maio
Primeiro ela apaga as luzes, deixando apenas uma, suspensa, onde se expõe. Depois olha para lado nenhum, silenciosa. Parece querer ir falar mas não lhe sai som algum. Ou apenas o ar. A seguir vai à procura de qualquer coisa. Há bananas plantadas nas vigas do tecto. Mas da boca dela não se ouve qualquer som. Da rua sim, da rua ouvem-se todos os sons. E lá de baixo, da cave também. Angustiante início este, o de Krapp. Krapp é Mónica Calle, que assim regressa, finalmente, à casa que é sua, a Conveniente, no Cais do Sodré. Variação sobre a Última carta de Krapp marca o regresso a um território indefinido que é aquele, arriscado, onde Calle gosta de estar: a verdade do acto teatral. Krapp devia ser um homem; devia ser um homem velho; devia ser um homem velho e louco; devia ser um homem velho, louco e angustiado. Calle faz mais. Dá ao Krapp, de Beckett, a distância necessária para o tornar paradigma de todas as crises. Como a dela, afastada da encenação desde Julietas – cartas a um amor fragmentário, projecto de decomposição dramatúrgica. Como este, mas agora a solo, como sempre esteve, perto do sublime. Vemo-la sozinha, em frente a nós, despojada e religiosamente pronta para a cruz, tal como antes em A Virgem Doida (1992) e Rua de Sentido Único (2001). Há qualquer coisa no corpo, na voz, no olhar e na presença de Calle que torna difícil vê-la. Aquela entrega fere. Aquele olhar magoa. Aquela voz incomoda. Pode ser do local, antro maldito, zona de perdição. Pode ser que seja o Cais do Sodré a marcar-lhe o discurso, descrente e cru. Pode ser. Mas não é só. Se fosse só o lugar há muito que havia nisto uma fórmula. Foi para recusar a fórmula que ela parou, dois anos.
E, depois, fala. Krapp e Calle. Mas que diz ela? Bobine cinco? Debaixo do chão de tijolos há um alçapão, dentro do alçapão há caixas, nas caixas bobines, nas bobines nada. Devia estar lá uma voz, a dela, a de Krapp, a contar-lhe como havia sido. A fazê-la lembrar o que já aconteceu. A contar-nos porque é que ela chegou àquele ponto: mas das bobines não sai nada. Nada. É lá de fora que vêm os sons todos. Música, gritos, buzinas, preços de cerveja e sexo. E ela ali, à procura das palavras certas que lhe deveriam explicar como chegou ao estado a que chegou.
Esta é, como se percebeu, uma peça feita de silêncios. E sendo a partir de uma peça de palavras, que procuram restituir a memória, Calle radicaliza o gesto. Mais do que se procurar (ou de procurar Krapp) nas memórias, busca-o naquele espaço anacronicamente vivo, escuro e rude. Como se só ali, naquele inferno silencioso, fosse possível encontrar as razões para tal descontrolo. Sujeita o corpo ao espaço, a dramaturgia ao momento, a acção à espera. Torna, à nossa frente e sem rede, viva a vida de Krapp, forçosamente silenciosa, porque já tudo foi dito. Não se espere da peça a ordem, a regra, a lógica. Busque-se antes um percurso interior, de memória e reflexão. Krapp, de Beckett, ali, pobre e miserável clown, enfrentando o silêncio, o vazio, o desaparecimento de si, no nada que sai da bobine. Krapp, Calle, nós. Será que alguém podia gritar?
terça-feira, abril 24, 2007
Peeping me em Marselha
A performance-instalação peeping me, de Paulo Guerreiro, que O Melhor Anjo apresentou em estreia nacional no âmbito do seu 3º aniversário, no passado mês de Setembro, estreia esta semana em Marselha, numa versão revista e ampliada, no espaço La Compagnie. O jornal La Marseillaise já viu e criticou aqui. Hoje no IndieLisboa: The Pervert's guide to cinema
O que pode a psicanálise dizer-nos sobre o cinema? Esta é a pergunta a que THE PERVERT´S GUIDE TO CINEMA se propõe responder. O filme conduz o espectador através de uma estimulante viagem por alguns dos maiores filmes de sempre. O guia e apresentador é Slavoj Zizek, o carismático filósofo e psicanalista esloveno. Na sua apaixonada abordagem ao pensamento, vasculha a linguagem escondida do cinema, revelando o que os filmes podem dizer-nos sobre nós próprios. Seja destrinçando os enigmáticos filmes de David Lynch, ou deitando por terra tudo o que se pensava saber sobre Hitchcock. O filme estrutura-se a partir do próprio mundo dos filmes que discute; filmado em ambientes originais ou em réplicas dos cenários, cria-se a ilusão que Zizek fala a partir do interior dos próprios filmes. “The Birds” e “Psycho”, de Hitchcock são abordados por Zizek, considerando que aquele realizador é, provavelmente, o mais freudiano de todos. Prestem atenção à comparação que Zizek faz entre os três andares da assustadora mansão de Norman Bates (“Psycho”) e o conceito freudiano de Id, Ego e Superego. O psicanalista esloveno expõe os seus argumentos de forma tão natural e convincente e ao mesmo tempo tão rápida, que a nossa mente começa a girar vertiginosamente. Uma viagem imperdível.segunda-feira, abril 23, 2007
Pensar a Criação Contemporânea: Texto

Que lugar para o texto num espectáculo? Que uso se dá, hoje, ao texto e à palavra? E de que modo estão as dramaturgias contemporâneas a (re)tratar a sociedade? Num percurso feito de nomes e textos, mas também, de recusas e novas abordagens, falar-se-á da importância da dramaturgia, da morte do autor, dos desequilíbrios na hierarquia cénica e das relações entre teatro, dança e texto.
sábado, abril 21, 2007
Hoje no IndieLisboa: V.O

sexta-feira, abril 20, 2007
Hoje no IndieLisboa: Destricted
quarta-feira, abril 18, 2007
Os blogs de...
Castelluci apresenta-se na Bélgica
O mais recente espectáculo do italiano Romeo Castelluci, Hey Girl!, é apresentado no deSingel, em Antuérpia, Bélgica, de hoje até dia 21 de Abril. A análise que fiz ao espectáculo, desenvolvendo a crítica publicada neste blog aquando da estreia em Paris no passado mês de Novembro, pode ser lida aqui, em flamengo, na edição electrónica da revista Rekto:Verso. A versão portuguesa deste texto será publicada no próximo número da revista OBSCENA, a sair no fim deste mês.Workshop de Teatro de Sombras em Lisboa

domingo, abril 15, 2007
Pensar a Criação Contemporânea: Espaço

Entrada Livre (mediante os lugares disponíveis)
sexta-feira, abril 13, 2007
A integral do cinema de Guy Debord na Culturgest
"O sentido do cinema de Guy Debord é inseparável do seu pensamento e, ao lado da escrita, constitui-se como lugar privilegiado de visibilidade da sua teoria, actualizando-a, por outros meios que não a palavra. A zona de reflexão que determina toda a obra de Debord, e em função da qual é possível auscultar toda a dimensão de intervenção política do seu pensamento e da sua respectiva materialização cinematográfica, é a sua crítica da sociedade do espectáculo, ou seja, do capitalismo acabado como afastamento radical da vida. Esta crítica é, por sua vez, indissociável de uma mobilização total da própria vida do autor na direcção do confronto e da luta contra o seu tempo. Contudo, tal luta é levada a cabo a partir de dentro e não feita à margem da linguagem do espectáculo. De facto, para Debord, na desordem do presente, estariam simultaneamente contidas quer a destruição da vida perpetuada pelo espectáculo, quer a possibilidade da aparição concreta do seu reverso, identificada com o projecto situacionista. Tratar-se-ia de, no mesmo lugar a partir do qual “a sociedade do espectáculo e o capitalismo organizam concreta e deliberadamente os meios e os acontecimentos para diminuir a potência de vida”, e trabalhando sobre os mesmo elementos, libertar dele um projecto de sinal oposto, capaz de inverter o sentido da destruição, deslocando-o da vida para a desagregação da própria sociedade do espectáculo".
quinta-feira, abril 12, 2007
Audição para novo projecto coreográfico de Tiago Guedes
quarta-feira, abril 11, 2007
Madalena Vitorino estreia nova peça em Aveiro

quarta-feira, abril 04, 2007
Pensar a Criação Contemporânea - ciclo de conferências na Culturgest

[por razões óbvias, o blog faz uma pausa até dia 10 de Abril. Apareçam na Culturgest.]
As palavras de Bausch com Tejo ao fundo
Ontem, no Teatro Camões, cerca de centena e meia de pessoas escutaram as palavras da coreógrafa Pina Bausch, numa conversa conduzida por Mónica Guerreiro, editora-associada da OBSCENA. A integral das palavras de Bausch poderá ser lida na OBSCENA #4, no fim de Abril. Para já, os registos do Diário de Notícias, Jornal de Notícias e Correio da Manhã.terça-feira, abril 03, 2007
segunda-feira, abril 02, 2007
OBSCENA #3 já disponível
A OBSCENA #3 já está disponível.
O destaque vai para o dossier especial que celebra os 30 anos da Companhia Nacional de Bailado. Olhámos para o passado, num texto de Elisabete França que dá conta do percurso da companhia, mas também através das fotografias de espectáculos marcantes, do clássico ao contemporâneo. Mas porque um aniversário serve também para reflectir sobre o futuro debruçamo-nos sobre o OPART, que juntará a CNB com o Teatro Nacional São Carlos, fazendo o debate que não aconteceu. Falámos com Ana Pereira Caldas, directora da CNB, Mark Deputter, programador do Teatro Camões, a Comissão de Trabalhadores da CNB, a coreógrafa Olga Roriz e os ex-directores Jorge Salavisa e Luísa Taveira. Recolhemos ainda as opiniões dos críticos Eduardo Pitta e Henrique Silveira, bem como do ex-vogal do TNSC, João Gonçalves.
Neste 3º número da OBSCENA homenageamos ainda o encenador João Mota pelos seus 50 anos de carreira, num texto de Eugénia Vasques, e o primeiro Prémio Thalia, atribuído no passado mês de Outubro pela Associação Internacional de Críticos de Teatro ao influente teatrólogo Eric Bentley. Apresentamos-lhe uma entrevista feita pelo Vice-Presidente da AICT, o sul-coreano Yun-Cheol Kim, um perfil emocionado do canadiano Don Rubin, seu discípulo, e uma bibliografia fundamental para conhecer a obra desta figura maior do teatro contemporâneo.
Porque o mundo é vasto, percorremos a programação do evento que comemora os 50 anos da Fundação Calouste Gulbenkian, O Estado do Mundo, com entrevistas a António Pinto Ribeiro, programador-geral, e Miguel Honrado, consultor. Tempo ainda para lhe sugerirmos um percurso pela programação e saber a opinião de Isabel Capeloa Gil, directora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica.
O mundo é também aquele que o cinema nos traz, em mais uma edição do IndieLisboa, e, muito em particular, aquele que se quer pensado. Razão pela qual a aposta do mês de Abril da OBSCENA vai para o ciclo Com e Contra o Cinema, a integral dos filmes de Guy Debord, comissariada por Ricardo Matos Cabos e que se apresenta a 13 e 14 na Culturgest, Lisboa. E ainda mais mundo, desta vez, o da moda, numa viagem pelos bastidores da 28ª Moda Lisboa.
Mas a OBSCENA tem mais: críticas, notícias, opinião, reportagem, e uma carta branca ao cenógrafo e artista plástico António Lagarto. E a terminar, um ensaio sobre o corpo do crítico, assinado pela sul-coreana Bang-Ock Kim. E se, afinal, houver a possibilidade de o crítico poder usar o seu corpo para pensar os espectáculos?
Em Abril, mês em que se celebra o Dia Mundial da Dança, a OBSCENA expande-se para várias frentes. Siga-nos.
quarta-feira, março 28, 2007
Uma conversa com Pina Bausch - anúncio

Três desejos para o Dia Mundial do Teatro
Também eu gostava de falar sobre responsabilidade: de quem faz, de quem pensa, de quem decide. Uma responsabilidade que assumisse um contributo útil e cooperante, juntando vozes concordantes e dissonantes, sem receio de se verem ou sentirem ultrapassados. Sem o desejo furioso de impor projectos pessoais a estratégias globais. Impressiona-me que num contexto tão frágil se opte pela hipocrisia e a falsidade, com o mero intuito de defender essas estratégias, em vez de se abrir o diálogo e a acção a todos.
Porque continuamos a recusar um teatro que seja espelho real da sociedade, apostamos em metáforas pífias e inconsequências justificadas pelo ego e a ausência de memória.
Somos todos culpados pelo incumprimento das leis que nos regem, quando as há. E quando não existem, somos também por isso culpados. Somos todos culpados pela subalternização da arte e a ideia de mero entretenimento ao defendermos coutadas em vez de diversidade. Somos culpados, todos, pela discriminação sexual, ao fomentarmos peças homofóbicas disfarçadas de subversão e humor. Culpados pelo racismo e xenofobia, ao não abrirmos as portas à dramaturgia e às companhias que sobre esses temas trabalham. Culpados pelas diferenças sociais, ao nos recusarmos a ver, fazer e pensar uma outra ideia de intervenção cívica.
E seremos eternamente culpados se, conscientes disto tudo, continuarmos a celebrar, deitar foguetes e brindar, esquecendo tudo pouco depois. Muito por culpa nossa, a sociedade que temos é a sociedade que merecemos. E o teatro merece melhor.
terça-feira, março 27, 2007
Hoje é Dia Mundial do Teatro

Em 1961 o Instituto Internacional do Teatro (IIT), associado à UNESCO, criava o Dia Mundial do Teatro, marcado a 27 de Março para celebrar a inauguração do Théâtre des Nations, em Paris. Diz o IIT que é “uma ocasião para que os artistas partilhem com o seu público uma certa visão da arte e o modo como essa arte pode contribuir para a compreensão e a paz entre os povos”.
Uma conversa com Mónica Calle, actriz e encenadora
Ao contrário do que sucedeu na dança no início dos anos 90, o surgimento da Nova Dança Portuguesa permitiu pensar-se na hipótese de um movimento que rompia com um modo de pensar e fazer a dança. Mas no caso do teatro esse rompimento deu-se muitos anos antes, com o surgimento dos grupos independentes que, hoje, são as companhias institucionais. Pelo meio ficaram nomes como o de Mónica Calle, o da Lúcia Sigalho, o Luís Castro, o colectivo OLHO, entre outros, provavelmente muito mais próximos de nomes que se consolidaram a partir de 2000, como o Teatro Praga, apenas para citar um deles. Por outro lado, ao mesmo tempo que estes surgiam, havia uma outra corrente, da qual fazem parte Álvaro Correia, Miguel Seabra (Teatro Meridional) ou Carlos J. Pessoa (Teatro da Garagem) que foram capazes de estabelecer ligações com esses grupos surgidos no fim dos anos 70. Quase que poderíamos dizer que existem duas camadas de gerações. Foi sustentada na dificuldade de definição geracional que começou esta conversa, naturalmente cúmplice, como só podem ser as conversas com Mónica Calle, actriz, encenadora e directora artística da Casa Conveniente.
«São as imagens que partem das palavras, não o contrário» - Mónica Calle
Começo com uma dúvida: onde te posicionar geracionalmente?Em relação ao teatro não me identifico com a minha geração. Os meus modelos não são os modelos portugueses, e os anteriores a mim não servem de referência. Incomoda-me, por exemplo, que o Teatro da Cornucópia seja apontada como um modelo de grande qualidade de teatro de Portugal. É uma companhia estruturada com um determinado modelo, com um tipo de abordagem estética. Mas falo da Cornucópia apenas por isso, porque as minhas referências vêm do cinema, da literatura das artes plásticas. Os criadores que mais me marcaram foram a [coreógrafa] Pina Bausch e [o encenador e teórico] Tadeusz Kantor.
E estendes essa ideia de não-identificação aos que surgiram na mesma altura que tu, como aconteceu na dança?
Não é um movimento organizado, mas de um grupo de pessoas que na viragem da década de 80 para 90 procuraram outros espaços, até porque não tínhamos acessos a apoios, não existiam subsídios pontuais. Não sendo um movimento tão organizado como o da dança, que tinha um discurso, havia afinidades pessoais, por exemplo, com o João Garcia Miguel, a Lúcia Sigalho, o Teatro da Garagem, o Teatro Meridional. Entretanto, passaram quinze anos e a minha geração tem vindo a ser asfixiada. E isso percebe-se no trabalho da Lúcia, do João, que teve de inovar, o Meridional fez um interregno e agora voltou a encontrar uma energia, e também eu precisei de fazer uma paragem. Hoje sinto-me mais próxima de pessoas mais novas do que eu, nas questões que colocam, nas condições de trabalho.
Mas houve experiências colectivas que denunciavam uma procura de um caminho, e que inclusive levaram à criação da Casa Conveniente, a partir do espectáculo A Virgem Doida, em 1992.
Na Virgem Doida havia a preocupação de reunir uma série de colegas do Conservatório, de reforçar empatias. Mas éramos muito novos, ainda agarrados a modelos académicos. Eu tinha apenas um discurso sobre mim como performer. Recordo-me de fazer um espectáculo chamado Crónicas [CCB, 1997] de cujo elenco faziam parte do elenco a Lúcia Sigalho, a Maria Duarte, o Luís Castro e o José Meireles e foi um espectáculo duríssimo. Houve um choque de personalidades, havia necessidade de afirmação por todos, afirmação de diversas linguagens e discursos. Pessoas que ainda não tinham uma linguagem, e cujos discursos estavam em construção. E eu própria também não tinha um pensamento estruturado, sobre que actor é que queres, que actor é que queres? Mas as coisas foram evoluindo e a partir daí, senti-me com maturidade, senti que podia fazer um trabalho em continuidade e com o mesmo grupo de pessoas, construindo com eles uma linguagem.
Que se define como?
Eu nunca tive muitas certezas sobre que tipo de teatro queria fazer porque um espectáculo tem vários planos de leitura, vários tempos, e cada espectador agarra o que puder agarrar, entra nos planos que puder. As coisas foram acontecendo de forma lenta. Vais descobrindo, o discurso ainda é disperso, estás a formar-te como pessoa, a formar-te como criador, vais definindo opções. Tudo aquilo que foi acontecendo no meu trabalho não estava definido, o discurso, a relação com o espectador, as coisas foram sendo estruturadas. Em 2002 com O bar da meia noite, encontrei um grupo de pessoas novas que naquele momento me faziam sentir vontade de construir qualquer coisa, pesquisar uma linguagem. Em 2003 tentei transportar o que queria da Casa Conveniente para o CCB, em Um dia virá, mas houve alguma coisa com que não soube lidar. Na Culturgest, com Os paraísos do caminho vazio, que fiz no anfiteatro, na rua, houve uma recusa em entrar na sala. O bar da meia noite [2002, CCB] foi o terceiro espectáculo fora da Casa Conveniente e serviu para reflectir sobre essas saídas. Tem também a ver com essas experiências anteriores, entre 1995 e 1999. Por fim, as pessoas, que eram muito novas e tinham uma grande disponibilidade, obrigando-me a construir um discurso sobre o actor.
O actor mas não sobre a personagem?
Há questões que para mim são essenciais. Desde logo o actor e a questão da não representação ou da não construção da personagem. Quero eliminar isso. Mas também a implicação do uso da palavra, tal como o que implica usar-se texto. São as imagens que partem das palavras, e não o contrário. E assim criar um discurso estruturado sobre um estar em cena, como aconteceu com As três irmãs [2003]. Tem que se dar a possibilidade de o espectador escolher o que está a ver.
Essa é uma questão fundamental para a compreensão do teu teatro, que se relaciona intimamente, ou depende muitíssimo, do espaço onde decorre. Situação que Julietas [2005] também acusou, ao se apresentar na Culturgest, espaço menos pessoal que a Casa Conveniente. Há nesta busca de um espaço uma busca de um território que se prolonga na relação com o espectador.
Falo para todas as pessoas. Uma das razões para vir para o Cais do Sodré era tentar misturar pessoas. Não falo para ninguém em particular, falo para as pessoas. Nos espectáculos em que sou criadora e perfomer tenho domínio absoluto sobre a criação. Posso fazer experimentar coisas, descobrir questões novas, que na realidade só posso fazer comigo própria. Mas também me permite abrir isso aos outros. São pontos de chegada que se tornam pontos de partida. Por exemplo, quando tens um filho, tu deixas de ser o centro. O que talvez tenha acontecido é que tenha ficado mais forte. Nestes últimos dois anos pus tudo em causa. Tentei construir um determinado modelo de estrutura mas que não foi possível. Acho que Julietas foi um espectáculo que indicou essa falência.
Que se relaciona com a mudança de espaço [em 2001 a Casa Conveniente mudou-se para uma antiga discoteca em frente ao bar Jamaica, também no Cais do Sodré]?
A Casa antiga colocava-me sempre a questão do lugar. O lugar do discurso artístico, o lugar da palavra, que lugar da arte, que lugar na vida. Que lugar é este que se procura? É uma coisa gradual. Precisa de um tempo de maturação. A relação entre o interior e o exterior. O tempo real e o tempo do teatro, a consciência da simultaneidade destes dois tempos são das coisas mais importantes. Eles coexistem sempre, em paralelo, o tempo real e o tempo fora do tempo, não os anulas. Mesmo hoje, quase seis anos depois, a nova Casa Conveniente ainda não é o meu espaço.
Mas sabes o que procuras?
Quero explorar um teatro pobre assente na palavra, na proximidade, na partilha. E sinto vontade de estar sozinha, de voltar a fazer um espectáculo sozinha. Preciso de o fazer. É muito bom trabalhar com outras pessoas mas também é muito importante fazer trabalhos sozinha. Tudo o que posso experimentar pode ser mais radical. Ir à inocência das minhas questões.
Com a colaboração na edição de Pedro Manuel. Fotografia de José Luís Neves. Mónica Calle é uma das convidadas da conferência Pensar a Criação Contemporânea dedicada ao Espaço, a decorrer na Culturgest no próximo dia 16 Abril 07. Está, neste momento, a preparar a estreia do espectáculo Krapp's last tapes.
segunda-feira, março 26, 2007
Càmara de Lisboa homenageia nomes do teatro de revista
Foi uma noite de celebração que reuniu muitos amigos dos quatro homenageados mas também nomes do espectáculo. Entre eles Vítor Espadinha, Fernanda Baptista, Anita Guerreiro, António Calvário, Vera Mónica, Tito Lívio, Ruy de Carvalho, Norberto Barroca, Alina Vaz e Linda Silva.
Carmona Rodrigues disse que, em relação ao futuro do Parque Mayer, não queria fazer promessas, mas “sendo uma pessoa determinada”, trabalhava todos os dias para que brevemente tivessem todos novidades. A sala, praticamente cheia, aplaudiu ruidosamente. O Presidente da Câmara referiu ainda que “não há nenhum motor na sociedade que não esteja baseado numa cultura sólida e abrangente que não é só de uma elite mas de um povo inteiro”.
domingo, março 25, 2007
Olga Roriz: gestos que vão do corpo à alma
excerto do texto Momentos de Transição publicado no programa do espectáculo Programa da Primavera, da Companhia Nacional de Bailado, que se apresenta hoje em Lisboa, dia 29 em Aveirto e dia 31 em Leiria.
Treze Gestos de Um Corpo estreou no Ballet Gulbenkian em 1987 (na foto), dois anos depois de Olga Roriz conceber para a Companhia Nacional de Bailado As Troianas. O diálogo entre estas duas peças era evidente, tendo Roriz, na altura em franca ascensão, encontrado margem de trabalho que lhe permitia conceber, para companhias de repertório, uma linguagem assumidamente pessoal e íntima. Ligavam as peças a forte presença do corpo marcado por um movimento ousado e reivindicativo, uma plasticidade tanto ao nível da disposição cénica como da própria estruturação coreográfica, e ainda uma proximidade e identificação da autora com as potencialidades dos elencos.Só em 2003 é que Roriz regressou à CNB para conceber Pedro e Inês e mais tarde, em 2005, para remontar Sete Silêncios de Salomé, de 1993. Vinte anos depois, regressa a Treze Gestos…, necessariamente repensando-a de acordo com uma filosofia de trabalho que a obriga a conceber uma remontagem numa massa de corpos que não são os da sua companhia, nem sempre são conscientes da sua força enquanto intérpretes e, sobretudo, vivem de uma permanente adaptação/adequação às linguagens de cada coreógrafo com quem trabalham. São, ao mesmo tempo, corpos experimentados mas corpos viciados. É esta dimensão de prática que importa resgatar numa peça que marcou uma época, tanto ao nível do percurso da coreógrafa como da própria dança em Portugal.
Em 1987 começávamos a ter acesso aos primeiros trabalhos dos coreógrafos da Nova Dança Portuguesa que tinham vivido em Nova Iorque e em França, chegando agora com novas ferramentas que imprimiriam outras dinâmicas ao modo de fazer, pensar e ver dança. Era o tempo da série de televisão Fame, que libertava a presença dos rapazes na dança de ridículos preconceitos e democratizava o movimento. O papel das instituições, e em particular o papel das companhias de repertório, necessitava de uma definição, de uma reformulação. Em boa hora a Gulbenkian encontrou em Olga Roriz a audácia necessária para recentrar o intérprete no interior da coreografia, indo ao encontro das perguntas fundamentais da teórica Laurence Louppe [1]: “como pode o corpo contemporâneo encontrar a sua liberdade? Mas sobretudo a possibilidade de inaugurar um espaço que lhe seja próprio?”.
Treze Gestos de um Corpo respondia àquilo que eram as novas abordagens coreográficas da dança independente introduzindo-as no contexto de uma companhia de repertório, nomeadamente essa da individualidade. Cada um dos 13 homens e das 13 mulheres, dos solistas aos estagiários, ocupavam um mesmo destaque na peça, entre os quais Gagik Ismalian, solista do Ballet Gulbenkian. A democratização que isto pressupõe não se explica sem ter em consideração as revoluções estéticas, burocráticas e filosóficas que aqui se conjugavam. Não era de todo evidente que a peça conseguisse impor uma linguagem própria, e para esse sucesso em muito concorreu a conjugação do trabalho de Roriz com os de Nuno Carinhas, nos figurinos e cenário, de Orlando Worm, no desenho de luz, e de António Emiliano, na composição sonora. Mais do que uma peça de um só nome, antes um trabalho de colectivo para outro colectivo. Um confronto de forças. De um lado os génios criativos de quem procurara um espaço artístico mais amplo e transversal. Do outro uma massa de corpos ansiosos por serem notados.
Aquilo que esta peça propõe é uma dissecação de um só corpo em vários outros através de solos pessoalíssimos, no qual são exploradas as valências de cada intérprete. Na estreia da peça foi fundamental que os elencos de dividissem em homens e mulheres, abrindo assim o leque de possibilidades de leitura. Eles numa linha bastante mais sensual, porque viril e tensa (e Olga Roriz sempre criou peças onde os homens eram mais sensíveis – mesmo mais humanos – que as mulheres), elas numa procura mais explosiva. O verso e o reverso de um mesmo gesto, explorado que era por corpos diferentes que buscavam a mesma unidade. Corpos que eram, eles mesmo, verso e reservo de si.
Há no modo como Roriz sequencia os vários solos uma qualquer melopeia que quase trabalha em sentido contrário à extraordinária e profundamente urbana banda sonora de António Emiliano. Na agressividade do gesto reside um poder imenso de sedução que também é de procura e de carência. Peça marcadamente humana, Treze Gestos de um Corpo constrói-se a partir das energias de cada bailarino que precisa saber encontrar a coerência da sua personalidade no confronto com o desenho proposto pela autora. Ela nitidamente projecta-se naqueles corpos. Veja-se, por exemplo, Jardim de Inverno, o solo que criou para si em 1989, onde o corpo solitário explode num território marcado. Mas, sobretudo repare-se na recorrência imagética de peças que vivem de solos, Sete Silêncios de Salomé e Pedro e Inês, dando aos intérpretes um confronto corporal exposto a todos, mas profundamente privado.
Ecos de um legado precioso que Roriz sempre soube explorar, nem sempre da melhor forma, mas suficientemente coerente para se compreender que o gesto e o corpo de que fala são um gesto e um corpo interiores, prisioneiros, necessitados de uma explosão. Que o tenha sabido fazer aqui e que, vinte anos depois, conserve uma força, uma identidade e um desígnio próprio, é a prova de que a história é feita de momentos que não só captam com a acuidade certa o ar do tempo como o perpetuam. Ajudando-nos assim a abrir janelas pelas quais respirar. Ou, no caso, portas por onde escapar.
sábado, março 24, 2007
Crítica de teatro: A Filha Rebelde
De Margarida Fonseca Santos
Encenação de Helena Pimenta
Teatro Nacional D. Maria II
Até 20 Maio 2007
De vergonha em vergonha, até à derrota fatal
A peça é uma versão telenovelesca da cuidada investigação de Valdemar Cruz e José Pedro Castanheira, publicada no Expresso, do lateral e muito pouco relevante fait-divers que é Annie Silva Pais, bonequinha do regime e filha do director geral da PIDE, se ter tornado passionária da causa cubana. Não me incomoda particularmente que se faça da História o que bem se achar, desde que os factos que são factos não sejam escamoteados em nome de dramaturgia que a bem da verdade nem existe. Ora, depois da redução da vida quotidiana da aborrecida burguesiazinha de Lisboa, entre a maior ou menor vigilância de Salazar, ao grau zero do retrato social, e da transformação da revolução cubana num festim social sem mácula, chegar ao fim de hora e meia de peça e ter que assistir à regeneração de Silva Pais, porque afinal o escroque sofria de profunda mágoa pelo desvio da filha, é não só ridículo como vergonhoso numa democracia saída de uma ditadura que nem coragem teve para se assumir enquanto tal, como a nossa. Que desgraça esta a de termos que pagar por estes serões para trabalhadores de esquerda, como brilhantemente designou Elisabete França no Diário de Notícias de 21/03.
Se a intenção era entreter as hostes, que se abrissem os salões do Nacional para uma noite de música cubana. Uns mojitos servidos na esplanada do Nacional – agora que o bom tempo parece de regresso – eram bem mais úteis e certamente ajudariam a que muitos dissessem o que realmente pensam desta farsa em forma de peça de teatro. Não havia necessidade de se promover a dramaturgia nacional as inconsequências desta peça, alimentada a caricaturas de personagens perdidas em fragmentos de ideias e de cenas intervalas numa lógica muito própria e nada evidente que confunde mitos com verdades. Não há pathos, não há linhas fortes, não há uma frase que fique na cabeça, nem uma ideia, um ensinamento, uma ponta de interesse por se saber, ou mesmo justificar, a verdadeira história. Nada. Apenas o vazio na imensa corrente de ar que existe entre as várias portas desenhadas por José Manuel Castanheira, entretanto também ele, e por enquanto, designado cenógrafo oficial do regime.
Que num teatro que se quer Nacional se fale da história do país, não é nem uma conquista nem um feito maior do que a obrigação, até moral, de quem o dirige. Mas nem tudo serve de desculpa. E esta filha rebelde nem de desculpa serve. Falta-lhe, entre outras coisas também elas graves, um contexto. Como explicar às gerações mais novas que estão perigosamente a esquecer que já vivemos em ditadura e que houve uma polícia política que não dava apenas um sustos? Como explicar, ainda, o que representou Silva Pais? E que efeitos a revolução cubana teve na Europa? Como se vivia naquela altura em Portugal? Que alta roda era aquela de onde a rapariguinha saiu? Mas, sobretudo, alertar todos para os perigos de nos determos somente nos fait-divers esquecendo que a História foi outra coisa.
E não há fait-divers maior do que o perpetuar de uma ideia romântica de um Che Guevara que com o tempo se tornou o ídolo pop imortalizado na fotografia do Korda e estampado em tudo quanto é revolucionário acneico de festival de verão, fazendo esquecer que foi, sobretudo, participante activo na guerrilha que tomou de assalto Cuba e ainda hoje se perpetua enquanto ditadura. Estivesse ele vivo e o que nos garantia que não era tão ou pior ditador que o outro? Ou Cuba são só as praias de Varadero, os charutos feitos por mão escrava e os longos e patéticos discursos do moribundo Fidel? Ou o teatro, sobretudo o Nacional, serve só para se passarem umas horas a ver uns fantoches manietados em vez de actores a dizerem umas coisas que deviam ser diálogos de uma peça mas não passam de amontoados de palavras?
Eu escrevo isto e até parece que me esqueço que, já no Trindade, Carlos Fragateiro fizera da História gato-sapato, com os delírios juvenis de Freitas do Amaral (O Magnífico Reitor, 2000) e os remendos do nacional-cançonetismo feitos manifestação estudantil (O Navio dos Rebeldes, 2002). E agora que se anuncia o regresso de férias de Salazar, para mais escolhido em casting nacional ("um Salazar em cada esquina", não era o que se dizia?) não há quem ponha cobro a este arrivismo estético, cénico e dramatúrgico? A esta leveza e desorientada linha que faz do TNDMII o palco do branqueamento da história? Da promoção do mais básico argumento? Da total incapacidade em criar um acesso à memória que não passe por nivelamento rasteiro e indigno? Não há, neste Estado de direito, quem ainda acredite que o teatro não se limita a criar ficções, mas a interpretar realidades? E que a interpretação desta realidade, porque grosseira, primária, superficial, inadequada e ofensiva, é contrária a tudo aquilo que se defendeu e conquistou ao longo dos últimos trinta anos? Ou o hasta la victoria, só é siempre se acabar a tempo de ainda se apanhar o bar aberto?
sexta-feira, março 23, 2007
Críticos de música juntam-se em jantar de homenagem a Pinamonti
quinta-feira, março 22, 2007
aguasfurtadas 10. Agora também disponível em Lisboa.
A revista "aguasfurtadas" está à venda na livraria Da Mariquinhas, na Rua dos Cordoeiros, ao Largo de Santo Antoninho, em Lisboa.
quarta-feira, março 21, 2007
Landscape, de John Romão, amanhã em Almada

duração: 20min.
sessões contínuas entre as 20h-23h.
entrada livre.
Land Escape, a primeira vídeo-instalação de John Romão, apresenta em forma de díptico um dia da vida de um rapaz e de uma rapariga, mas desde o início um elemento de estranheza parece atravessar todo o trabalho. Cada projecção corresponde a cada uma das personagens e o facto de serem sincronizadas e instaladas paralelamente sugerem-nos à partida um diálogo directo entre as mesmas. No entanto, apenas existem monólogos ou pensamentos que se vão intercalando durante os cerca de 20 minutos de vídeo e que acompanham as acções que vamos assistindo.
Sofia Nunes
Ajagato edita 7º número da revista Cena's
21 de Março, Dia Mundial da Poesia

Les bloggeurs sont-ils des partenaires du spectacle vivant ?
terça-feira, março 20, 2007
Revista Àguas Furtadas 10 já à venda

A revista custa 12€, tem 300 páginas e está à venda na livraria Da Mariquinhas, na Rua dos Cordoeiros, ao Largo de Santo Antoninho, em Lisboa.No Porto, a revista encontra-se disponível em vários pontos: Matéria Prima, Maria vai com as outras, Poetria, Galeria Sargadelos, etc. Também pode ser encomendada por e-mail.
domingo, março 18, 2007
William Forsythe: a ambígua verdade
Numa crua análise à figura e ao percurso de William Forsythe, as autoras de La Danse au XXe Siècle [1], Isabelle Ginot e Marcelle Michel, apresentam-no como “o símbolo mais marcante de integração de uma certa modernidade no mundo clássico”. Mas não deixam de referir “que atrás das suas lentes de ferro, ele mantém um olhar frio sobre uma época de crise e decadência. Pensando-o em relação a Merce Cunningham, que persegue como que sob hipnose uma aventura com o movimento, Forsythe não tem nada de revolucionário. É sobretudo um divulgador utilizando todos os estilos, todos os procedimentos já utilizados por outros coreógrafos para descrever o estado do fim de século”.Não nos podemos esquecer que Forsythe é contemporâneo de uma corrente artística que teve como equivalentes nas artes plásticas um Andy Warhol, na música um David Bowie e no cinema um Jean-Luc Godard. Ou seja, a reformulação como resposta ao contexto é quase genética. Há uma consciência situacional que o força a este jogo de reciclagem. E Forsythe nunca escondeu a ambição de dar à sua assinatura uma ambiguidade que lhe permitisse a reformulação estética, de forma e conteúdo, consoante os ventos soprassem. O seu percurso, de um pós-neo-clássico à manipulação das novas tecnologias e da vídeo-dança levaram a que se questionasse se era uma fraude ou o grande génio do século XX.
A dúvida permaneceu sempre e assombra o legado deste coreógrafo norte-americano, essencial para compreender a profunda crise que atravessou (e atravessa) a dança nos Estados Unidos depois de George Balanchine, Merce Cunningham e do Judson Dance Theater Group. Mas sobretudo após o advento da dança contemporânea ter deslocado para a Europa, e em particular para o eixo França-Alemanha, o epicentro das reformulações coreográficas. Forsythe inscreveu o seu nome na dança do último quartel do século XX através de um percurso onde reciclou os códigos, sabendo sempre da falibilidade do que fazia. É por isso que mais facilmente se contextualiza o seu trabalho no panorama europeu que no americano – isso mesmo provam as sucessivas encomendas e, desde 1984, a direcção do Ballet de Frankfurt, na Alemanha.
Ele diz: “Eu não sou mais herdeiro de Balanchine que ele era de Petipa. (...) Vivo no tempo da bomba atómica, da poluição e da SIDA, na época do stress, da violência e dos computadores… Sou um coreógrafo de hoje. Trabalho com o vocabulário clássico porque é o meu e me apercebi que na sua desestruturação retiramos as partes estranhas até aqui ocultadas pelo ballet. Considero o meu trabalho como uma actividade de reposicionamento”[2].
The Vertiginous Thrill of Exactitude é disso exemplo. Na peça de 1996 recordamos a resistente organicidade e a precisão suíça de um Concerto Barroco, de Balanchine (1941), mas também a necessária desmontagem contemporânea que recusa a narrativa. Mas sobretudo evita a cedência à dança moderna, vistosa e fátua. Existe, num espaço e num tempo particulares, o do momento da apresentação, como se um hiato temporal extremo ocupasse o palco. É uma elegantemente anacrónica e emocionada peça onde Forsythe leva mais longe a ideia de uma coreografia que vive de cruzamentos referenciais. Ao imprimir, apenas através da música, uma organização dos intérpretes, joga a partir de dados identificáveis regenerando-os.
Não estamos já, e apenas, no diálogo coreografia-música, no que isto pressupõe de cedências mútuas (naturalmente com a subjugação da primeira à segunda). Há um outro elemento-chave: o intérprete, agora humanizado. Forsythe explora o esforço físico (“bailarinos-atletas” chamaram certa vez aos seus intérpretes), mas integra-o na estrutura cénica. É ele o centro desta peça, e não apenas o movimento. A prova disso está na apropriação especial do último andamento da 9ª Sinfonia de Schubert. Criando de forma extraordinária um jogo coreográfico de solos, trios e duetos, ora sincopados ora sincronizados, provoca um jogo de xadrez entre os bailarinos que resulta numa estrutura cumulativa, cada vez mais vertiginosa, quase transcendente. Os intérpretes perdem-se numa espiral de movimentos intensa, noção reforçada pela necessária exactidão com que a devem dançar. Ficamos com a sensação de que poderiam continuar por horas já que a peça não tem necessariamente um princípio, meio e fim. E num tempo de indefinições como este em que vivemos não poderia haver melhor representação.





