sexta-feira, março 23, 2007

Críticos de música juntam-se em jantar de homenagem a Pinamonti



Um conjunto de críticos ou ex-críticos de música, entre os quais Cristina Fernandes (Público), Bernardo Mariano (Diário de Notícias), Jorge Calado (Expresso), Maria Augusta Gonçalves (Jornal de Letras) e Vanda de Sá (Antena 2), juntar-se-ão num jantar de homenagem a Paolo Pinamonti, o futuro ex-director do Teatro nacional S. Carlos, na próxima segunda-feira, em Lisboa. A estes nomes juntam-se os de Augusto M. Seabra (actualmente com uma coluna semanal no site da Culturgest), Alexandre Delgado (compositor) e Rui Vieira Nery (ex-Secretário de Estado da Cultura e sub-director do Departamento de Música da Fundação Calouste Gulbenkian), entre outros.

Na nota que fizeram circular justificam-se dizendo que "nunca os signatários se haviam reunido como o fizeram para prestar o seu reconhecimento a Paolo Pinamonti, no momento em que vêem interrompida a continuidade de uma direcção que, face a repetidos constrangimentos orçamentais, tinha manifestado um esforço e uma imaginação continuadas em tentar responder às missões de um teatro nacional de ópera e aos níveis artísticos desejáveis". E acrescentam que apesar das "opiniões diferenciadas sobre as propostas artísticas dessa direcção e suas realizações" que tiveram ao longo dos seis anos de direcção de Pinamonti à frente do S. Carlos, não entendem como "compreensíveis os termos expeditos com que a tutela dispensou quem tanto tinha prestigiado o São Carlos".

Acusam o Ministério da Cultura de praticar "um exercício de arbitrariedade política" que pode "interromper a continuidade de trabalhos artísticos para mais constatando que os responsáveis do Ministério da Cultura procederam ao contrário do disposto no programa do governo, no sentido da existência de 'direcções artísticas menos dependentes da lógica de nomeação governamental'".

Recorde-se, a este propósito que o Secretário de Estado da Cultura, Mário Vieira de Carvalho, afirmou em declarações ao Diário de Notícias (26/01) "o São Carlos não é para servir o projecto do director artístico. Este é que serve o projecto do São Carlos. E este é definido pelo Governo." A polémica da saída de Pinamonti do São Carlos deve-se à anunciada fusão com a Companhia Nacional de Bailado, situação contra a qual este se manifestou.

Este será o segundo jantar que reúne apoiantes de Pinamonti, depois de na semana passada um grupo de 20 nomes da crítica, política e cultura se terem juntado num jantar privado, também em Lisboa.

Escrevem os críticos que o jantar acontecerá no Hotel Vila Galé Ópera (Travessa do Conde da Ponte, junto ao edifício da Orquestra Metropolitana de Lisboa), pelas 20h30. As inscrições e confirmações poderão ser feitas através do mail: bravopinamonti@gmail.com , ou por sms para 969534172 até ao próximo sábado, às 20h00.

quinta-feira, março 22, 2007

aguasfurtadas 10. Agora também disponível em Lisboa.



A revista "aguasfurtadas" está à venda na livraria Da Mariquinhas, na Rua dos Cordoeiros, ao Largo de Santo Antoninho, em Lisboa.

Sábado, 24 de Março, às 16h30. Espaços JUP, Rua Miguel Bombarda, 187, Porto.

APRESENTAÇÃO DA ÁGUAS FURTADAS 10.

10 CONVIDADOS ESCOLHEM 10 OBRAS PUBLICADAS NOS 10 NÚMEROS DA REVISTA ÁGUAS FURTADAS.
Com a participação de Carlos Guedes, Daniel Pedrosa, Jorge Palinhos,Luís Trigo, Nelson d'Aires, Nelson Quinhones, Nuno F. Santos, Pedro Carreira de Jesus, Rui Dias, Rui Lage, Rui Penha, Samuel Silva, Sérgio Couto e Virgínia Pinho.

quarta-feira, março 21, 2007

Landscape, de John Romão, amanhã em Almada


22 Março 2007
duração: 20min.
sessões contínuas entre as 20h-23h.
entrada livre.



Land Escape, a primeira vídeo-instalação de John Romão, apresenta em forma de díptico um dia da vida de um rapaz e de uma rapariga, mas desde o início um elemento de estranheza parece atravessar todo o trabalho. Cada projecção corresponde a cada uma das personagens e o facto de serem sincronizadas e instaladas paralelamente sugerem-nos à partida um diálogo directo entre as mesmas. No entanto, apenas existem monólogos ou pensamentos que se vão intercalando durante os cerca de 20 minutos de vídeo e que acompanham as acções que vamos assistindo.


"A particularidade deste trabalho reside na forma como o artista explora a ideia de movimento e na forma subtil como o regista, de tal forma que as posições que os corpos das duas personagens adoptam parecem estáticas e quase escultóricas".
Sofia Nunes


concepção e direcção: JOHN ROMÃO câmara e fotografia: SÉRGIO BRÁS D' ALMEIDA montagem: JOHN ROMÃO e SÉRGIO BRÁS D' ALMEIDA actores: DIOGO BENTO e SARA CIPRIANO assistência: MARIANA VASCONCELOS apoio: CÂMARA MUNICIPAL DE ALMADA integrado na Quinzena da Juventude de Almada


Casa Municipal da Juventude de Cacilhas (Ponto de Encontro)
Rua Trindade Coelho 3, Cacilhas
Informações: 212748210
infos enviadas no press-release e da responsabilidade dos autores

Ajagato edita 7º número da revista Cena's


Já está disponível online, mas também nas livrarias, o nº 7 da revista Cena's editada pela Ajagato, de Vila Nova Santo André. O número traz uma entrevista a Teresa Ricou, directora do Chapitô e a famosa mulher-palhaço Tété, que diz, claramente: "Viver a liberdade é algo que se aprende".

Uma ideia que vai ao encontro dos objecttivos de publicação desta revista, acto de resistência de um projecto marginal e descentralizado. O percurso da Ajagato é, aliás, contado em amplo dossier com números, factos, contas e relatórios. Escreve-se no editorial: "Face, antes do mais, à “ditadura” do défice e da crise, que cerceia os apoios públicos indispensáveis a este tipo de projectos. Política que se quer erigir como fatalidade, como qualquer coisa de inevitável, mas também de “sensato”, de “lógico”, com que a querem tornar verdade inquestionável, imposta a criadores, agentes, práticas culturais e inculcada na opinião pública. Mas acto de resistência, também, face aos que, apoiando-a directamente ou não, a olham como potencial pólo desequilibrante das suas representações da realidade. Acto de resistência, ainda, face à disputa que se trava no domínio do cultural e que remete para a questão, velha de séculos, da alienação".

Este número inclui ainda um ensaio de minha autoria sobre o Teatro Praga, um texto de Carlos Fragateiro, director do Teatro Nacional D. Maria II, sobre a peça Viriato Rei, encenada por João Mota e apreentada no último Festival de Mérida, em Espanha, e um texto de Mário Costa sobre o projecto Viv'arte.

21 de Março, Dia Mundial da Poesia



tchekov anton rebocava o seu
pulmão pelos ares da crimeia
mais ou menos quando a engomadeira
de cesário passava os seus pulmões
pelo carvão do ferro


gorki vai visitá-lo palmilhá-lo e à cancela
observa-o no umbroso jardim chapéu na mão
aparando no côncavo um cambiante raio
do sol que pela folhagem trémula se infiltra


gorki retém-se vê o tostão de sol
cair no chapéu de um anton neto de servos
vê anton virar tac o chapéu e espreitar para dentro
como quem tirado o chapéu nele procurasse
a sua própria cabeça


tchekov brincava com o alheio sol
na pessoal solidão



Alexandre O'Neill, O chapéu de Tchekov


foto do espectáculo Les Histrions/ Elisabeth Carecchio

Les bloggeurs sont-ils des partenaires du spectacle vivant ?




A rede informal internacional Scénes 2.0, que reúne seis blogs de crítica de dança, 5 franceses (Clochettes, Images de danse, Tadorne, Un soir ou un autre, Danse à Montpellier), 1 belga (Da...nce) e 1 português (O Melhor Anjo), anima-se num debate sobre o que pode e não pode ser a crítica online. Pergunta-se: Les bloggeurs sont-ils des partenaires du spectacle vivant ? . A suivre ici.

terça-feira, março 20, 2007

Revista Àguas Furtadas 10 já à venda


Já está disponível para venda o nº 10 da revista Águas Furtadas, editada pelo Núcleo de Jornalismo Académico do Porto. Traduzem-se poemas de Gez Walsh, Óssip Mandelstam, Stéphane Mallarmé e William Shakespeare, e publicam-se outros de Rogério Rola e Vitor Oliveira Jorge.

O também poeta e contista Manuel António Pina escreve um belo ensaio sobre o Winnie the Pooh, e há outro ensaio, de minha autoria, sobre o lugar do espectador no teatro contemporâneo português. Traz, como sempre, um cd, desta feita com música de Ângela Ponte e Nuno Estrela.

A revista custa 12€, tem 300 páginas e está à venda na livraria Da Mariquinhas, na Rua dos Cordoeiros, ao Largo de Santo Antoninho, em Lisboa.No Porto, a revista encontra-se disponível em vários pontos: Matéria Prima, Maria vai com as outras, Poetria, Galeria Sargadelos, etc. Também pode ser encomendada por e-mail.

A revista terá uma primeira apresentação, dia 24 de Março, nos Espaços JUP (Rua Miguel Bombarda, 187), no Porto, às 16h00, no âmbito das comemorações dos 20 anos do NJAP/JU, a associação que a edita.

domingo, março 18, 2007

William Forsythe: a ambígua verdade

excerto do texto Momentos de transição publicado no programa do espectáculo Programa da Primavera, da Companhia Nacional de Bailado em cartaz até 24 Março no Teatro Camões, em Lisboa.



Numa crua análise à figura e ao percurso de William Forsythe, as autoras de La Danse au XXe Siècle [1], Isabelle Ginot e Marcelle Michel, apresentam-no como “o símbolo mais marcante de integração de uma certa modernidade no mundo clássico”. Mas não deixam de referir “que atrás das suas lentes de ferro, ele mantém um olhar frio sobre uma época de crise e decadência. Pensando-o em relação a Merce Cunningham, que persegue como que sob hipnose uma aventura com o movimento, Forsythe não tem nada de revolucionário. É sobretudo um divulgador utilizando todos os estilos, todos os procedimentos já utilizados por outros coreógrafos para descrever o estado do fim de século”.

Não nos podemos esquecer que Forsythe é contemporâneo de uma corrente artística que teve como equivalentes nas artes plásticas um Andy Warhol, na música um David Bowie e no cinema um Jean-Luc Godard. Ou seja, a reformulação como resposta ao contexto é quase genética. Há uma consciência situacional que o força a este jogo de reciclagem. E Forsythe nunca escondeu a ambição de dar à sua assinatura uma ambiguidade que lhe permitisse a reformulação estética, de forma e conteúdo, consoante os ventos soprassem. O seu percurso, de um pós-neo-clássico à manipulação das novas tecnologias e da vídeo-dança levaram a que se questionasse se era uma fraude ou o grande génio do século XX.

A dúvida permaneceu sempre e assombra o legado deste coreógrafo norte-americano, essencial para compreender a profunda crise que atravessou (e atravessa) a dança nos Estados Unidos depois de George Balanchine, Merce Cunningham e do Judson Dance Theater Group. Mas sobretudo após o advento da dança contemporânea ter deslocado para a Europa, e em particular para o eixo França-Alemanha, o epicentro das reformulações coreográficas. Forsythe inscreveu o seu nome na dança do último quartel do século XX através de um percurso onde reciclou os códigos, sabendo sempre da falibilidade do que fazia. É por isso que mais facilmente se contextualiza o seu trabalho no panorama europeu que no americano – isso mesmo provam as sucessivas encomendas e, desde 1984, a direcção do Ballet de Frankfurt, na Alemanha.

Ele diz: “Eu não sou mais herdeiro de Balanchine que ele era de Petipa. (...) Vivo no tempo da bomba atómica, da poluição e da SIDA, na época do stress, da violência e dos computadores… Sou um coreógrafo de hoje. Trabalho com o vocabulário clássico porque é o meu e me apercebi que na sua desestruturação retiramos as partes estranhas até aqui ocultadas pelo ballet. Considero o meu trabalho como uma actividade de reposicionamento”[2].

The Vertiginous Thrill of Exactitude é disso exemplo. Na peça de 1996 recordamos a resistente organicidade e a precisão suíça de um Concerto Barroco, de Balanchine (1941), mas também a necessária desmontagem contemporânea que recusa a narrativa. Mas sobretudo evita a cedência à dança moderna, vistosa e fátua. Existe, num espaço e num tempo particulares, o do momento da apresentação, como se um hiato temporal extremo ocupasse o palco. É uma elegantemente anacrónica e emocionada peça onde Forsythe leva mais longe a ideia de uma coreografia que vive de cruzamentos referenciais. Ao imprimir, apenas através da música, uma organização dos intérpretes, joga a partir de dados identificáveis regenerando-os.

Não estamos já, e apenas, no diálogo coreografia-música, no que isto pressupõe de cedências mútuas (naturalmente com a subjugação da primeira à segunda). Há um outro elemento-chave: o intérprete, agora humanizado. Forsythe explora o esforço físico (“bailarinos-atletas” chamaram certa vez aos seus intérpretes), mas integra-o na estrutura cénica. É ele o centro desta peça, e não apenas o movimento. A prova disso está na apropriação especial do último andamento da 9ª Sinfonia de Schubert. Criando de forma extraordinária um jogo coreográfico de solos, trios e duetos, ora sincopados ora sincronizados, provoca um jogo de xadrez entre os bailarinos que resulta numa estrutura cumulativa, cada vez mais vertiginosa, quase transcendente. Os intérpretes perdem-se numa espiral de movimentos intensa, noção reforçada pela necessária exactidão com que a devem dançar. Ficamos com a sensação de que poderiam continuar por horas já que a peça não tem necessariamente um princípio, meio e fim. E num tempo de indefinições como este em que vivemos não poderia haver melhor representação.


[1] Larousse, Montreal, 2002;
[2] idem
Legenda da foto: interpretação pelo Kirov Ballet/autoria: John Ross
No You tube encontram-se excertos desta peça.

sábado, março 17, 2007

Culturgest anuncia programação para os próximos meses


A estreia mundial da nova peça do coreógrafo João Fiadeiro (Para onde vai a luz quando se apaga?, 04 e 05 Maio), a vinda a Portugal dos nova-iorquinos Elevator Repair Service (Gatz, 22 a 24 Junho) e da companhia alemã Rimini Protokoll (Mnmeopark, 12 a 14 Abril), a integral dos filmes do filósofo Guy Debord, comissariada por Ricardo Matos Cabo (13 e 14 Abril) e a segunda edição da iniciativa PANOS – Palcos Novos, Ideias Novas (25 a 27 Maio) são alguns dos destaques da programação que a Culturgest apresenta entre Abril e Julho.

Cinema, debates, dança, teatro, música e exposições para vários públicos e vários gostos compõem o leque de propostas de uma programação que inclui ainda o regresso em concerto da mítica Laurie Anderson (15 Julho), um ciclo dedicado à coreógrafa Meg Stuart, em colaboração com o CCB e o Teatro Camões (03 a 13 Julho), uma retrospectiva dos filmes do taiwanês Hou Hsiao-Hsien, desenhada por Augusto M. Seabra (16 a 20 de Maio) e o ciclo de conferências/debates Pensar a Criação Contemporânea (na foto), organizado por mim e com a participação de coreógrafos e encenadores (09 a 30 Abril).

A programação contempla ainda o novo-circo, com a reposição de Contigo, criação de João Paulo Pereira dos Santos e Rui Horta (19 e 20 Julho), uma colaboração com o Festival de Almada, onde são apresentadas de duas peças, Sete contra Tebas, de Diogo Dória (10 a 15 Julho), e Anathema, com texto de José Luís Peixoto, pela companhia belga tg STAN (07 a 11 Julho) e o regresso do teatro ao ar livre pelo Teatro ao Largo (A Viúva Astuta , 29 e 30 Junho). A dança completa-se com a primeira peça infantil de Tiago Guedes (Matrioska, 05 a 11 Maio) e Hors Sujet ou le bel ici, da francesa Martine Pisani (15 e 16 Junho).

Na música apresentam-se o pianista Mário Laginha (26 Junho), num diálogo de piano, bateria e contra-baixo pensado no âmbito da Trienal de Arquitectura de Lisboa, o compositor e cantor brasileiro José Miguel Wisnik (29 Junho), a francesa Elisabeth Kontomanou (02 Junho) e os russos Coro Sirin, em mais uma iniciativa do ciclo sobre religião Os Filhos de Abraão (19 Maio).

De referir ainda as exposições dedicadas aos Prémio União Latina (13 Abril a 13 Maio) e Prémio Fidelidade Mundial Jovens Pintores (14 Abril a 13 Maio), a do colectivo esloveno Irwin e as instalações e esculturas do português Miguel Palma (ambas de 02 Junho a 02 Setembro).

quinta-feira, março 15, 2007

Festival d'Avignon apresenta nomes fortes da programação 2007


Foram apresentados na passada terça-feira os nomes fortes da programação do Festival d'Avignon 2007, a decorrer em França de 06 a 27 Julho. Os alemães Sasha Waltz e Raimund Hogue, na dança, e Frank Castorf no teatro, bem como o encenador argentino Rodrigo Garcia, o italiano Romeo Castelluci e os franceses Ariane Mnouschkine, Ludovic Lagarce e Jean-Pierre Vincent são alguns desses nomes para um festival pensado pelo encenador francês Frédéric Fisbach, artista convidado desta edição.

Com as secções paralelas a serem apresentadas apenas em Maio - nomeadamente as apostas na nova criação no programa Sujet à Vif, onde já se mostraram os portugueses Leonor Keil e João Paulo Pereira dos Santos - bem como o ciclo de leituras de jovens autores africanos, a edição 2007 do mais importante festival do Velho Continente, concentra esforços numa programação que recupere os públicos, a crítica e os profissionais que nas últimas edições tem posto em causa a função do Festival d'Avignon. Recorde-se que em 2003 o festival foi cancelado por causa das greves dos intermitentes (os profissionais do espectáculo sem contrato certo), e em 2005, em virtude de uma programação assinada por Jan Fabre, que deu à dança e aos novos diálogos entre as disciplinas o lugar de destaque no festival, usando a mítica Cour d' Honneur des Papes, se viu a braços com uma profunda crise de identidade.

A programação deste ano aponta para um consenso no cruzamento do teatro com a dança, as artes plásticas e mesmo a ópera ou as marionetas, dado o percurso de Frédéric Fisbash, um dos nomes que integra a associação Sans Cible (em francês, sem alvo, mas também sugerindo sensível) que junta vários encenadores na reflexão sobre o lugar do teatro no espaço público. É essa noção de presença num espaço partilhado que a direcção de Vincent Braudiller e Hortense Archambault, 34 e 32 anos respectivamente, deve reforçar, sobretudo depois de ter sido confirmada a renovação por mais dois anos da condução do festival.

A programação pode ser consultada no site.

Le Festival d'Avignon a présenté les noms les plus forts de l'édition 2007. Voir ici le programme

The French Festival d'Avignon has launched the first names of 2007 edition.
See the programme here

quarta-feira, março 14, 2007

Crítica na internet cria plataforma internacional de discussão



No início eram quatro blogues franceses apaixonados pelo espectáculo que não se contentavam em serem apenas consumidores: chamavam-se Clochettes, Images de danse, Tadorne, Un soir ou un autre.

Um dia encontraram-se e decidiram juntar os seus artigos com o objectivo de proporcionarem aos leitores um palmarés original, independente, desinteressado, fruto de criticas cruzadas de espectadores como eles. Chamaram-lhe Scénes 2.0 porque se reconheciam no movimento do Web 2.0 que pressupõe fazer da Internet uma rede de colaboração democrática.

O princípio do palmarés de Scénes 2.0 é simples. Abrange todas as expressões do espectáculo, dando particular destaque ao teatro e à dança contemporânea. A cada crítica publicada o blogger participante atribui ao espectáculo que acaba de ver uma nota de 0 a 6. Uma sondagem virtual está aberta para permitir aos internautas a atribuição a sua própria classificação. No fim de cada temporada a nota média dos internautas é considerada juntamente com as notas dos bloggers para a determinação do palmarés Scénes 2.0 do ano.

Mas Scénes 2.0 será sobretudo um lugar de reflexão e de projectos para que a blogosfera se possa desenvolver na paisagem mediática cultural como um espaço de comunicação entre os leitores, os artistas e as instituições. Scénes 2.0 será uma rede, uma tela de palavras, de lugares, de imagens e de emoções para que a criação cultural possa participar nos desafios do mundo global. Bela utopia!

É esta a mensagem de acolhimento de Scénes 2.0, um site novo, ainda não completamente bonito (amadores do relooking são bem-vindos), 100% manual que, esperamos, ajudará os internautas a melhor se prepararem para os espectáculos em tournée e, se o desejarem, lhes oferece, a partir de agora, uma plataforma para se exprimirem*.

É com orgulho que O Melhor Anjo é um dos blogues que faz parte do Scénes 2.0, ao lado dos franceses Clochettes, Images de danse, Tadorne, Un soir ou un autre e do belga Da…nce.

*tradução do texto francês apresentado no Scénes 2.0

Director do São Carlos despedido por carta

in Expresso


Paolo Pinamonti terá recusado continuar à frente do São Carlos. Hoje recebeu uma carta da ministra da Cultura em que ficou a saber o nome do seu sucessor: Christoph Damman o actual director da Ópera de Colónia [...] deverá receber “mais ou menos” o mesmo que Paolo Pinamonti. Mas segundo o ministério da Cultura isso é “irrelevante”. O mais importante, assegura uma fonte do Palácio da Ajuda, “é o curriculo de Christoph Dammann que é fabuloso”.

autor da notícia: Nuno Saraiva

terça-feira, março 13, 2007

André Murraças apresenta solo em sessão única


"Às vezes, quando oiço rádio às tantas da noite penso naquilo em que os locutores estarão a fazer enquanto as músicas passam. Sobretudo numa altura em que as emissões são quase todas elas computadorizadas. Em que pensam, o que comem, o que lêem, com o que é que se distraem? E se pudessem falar mais, contar mais histórias, quais é que seriam as eleitas?"

One Night Only – uma rádio-conferência
Texto, Encenação, Dispositivo Cénico e Interpretação: André Murraças
Hoje, 22h00, Teatro Maria Matos, Lisboa

segunda-feira, março 12, 2007

O Melhor Anjo candidato a Melhor Blog de Cultura 2006


Com coordenação de Lauro António, a 9ª edição do Festival Internacional de Cinema e Vídeo de Vila Nova de Famalicão, o Famafest, irá atribuir os prémios de Melhor Blog de Cinema e Melhor Blog de Cultura 2006. O Melhor Anjo é um dos candidatos à categoria Blog de Cultura, juntamente com outros 41 blogs. Os resultados sabem-se dia 16, dia de abertura do Famafest. Segundo o autor da iniciativa há um prémio ex-aequo e cinco menções honrosas
A exposição Navio de Espejos, que o Círculo de Bellas Artes de Madrid dedicou ao pintor e poeta português Mário Cesariny, esteve patente de 19 de Setembro a 19 de Novembro 2006. O seu imenso e extraordinário catátolo encontra-se disponível em pdf aqui. É gratuito, reúne entrevistas, ensaios sobre Cesariny, dedicatórias ao artista, uma antologia poética, bio e bibliografia activa, reproduções das obras pictóricas reúnidas e está em espanhol. Para português aprender. O site do CBA oferece ainda uma visita virtual à exposição. Pois.

A exposição recupera o nome do poema Navio de Espelhos que pode ser lido aqui.

na imagem: reprodução de Figuras de Sopro 3 (1947)

domingo, março 11, 2007

Moda Lisboa


Durante um fim-de-semana inteiro a moda esteve em destaque em Lisboa, na 28ª edição do Moda Lisboa, este ano organizado no Museu de História Natural. As duas fotografias que fazem este post são um apetizer para a foto-reportagem exclusiva que se publicará na OBSCENA #3, com texto do jornalista Bruno Horta e imagens do fotógrafo José Luís Neves.


de uma ponta da banheira à outra, todo um mar (grego)


Oleodoro, insuspeito cronista, regressou em boa hora ao convívio dos leitores. Molhado, como convém, ou não se referisse ele à grand baigneuse de Sasha Waltz que há uma semana nadou em Belém, achando-se em Cartágo. A ler, no Bandeira ao Vento.

News flash

A OBSCENA esteve em destaque hoje, entre as 02h e as 03h no programa Cafeína, da Rádio Universitária do Minho (97.5 FM). O programa pode ser ouvido aqui.

sexta-feira, março 09, 2007

Crítica de dança: Matrioska, de Tiago Guedes


coreografia de Tiago Guedes
Centro Cultural de Belém, Lisboa - até domingo, 11

Pensar que as peças para crianças devem partir de uma didáctica é não só redutor mas impeditivo de uma verdadeira formação intelectual. Coloca-se uma importante questão: que crianças estaremos a formar? Almada Negreiros dizia que “uma criança é apenas um adulto de olhos abertos”. Sugerir em vez de explicar pode ser a fórmula indicada, mesmo que obrigue à existência de zonas cinzentas de compreensão. A criação em dança é ainda mais particular já que nela se impõe a tomada de consciência, pela criança, de que tem um corpo. E a coreografia trabalha a compreensão de um universo por vezes apenas sensorial e abstracto.

É neste campo da descoberta que se enquadra Matrioska, primeira peça infantil de Tiago Guedes, cujo trabalho geral parte de questões e hipóteses sobre o tempo coreográfico e a procura de um lugar para o corpo. Na peça anterior, Trio (2005), explorava a noção e a presença do corpo no espaço, estendendo o gesto numa vagarosidade sedutora e hipnotizante. A instalação de uma imagem (mas também de um conceito) está presente em Matrioska, onde se ampliam dois dos eixos fundamentais do seu percurso – a relação com o tempo e o diálogo com as artes plásticas.

No que respeita ao tempo faz demorar as sequências num jogo de ilusões que vem de Um Solo (2002) e Materiais Diversos (2003), feitas para adultos mas entusiasmadamente recebidas por crianças. Um gesto arriscado porque dirigido a uma faixa etária, 6 a 10 anos, cujo grau de exigência começa a ser contaminado pela percepção que têm da velocidade que os rodeia. No diálogo com as artes plásticas, substituindo o uso de objectos casuísticos (em Um Solo biográficos, em Materiais Diversos recicláveis) por um tempo de revelações, sempre sugestivas, mesmo se desenhando uma ténue narrativa.

Nenhuma das imagens criadas pelos dois intérpretes, Inês Jacques e Pietro Romani, é mais real ou fixa que as utilizadas nas peças anteriores onde o gesto dependia de uma rede de projecções activadas pelo espectador. Aqui essa paragem no tempo interage com as sugestões feitas pelo coreógrafo que conduz a criança por diversas camadas, como a boneca russa que dá nome à peça. A voz da menina transforma-se em uivo, o seu corpo gera uma sombra que a domina, há estranhas mutações atrás de uma tela, há muitas zonas de sombra e um clima de suspense especulativo.

Matrioska é um exercício de inspirada desenvoltura em torno da fantasia, não apenas porque a menina não sabe que “coisa” é aquela que a persegue, mas também porque ela é muito menos inocente do que se apresenta. Irónica fábula negra, para a qual contribui uma imaginativa e multifacetada banda sonora de Sérgio Cruz, é absolutamente extraordinário verificar que a coerência do discurso de um dos mais relevantes nomes da nova geração da dança soube abrir o seu universo aos mais novos, cativando-os através de uma cumplicidade que só as histórias simples proporcionam. Mas mais revelador ainda é o modo como não cede nessa pesquisa, antes transformando o gesto num espaço de desafios e expectativas.






[texto publicado no jornal Público, 05 Março 2007. Fotografia: Dimitri Wazamski]

quinta-feira, março 08, 2007

CNB comemora 30 anos a partir de hoje com novo programa



Treze gestos de um corpo: vinte anos depois

Apenas a primeira das múltiplas celebrações que a Companhia Nacional de Bailado prepara para assinalar a passagem de 30 anos sobre a sua fundação – que em Abril trarão ao Teatro Camões For The Peace of Children of Today and Tomorrow, trabalho de 1999 de Pina Bausch –, o Programa Primavera reúne, já em Março, quatro coreografias de autores idiossincráticos: William Forsythe, Mauro Bigonzetti, Gagik Ismailian e Olga Roriz. Todas as peças são interpretadas pela CNB neste programa pela primeira vez, que se dançará dias 8, 9, 10, 16, 17, 18, 23 e 24 deste mês.

The Vertiginous Thrill of Exactitude, de Forsythe sobre o último andamento da Nona Sinfonia de Schubert, foi estreada pelo Frankfurt Ballet em 1996 e, escreveu a crítica Roslyn Sulcas, “reveste-se de todos os elementos tradicionais da dança clássica: tutus, sapatilhas de ponta, virtuosismo, lirismo e uma agradável formalidade na relação entre os sexos”, numa “arrebatadora demonstração de técnica clássica”.

No mesmo ano estreou Dualidade, a coreografia de Gagik Ismailian (arménio residente em Portugal, antigo primeiro bailarino do Ballet Gulbenkian), pelo Balé da Cidade de São Paulo. A peça, que Ismailian submeteu a uma recriação para a CNB, integra canções de Amália Rodrigues e de Wim Mertens e organiza o discurso coreográfico em torno da noção de dualismo de género: “confrontação e emancipação de dois sexos, um duelo, esta ideia intrigante de confrontar e deliciosamente esperar pela reacção do adversário”, define o autor.

Passo Continuo é a coreografia de Mauro Bigonzetti que a Companhia Aterballetto estreou em 2005. Com música original de Antongiulio Galeandro que consiste em improvisações sobre Johann Sebastian Bach, Passo Continuo é, para Bigonzetti, “um bailado muito corporal. Não relata nada em particular, não contém uma história, expressa apenas encontro e colisão, fusão e separação”.

Mas o destaque do programa vai para Treze Gestos de um Corpo, de Olga Roriz, cuja estreia absoluta, pelo Ballet Gulbenkian, teve lugar há precisamente 20 anos, a 27 de Março de 1987, em Lisboa (na foto). Com música de António Emiliano, luzes de Orlando Worm e cenário e figurinos de Nuno Carinhas, a criação de Roriz viria a tornar-se icónica para o trabalho do Ballet nos anos 80, dado ter marcado público, crítica e até uma geração de bailarinos (quase trinta) que interpretaram a peça nas suas numerosas reposições e digressões: dois elencos, de treze bailarinos e treze bailarinas, com figurinos indistintamente “masculinizantes”.

Treze Gestos de um Corpo parte d’A Obra ao Negro, de Marguerite Yourcenar, para se definir estruturalmente: “acontecia-lhe muitas vezes reabrir uma porta, simplesmente para se assegurar que não a tinha fechado atrás de si para sempre, demonstrando-se, a si mesmo, a sua curta liberdade de homem”. A citação remete para as treze portas de que surgem, um a um, os intérpretes, numa secção inicial que, como escreveu o crítico Clement Crisp, “se assemelha a uma imagem ondulante, pois o gesto de se levantarem e tirarem o casaco passa sucessivamente ao longo da fila de homens sentados. É um conceito fascinante que prolonga e ao mesmo tempo fragmenta a acção, tal como as fotografias analíticas do movimento de Eadweard Muybridge”.

Seguem-se os treze solos, que – assegura Roriz – “têm dinâmicas e exigências técnicas distintas”, implicando uma “cuidada distribuição de papéis”. Nesta peça “sobre o reflexo de uma pessoa em frente de dois espelhos paralelos que formam uma multiplicação de imagens até ao infinito”, a sucessão de solos evidencia que “em cada um desses espelhos a imagem não é igual, é como se em cada um houvesse uma evolução, uma transformação do movimento, uma continuação do gesto anterior”. Yourcenar dizia-o assim: “Ele enumerava as qualidades da substância que via em sonhos. A ligeireza, a impalpabilidade, a incoerência, a liberdade total em relação ao tempo, a mobilidade das formas da pessoa que faz com que cada uma sejam várias e que todas sejam reduzidas a uma”. A raiva, o medo, a angústia, a fúria, o desmaio, vivido por um homem (ou uma mulher) estilhaçado em treze corpos.

Refira-se que a CNB é a quinta companhia a interpretar Treze Gestos de um Corpo. Depois do Ballet Gulbenkian em 1987 (que a levou à cena 81 vezes), dançaram-na o brasileiro Ballet Teatro Guaíra em 1990 (então sob direcção de Carlos Trincheiras), o Ballet Nacional de Espanha em 1992 (sob direcção de Nacho Duato, que assumiu um dos solos), e, em Itália, o Maggiodanza, Ballet do Teatro Maggio Fiorentino em 1999 (sob direcção de Davide Bombana) e, em 2001, o Ballet do Teatro Alla Scala (dirigido por Frédéric Olivieri). Mehmet Balkan re-convoca-a agora a Lisboa.


[texto publicado na revista OBSCENA #2, p.24, e da responsabilidade da redacção. Fotografia: Eduardo Saraiva]

terça-feira, março 06, 2007

Dança (a três tempos) ou a poesia em forma de catarse

A páginas 48 escreve ele na sua Lápide: "Nunca tão longe/do princípio/e nunca tão perto/do fim". Pedro Carreira de Jesus, 28 anos, escreve sobre vontades de fuga e um permanente sentido de deslocação no seu primeiro livro de poesia, Dança (a três tempos), editado pela Papiro Editora.

O livro, lançado no passado dia 17 de Fevereiro é natural e assumidamente confessional porque “este corpo que diz/ é corpo de dizer, explicar, retorquir” (p.10). O autor divide o livro nesses três tempos, sons, ecos e silêncios, fechando-o com um amargurado epílogo, que dá nome à obra, onde escreve: “esquecidos os sentidos e/ esquecidas as sensações,/ tropeçámos em ruidosas acusações./ Quebrámos depois num silêncio possante,/ próximo, colossal, tenso./ Gélidos perante um universo de afectos que/não mostrámos, exaustos nos rendemos.”

É por isso que Dança (a três tempos) é um livro sobre o que nos escapa (ou lhe escapa) e essa desesperada tentativa de recuperação. Na apresentação a também autora Luísa Marinho apontava que a característica “mais presente é a existência de um tom autoconfessional, em que a visão do eu-poético perante o mundo – não o mundo de uma forma geral, mas o mundo interior, dos afectos, das relações com o Outro, com os outros que se cruzam de uma forma intensa com o eu – apresenta um certo desencanto. Mas esse não é um desencanto sem objectivos, fechado em sim mesmo. É esse desencanto à espera de uma catarse”.

Uma catarse que Pedro Carreira de Jesus espera encontrar na música, no amor, na crueldade e na resistência. Mas, prudente, vai dizendo: “enquanto gravito e/ porquanto não arrisco,/por dentro prudente crítico/ a peso de sarcasmo vigente/ o marasmo de valores/ em que acredito,/ medito vontades extremadas/ urgências autênticas esgaçadas,/ crentes dolentes/ do calado por adquirido/ e do engolido por não dito” (p.15).

Poesia de busca, poesia de incansável busca e no fim, apenas a palavra “Fim”.

segunda-feira, março 05, 2007

Para ler na OBSCENA #2


Na OBSCENA #2 o crítico francês Gérard Mayen usa o exemplo do espectáculo HELL, do coreógrafo Emio Greco, para exemplicar os caminhos para a crítica em dança: homologação ou porosa. O texto pode ser lido aqui e excertos do espectáculo podem ser visto neste clip retirado do You Tube.

domingo, março 04, 2007

Sasha Waltz – quando a coreógrafa programa



Em Setembro de 2006 Sasha Waltz inaugurou o Radial System, um novo espaço de trabalho nas margens do rio Spree, no centro de Berlim, a 200m de AlexanderPlatz, no lado Este da cidade, depois de quase cinco anos de co-programação da Schaubühne, teatro nacional por excelência, onde tinha sido, com o encenador Thomas Ostermeier, anos mais novo que ela (em ímpeto programático e fôlego artístico), responsável pela renovação de uma ideia de arte oficial.

Questões orçamentais levaram a que no fim do primeiro quinquénio os dois directores artísticos, ele no teatro e ela na dança, se digladiassem por orçamentos. Bateu com a porta (diz ela), Ostermeier ficou a tomar conta de tudo (projecto inicial do encenador, dizem os fãs dela e detractores dele).

De uma antiga refinaria, edifício brutalmente industrial, feito de tijolo e corredores largos nasceu um espaço sem auditório, salas convencionais ou outra memória artística. Só espaço forrado a paredes de betão por acabar e janelas com vista para o rio e outras fábricas. A metáfora ideal para uma cidade que se refaz a cada dia. Daí a importância de ser no lado Este, onde mais se sentem as mudanças físicas da cidade, mas também por ser do lado onde resiste a Volksbühne, símbolo de contra-cultura que hoje tem como artista residente a coreógrafa Meg Stuart, aspecto nada evidente ou consensual.

São estas duas mulheres que estão a definir (termo generalista mas provocatório) os modelos de programação de dois espaços numa cidade de tribos urbanas. Para a programação Waltz chamou cúmplices antigos, fossem eles bailarinos regulares nos seus trabalhos (Luc Dunberry, Juan Cruz Diaz de Garaio Esnaola) ou outros nomes geracionais (Helena Waldmann, Maguy Marin, Mathilde Monnier ou Anne Huber). E a maioria do público descansou quando percebeu que ia conseguir ver dança sem as metáforas radicais que caracterizavam a linguagem da Schaubühne. Seria?

O espectáculo inaugural, Dialogue System 6 deu continuidade lógica a uma série de intervenções que a coreógrafa foi fazendo em vários espaços da cidade, agora propondo um circuito pelo interior da sua nova casa. Entre o pó de cimento que ainda se soltava das paredes de betão e o verniz que cheirava a fresco do soalho das amplas salas, visons e saltos altos burgueses (bilhetes entre os 36 e os 60€) percorreram as mais de 30 breves performances que os bailarinos da Sasha Waltz & Guests e os músicos da Akademie für Alte Musik construíram. A crítica dividiu-se, o público também (apesar da maior parte ter adorado a experiência anti-formal… de pé, de pé… tão pózinho moderno), e a intervenção não passou disso mesmo: cartão de visita que depressa se esquece.

É essa a maior dificuldade que o resto do público – o que quer ter acesso à dança contemporânea – espera do trabalho de Sasha Waltz e o papel que o Radial System pode representar, visto terem o maior orçamento de Berlim, mais do que os “míseros” cinco milhões que tinha que negociar com Ostermeier. A sua programação é suficientemente lata, combinando o seu trabalho disperso por companhias de repertório, a sua própria, criadores convidados – sempre em compra, nunca em co-produção –, e música. Mas a filosofia do espaço parece responder apenas a uma janela sobre o que se passa, em vez de propor linhas orientadoras; em vez de assumir uma autoria; uma característica. E, por isso, não deixa de ser curioso notar que é a própria Sasha Waltz que não deixa de se apresentar na Schaubühne. Para uns é saudade de casa, para outros forma tentacular de marcar território.


[texto publicado no suplemento Ípsilon do jornal Público, 02 Março 2007]

Gulbenkian apresenta programação do fórum O Estado do Mundo - comentário

O mundo inteiro, ou quase


Depois de dois anos como Programador Geral do impositivo O Estado do Mundo, António Pinto Ribeiro (APR) anuncia, mais do que um programa, um “fórum cultural” – abandonando o plural “culturas” na construção de um só Mundo, multicultural. A expectativa não era pequena: o fim do Ballet Gulbenkian, Serviço ACARTE e Encontros de Música fora “justificado” na necessária reformulação imposta pelos 50 anos da Fundação. E APR vinha apontando uma crescente preocupação com o olhar do outro/sobre o outro. O discurso do pós-colonialismo e a emergência de África marcaram o final da sua presença na Culturgest, friamente recebida pela pouca reflexão e consciência crítica em Portugal.

O programador regressa agora sem retóricas atlânticas, num mundo feito de olhares periféricos, sem quotas, crítico, atento e civicamente empenhado. Consciente que é do Oriente (do Japão, de Taiwan, da Índia,…) e do bélico território do Médio-Oriente que vão chegar as questões, e as possíveis hipóteses, para pensar o Estado do Mundo. Que traz ele? Um programa preciso, exigente e comprometido, de que importa salientar a reflexão sobre o conflito entre clássico e contemporâneo, tradição e cosmopolitismo. Como o pensar e apresentar?

Recupera-se a memória do Teatro Nô (na foto), que ali não se via desde os anos 60, e sugerem-se deslocações da tradição para contextos urbanos ocidentais (Return to Sender, da alemã Helena Waldmann acerca do Irão e dos preconceitos, e Quiet Please!, da indiana Nina Rajarani, uma desconcertante inscrição da tradição indiana nas ruas da Londres multi-étnica).

A proposta exige um público que saiba dialogar, é um desafio e um risco. Trata-se uma programação sobre pessoas, para pessoas. Melhores pessoas? Talvez não. Mas certamente com menos armas para a inconsciência e a ignorância. Espectáculos como Gilgamesh 3, da palestiniana El-Hakawati Theatre Company, ou Plasticization, solo da sul-africana Nelisiwe Xaba, equacionam o eu em relação ao outro, importando uma dimensão política que vai para lá dos noticiários e dos corredores governamentais.

A aposta vai também para os que formou em anos recentes, no Programa de Criação e Criatividade Artística. Jorge Andrade, Vítor Hugo Pontes e André e. Teodósio são alguns dos escolhidos para representar a nova vaga de fundo da criação contemporânea, sem receio de classificação e pouco preocupada com o futuro. Sem razões de queixa, porque com meios. Para provar se faz sentido o discurso do apoio à nova geração de criadores. Se fizer sentido falar de uma nova geração.

Em resumo: risco e responsabilidade dividida por todos. Finalmente.


[publicado no jornal Público a 28 Fevereiro 2007]

sexta-feira, março 02, 2007

quinta-feira, março 01, 2007

Jornal de Letras dedica dossier ao crítico Carlos Porto

O Jornal de Letras, datado de 28 Fevereiro, traz um dossier especial sobre o crítico Carlos Porto. Conta com contributos dos encenadores Luís Miguel Cintra, Joaquim Benite e Jorge Listopad, dos teatrólogos Eugénia Vasques e Luís Francisco Rebello, da Presidente da Associação Portuguesa de Críticos Maria Helena Serôdio, do livreiro Ferreira Fernandes e do jornalista Acácio Barradas. É completado com uma bibliografia do ex-colaborador do Jornal de Letras, que justifica esta memoriação pelo "quase meio século de ininterrupta crítica teatral, exercida com verdadeira devoção" [...] até problemas graves de saúde o impossibilitarem, meses atrás, de continuar a sua actividade".

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

A ler hoje no Público

A Gulbenkian apresentou ontem a programação de artes performativas do Estado do Mundo, iniciativa que comemora os 50 anos da Fundação. O comentário pode ser lido hoje nas páginas do PÚBLICO.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Movimento lança petição contra a privatização do Teatro Aveirense

Já se tinha imaginado que a opção de Rui Rio ao privatizar o Rivoli abriria uma Caixa de Pandora e à primeira oportunidade essa ideia de demissão de responsabilidades seria copiada pelo resto do país. Já antes se tinha falado aqui na hipótese aventada pelo Pelouro das Finanças da Câmara Municipal de Aveiro (CMA) em privatizar o Teatro Aveirense, recuperado com dinheiro do Ministério da Cultura ao abrigo do programa da Rede de Cine-Teatros Municipais, e cuja programação é, aliás, alvo de apoio do Instituto das Artes/Delegação Regional do Centro. Agora, um grupo de interessados, aveirenses e outros, fazem correr um abaixo assinado onde denunciam que "a privatização do Teatro Aveirense servirá apenas os interesses de alguns, contribuindo drasticamente para a eliminação de toda a expressão cultural que não dê lucro, para a estigmatização das ofertas culturais em função de critérios do lucro fácil; as associações e grupos culturais de Aveiro, que não tendo vastos recursos financeiros, deixarão de ter a possibilidade de expor os seus trabalhos, perdendo um espaço para levar ao público de Aveiro, quer novas formas de expressão cultural, quer expressões artísticas que tentam preservar a memoria de um povo". E pedem à CMA "que assuma o seu papel de agente dinamizador da cultura em Aveiro, em todas as suas vertentes expressivas, utilizando para o efeito este espaço de excelência existente no concelho". Assina-se aqui.

Interview dedica-se a Dame Taylor


Pudesse o mundo caber naquele verde púrpura que lhe pinta os olhos e não valia a pena fazer-se um número especial que lhe homenageia a vida. Felizmente não cabe e eles bem se esforçam por provar o contrário. A mais do que famosa Interview dedica um número fora de série eye-popping, jaw-dropping, show-stopping à mulher mais icónica da história do cinema. Tanto que a vida dela parece ficção. Não é, como também se lê nas 250 páginas desta extraordinária carta de amor a Elisabeth Taylor. No mês em que passam vinte anos sobre o desaparecimento de Andy Warhol, o mentor da revista, a Interview, editada especialmente por Bruce Weber faz de tudo para nos dizer, em coro, YOU DID IT, GIRL!!!!!


Preço: €5,50

sábado, fevereiro 24, 2007

Projecto de Arte Digital procura participantes


(do press-release)

A PangeiArt e o The Folk Songs Project convidam à participação no projecto internacional de arte digital que se realizará em Portugal entre Março e Maio de 2007, The Folk Songs Project:Cinco Cidades. Na sequência de projectos em Nova Iorque e Manchester, o The Folk Songs Project em parceria com a PangeiArt vai implementar em Portugal o “CincoCidades”, um website com um perfil sonoro de cinco cidades portuguesas num projecto transdisciplinar com performances do Folk Songs Trio, William Parker, Guillermo E. Brown e Victor Gama. Ler mais em http://www.folksongsproject.com/

CONVITE À PARTICIPAÇÃO

Nas cinco cidades participantes, Lisboa, Torres Vedras, Porto, Braga e Guarda procuramos participantes que estejam interessados em colaborar em gravações que serao incluídas no CincoCidades. Estas gravações incluirão:

- entrevistas a transeúntes sobre as suas memórias das areas em que habitam ou trabalham;
- gravações de campo do meio ambiente local;
- gravações ao vivo de performances de todo o tipo (de fado a electrónica);

Estas gravações, depois de seleccionadas e masterizadas, farão parte de CincoCidades. Todos os participantes serao mencionados. As gravações podem ser submetidas independentemente devendo ter entre 20 segundos a 3 minutos de duração, e deverão incluír informação sobre a localização precisa onde foi realizada e uma fotografia que descreva a situação ou local.

A equipa do Folk Songs Project visitará Portugal entre 9 e 22 de Março para iniciar as gravações e estará disponível para se encontrar com os interessados que os desejem acompanhar nos trabalhos. Para nos contactar envie-nos uma mensagem breve com o título em assunto “participação no CincoCidades” para info@pangeiart.org ou se pretender em inglês para info@folksongsproject.com

A PangeiArt e o The Folk Songs Project são apoiados pela: Culturgest (Lisboa), Fundação de Serralves (Porto), Teatro Circo (Braga), Teatro Municipal da Guarda e CCC (Torres Vedras).

O Folk Songs Trio actuará em Portugal a:

10 de Maio: Culturgest
11 de Maio: Teatro Cine Torres Vedras
12 de Maio: Fundação de Serralves
16/18 de Maio: Teatro Circo, Braga
19 de Maio: Teatro Municipal da Guarda

A Marcha dos Pinguins - paródia

O Expresso distribui hoje gratuitamente A Marcha dos Imperadores, filme bonitinho e meio piegas sobre a desgraça de se ser pinguim no sul do Mundo. Eis o anúncio hilariante que o francês Canal Plus a propósito do apoio ao cinema e inspirado precisamente na saga pinguina. A frase final diz tudo: exija mais da sua televisão.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Bilhetes para peça de Pina Bausch já se encontram à venda


Foram hoje colocados à venda os bilhetes para o espectáculo For the Children of Yesterday, today and tomorrow, de Pina Bausch (na foto), que se apresentará no Teatro Camões, em Lisboa, de 05 a 08 Abril. Os bilhetes custam entre 30 e 60€ e estão à venda na bilheteira do Teatro Camões, FNAC e Ticketline. Mais informações: 21 892 34 77

Segundo número da revista OBSCENA disponível brevemente


No segundo número da OBSCENA – revista de artes performativas visita-se Nova Iorque, cidade de todas as ilusões e todas as possibilidades. A cidade é vista por diversos colaboradores, entre críticos e programadores, dramaturgos e actores que sobre ela escrevem a propósito do que lá se vai fazendo no teatro, na dança, no cinema… Num arco que vai do convencional ao experimental falamos dos espaços, nomes, espectáculos, livros, dos efeitos políticos na dramaturgia e na dificuldade em viver numa cidade que tem na Broadway o maior centro de teatro do mundo.

No mês em que se comemora o Dia Mundial do Teatro, a 27 de Março, falamos ainda do crítico, tradutor e autor Manuel João Gomes, recentemente falecido, num dossier de homenagem que recorda o seu percurso com testemunhos de quem dele foi próximo. Para além de recordarmos os anos 80 dos míticos Heróis do Mar, reflectimos sobre o passado colonialista que pesa na criação contemporânea brasileira e questionamos as opções que ainda existem para uma crítica de dança actuante.

Mas Março é muito mais do que isto. E por isso há uma carta branca especialíssima, bem como opinião, críticas, entrevistas, reportagens e antecipações.

A OBSCENA estará disponível brevemente em www.revistaobscena.com e pode ser assinada aqui. Até lá pode continuar a ler o 1º número aqui.

terça-feira, fevereiro 20, 2007

this blog is anonymous free

a partir de hoje todos os comentários aos posts deste blog passam a ter que ser assinados pelos seus autores e autorizados por mim antes da sua publicação.

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

Olga Roriz apresenta Daqui em Diante por todo o país


Daqui em Diante, a última coreografia de Olga Roriz (na foto), apresenta-se dia 24 de Fevereiro, sexta-feira, no Teatro Garcia de Resende, em Évora, e não a 06 e 07, conforme erradamente se escreveu no 1º número da revista OBSCENA, facto pelo qual pedimos desculpa aos leitores e à companhia. A peça será depois apresentada a 01 de Março em Coimbra, a 16 em Vila Real e a 31 em Viana do Castelo. Outras apresentações em Lisboa, Águeda e Lagoa, marcadas para o mês de Abril, podem ser consultadas no site da companhia.

fotografia: Rodrigo César

domingo, fevereiro 18, 2007

OBSCENA #2: preview

Die Größe Nina Hagen explica porque é que o dossier especial da OBSCENA #2 é dedicado a Nova Iorque.



Brevemente disponível em www.revistaobscena.com

sábado, fevereiro 17, 2007

Novo-circo no CCB até dia 20


de João Paulo Pereira dos Santos e Rui Horta
17 a 20 de Fevereiro de 2007
17 e 19 às 21H, dias 18 e 20 às16H


Contigo é uma criação conjunta de João Paulo Pereira dos Santos, criador e intérprete especializado no mastro chinês, e do coreógrafo Rui Horta, (...) [A peça] transforma o virtuosismo acrobático numa filigrânica teia de sequências nas quais o corpo se revolve para fixar uma coreografia que parte de um constante jogo de domínio, não da técnica do mastro chinês, não dos objectos, mas do que a partir disso se constrói. O modo como do conjunto das posições força a um olhar que não queira ver apenas esse virtuosismo técnico transforma a ténue narrativa, certamente desenhada por Rui Horta, numa busca por um lugar do corpo. É um corpo que quer uma forma, uma posição e um lugar, seja na cadeira, no mastro ou no chão. E é também um modo de pensar o conflito entre ficção e realidade. Cada gesto, cada posição (e há aqui um profundo devir clássico, quase etéreo) tem algo de semi-ficcional atendendo ao modo como João Paulo Pereira dos Santos o torna fácil. E a respiração suspensa do espectador quer ver em cada movimento um toque divino. Mais não seja porque tudo se passa num espaço inatingível. Mais perto do céu, mais perto do eu.


[texto publicado neste blog a 18 Julho 2006. Fotografias aquando da apresentação no 60º Festival d'Avignon, França, onde estreou: Christophe Raynaud de Lage ]

Crítica de dança: Quatro Canções


Quatro canções
De Inês Jacques, Hélio Santos, Ana Mira e Luís Guerra
Ciclo Canto e Dança, Teatro Camões, 14 Fevereiro, 21h
Sala cheia

O complexo de Peter Pan


Em 1996 os coreógrafos Clara Andermatt, João Fiadeiro, Vera Mantero e Paulo Ribeiro juntaram-se no Ballet Gulbenkian para criar Quatro Árias de Ópera, ideia do director Jorge Salavisa. Vivia-se um período de franca afirmação da geração da Nova Dança Portuguesa, potenciado por um contexto particular onde factores políticos, programáticos, estéticos e económicos se conjugavam, a favor ou contra, mas de brado revolucionário. A história não se repete. O revolucionário passou a obrigatório e o entendimento dessa oportunidade modificou-se.

Num contexto onde são mais as vozes individuais apressadas em assinar trabalhos que as condições de apresentação, é relevante que na constituição do Teatro Camões enquanto casa da dança o seu programador, Mark Deputter, aposte na carta branca a quatro novos nomes da dança contemporânea. Apenas uma condição: o uso de uma canção. Responderam Inês Jacques (Falling Up, na foto), Hélio Santos (Cântico dos Cânticos), Ana Mira (Três Estudos para Shihtao) e Luís Guerra (Smells Like Teen Spirit). Peças desiguais na concepção, estética, técnica e fundamentação.

Inês Jacques volta a insistir na plasticidade da imagem, suspendendo-se, e ao músico Eduardo Raon, enquanto canta sobre quedas, amores e desejos. Acusa uma dificuldade em ultrapassar o cruzamento de referências e motivações, não permitindo que a delicadeza do seu trabalho vá para lá de uma competência evidente. Hélio Santos dá o palco à convidada Sara Tavares que, enquanto canta, é instigadora de um enleio amoroso entre ele e Sarah Dillen. Apostados numa subliminar narrativa, perdem a força do movimento em frases repisadas e insuficientes. Falha de uma boa ideia, pedia mais consistência nas interpretações.

Ana Mira está, nitidamente, fora de contexto. O que apresenta, linhas assentes em eixos corporais que se desenvolvem num gesticulado imaturo e pretensioso, aponta inconsistência na transposição de uma ideia clara, a relação com a palavra. Luís Guerra é o que mais longe chega na construção de um exercício desafiador. A mítica canção dos Nirvana, repetida quatro vezes, serve-lhe para propor diferentes olhares sobre a representação: a bailarina clássica (Vânia Vaz), a drag queen (Filipe Viegas), o artista contemporâneo, vulgo terrorista (Tânia Carvalho, Luís Guerra). Não falta o humor, irrisão, delírio, despeito, a vontade em provocar, de recusar o sentido. Mas numa velocidade improvisada e auto-fágica que os leva à exaustão, cedendo à dor física e à violência infligida. O naïf exercício de puro gozo torna-se metáfora real para a sofreguidão de uma geração.

É aqui que cabe a responsabilidade de quem programa, orientando, conduzindo, limitando mesmo. Proporcionar as condições não pode significar apenas abrir as portas, com prejuízo dos resultados não estarem à altura nem do desafio nem das expectativas. A mais valia destes encontros está na experimentação e não na finitude. Porque ninguém quer ficar eternamente preso ao complexo de Peter Pan.


[texto publicado ontem no jornal Público, com o título A bailarina, a drag queen e artista contemporâneo ao som de Smells Like a Teen Spirit. Fotografia: Lois Gray]

Crítica de dança: Movimentantes, de Né Barros


Movimentantes
Coreografia de Né Barros
Teatro Carlos Alberto, Porto
09 Fevereiro 2006, 21h30
sala quase cheia


Tempo suspenso, tempo reencontrado


Depois de Olga Roriz e Rui Horta, Né Barros, coreógrafa portuense, numa retrospectiva em projecção a convite do Teatro Nacional S. João. Gesto tão mais político quanto simbólico numa cidade de onde não são as boas notícias as primeiras a chegar. Ciclo em fim de ciclos, avisa Ricardo Pais, director, oportuno ainda por acompanhar - coincidência temporal – o regresso de um outro coreógrafo portuense, por adopção, Joclécio Azevedo, que há dias estreou na Culturgest.


Né Barros, então, em estreia, filme, instalações e remontagem numa programação-homenagem onde só falha o lado teórico, tão fundamental para contextualizar a sua prática. Esse que nos ajudaria, precisamente, a compreender melhor Movimentantes, re-olhar de três peças, exo (2001), No Fly Zone (2000) e Vooum (2005), a primeira criada para o Ballet Gulbenkian, as outras para o Balleteatro, que dirige, agora organizadas como uma só, cada uma contribuindo com uma selecção de momentos. Assumidamente obra fragmentada, suspensa, deslocada, sem contexto. Nem por isso de menos interesse, porque livre. A uni-las a banda-sonora de Alexandre Soares, presente em palco, mais discreto que a força da sua música: urbana, caótica, impositiva. Uma linha que segue paralela à coreografia, independente dos seus estados de alma planos, sem clímax, sem fuga.

Esta “dança-dança”, como lhe chama, é perigosa e estimulantemente flat. Vive de princípios e fins de movimentos, intervala suspensões com fugas, organiza-se matematicamente em linhas claras. Se busca um escape, só dele sairá quando com o corpo já nada mais se puder fazer. São, enquanto dançam, reféns de uma situação por eles criada. E tão anónimos quanto aqueles captados por Daniel Blaufuks nas quatro faces de dois módulos que aparecem em No Fly Zone (na foto).

Mas os movimentos desenhados por Né Barros exigem intérpretes que compreendam a diferença entre fingimento/representação e displicência, recusando toda a execução mais ou menos mecânica e autómata. São corpos ausentes de personagens, indiferentes à narrativa, seguidores de hábitos não questionados (e mesmo inquestionáveis). E a estes corpos movimentantes falta tempo, experiência, conhecimento, razões. São executantes (executores?) sem terem noção que do subtil encadeamento dos movimentos breves – repetidos, repetitivos, insistentes –, nasce uma ideia de composição.

Do conjunto de dez intérpretes, Luís Félix, Pedro Rosa e Kanae Maezawa (esta sobretudo em No Fly Zone) são os que melhor escapam à dormência em que dançam os seus parceiros. Deslocam o corpo da abstracção e fragmentação – noções ampliadas pelo desenraizamento do original – para um lírico exercício sobre o caos citadino, o angustiante quotidiano, a circularidade do gesto.

A estrutura da peça, una, é crescente e cumulativa e desvenda micro-partículas que anunciam possíveis saídas, mas é sempre tarde quando os corpos delas se dão conta. No fim de cada sequência os corpos regressam à mesma posição da qual partiram, às vezes deformando-a, outras recusando, ou concentrando todos os movimentos num só. Apenas na terceira parte, vestidos de branco e contra as imagens de mapas da Atlântida ou gares e linhas de comboio, dançam uma qualquer morna desvirtuada. Momento de felicidade raro numa peça hipnotizante.


[texto publicado na terça-feira, 13, no jornal Público. Fotografia: João Tuna]

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Crítica de teatro: Duas Metades, de Patrícia Portela e Tiago Rodrigues



Duas Metades
De Patrícia Portela e Tiago Rodrigues
Pequeno Auditório da Culturgest, Lisboa
Terça-feira, 13 Fevereiro, 21h30
Sala a metade.

Em cena até domingo


Da estranheza dos dias


Não é novidade, foi sempre assim, que uma das características maiores da dramaturgia – na verdade a sua força motriz –, passa pela transformação do quotidiano em situações ficcionadas. Esta deslocação, que quer lançar novas interpretações sobre a rotina diária, nem sempre é bem sucedida, perdendo-se muitas das vezes os autores em paródias auto-referenciais que em nada adiantam a essa reflexão urgente: como transportar a vida para o palco sem que a ficção torne a acção irrealista.

Em cena na Culturgest até domingo o díptico Duas Metades, uma de Patrícia Portela, a outra de Tiago Rodrigues, se não responde necessariamente a esta dúvida – que assumo poder ser quixotismo pessoal –, também reconhece a importância de criar um mundo paralelo, entre a realidade e a ficção. Um mundo livre onde a questão da identidade, do autor, do texto, das personagens, dos lugares, possa ser mais relevante que qualquer outra fixação naturalista.

Nascidas no seio de um projecto algo inconsequente e mesmo facilitista, Urgências, coordenado por Tiago Rodrigues, as duas peças que agora se autonomizam, Babbot (Patrícia Portela) e Coro dos Amantes (Tiago Rodrigues) ganham a força e consistência necessárias ao afastamento de um arrazoado pós-moderno e urbano que caracterizava o conjunto das peças apresentadas no Teatro Municipal Maria Matos, Lisboa, em Junho 2006.

O texto de Patrícia Portela é de uma mundividência rara, ausente até, e bem, de alguma da complexidade e armadilhas dramatúrgicas que impediam a clareza de Flatland, a sua obra-maior. Babbot pode ser qualquer um de nós, nunca se sabe, mas é certamente resultado de um olhar crente sobre o mundo. Este homem, que busca uma casa por todo o lado, vive de trocas. Exemplo: “Sem quase sair do lugar, dei um passo e troquei o basalto por calcário, outro passo e troquei por granito, mais um passo, troquei por chumbo, um passo, troquei por ferro, outro passo e troquei por zinco que troquei por bronze, que troquei por estanho que troquei por prata que troquei por jade que troquei por marfim, que troquei por níquel que troquei por fósforo que troquei por urânio”. Construindo o seu mundo a partir das experiências que vai vivendo no mundo de todos, pelo texto passam referências reconhecíveis – do muro de Berlim à guerra, da política aos fluxos migratórios –, mas nenhuma delas suficientemente fixas para localizarem o texto e a acção. Ainda bem.

Esta narrativa, interpretada por Tiago Rodrigues num registo onde vai ganhando terreno quanto mais confortável (ou enredado) está no texto, tem a delicadeza de propor um olhar fascinado, quase ascético, sobre o que nos rodeia. Sozinho em palco, mais tarde substituído por um vídeo, dispensável, onde a viagem se materializa, o actor expande o texto, dando-lhe cor e tom. Mas tudo parte de um imaginário caro à autora, dos raros exemplos da nova geração de criadores que em poucos anos soube fundamentar o seu discurso artístico.

Coro dos Amantes, de Tiago Rodrigues, é um texto maturado e muitos pontos acima de qualquer outro registo no qual o autor também trabalha. A filigrânica estrutura narrativa, que muito deve aos não-olhares dos dois actores, Cláudia Gaiolas e Tónan Quito (na foto), encontra o tom adequado para a descrição – porque é disso que se trata – de um quotidiano angustiante. Aquele homem e aquela mulher, iguais a tantos outros, vivem a ressaca de um acidente de automóvel numa corrida contra o tempo. O tempo físico, do corpo que morre, o tempo espacial, a distância que os separa do hospital e mais tarde separa os corpos já em casa, o tempo ficcional, na projecção que fazem do filme Scarface.

A acção é contada em coro, pois, ele e ela dando os dois lados da mesma história, por vezes encontrando-se, outras afastando-se. Sem nunca quererem ver o lado do outro, mas desesperadamente empenhados em convence-lo a dar o passo da reconciliação. Os dois amantes, sem nome, marido e mulher, seguem apáticos, ultrapassados, ausentes numa vida pouco relevante, igual a tantas outras, entre as “pequenas coisas sem importância, a ver os noticiários, a ler os jornais, a tomar cafés, a enviar facturas, a escrever mails, a falar ao telefone, a agrafar papéis, a tocar às campainhas, a bater às portas”. Ao ter desenvolvido a história para lá do ponto onde antes a tinha deixado, à porta do hospital, Tiago Rodrigues encerra as personagens num quotidiano claustrofóbico. O momento em que esperam por que o chá aqueça, de silêncio longo e tão reconhecível é o espaço ideal para compreender o não-retorno em que se encontram.

E se Babbot chegou a casa – chegou? Ele diz: “Enquanto pensava que o tempo se calhar é o maior país, um país que sobrevoa todos os outros, acumulando todos os estados anteriores de terra e deixando cair reminiscências dos lugares onde não tinham estado antes, apeteceu-me concluir. E como uma conclusão não é mais do que uma parte de um silogismo, nunca mais cheguei a casa; mas passei a dormir descansado”. Bom, pelo menos a um sítio onde pode dormir descansado, mais ou menos casa, mais ou menos seu –, os amantes corais ainda andam à deriva. Uma deriva que também é a casa, porque é o que de mais familiar têm.

Duas Metades, afinal da mesma moeda, completam-se sem perderem força, autonomia e identidade. E o espectáculo segue ligeiro, como os dias. Sem mais.


Fotografia de Magda Bizzarro

Vera Mantero apresenta-se na Guarda


Até que deus é destruído pelo extremo exercício da beleza
de Vera Mantero & guests
Teatro Municipal da Guarda
hoje às 21h30



Há corpos compostos por palavras que se transformam em sons que lembram imagens. Há um intrincado discurso sobre a presença do intérprete em palco, o modo como os processos criativos transformam as peças, as expectativas de quem cria, e sobretudo de quem vê, e a inscrição do movimento numa sociedade de hiper-exposição e degenerado consumo. A singular peça de Vera Mantero é um dos pontos mais altos de um percurso que repensa, em vez de recusar, as definições. Os corpos, de aparente imobilidade, embalam-nos numa polémica reflexão sobre a dança, deixando-nos angustiados pela coerência em que se apresentam. [texto publicado no suplemento Y, 29 Dezembro 2006]

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Associação de Críticos de Teatro anuncia distinções de 2006


Foram hoje anunciados à imprensa os Prémios da Crítica atribuídos pela Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. O júri, composto por Maria Helena Serôdio (directora da Sinais de Cena), Ana Pais (Sol), João Carneiro (Expresso), Rui Pina Coelho e Jorge Louraço Figueira (ambos do Público), distinguiram as interpretações de Maria João Luís e João Lagarto com o Prémio da Crítica. Os dois actores foram distinguidos pelo seu trabalho, respectivamente, em Stabat Mater (Artistas Unidos) e Começar a Acabar (Teatro Nacional D. Maria II, Teatro do Bolhão e Os Crónicos).

Do trabalho da primeira, encenada por Jorge Silva Melo, os membros do júri ressalvam a raridade da oportunidade em "alguém nos proporcionar uma experiência tão emocionante; (...) Maria João Luís, com o seu trabalho em Stabat Mater, "com meia dúzia de bancos e quase sem sair do mesmo lugar, consegue isto, e consegue que quem a viu e ouviu nunca mais a possa esquecer. De João Lagarto, que também encenou, salientam "o solo tragicómico, vibrátil e intenso, em que revelou uma vasta gama de recursos expressivos e uma apurada leitura do universo beckettiano. Dominando com mestria as margens e o âmago da dramaturgia de Beckett – e dando corpo e voz à sua inteligente e coesa leitura – Lagarto respondeu habilmente ao desafio maior que este texto colocava: intuir nas figuras da narrativa deste particular autor irlandês uma exigência de teatralidade e de figuração cénica".

O júri atribui ainda três menções honrosas. Uma à dramaturgia de Trilogia Flatand, de Patrícia Portela, pela "excepcionalidade desta obra deriva[r] de uma aguda consciência dos sentidos que se podem gerar na relação entre os materiais cénicos do espectáculo, a que se alia ainda uma brilhante capacidade de jogar com um imaginário sensível e fascinante, a partir de uma atitude crítica relativamente ao mundo contemporâneo". Outra a Fernando Mota pela música e espaço sonoro do espectáculo Por de trás dos montes, do Teatro Meridional, "que condensam e reconstituem as paisagens sensoriais do nordeste transmontano de forma bela e singular, e em plena cumplicidade" o espectáculo encenado por Miguel Seabra. E ainda ao encenador João Mota pela concepção cénica do espectáculo Todos os que caem, na Comuna, que "recriava, com uma curiosa plasticidade inventiva, o universo de Beckett, jogando de forma viva com o imaginário radiofónico – os seus signos materiais e o seu simbolismo – e arquitectando uma atmosfera de realismo sonâmbulo em que, à fantasia de uma ruralidade imaginada, se aliava um humaníssimo grotesco".