segunda-feira, abril 30, 2007

Pensar a Criação Contemporânea: Identidade


Pensar a criação contemporânea
ciclo de conferências por Tiago Bartolomeu Costa
Pequeno Auditório da Culturgest, hoje, 18h30
com Fernanda Lapa e Miguel Pereira

Terão desaparecido as fronteiras das disciplinas artísticas ou, simplesmente, elas nunca foram estanques? Num percurso em torno da problemática da identidade, convocam-se políticas culturais e artísticas, mas também temas como a biografia, o género e o lugar de cada um, e de cada função, na hierarquia cénica.

sábado, abril 28, 2007

Ministra da Cultura proíbe manifestação no Teatro Camões



O chefe de gabinete do Secretário de Estado da Cultura (SEC) fez saber, hoje ao início da tarde, que a Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, não autorizava a manifestação programada pelos bailarinos da Companhia Nacional de Bailado para amanhã, no Teatro Camões, durante a IV Gala Internacional de Bailado.

Num comunicado lançado ontem ao fim da tarde – e que o jornal Expresso dava conta –, a Comissão de Trabalhadores da CNB anunciava que se ia manifestar contra a lei do artista, uma vez que o documento “levanta dúvidas e preocupações” aos bailarinos. Em causa estão os regimes de contratação e a conversão de carreiras que sofrem drásticas alterações, nomeadamente a caducidade de um contrato caso o bailarino se recuse a aceitar as novas funções.

Em reuniões com o Secretário de Estado, mantidas entre Novembro e Março, a Comissão de Trabalhadores foi alertando a tutela para a omissão de especificidades relativas aos casos dos bailarinos, mas a única resposta que obtiveram da parte do SEC foi, precisamente, que a lei não se aplicava à CNB, que teria direito a legislação própria. Contudo, os bailarinos são claros: “em nenhum local deste documento se salvaguarda esta afirmação”.

Os bailarinos tencionavam recolher 5 mil assinaturas para um abaixo-assinado que entregariam na Assembleia da República, tendo ainda previsto a inclusão no programa de sala de um manifesto com algumas das reivindicações, bem como uma comunicação ao público. Agora, a Ministra da Cultura veio informar que qualquer acção, a ocorrer, só poderá ser feita no exterior do teatro. Nem a Ministra nem o Secretário de Estado estarão presentes, amanhã, numa gala que reúne bailarinos da CNB, do Royal Ballet School, e também a coreógrafa Olga Roriz para celebrar o Dia Mundial da Dança. Apenas o SEC disse que se faria representar por um membro do seu gabinete.

Foto: José Luís Neves

OBSCENA #4


Pina Bausch, Bob Wilson, Bill T. Jones, Romeo Castelluci, David Lynch, João Tabarra, Kurt Vonnegut, Luciana Fina, Mickael de Oliveira, Luísa Mesquita, Franz Anton Cramer, Helmut Ploebst, André Lepecki, Martin Nachbar...


A declaração de Diversidade Cultural da Unesco, o relatório sobre o Ensino Artístico em Portugal, o teatro que chega do Brasil, o desejo pelo corpo na pornografia e na dança...


Críticas, opinião, entrevistas, reportagem, ensaio...

OBSCENA #4 - brevemente


Secretário de Estado substitui direcção da CNB



Na passada terça-feira, 24 de Abril, uma semana antes do término da sua comissão de serviço e dois dias antes da publicação em Diário da República da lei orgânica da OPART que juntará a Companhia Nacional de Bailado (CNB) ao Teatro Nacional de São Carlos (TNSC), Ana Pereira Caldas, directora da CNB , foi informada pelo Secretário de Estado da Cultura (SEC), Mário Vieira de Carvalho, de que não lhe seria renovado o convite para o cargo que ocupava desde 2000.

Pereira Caldas, que se manifestara, no passado mês de Dezembro, e em reunião com o SEC, contrária à ideia de juntar a CNB com o TNSC, medida anunciada como parte do PRACE, o programa de reestruturação do governo, e comummente designada por OPART, precisamente por desconhecer o modelo de funcionamento dessa supra-estrutura, viu assim confirmada a intenção de se avançar para um modelo que levantou dúvidas a vários sectores.

Nesse encontro, sem a presença da Ministra da Cultura - que se limitou a confirmar, no dia seguinte, a decisão -, ou qualquer outra testemunha, sem mais adiantar, para além de não terem sido dadas outras explicações para lá da divergência de posições relativamente à OPART, o SEC também não deu a entender por quanto tempo mais seriam requisitados os serviços de Ana Pereira Caldas à frente da CNB, já que a lei a obriga a permanecer no cargo até à nomeação dos novos corpos dirigentes. No caso, e já de acordo com a estrutura da OPART, um director artístico, com funções não executivas, que representará a CNB junto da administração. Se, no TNSC, o SEC nomeou Carlos Vargas, sub-director de Paolo Pinamontti, como director-interino até à entrada de Christopher Dammann, prevista para 2008, na CNB, e juntamente com Ana Pereira Caldas, continua em funções, sem que tenha sido informado de decisão contrária à sua permanência, Nuno Pólvora, sub-director, em acumulação com o cargo de vogal da direcção do TNSC.

Ana Pereira Caldas informou ontem, numa reunião à hora de almoço, os trabalhadores da CNB da decisão do SEC, dia em que também se ficou a saber que Mehmet Balkan, director artístico da CNB desde 2004, foi dispensado, em encontro, com o SEC, ao fim da tarde. Tanto um como outro tinham já afirmado, junto de várias fontes, não terem vontade de permanecer em funções para além daquilo que os contratos obrigam. No caso de Ana Pereira Caldas porque todo o processo de reestruturação da CNB foi feito à margem, e sem conhecimento das casas.

Com a saída da directora da CNB, e conforme declarações publicadas no número passado da revista OBSCENA, Mark Deputter, programador do Teatro Camões, irá também abandonar o cargo que desde 2006 o liga ao teatro da dança. Para Deputter trata-se de “uma questão de lealdade e deontologia” para com a direcção que o contratou. Mas a sua decisão pode também ser lida como uma resposta à falta de diálogo com o SEC que continua sem dar garantias de concretização da programação após Julho deste ano. Mário Vieira de Carvalho justificou a decisão pela entrada em funções da OPART, remetendo assim a discussão e decisão orçamental para a nova direcção.

Apesar das, nas declarações de hoje ao jornal Público, o SEC garantir que a CNB irá manter a independência artística e financeira, bem como a utilização dos dois espaços que lhe são afectos, sede na Rua Victor Cordon, ao Chiado, e Teatro Camões, no Parque das Nações, sabe-se que o SEC tem a intenção de transferir para o edifício do Chiado o futuro Estúdio de Ópera, estrutura desejada e prevista na reformulação da orgânica do TNSC. Isso mesmo se supõe depois das visitas que o SEC fez às instalações da CNB, conforme contou Mark Deputter nessa entrevista à OBSCENA.

A decisão do SEC poderia ser fundamentada pelo facto do edifício pertencer ao TNSC, situação que permaneceu desde o tempo da primeira fusão das duas entidades, na década de 80. Mas desde a separação que a CNB tinha total controlo sobre o edifício, por decisão do proprietário, a Câmara Municipal de Lisboa. O que a levou a ter margem para ceder o espaço, por diversas vezes, a companhias independentes, como as de Olga Roriz e Rui Lopes Graça. Uma vez que essa era uma situação dependente de um acordo não-formal, a direcção da CNB e a vereação da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, assinaram ontem um protocolo de cedência efectiva do edifício, com aplicação imediata.

Ana Pereira Caldas vai agora solicitar ao SEC uma definição clara daquilo que a tutela entende por gestão corrente, uma vez que os vários actos administrativos – nomeadamente a assinatura de contratos e aquisição de serviços para as próximas peças –, ficam condicionados, não devendo, ou não podendo, comprometer a nova direcção. Sabe-se apenas, e apesar de não existirem ainda nomes, que os directores artísticos das duas casas não terão funções executivas e que terão que dialogar com gestores financeiros e culturais, justificados pela necessidade de “optimizar a prestação do serviço público”, esclareceu o SEC ao Público.

De notar ainda que o mecenas da CNB, a EDP, não foi informado desta decisão, e que o seu contributo para o orçamento da casa tem sido o garante de um equilíbrio financeiro, mesmo que precário.

foto: José Luís Neves

sexta-feira, abril 27, 2007

Dramaturgias europeias: o fim de uma era?

A notícia que se segue veio ontem publicada no jornal alemão Süddeutsche Zeitung:

A era do sangue e esperma acabou


"German theatre is a pigsty where the people spend their time puking, pissing and drooling. Or at least that's what last year's debate about 'blood and sperm' theatre would have had us believe," comments Christine Dössel, theatre critic and juror at this year's Theatertreffen in Berlin. "If you believe reports, our theatre is home to barbarous, berserk directors living out their perverse obsessions and bathing their actor-minions in blood, shit and sperm, and where defenceless critics have their notepads torn from their hands (more here). But even at the time this alarmism was nothing more than threadbare. And one look at the plays selected for this year's Theatertreffen, which starts on May 5, shows it's a thing of the past. What's all this talk of a 'theatre of disgust' (Ekeltheater)? 'Theatre of luxury' (Edeltheater) would be the better term for the unmistakable tendency to glamour, entertainment and elegance reflected in the ten most 'noteworthy' theatrical productions selected this year."


Será mesmo? Eis um excerto do ensaio que apresentei na passada segunda-feira, 23 de Abril, no âmbito do ciclo de conferências Pensar a Criação Contemporânea.


"Hoje, aquilo a que assistimos nos palcos reclama uma autonomia da realidade, que pode conduzir a representações viscerais da sociedade, em peças que provocam epidérmicas reacções de repúdio, como a textos que esventram o cânone dramático. Pelo meio, as pessoas tendem a dizer que não se reconhecem na decadência social e moral mostrada pela dramaturgia. Mas não será que, simplesmente, não a querem ver?

É nessa linha de conflito que têm seguido várias correntes dramatúrgicas de origem europeia, em particular, porque mais relevante e influente, a inglesa in yer face theatre (ou, o teatro atirado à tua cara, que em português traduziríamos por “teatro-murro-no-estômago”), –, mas também uma outra, no eixo Alemanha-Áustria-Polónia chamada, convenientemente, blood and sperm (sangue e esperma), de características semelhantes. Trabalhos que têm demonstrado um mundo negro, deprimido, sem salvação, ansioso pelo apocalipse ou a comportar-se como se estivéssemos já no interior desse apocalipse. Mas não estaremos mesmo?

Nomes como os dos autores e encenadores Mark Ravenhill, Sarah Kane, Martin Crimp, David Harrower, Conor McPherson, Mark O’Rowe ou Max Stanfford-Clark e companhias como a Plaines Plough e a Out of Joint vêm insistindo em dramatizar a miséria humana, o abuso sexual, o alcoolismo, a droga, o consumismo, a acção política mas também um desprezo enorme pela intervenção cívica, o uso do vernáculo e o retrato da violência física, a sexualidade explícita, os confrontos ideológicos, o falhanço do poderio masculino e, por consequência, a impotência e a falência do homem como referência moral, a vitimização permanente e a descrença absoluta. Chamam-lhe zeitgeist, ou “o espírito do tempo”. O que me leva a perguntar: que mundo estaremos nós a produzir para que o teatro nos devolva um reflexo tão negro? Mas não terá sido sempre assim, desde os gregos?

Uma crítica búlgara, Kalina Stefanova, acha que não; e é peremptória: “o que se encontra por detrás da Nova Dramaturgia Europeia é uma máquina de marketing que trabalha na perfeição (posta a funcionar precisamente por aqueles que de outro modo demonstraram desprezo pelo comercial!). A tendência elimina as últimas regras existentes de propriedade em palco, provocando desse modo um interesse despertado pelo sensacionalismo garantido. Por fim, é exactamente a demagogia política e estética que desimpede o caminho para decretar a tendência (quem estiver “contra” é “conservador e de direita”!)”.

Jorge Silva Melo, um encenador e dramaturgo baudeleriano, escreveu recentemente, num artigo no jornal Público, uma espécie de resposta. Referiu a inutilidade daquilo que se ensina à “mestrada crítica, militantemente iletrada”, fazendo crer que se trata de um problema de académicos e teóricos. Passará a solução, então, por uma reformulação dos clássicos? Ainda Silva Melo, citado num outro artigo: “para se chegar a um determinado estatuto, é preciso encenar Shakespeare”. Que é “como pôr uma gravata”. Um clássico é um clássico é um clássico. De facto. Funciona sempre, com maior ou menor aproximação à realidade. Usando Shakespeare como exemplo, e nas palavras de Maria Helena Serôdio, hoje “há um tipo de vida que, de repente, torna contemporâneas algumas coisas atrozes das peças de Shakespeare, que pareciam inverosímeis”. Ponto. Os valores, a honra, a violência, surgem-nos hoje como quase justificados pelo estado actual das coisas – e o teatro contemporâneo o que haveria de mostrar? O in yer face theatre é, afinal, a tragédia grega dos tempos modernos, é o teatro isabelino dos dias de hoje, é a angústia beckettiana do século XXI. Falta saber durante quanto tempo continuará esse teatro radical a ser representado…

O problema de Shakespeare ou dos textos gregos não é a sua validade e pertinência, mas uma impossibilidade prática: mais facilmente recusamos esses autores, porque nos exigem uma reflexão mais distante e abstracta, que abraçamos os contemporâneos. Mesmo se não lhes damos o benefício da dúvida. Nas peças do in yer face theatre, cuja qualidade é aliás bastante irregular, podemos achar que aquela representação do mundo parece caricatural; mas é-nos fácil aceitar que a sociedade em que vivemos, no essencial e no superficial, é assim. Já Shakespeare e os gregos pedem-nos que concebamos a vida enquanto percurso moralizador, coisa para a qual, convenhamos, não há tempo.

É possível definir o trabalho daqueles autores como parte de uma tendência no contexto cultural Europeu, especialmente depois de Hans Thies Lehmann ter chamado a todas estas movimentações “o teatro pós-dramático”, onde o drama habitual e “antigo” foi substituído por reformulações cénicas, que concebem um espectáculo onde coexistem dramaturgia, interpretação, encenação, as várias disciplinas artísticas, mas também, e sobretudo, uma projecção directa daquilo que são as referências dos espectadores – não necessariamente as dos autores. Nesse sentido, este tipo de teatro já não invoca uma moral generalizada, mas reclama acima de tudo um discurso pessoal. E, se se dirigem a cada um dos espectadores, chegando-lhes de diversas formas, não partem de certezas dos autores, mas de dúvidas que querem ser partilhadas."

Imagem: Shopping & Fucking, de Mark Ravenhill, encenação de Thomas Ostermeier

é (d)a Primavera



Pina Bausch, The Rite of Spring, 1975





Pina Bausch fala do seu percurso na próxima OBSCENA, em breve disponível.

quinta-feira, abril 26, 2007

Hoje no IndieLisboa: Tsai Ming-Liang e John Cameron Mitchell

I don’t want to sleep alone
de Tsai Ming-Liang
Forum Lisboa, 19h00



"Tsai Ming-liang, um dos mais conceituados realizadores de Taiwan, filmou este que é o seu último filme na Malásia, país onde estão as suas origens. Rodado em diversos locais de Kuala Lumpur, a história centra-se nas divisões étnicas que existem naquela sociedade. A lembrar um pouco a história do “bom samaritano”, a personagem principal é um emigrante do Bangladesh, que vive miseravelmente mas mesmo assim compadece-se de um chinês que foi espancado e abandonado no meio da rua, e cuida dele. Quando este está praticamente recuperado conhece uma empregada de mesa, e a sua relação com o homem que cuidou dele vai ser posta à prova... Uma história sombria e carregada de desejos perversos que, apesar da sua quase dantesca abordagem, tem como base e fio condutor a emigração e a segregação a que os imigrantes estão sujeitos."


Shortbus
de John Cameron Mitchell
São Jorge, sala 1, 21h45



"SHORTBUS dá-nos a conhecer a vida de várias personagens com algo em comum: uma vida emocional e sexual insatisfatória. Uma viagem, ao mesmo tempo trágica e cómica, pelos meandros de um bar especial. Uma terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo, uma dominadora que não consegue manter relacionamentos, um casal gay que tenta decidir se deve ou não manter uma relação mais liberal, e as pessoas que entram e saem nas suas vidas. John Cameron Mitchell junta-os a todos numa festa semanal chamada Shortbus, uma louca mistura de arte, música, política e de diversos desejos e fantasias sexuais. SHORTBUS acontece numa Nova Iorque pós 11 de Setembro, onde os ritmos se aceleram a cada segundo que passa. Um filme que aborda, com uma estonteante frontalidade, as novas formas de conciliar o racional com os prazeres da carne e as necessidades imperativas do coração. Uma interessante e franca abordagem à psique humana das novas gerações, no contexto das grandes cidades."

quarta-feira, abril 25, 2007

Crítica de teatro: Variação sobre a Última carta de Krapp

Variação sobre a Última carta de Krapp
de Mónica Calle
Casa Conveniente, Lisboa
até 19 de Maio


Silêncio

Primeiro ela apaga as luzes, deixando apenas uma, suspensa, onde se expõe. Depois olha para lado nenhum, silenciosa. Parece querer ir falar mas não lhe sai som algum. Ou apenas o ar. A seguir vai à procura de qualquer coisa. Há bananas plantadas nas vigas do tecto. Mas da boca dela não se ouve qualquer som. Da rua sim, da rua ouvem-se todos os sons. E lá de baixo, da cave também. Angustiante início este, o de Krapp.

Krapp é Mónica Calle, que assim regressa, finalmente, à casa que é sua, a Conveniente, no Cais do Sodré. Variação sobre a Última carta de Krapp marca o regresso a um território indefinido que é aquele, arriscado, onde Calle gosta de estar: a verdade do acto teatral. Krapp devia ser um homem; devia ser um homem velho; devia ser um homem velho e louco; devia ser um homem velho, louco e angustiado. Calle faz mais. Dá ao Krapp, de Beckett, a distância necessária para o tornar paradigma de todas as crises. Como a dela, afastada da encenação desde Julietas – cartas a um amor fragmentário, projecto de decomposição dramatúrgica. Como este, mas agora a solo, como sempre esteve, perto do sublime. Vemo-la sozinha, em frente a nós, despojada e religiosamente pronta para a cruz, tal como antes em A Virgem Doida (1992) e Rua de Sentido Único (2001). Há qualquer coisa no corpo, na voz, no olhar e na presença de Calle que torna difícil vê-la. Aquela entrega fere. Aquele olhar magoa. Aquela voz incomoda. Pode ser do local, antro maldito, zona de perdição. Pode ser que seja o Cais do Sodré a marcar-lhe o discurso, descrente e cru. Pode ser. Mas não é só. Se fosse só o lugar há muito que havia nisto uma fórmula. Foi para recusar a fórmula que ela parou, dois anos.

E, depois, fala. Krapp e Calle. Mas que diz ela? Bobine cinco? Debaixo do chão de tijolos há um alçapão, dentro do alçapão há caixas, nas caixas bobines, nas bobines nada. Devia estar lá uma voz, a dela, a de Krapp, a contar-lhe como havia sido. A fazê-la lembrar o que já aconteceu. A contar-nos porque é que ela chegou àquele ponto: mas das bobines não sai nada. Nada. É lá de fora que vêm os sons todos. Música, gritos, buzinas, preços de cerveja e sexo. E ela ali, à procura das palavras certas que lhe deveriam explicar como chegou ao estado a que chegou.

Esta é, como se percebeu, uma peça feita de silêncios. E sendo a partir de uma peça de palavras, que procuram restituir a memória, Calle radicaliza o gesto. Mais do que se procurar (ou de procurar Krapp) nas memórias, busca-o naquele espaço anacronicamente vivo, escuro e rude. Como se só ali, naquele inferno silencioso, fosse possível encontrar as razões para tal descontrolo. Sujeita o corpo ao espaço, a dramaturgia ao momento, a acção à espera. Torna, à nossa frente e sem rede, viva a vida de Krapp, forçosamente silenciosa, porque já tudo foi dito. Não se espere da peça a ordem, a regra, a lógica. Busque-se antes um percurso interior, de memória e reflexão. Krapp, de Beckett, ali, pobre e miserável clown, enfrentando o silêncio, o vazio, o desaparecimento de si, no nada que sai da bobine. Krapp, Calle, nós. Será que alguém podia gritar?

terça-feira, abril 24, 2007

Peeping me em Marselha

A performance-instalação peeping me, de Paulo Guerreiro, que O Melhor Anjo apresentou em estreia nacional no âmbito do seu 3º aniversário, no passado mês de Setembro, estreia esta semana em Marselha, numa versão revista e ampliada, no espaço La Compagnie. O jornal La Marseillaise já viu e criticou aqui.

Um excerto do texto de Denis Bonneville: "Um espelho de Alice e uma frustração permanente vão reinverter os papéis, até à passagem para uma outra dimensão, onde as relações voyeurismo/exibicionismo e exposto/escondido vão novamente inverter-se, numa mise-en-abîme cíclica que não é forçosamente aquela na qual cremos. Lúdico e sexy (sobretudo no seu epílogo epicuriano, com o regresso aos vermelhos), a proposta sublinha todo um fluxo de sentimentos contrastantes, entre sensualidades e perversões, que colocam à prova todos os sentidos – ver, tocar, olhar, até ao odor e ao gosto – amputando-os um a um, e fazendo apelo a uma inocência que não julgávamos possível perder-se no fluxo artístico-comercial-mediático dos porno-soft e porno-chiq… Uma inocência, e mesmo uma virgindade, já que não poderemos viver peeping me uma segunda vez tendo o mesmo olhar sobre a ‘coisa’”.

Hoje no IndieLisboa: The Pervert's guide to cinema


Cinema Londres, sala 1, 15h45


O que pode a psicanálise dizer-nos sobre o cinema? Esta é a pergunta a que THE PERVERT´S GUIDE TO CINEMA se propõe responder. O filme conduz o espectador através de uma estimulante viagem por alguns dos maiores filmes de sempre. O guia e apresentador é Slavoj Zizek, o carismático filósofo e psicanalista esloveno. Na sua apaixonada abordagem ao pensamento, vasculha a linguagem escondida do cinema, revelando o que os filmes podem dizer-nos sobre nós próprios. Seja destrinçando os enigmáticos filmes de David Lynch, ou deitando por terra tudo o que se pensava saber sobre Hitchcock. O filme estrutura-se a partir do próprio mundo dos filmes que discute; filmado em ambientes originais ou em réplicas dos cenários, cria-se a ilusão que Zizek fala a partir do interior dos próprios filmes. “The Birds” e “Psycho”, de Hitchcock são abordados por Zizek, considerando que aquele realizador é, provavelmente, o mais freudiano de todos. Prestem atenção à comparação que Zizek faz entre os três andares da assustadora mansão de Norman Bates (“Psycho”) e o conceito freudiano de Id, Ego e Superego. O psicanalista esloveno expõe os seus argumentos de forma tão natural e convincente e ao mesmo tempo tão rápida, que a nossa mente começa a girar vertiginosamente. Uma viagem imperdível.


Eis dois excertos do documentário encontrados no You Tube:




segunda-feira, abril 23, 2007

Pensar a Criação Contemporânea: Texto


Pensar a criação contemporânea
ciclo de conferências por Tiago Bartolomeu Costa
com Pedro Penim e Tânia Carvalho


Que lugar para o texto num espectáculo? Que uso se dá, hoje, ao texto e à palavra? E de que modo estão as dramaturgias contemporâneas a (re)tratar a sociedade? Num percurso feito de nomes e textos, mas também, de recusas e novas abordagens, falar-se-á da importância da dramaturgia, da morte do autor, dos desequilíbrios na hierarquia cénica e das relações entre teatro, dança e texto.

sábado, abril 21, 2007

Hoje no IndieLisboa: V.O

V. O. de William E. Jones, Cinema São Jorge, 18h45




V.O. combina imagens de filmes pornográficos homossexuais produzidos antes de 1985 com os diálogos de grandes clássicos da história do cinema, tais como "La Chienne" de Jean Renoir, "Los Olvidados" de Luis Buñuel, "Society of Spectacle" de Guy Debord e "Amor de Perdição” de Manoel de Oliveira. As colisões resultantes – por vezes cómicas, normalmente melancólicas – prestam tributo a uma época passada, não apenas da vida "gay", mas também da cinefilia.

sexta-feira, abril 20, 2007

Hoje no IndieLisboa: Destricted







Eles são sete, tantos quantas as curta-metragens que constroem Destricted, o filme. "O resultado é uma colecção de argumentos estimulantes e provocadores, livres de censura, com humor e apelo sexual", assinados por Marina Abramovic, Gaspar Noé, Matthew Barney, Larry Clark, Sam Taylor-Wood, Marco Brambilla e Richard Prince. Hoje, às 22h15, no Fórum Lisboa, no âmbito do IndieLisboa.

quarta-feira, abril 18, 2007

Os blogs de...

... José Mário Silva, Francisco Frazão, Luís Miguel Oliveira e Pedro Vieira já deviam ter sido adicionados há muito na lista da direita. Fica o lembrete to the self.

Castelluci apresenta-se na Bélgica

O mais recente espectáculo do italiano Romeo Castelluci, Hey Girl!, é apresentado no deSingel, em Antuérpia, Bélgica, de hoje até dia 21 de Abril. A análise que fiz ao espectáculo, desenvolvendo a crítica publicada neste blog aquando da estreia em Paris no passado mês de Novembro, pode ser lida aqui, em flamengo, na edição electrónica da revista Rekto:Verso. A versão portuguesa deste texto será publicada no próximo número da revista OBSCENA, a sair no fim deste mês.

Workshop de Teatro de Sombras em Lisboa


Richard Bradshaw, mestre na arte de fazer teatro de sombras, dará um workshop em Maio organizado pela Tarumba, a estrutura responsável pelo Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas. “Richard Bradshaw utiliza as sombras e o seu grande génio para enamorar o público com as suas imagens. As suas marionetas são criaturas simples e delicadas, capazes de múltiplas transformações que ajudam a criar um mundo cheio de ilusões num pequeno ecrã. Os seus espectáculos a solo com mais de uma centena de marionetas, demonstram todas as suas técnicas especiais.” Bradshaw era considerado por Jim Henson, o criador dos Muppets, um mestre, dada “originalidade de alto nível, de tal forma, que lhe dedicou um dos programas da série On Puppetry World dedicada à arte mundial das marionetas” e apresentado pelo não menos famoso Cocas. A inscrição no workshop pode ser feita através do telefone (212 427 621 91 428 8136) ou e-mail nfo@tarumba.org até 2 de Maio.

Brevemente (II)


Brevemente (I)

domingo, abril 15, 2007

Pensar a Criação Contemporânea: Espaço


Pensar a Criação Contemporânea
ciclo de conferências por Tiago Bartolomeu Costa
09, 16, 23 e 30 de Abril 07
Pequeno Auditório da Culturgest, 18h30
Entrada Livre (mediante os lugares disponíveis)

Amanhã, 16 de Abril: Espaço
com a presença da coreógrafa e programadora Madalena Vitorino e a actriz e encenadora Mónica Calle


A inscrição de um espaço e de um tempo, físico e social, próprios colocam desafios particulares a espectáculos que radicalizam o modo como os olhamos. As noções de pertença e identificação modificam-se quando assistimos a um espectáculo que não decorra numa sala convencional. Por escolha ou inevitabilidade, estarão esses espectáculos limitados a discursos sobre o espaço? A partir de exemplos que podem indicar mudanças na relação com o espaço cénico, apontarei linhas para um discurso sobre a influência do lugar de representação. Quando o espaço físico escapa ao nosso controlo em que devemos acreditar? E até que ponto podemos, realmente, modificar um espectáculo?

sexta-feira, abril 13, 2007

A integral do cinema de Guy Debord na Culturgest

Começa hoje na Culturgest o ciclo Com e Contra o Cinema, que apresenta a integral da filmografia do filósofo Guy Debord, comissariada por Ricardo Matos Cabo. A programação pode ser consultada aqui.

Um excerto do ensaio O cinema da não-separação, de Susana Nascimento Duarte, videasta e docente da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha, publicado no último número da revista OBSCENA.

"O sentido do cinema de Guy Debord é inseparável do seu pensamento e, ao lado da escrita, constitui-se como lugar privilegiado de visibilidade da sua teoria, actualizando-a, por outros meios que não a palavra. A zona de reflexão que determina toda a obra de Debord, e em função da qual é possível auscultar toda a dimensão de intervenção política do seu pensamento e da sua respectiva materialização cinematográfica, é a sua crítica da sociedade do espectáculo, ou seja, do capitalismo acabado como afastamento radical da vida. Esta crítica é, por sua vez, indissociável de uma mobilização total da própria vida do autor na direcção do confronto e da luta contra o seu tempo. Contudo, tal luta é levada a cabo a partir de dentro e não feita à margem da linguagem do espectáculo. De facto, para Debord, na desordem do presente, estariam simultaneamente contidas quer a destruição da vida perpetuada pelo espectáculo, quer a possibilidade da aparição concreta do seu reverso, identificada com o projecto situacionista. Tratar-se-ia de, no mesmo lugar a partir do qual “a sociedade do espectáculo e o capitalismo organizam concreta e deliberadamente os meios e os acontecimentos para diminuir a potência de vida”, e trabalhando sobre os mesmo elementos, libertar dele um projecto de sinal oposto, capaz de inverter o sentido da destruição, deslocando-o da vida para a desagregação da própria sociedade do espectáculo".

continua aqui.