sexta-feira, setembro 01, 2006

Peeping me, performance no 3º aniversário do blog

Peeping me
de Paulo Guerreiro
Negócio
08 e 09 Setembro_ 21h00-23h30 (estreia em Portugal)
entrada livre



Em peeping me toca-se, observa-se, é-se observado. Os papéis (re)invertem-se num jogo de poderes e completam-se um ao outro. Corpo performático e público sobrepõem-se, espelham-se. Cria-se uma relação sensorial e perversa, onde ora se permite o toque, mas é privado o olhar, ora se vê (espreita), mas perde-se o contacto táctil. "voyeur" e "exibicionista" mantêm esta relação através de orifícios num espaço tri-partido: tacto, visão e exposição. mais que uma instalação, é um espaço performático interactivo, onde o movimento surge da relação performer/público. A coreografia existe no momento, a partir do toque e da ausência deste. As suas qualidades são partilhadas, são dependentes de ambos, do corpo/objecto e do observador/manipulador. mais do que improvisação trata-se de instrumentalização, comunicação, reacção entre corpos, onde os limites se situam entre o físico e o emocional. Quebradas as convenções de relação espectador/interprete, é dando lugar a uma relação mais intima e subjectiva, onde os papéis activo e passivo são subvertidos, para depois serem novamente repostos, ou seja, (re)invertidos. O corpo performático é exposto e disposto, habita a relação dos corpos (o dele com o espectador), representa-se por códigos e afirma-se como objecto. Um objecto que tanto é de contemplação e serviçal, como se serve de quem o observa. Um objecto feito em corpo, da sobreposição de corpos e papéis. o que observa, toca e manipula, é conduzido à sua exposição e integra o objecto. «... o sujeito expõe-se e faz da carne o espectáculo que oferece aos outros e que vampiricamente busca no outro» (Maria Augusta Babo in Para uma semiótica do corpo).

Paulo Guerreiro

peeping me
conceito . interpretação . Paulo Guerreiro criação cénica . Marion Abeille equipa técnica . Anne Vaglio . France Nicolas . Lucie Delorme (direcção geral) residência . Lézarap'art co-produção . Paulo Guerreiro/ZDB

quinta-feira, agosto 31, 2006

Diz-me que música passa...


... dir-te-ei quem é o DJ.

Os actores e encenadores Mónica Calle, Pedro Penim e Ricardo Aibéo, os coreógrafos Inês Jacques e Miguel Pereira, e o programador do S. Luiz - Teatro Municipal, Jorge Salavisa, são os DJ's convidados da festa de 3º aniversário do blog O Melhor Anjo.

Na Casa Conveniente, a partir da meia noite de 08 de Setembro, a música fica a cargo destes convidados especialíssimos, com carta branca para fazerem a pista dançar. Pela noite dentro...

A entrada é livre.

terça-feira, agosto 29, 2006

Teaser: entradas gratuitas para espectáculos


O aniversário é do blog, mas as prendas vão para os leitores. Dias 08 e 09 de Setembro, O Melhor Anjo oferece 10 entradas duplas para os espectáculos The Pillowman (encenação de Tiago Guedes, Maria Matos-Teatro Municipal, foto à esquerda) e Shall we dance Shall we dance (Teatro Praga, Hospital Miguel Bombarda, foto à direita). Mais informações em breve.
Ler aqui reportagem sobre The Pillowman. Ler aqui crítica a Shall we dance Shall we dance.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Thierry Salmon - Ecole des Mâitres: os diários de Martim Pedroso V


... cena final de «Molière» de Ariane Mnouchkine em que o velho Jean-Baptiste é levado pelos braços dos seus comediantes antes de dar o seu último suspiro...

Martim Pedroso

Ler aqui nota sobre o projecto e Diários I, II, III e IV

O projecto Thierry Salmon - Ecole des Mâitres é apresentado amanhã, em conferência de imprensa, às 11h30, no CCB. A sessão conta com a presença do encenador Antonio Latella, que dirigiu o seminário do qual fez parte o actor Martim Pedroso, e Franco Quadri, director do projecto. No dia 31, quinta-feira, será feita uma apresentação prévia de Péricles, a partir da obra de Shakespeare. A sessão é de entrada livre, mediante lotação da sala, e decorre às 20h30 no Pequeno Auditório do CCB.

domingo, agosto 27, 2006

Teaser: O síndroma de Stendhal, dossier especial de aniversário


Para comemorar em grande o 3º aniversário do blog, dias 08 e 09 de Setembro, e para além das iniciativas que acontecerão fora de portas, O Melhor Anjo publicará, entre 03 e 09 de Setembro, um dossier especialíssimo dedicado às relações entre crítica e criação.

Intitulado O Síndroma de Stendhal, conta com as participações de críticos e investigadores nacionais e internacionais, que darão conta, entre outros temas, das suas posições em relação ao corpo, ao discurso político aplicado à criação, ou o papel da crítica e das novas gerações. Os textos são todos eles inéditos em Portugal, alguns feitos em rigoroso exclusivo, e outros especialmente reformulados para serem incluídos neste dossier.

O dossier terá a participação de André Lepecki (ensaísta e dramaturgista, professor de Performance Studies na Universidade de Nova York), Arnd Wesseman (editor da revista alemã Ballet-Tanz), Jorge Louraço Figueira (crítico de teatro no jornal Público, dramaturgo), Margareta Sorënson (crítica sueca, directora dos Seminários para Jovens Críticos da Associação Internacional de Críticos de Teatro), Nayse Lopez (editora do site brasileiro idança, programadora do festival Panorama Rio Dança), e eu próprio.


A partir de 01 de Setembro n' O Melhor Anjo. A não perder.


ler aqui sobre o verdadeiro síndroma de Stendhal. Na fotografia: like the cat sitting on the edge of an ocean of milk: hoping to lap it all, de benoit lachambre & ong keng sen

sábado, agosto 26, 2006

A crítica em Cabo Verde: notas para investigação

Micaela Barbosa é crítica em Cabo Verde, mais exactamente na ilha de Santiago, e escreve, de vez em quando, num blog chamado CenaKritika, criado para acompanhar a tese que desenvolve sobre a crítica teatral no arquipélago. A ler aqui e aqui algumas notas entretanto publicadas.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Festival de Automne à Paris já tem programação

A 35ª edição de um dos mais importantes festivais de artes performativas franceses, o Festival de Automne à Paris, já apresentou a sua programação, consultável online. De 14 de Setembro a 19 de Dezembro - enquanto durar o Outono -, a capital francesa recebe espectáculos de teatro, dança, artes plásticas, cinema e música entre outras iniciativas, para um "reencontro com velhos amores", escreve, em editorial, o director Alain Crombecque.

Entre os vários convidados para esta edição de aniversário especial contam-se, no teatro: Robert Wilson, com uma versão de Quarteto, de Heiner Müller, interpretada por Isabelle Huppert e Ariel Garcia Valdés, os americanos Wooster Group, para uma interpretação de Hamlet, e um mini-ciclo dedicado ao autor inglês Martim Crimp, feito por diversos encenadores; na dança: a apresentação da nova peça de Vera Mantero, até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza, que uns dias depois chega a Lisboa para ser apresentada na Culturgest, a estreia em França de I Wouldn’t be seen dead in that !, do sul-africano Steve Cohen, e Quintette Cercle, de Boris Charmatz.

Para a organização do festival, se 35 anos são motivo de festa, de maneira nenhuma a programação se quer perder no fogo fátuo da comemoração. O Festival de Automne à Paris quer, sobretudo, continuar numa leitura atenta ao contemporâneo.

O Melhor Anjo vai viajar até Paris e publicará, em Setembro, uma conversa com os directores do festival, bem como críticas a alguns dos espectáculos.

Edição nº 100 da Frieze dedicada à crítica

A revista Frieze, dedicada à arte contemporânea, apresenta na sua edição nº 100, um extenso dossier sobre o poder e influência da crítica, sobretudo aplicada ao contexto inglês. A ler: questionário a criadores sobre os livros de arte que os influenciaram; a discussão sobre a crítica no cinema, literatura e na música (popular e clássica). E ainda, a opinião de Robert Storr, o próximo director da Bienal de Veneza: In all that has been said in the last decades about ‘the subject’ and its contingency and about artistic ‘aura’ and its loss, it is striking to me that we so seldom learn anything about the author of such theories or their personal experiences of the world or the works they choose to analyse. At any rate, seldom do we learn it from the author him- or herself. Rather, in the age where the ‘universal’ has supposedly been deconstructed, the reader is nevertheless most often addressed in a neutral – shall we call it post-Structuralist? – though often mannered voice that implies that what is being said is categorically true without the speaker revealing much of his or her actual experience as opposed to schematically acknowledging the variable experiences of the reader. (continua...)

Nota: os artigos deixam de estar online quando sai um novo número da revista.

quinta-feira, agosto 24, 2006

Art as moral action - uma conferência de Peter Sellars

O site Theate Voice é um dos mais fascinantes projectos virtuais dedicados às artes performativas. O projecto inglês consiste na reunião de registos áudio de conferências, encontros, crítica e opinião, dedicados ao teatro inglês, mas com extensões a propostas estrangeiras. No imenso arquivo do site podem encontrar-se entrevistas a nomes como Peter Brook, reflexões sobre o trabalho dos Forced Entertainment ou, como é destacado na newsletter desta semana, uma conferência (em duas partes) do encenador norte-americano Peter Sellars intitulada Art as a moral action. A conferência, que foi feita no âmbito do programa Critical Voices da University Concert Hall, em Limerick, Irlanda a 16 Junho 2006, reflecte sobre as relações culturais, e o modo como essas relações, por poderem ser impostas por agentes externos, devem ser pensadas pelo teatro. Ler aqui sobre essa conferência, quando foi repetida em Berlim, no âmbito da Berlinale Talent Campus.

Teaser



A Mulher-Bala vai ser a VJ de serviço na festa de 3º aniversário do blog O Melhor Anjo,
dia 08 de Setembro, a partir das 00h00 na Casa Conveniente.
Vai dinamitar o layout do blog e acompanhar a batida imaginada pelos sete DJ's convidados-surpresa.
E claro, ajudar a fazer escorregar pelas gargantas secas o cocktail exclusivo O Melhor Anjo.
A entrada é, naturalmente, livre.

Esta festa é uma organização conjunta blog O Melhor Anjo/Casa Conveniente, com o apoio do bar Purex.

quarta-feira, agosto 23, 2006

A "criticalidade" como hipótese de futuro para a crítica

Em Abril passado o site de crítica belga Sarma foi convidado a organizar um conjunto de encontros sobre crítica, no âmbito do Tanzkongress, que decorreu em Berlim, e sobre o qual falei aqui. Os encontros, genericamente intitulados Unfolding the critical, reuniram vários nomes que reflectiram sobre os limites de aplicação do discurso crítico, a sua relação com a criação ou o modo como o discurso era influenciado por outras disciplinas.

Um dos nomes presentes foi o de Irit Rogoff, professora de Visual Arts no Goldsmiths College, em Inglaterra, e autora de diversos artigos sobre colonialismo, performatividade e diferenças culturais. Na comunicação que fez ao congresso, Irit Rogoff utilizou um termo - criticalidade, (à falta de melhor palavra, segundo a autora), e se pode definir como um conceito no qual o sujeito (espectáculo, intérprete, observador) habita a crítica, é a crítica.

Vem isto a propósito do Sarma já ter online as comunicações em ficheiros áudio. Para ouvir aqui, em streaming audio (é necessário ter o QuickTime Player instalado).


Ler, a seguir, uma breve nota e comentário, de minha autoria, sobre o termo. O excerto fará parte de um texto a publicar brevemente.

"Within the space of a relatively short period we have been able to move from criticism to critique to criticality - from finding fault, to examine the underlying assumptions that might allow something to appear as a convincing logic, to operating from an uncertain ground which, while building on critique, wants nevertheless to inhabit culture in a relation other than one of critical analysis."
Irit Rogoff

Notes:

Criticality is a term developed by the art historicist Irit Rogoff (Goldsmith’s College) that considers that “the subject inhabits the critical”. She explained it is a “form of embodiment” that relates no the notion of “without”. What does this mean?

Rogoff’s term (that she considers as a mutant term – aka still in development and dependent of that development in order to exist and sustain itself) says that we don’t learn something new without learning something old, or without really understanding something old. Because we are always accumulating information we tend to forget or diminish the structure. So, if we keep being confronted with new forms of speech how can we follow them up?

For Rogoff we have to be “fully armed with the knowledge [and aware of the power] of critic [and criticism]”. If we are sharing the same conditions and environment as the artists we have to start thinking on how to come out of the objects and start producing theory that doesn’t only reflect those objects.

“We fellow sufferers“, she says, quoting Hanna Arendt. Rogoff believes in the paradox: how do we act when we cannot articulate the subjects and how can we see that if in that incapacity may reside the ability to move forward? It is not by inventing a new speech that will legitimate the artistic object that we embody the object. It’s by doing the exact opposite. Criticism has to be a process and the text that we produce has to be the starting point, not the final goal. This implies shifting our point of view from the “answerer” to the “searcher”. It is only by “sharing and learning that we’re able to see through”, she says.

Criticality then has to do with incontemporanity and not with interdisciplinary. How do we intervene not to change but to take part of the change? We all know that nowadays there are a lot of genres and movements and guidance lines that combine themselves momentaniously transforming the notions we have. That is not a handicap is part of the diversity of things. So, contemporanity is not the mere existence of these changing (that, to be completely honest, always existed) but what we think and what we want with it. Interdisciplinary is, obviously, rhetorical. Contemporanity is a conjunction of things. How do we transform this conjunction in something valid? That’s criticality. A narrow relation between “subject and constitution of objects”.

This gives to the critic, but also to the artist, the object and the surrounding a different perspective on the importance of their roles. We do not have to feel excluded if we understand that the tension between deconstruction and performativity can be surpassed by a theorization of the act of living. The deterritorialization of the knowledge (meaning a need to not circumscribe criticism in the critics, objects in the creators) is the “drive” to achieve criticality. Obviously Irit Rogoff is aware that it will be easier for us critics to do this walk. Easier for us than for artists or public. So to us it is a question of pounding our role? How much are we able to sustain? How far are we able to go for an object?

na foto: FORGERIES, LOVE AND OTHER MATTERS Meg Stuart/Benoît Lachambre/Hahn Rowe Photo: Chris Van Der Burght

Teatro Praga repõe peça para fazer dançar

O Teatro Praga repõe hoje Shall we dance Shall we dance, que teve a sua estreia em Dezembro do ano passado no Espaço do Tempo, em Montemor-o-Velho. O espectáculo é composto por três breves peças, ©, de Patrícia da Silva e Nelson Guerreiro (na foto), Super-gorila, de André Teodósio e José Maria Vieira Mendes, e Hidden Track, de Carlos Alves e um convidado surpresa.

A peça, que está em cena até 09 de Setembro, sempre às 21h30, no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa, prossegue um projecto paralelo da companhia, onde um dos elementos tem a possibilidade de convidar quem quiser para, em conjunto, construírem um espectáculo. Para o Teatro Praga esta é uma oportunidade para "um motor para a exploração de cumplicidades". E acrescentam: "Acreditamos que estes momentos são fundamentais para nós, porque nos baralham e nos apontam possibilidades. Sempre tivemos presente uma ideia de migração que atravessa, define e estrutura os percursos de quase todos nós."

Em conjunto as peças partilham uma vontade de questionar o que os rodeia, o que os persegue e o que os alimenta. A sociedade, a cultura, o quotidiano e os sempre adiados planos de fuga são aqui explorados num espectáculo que afinal são três.

Shall we dance Shall we dance é uma das peças inseridas no 3º aniversário do blog O Melhor Anjo, e para a qual se irá oferecer 10 bilhetes duplos para as sessões de 08 e 09 de Setembro. Brevemente, mais informações sobre este passatempo.


Mais informações:
Teatro Praga
23 de Agosto a 9 de Setembro_4ª a Sábado_21h30
Hospital Miguel Bombarda_Rua Dr. Almeida Amaral (junto ao Hospital dos Capuchos)
RESERVAS: 21 726 92 25 91 854 70 50
producao@teatropraga.com

domingo, agosto 20, 2006

Novo prémio de dramaturgia quer ligar Portugal e Brasil

O regulamento do Prémio António José da Silva já se encontra online há pelo menos uma semana, mas as intituições por ele responsáveis ainda não fizeram o anúncio público de um prémio de dramaturgia que quer aproximar o teatro brasileiro e português. Convém salientar que o prazo de entrega das propostas termina a 29 de Setembro.

A iniciativa, organizada conjuntamente pela primeira vez este ano, pelo Instituto Camões (IC) e a Funarte - um instituto brasileiro responsável pela promoção da cultura - , contará ainda com a participação do Instituto das Artes (IA) e do Teatro Nacional D. Maria II, quer constituir-se como uma oportunidade para incentivar o surgimento e visibilidade de nomes na escrita para teatro, ao mesmo tempo que assume ser fundamental a sua apresentação em palco.

Assim, para o Instituto Camões, o valor de 15 mil euros a atribuir ao vencedor, que será anunciado até ao fim de 2006, não é o mais relevante deste prémio, mas antes a confirmação de que a peça terá que ser editada e levada à cena no ano seguinte à sua indicação, em Portugal e no Brasil, em condições ainda em negociação. Isto porque o IC não sabe ainda se a composição das equipas técnicas e artísticas será mista ou em produções independentes em cada um país. Uma decisão que depende dos acordos a firmar com o Instituto das Artes e o Teatro Nacional D. Maria II, que integrará a peça na sua programação, e para a qual terá orçamento próprio, vindo do próprio IA. Ao IC cabe apenas o pagamento do prémio, em colaboração com a Funarte, e a edição, seja esta através de concurso público ou parceria com uma editora nacional.

Em negociação está ainda a composição do júri, que contará com membros indicados pelo Instituto Camões, Funarte e Teatro Nacional D. Maria II, que avaliarão duas shorlists indicadas por cada país, com quatro nomes cada, havendo depois um júri comum que decidirá o único vencedor. Sabe-se, no entanto, que os nomes indicados para a shortlist brasileira surgirão dos quatro prémios regionais existentes no país e regularmente atribuídos. Segundo informações prestadas pelo Instituto Camões, a mesma situação - se pode criar um desequilíbrio na apreciação dos textos, afinal as propostas brasileiras já virão com um "selo de qualidade" - não se pode aplicar a Portugal, dado o território nacional não justificar a divisão em regiões para atribuição de prémios. De acordo com o regulamento são admissíveis a concurso qualquer género de peças originais, desde que não sejam adaptações de obras de outros autores ou póstumas.

Para o Instituto Camões, o importante era lançar-se o prémio, anunciando, desde já, a vontade de alterar algumas das regras no próximo ano. Pretende assim o IC aproveitar, este ano, textos que já estejam feitos mas ainda na gaveta. Todavia o IC garante que a iniciativa quer ver-se moldada às realidade culturais de cada um dos países, e que o mais importante é mesmo a constituição das bases para uma plataforma dramatúrgica comum.

Última nota para referir que o prémio recupera o nome de um dos mais importantes autores teatrais de língua portuguesa, António José da Silva, perseguido e morto pela Inquisição, e que deixou uma obra fundamental que se estendia da ópera-cómica ao teatro de marionetas.

Thierry Salmon - Ecole des Mâitres: os diários de Martim Pedroso IV


"Nesta esperança vivo"
Shakespeare

Ver nota sobre o projecto e Diário I, II e III

sexta-feira, agosto 18, 2006

Special Nothing em Edimburgo


O espectáculo Special Nothing, concebido por João Garcia Miguel a partir da imagem de Andy Warhol e a teoria dos 15 minutos de fama, está a ser apresentado no Edinburgh Fringe Festival, na Escócia. Em cena no Aurora Nova até dia 28 de Agosto, tem dividido a crítica (ler aqui e aqui). O encenador e a sua equipa mantêm um blog onde dão conta da estadia na cidade e no festival. Ver aqui excerto em vídeo do espectáculo.

Leituras de verão




1) O fotógrafo e artista visual alemão Wolfgang Tillmans , prémio Turner 2000, deu, em Outubro 2005, uma entrevista à revista francesa gay Têtu, que pode ser lida em três partes (1, 2 e 3), e na qual comenta algumas das suas fotografias onde o sexo, o corpo, os fetiches e a ambiguidade são a nota forte. Mais sobre o seu trabalho aqui, aqui, aqui , aqui e aqui.

2) No The Guardian, a reporter Lyn Gardner foi descobrir o que significa e "como se aguenta" representar noite após noite a mesma peça. The neverending stories é uma viagem aos bastidores dos musicais que enchem os teatros de Londres ano após ano.

3) A Culturgest disponibiliza em pdf o programa da exposição dedicada ao pintor holandês Kees Goudzwaard que introduziu "no cerne do seu processo de trabalho, a questão do mimetismo". A exposição está patente até 27 de Agosto.

4) No idança foi publicado o texto Ter Espaço para ter Tempo, sobre o projecto artístico do coreógrafo Rui Horta, em Montemor-o-Velho, e que já publiquei neste blog. Pode ainda ler-se, entre outros, um ensaio de Carla Vendramin sobre dança inclusiva e as dificuldade de classificação desta disciplina artística, O Nome da Coisa, e um artigo de opinião de Leonel Brum, Uma demanda de mercado, sobre o crescimento do video-dança no Brasil.

Legenda da fotografia: Lutz & Alex sitting in the Trees, 1992, de Wolfgang Tillmans

quinta-feira, agosto 17, 2006

A dança que invade Berlim

Começa hoje em Berlim o importante festival Tanz im August, que celebra assim o seu 18º aniversário. Até 02 de Setembro um conjunto de espectáculos feitos por mais de 25 criadores vão procurar responder a duas questões: "How do you celebrate a festival’s 'coming of age'?" e "Is there an interest within the contemporary dance scene in reflecting on the history and tradition of the field?".

Precisamente para pensar a capital alemã enquanto potência mundial da dança, o jornal The Economist publicou no passado dia 10 um texto intitulado ON TOP OF THE WORLD - Germany is now the dance centre of the world. Alguns excertos, uma vez que o texto não se encontra online:

«IN MANY European countries, dance, specifically ballet, the classical form recognisable the world over, is a known quantity. Renowned companies, star performers and a public that is hugely enthusiastic for and oftenwell-informed about this most demanding of art forms, constitute a clear, national dance culture.

[…] today Germany is one of the most dance-obsessed nations on earth. Dance festivals, congresses and symposia take place there on a regular basis. A monthly magazine, BALLET-TANZ, sells thousands of copies and carries detailed coverage of international dance events. The pace is being stepped up. In June, the Federal Cultural Foundation instituted a scheme [Tanzplan]whereby nine cities will share a total of EURO 12.5m [...] over five years to develop dance.

Most cities, including Berlin, Hamburg and Stuttgart as well as smaller places such as Freiburg and Leipzig, have a full-time dance company resident in the main opera house or state theatre. For years, outsiders have been coming in to run and create companies. […]

The sheer variety of dance, from the most modern, and sometimes frankly audience-unfriendly, work, to the standard works such as "Giselle", "SwanLake", "La Bayadere" and "Romeo and Juliet", make Germany, perhaps unexpectedly, as rich in dance as France is in cheeses.

[…] 'Tanz im August' [is] one of the longest international dance festivals anywhere, using numerous venues across the city and with parties spilling out on to the pavements until the early hours. The capital's state-subsidised theatres and opera houses are closed for the summer, so the festival hires three major houses--the Hebbel Theatre, the Berlin Festspielhaus and the Schaubuhne - and takes advantage of a public that is in holiday mood and keen to sample something different: big names - such as Anne Teresa De Keersmaeker, a dancer-choreographer from Brussels - feature alongside more experimental work taking place in zanier venues such as Dock 11 and the Podewil, near Alexanderplatz.

The festival, which began in 1988, has been run since 2004 by AndreTheriault. "There is a need to dance here," he says. "Germany is very strong on the spoken word. In the performing fields, it has a vigorous intellectual culture but traditionally not one that is good with the body. The opposite of speaking is not to speak: that is, to move. That, broadly, is what Germany has discovered in the last ten years."

Mr Theriault sees Berlin as being central to Germany's dance boom. Young dancers and choreographers began settling there in the late 1990s, drawn by the attractive international working environment, low living costs and a sense of excitement that gave Berlin a reputation as a "happening place". Three-quarters of Germany's independent dance companies are now located in Berlin.

[…] That said, while Germany and Germans might long have suffered from a reputation for heaviness and gravity, in theatres across the country, dancers are dancing: Germans are revelling, maybe for the first time in their history, in the sensation of being light - on their feet, at least.»


Ver ainda artigo sobre o Tanzkongress (Congresso da dança), que se realizou em Berlim no passado mês de Abril, que tratou precisamente da questão da identidade da dança e, em particular, da dança alemã.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Programa de iniciativas para o 3º aniversário do blog O Melhor Anjo


Este blog comemora 3 anos a 08 de Setembro. Sendo, até à data, o único espaço virtual dedicado exclusivamente à crítica e reflexão sobre artes performativas tem, através da publicação regular, procurado criar uma alternativa para o discurso crítico. E, com o tempo, vindo a constituir-se como uma relevante base de informações, onde se reúnem contributos de diversos autores, se propõem outras abordagens para os objectos artísticos, se buscam formas de contrariar a efemeridade dos espectáculos, ao mesmo tempo que procura pensar sobre o lugar da crítica e do discurso crítico.

Para celebrar este aniversário O Melhor Anjo propõe, em colaboração com vários espaços na cidade, um conjunto de iniciativas sob o signo da observação, que mais não querem do que contribuir para uma maior discussão sobre o papel da crítica num contexto cultural tão carente de discussão (e, por vezes, cúmplice dessa carência). Uma festa para a qual estão todos convidados.



Programa de actividades

08 Setembro – 18h00
Culturgest
entrada livre

Debate
O Olhar Crítico
Com Augusto M. Seabra (sociólogo e crítico, Público), Maria José Fazenda (antropóloga, ex-crítica, Público), Miguel-Pedro Quadrio (professor universitário, crítico de teatro, Diário de Notícias) e Tiago Bartolomeu Costa. Moderação de Mónica Guerreiro (consultora no Instituto das Artes, ex-crítica, Blitz). outros nomes sujeitos a confirmação


Como pensar e o que pensar da crítica e do seu papel na construção de um discurso artístico, numa altura em que esta se debate com uma flagrante ausência dos espaços privilegiados para a sua prática – os jornais? A discussão surge assim para reflectir sobre as sempre ambíguas relações criação-condições de produção, criadores-contextos de criação e exercício crítico-poder. Questões que exigem à crítica, mais do que um papel de observador, uma função de alerta e de questionador. Entre a “função” de organizador dos discursos artísticos e a sempiterna discussão sobre a crítica como arte, este debate procurará contribuir para a necessária reflexão sobre a responsabilidade de quem vê. Com olhos de ver.

o encontro será registado para posterior edição

08 e 09 de Setembro – 21h00-23h30
Negócio/ZDB
entrada livre

Performance
Peeping me
de Paulo Guerreiro

Em peeping me toca-se, observa-se, é-se observado. Os papéis (re)invertem-se num jogo de poderes e completam-se um ao outro. Corpo performático e público sobrepõem-se, espelham-se. Cria-se uma relação sensorial e perversa, onde ora se permite o toque, mas é privado o olhar, ora se vê (espreita), mas perde-se o contacto táctil. "Voyeur" e "exibicionista" mantêm esta relação através de orifícios num espaço tri-partido: tacto, visão e exposição. Mais que uma instalação, é um espaço performático interactivo, onde o movimento surge da relação performer/público. A coreografia existe no momento, a partir do toque e da ausência deste. As suas qualidades são partilhadas, são dependentes de ambos, do corpo/objecto e do observador/manipulador. Mais do que improvisação trata-se de instrumentalização, comunicação, reacção entre corpos, onde os limites se situam entre o físico e o emocional. Quebradas as convenções de relação espectador/interprete, é dando lugar a uma relação mais intima e subjectiva, onde os papéis activo e passivo são subvertidos, para depois serem novamente repostos, ou seja, (re)invertidos. O corpo performático é exposto e disposto, habita a relação dos corpos (o dele com o espectador), representa-se por códigos e afirma-se como objecto. Um objecto que tanto é de contemplação e serviçal, como se serve de quem o observa. Um objecto feito em corpo, da sobreposição de corpos e papéis. o que observa, toca e manipula, é conduzido à sua exposição e integra o objecto.

Paulo Guerreiro

conceito . interpretação Paulo Guerreiro criação cénica Marion Abeille equipa técnica Anne Vaglio France Nicolas Lucie Delorme (direcção geral) residência Lézarap'art co-produção ZDB/Paulo Guerreiro com a colaboração do Ballet Nacional de Marseille e Ballet Preljocaj.

Mais informações: Tel: 21 343 02 05 ou célia@zedosbois.org, www.zedosbois.org
Mais informações sobre o espectáculo em: peeping-me.blogspot.com /panguerreiro@gmail.com


08 de Setembro – 00h00
Casa Conveniente
entrada livre

Festa de Aniversário

Porque um aniversário não existe sem uma festa, a Casa Conveniente ajuda O Melhor Anjo a apagar as velas com uma festa que começa à meia noite e não tem hora para acabar. O som e as imagens ficam por conta de convidados especiais que terão carta branca para animar a noite e escolher as suas próprias músicas de aniversário. Uma festa que contará ainda com outras surpresas a descobrir pela noite dentro.

Mais informações: Sílvia Jorge : tel: 96 808 6808 . info@casaconveniente.pt

E ainda

Passatempo: Convites duplos para os leitores do blog para os espectáculos The Pillowman (encenação de Tiago Guedes, Maria Matos – Teatro Municipal) e Shall we dance 2 (um espectáculo do Teatro Praga, Hospital Miguel Bombarda) nas sessões de 08 e 09 de Setembro. Mais informações brevemente

Dossier O Síndroma de Stendhal a publicar no blog entre 01 e 08 de Setembro.

O Melhor Anjo convidou um conjunto de críticos e investigadores nacionais e internacionais para reflectirem sobre as relações entre crítica e criação. Os textos foram escritos em exclusivo para o blog, ou cedidos pelos autores, sendo inédita a sua publicação em Portugal. Entre os nomes convidados contam-se os críticos André Lepecki (ensaísta, dramaturgo e crítico) e Arnd Wesseman (editor da revista alemã Ballet-Tanz) .



O 3º aniversário do blog O Melhor Anjo é feito em colaboração com a Casa Conveniente, Culturgest, Galeria Zé dos Bois/Negócio, Maria Matos – Teatro Municipal e Teatro Praga. Imagem de Nuno Coelho (gentilmente cedida)

Thierry Salmon - Ecole des Mâitres: os diários de Martim Pedroso III


Péricles = Shakespeare = Latella = disciplina = nicole = linguagem = línguas = representação = big brother = pero pompero = felicitá = savez-vous tromper le tra de ri rera = grândola vila morena = grotovski = contradição = irritação = festa = música muita música = dança = rave = catarsis = limite = fronteira = psicose = terapia = harmonia = massagens =líbido = tomatito = piscina ao domingo = personagem = níveis = muita maionese nas saladas = tapas ao sábado à noite = gases = improvisaçao = falhas na comunicação = suor = pier paolo pasolini = cafè di roma todas as manhãs porque o pequeno almoço no hotel é um desastre = ataques de riso = rebajas = etc etc = ??? = Lisbon here we go!!!!

Martim Pedroso (actor e encenador)

Ler nota sobre o projecto e diários I e II

sexta-feira, agosto 11, 2006

breve pausa

a canícula não ajuda. o blog regressa na 2ª feira.

segunda-feira, agosto 07, 2006

The back of Rio - Lia Rodrigues e o trabalho nas favelas do Rio de Janeiro

The back of Rio
por Sandra Luzina

Quando Lia Rodrigues chega à varanda do seu apartamento, tem diante dos seus olhos o Corcovado, um dos símbolos do Rio de Janeiro. Com os seus braços abertos, a estátua de Cristo abençoa a cidade – a sua presença acompanha Lia diariamente .

Gávea é um dos melhores bairros do Rio. Os elegantes prédios de muitos andares estão cercados com uma vedação. Existem, evidentemente, os vigilantes que registam as idas e vindas dos moradores. Lia visita com frequência o Jardim Botânico, mesmo ao lado da sua casa. Aí, a vegetação é abundante e luxuosa.

Desde a sua casa no Sul da cidade, Lia põe-se todos os dias a caminho em direcção ao Norte. A sua meta é a Maré, uma das favelas do Rio que se estende entre as vias expresso Linha Vermelha, Linha Amarela e Avenida do Brasil. Há três anos que Lia Rodrigues mudou o seu espaço experimental para a Maré. - A favela não se situa algures na periferia, a favela está por tudo quanto é sítio – afirma a coreógrafa, expressando assim com grande precisão a consciência do meio artístico brasileiro. A favela, um lugar onde habita a violência, converte-se num lugar de criatividade e de resistência.

Percebemos imediatamente o momento em que transpomos a fronteira invisível que nos separa da Maré. Por baixo da auto-estrada, estendem-se filas e filas de carroças amolgadas, estripadas, tudo automóveis roubados. Estes carros de sucata formam uma linha de demarcação. O Jesus de “Art déco” – não aparece nestes lugares.

A partir desta linha passamos a andar mais devagar. Nas ruas existe uma quantidade de pequenas lombas. – É para travar a polícia – explica-nos a Lia. A polícia raras vezes se atreve a aparecer na favela. E quando vem, é com viaturas militares blindadas. E com presença policial, a violência sobe de tom. Na noite da estreia, ou antes do ensaio geral de “Incarnat” [na foto], o novo espectáculo de Lia Rodrigues, houve mais uma vez um morto nas ruas da Maré. A polícia tinha abatido a tiro um vendedor de droga. Mas a guerra continua, mesmo quando a polícia fica do lado de fora, – os bandos rivais de negociantes de droga nunca deixam de travar as suas lutas para controlar o seu território.

“Crossfire” (Fogo cruzado)

- É este o nome do lugar onde trabalho – diz a Lia – e não se trata de uma metáfora. A Casa da Cultura da Maré é uma casa aberta – o antigo armazém não tem portas. Antigamente concertavam-se barcos no grande hangar. Um empresário local ofereceu este edifício ao CEASM (Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré), uma organização com fins não lucrativos que, com os seus projectos de formação cultural, se tornou famosa nestes últimos oito anos. O CEASM fora fundado por habitantes deste bairro de lata que tinham conseguido dar o salto até à universidade e que agora reinvestem o seu saber na sua comunidade.

No pátio, trabalha-se afincadamente. O carpinteiro que ajudou a Lia com os trabalhos de renovação não tem mãos a medir para que, no dia seguinte, possa ter lugar a inauguração do Museu da Maré, um museu que tentará conservar a história da favela e dos seus habitantes. Juntaram-se numerosos documentos, numerosas fotos. O carpinteiro construiu maquetas de pequenas casas lacustres em madeira, outrora típicas desta região. Brilham nas cores turquesa e laranja. Para a inauguração, até se espera a presença do ministro da cultura, Gilberto Gil. O seu ministério concedeu subsídios para este primeiro museu de favela, fruto de uma iniciativa dos seus habitantes.

Só na Maré vivem cerca de 132.000 pessoas. Estima-se em 30% os habitantes do Rio de Janeiro que vivem em favelas. Estas favelas constituem uma “cidade dentro da cidade” e são em grande medida independentes da administração municipal oficial. Aqui aplicam-se as leis da favela – e quem manda são os líderes dos cartéis da droga.

Quando Lia Rodrigues resolveu mudar a sede da sua companhia para a favela, colocou os seus bailarinos perante uma decisão: seguir ou não a Lia até este lugar perigoso. A grande maioria seguiu-a, mas foi necessário muito trabalho para os convencer. Houve longas discussões à roda do facto de que o trabalho na Maré implicava um alto risco e da questão de saber qual era o sentido político desta mudança. Na prática, tudo isto significou que o seu trabalho iria sofrer uma enorme modificação. Todos tiveram que dar a sua ajuda para organizar o centro experimental. Removeram-se montanhas de lixo, colocou-se um novo piso, um coreógrafo amigo ofereceu o tapete de dança. Houve que concertar o telhado que deixava passar a chuva. Pintaram-se as paredes e também se instalou uma casa de banho. Ainda há muito que fazer. Mas tudo isto também é dança. Tudo faz parte da criação. - Toda esta experiência tem valor formativo – diz-nos a Lia.

Entretanto, a Companhia de Danças também conta, entre os seus membros, dois jovens bailarinos do próprio bairro: o Leo, um negro alto e delgado, tem 18 anos, o Alison, mais grave, tem 23. A Gabi colabora há pouco como estagiária. Estes três não enveredaram de uma forma privilegiada no caminho da arte, mas foram ajudados por uma das numerosas iniciativas sócio culturais existentes na Maré. Durante três anos, o coreógrafo Ivaldo Bertazzo, de São Paulo, ensinou jovens da favela a dançar – e o seu trabalho foi coroado de excelentes resultados. A Lia não apresenta os seus filhos do gueto como peças de circo. - Não quero voltar a discriminá-los. E como conseguir superar a lógica da exclusão social? – Desde o princípio, eu sabia perfeitamente que não podia ir simplesmente para a Maré para aí trabalhar com os filhos da favela. Isto seria equivalente a uma reprodução da divisão já existente. Nós vivemos em mundos separados, entre os quais não existe qualquer comunicação. Eu tento estabelecer o contacto entre essas duas esferas. O que importa é aprender lidar com esta diferença.

Numa favela aplicam-se as leis da favela. É preciso uma grande convicção para instalar aí uma companhia de bailado. Nem todos participaram nessa aventura.

Quem hoje em dia pretende produzir arte no Brasil, tem de investir continuamente – nas pessoas. O espectáculo “Incarnat” nasceu na Maré. Reflecte a violência que aí vive, mostra como ela se inscreve nos corpos. Inspirado no ensaio de Susan Sontag, “Diante da dor dos outros”, este espectáculo busca o potencial das imagens para chocar – e procura o momento da empatia. Lia Rodrigues confronta-nos brutalmente com as realidades do corpo – e aproxima-as fisicamente. Mas a sua arte não é arte de gueto. Quando os seus bailarinos dançam contra as circunstâncias, fazem-no com todas as liberdades. Este palco em que se dança a favela é também um lugar de fantasia. Durante aquela tarde, os bailarinos improvisaram pela primeira vez bailar com objectos de Tunga, um artista plástico, cuja obra já tinha estado presente na exposição de arte “documenta X” em Kassel. Uma bailarina finge que veste um par de asas, as outras experimentam com bandeiras de papel e objectos de madeira. O Leo traz uma rã viva – que também faz parte da exibição que deverá ter lugar no Jardim Botânico.

Lia Rodrigues observa os seus jovens bailarinos e exclama, sem quaisquer hesitações: - Olha, que não sou a madre Teresa da Maré, eu faço arte! Depois do ensaio, a Lia agarra numa vassoura e varre o chão da casa da dança - gosta de trabalhar, aprecia todas as formas de trabalho manual. Desempenha com extremo cuidado as tarefas do dia a dia , quase que como se meditasse sobre a perfeição.

Ao cair da noite, passeamos por uma rua animada da Maré. Aqui não se vêem barracas de lata, mas casas de pedra e cal, acanhadas e muito apertadas umas contra as outras. No Brasil, a pobreza tem muitos rostos. – Olha à tua volta! – exclama a Lia – O problema não é a gente!

Aqui a vida até parece normal. Os cheiros que nos sobem ao nariz parecem oriundos de um mercado africano. Por todos os lados ouve-se música, vendem-se CD’s em pequenos quiosques. E por todos os lados correm crianças, muitas delas vestindo as T-shirts amarelas dos futebolistas. Mal anoitece aparecem, saídos de todos os recantos, jovens adolescentes com a metralhadora às costas, os quais percorrem a rua principal em patrulhas de quatro. São os guardas do cartel de droga do sítio. Os transeuntes praticamente não lhes prestam atenção. Para eles, é um aspecto normal da vida nocturna. E agora surgem também os assistentes sociais do observatório da favela. Quando começa uma Semana do Cinema, reúnem-se todos nesta base de apoio centralizada. Entre as camisolas cor de laranja dos colaboradores do observatório mesclam-se T-shirts amarelas. São os activistas da AfroReggae, uma iniciativa que opera com sucesso em diversas cidades brasileiras e que se destina aos negros brasileiros. Um colaborador do observatório descreve o seu trabalho. Durante bastante tempo, tinham observado 200 crianças que trabalhavam como portadores de droga. Passado um ano, tinham morrido 70.

Esta noite decorre sem nada surgir de especial. Estão todos prontos, os gangs armados e os assistentes sociais. Ao sair da Maré, vimos um único carro da polícia. Está estacionado lá fora - os funcionários abriram as portas e contemplam a noite.

Com o seu “Incarnat”, Lia Rodrigues inaugurou o programa brasileiro de bailado no Festival In Transit na Casa das Culturas do Mundo em Berlim – este festival fez parte da Copa da Cultura organizada por ocasião do Mundial de Futebol. De entre os artistas convidados, Lia foi a única que se atreveu a criticar o programa. Um representante do ministério da cultura brasileiro perguntou-lhe então por que motivo ela participava nessa festival. - Trata-se da minha táctica de guerrilha – respondeu Lia. Depois da representação de “Incarnat”, confessa: - Libertei-me das emoções dolorosas e agora fiquei livre para outros projectos. Projectos que também terão lugar na Maré.

- O corpo não é estático – diz ela, - está em modificação permanente. Encontra-se num estado de troca contínua com o ambiente social e o ambiente cultural. Os livros que lês, aquilo que és, onde trabalhas, tudo isto são decisões de suma importância. Na evolução artística de Lia Rodrigues existe um ponto de viragem marcado pela descoberta da obra de Lygia Clark. Lia foi altamente influenciada pela sua ideia de um "corpo colectivo". E é exactamente isto que ela está a tentar na Maré: experimentar novas formas do conhecimento e construir um corpo colectivo através da arte. – Quando aqui chegámos – diz ela – não tínhamos modelo para o nosso trabalho. E de facto não existe modelo. É uma viagem a um mundo desconhecido. É o que o torna tão excitante.

Sandra Luzina
texto gentilmente cedido e publicado, em alemão, na revista Ballet -Tanz Julho 06
Tradução do alemão: Anneliese Mosch (com o patrocínio do Goethe Institut)

Ver aqui excerto do filme "Les 1001 Vies de Lia Rodrigues" de Luli Barzman, sobre o trabalho na favela da Maré. Ler aqui e aqui entrevistas à coreógrafa. Ouvir aqui reportagem sobre a estreia de Incarnat.

domingo, agosto 06, 2006

Lia Rodrigues amanhã no blog

Começa amanhã no CEM - Centro em Movimento, em Lisboa, um workshop de Composição em Dança orientado pela coreógrafa brasileira Lia Rodrigues. E O Melhor Anjo dá a ler, amanhã, um perfil da coreógrafa, intitulado The back of Rio, da autoria da jornalista alemã Sandra Luzina, que o publicou na edição de Julho da revista Ballet-Tanz e gentilmente o cedeu. O texto foi traduzido por Anneliese Mosh, com o patrocínio do Goethe Institut, parceiro do blog para a promoção e divulgação da cultura alemã.

Insight ao Projecto Thierry Salomon: Diários de Zaragoza II

O Melhor Anjo convidou o actor e encenador Martim Pedroso para dar conta da sua participação no projecto Thierry Salomon - Ecole des Mâitres, uma iniciativa cultural no âmbito da formação teatral, da responsabilidade de cinco países, Bélgica, Espanha, França, Itália e Portugal, pensado "com o objectivo de relacionar jovens actores, formados nas escolas dramáticas europeias e exercendo já uma actividade profissional, com encenadores de renome a nível internacional". Todas as semanas, até Setembro, um insight exclusivo de um projecto que pretende "dar vida a uma experiência de trabalho fortemente assente na confrontação e na troca de experiências sobre métodos e práticas de encenação, partindo de textos, línguas e linguagens artísticas diferentes", este ano dirigido, em Zaragoza, pelo encenador italiano Antonio Latella .

Diário II
"Non dobbiamo recitare dobbiamo parlare..."

sábado, agosto 05, 2006

A dança no You Tube VI: os Marretas também dançam

Os Marretas também dançam



Swine Lane com Rudolf Nureyev & Gargantuan Ballerina Pig
Episódio 37, 18-21 Outubro 1977 - ver aqui guião do programa e notas sobre os bastidores



Beauty and the Beast com Lesley Ann Warren & Doglion e comentários de Statler & Waldorf

sexta-feira, agosto 04, 2006

A dança no You Tube V: One of a kind, de Jirí Kylian

One of a kind (1998)
Coreografia de Jirí Kylian para o Nederlands Dance Theatre I




«Whatever intellectual baggage is involved (Mr. Kylian's program notes describe a springboard for the piece), the impact of ''One of a Kind'' is totally visual and kinetic. The fierce motor pulse of Mr. Kylian's choreography, sensed even when his exceptional dancers come to rest in barely contained stillness, is the work's most spectacular feature. There is a new movement vocabulary here, full of lightning-swift shifts in weight and a propulsion that has the company virtually skating across the floor. The intricacy of the partnering ties the work's many duets into knots with whirlwind force.

Yet the same dancing is impossible to separate from the spellbinding production values that envelope it: ingeniously resonant decor by the Japanese architect Atsushi Kitagawara combined with the fluent poetry of Michael Simon's lighting. Surprises abound, beginning with a stylized version of the usual Kabuki theater ramp, or runway, which Mr. Kitagawara moved to the center of the stage as a path to his angular caves in the rear. In the rear as well, but at the end of the ballet, are his fragments of three black staircases seen through the striped dazzle of three curtains of gold beads.

Unlike most Kylian works, 'One of a Kind' is a full-evening piece in three acts. But like most Kylian ballets, it appears plotless and carries an emotional subtext. The action, whose mood is further influenced by the onstage presence of a cellist, Pieter Wispelwey, suggests life's journey as part of a dream that can also be a nightmare. But then this is only one interpretation of a work that invites interpretation. It is Mr. Kylian's wont to present his basic concept in such distilled form that the initial springboard serves as a metaphor for a theme rather than a theme itself. [...]»

in So Fierce That Even Stillness Speaks of Motion por Anna Kisselgoff. Publicado no New York Times a 15 Julho 1999.

Ver fotografias e um outro clip, com mais definição, aqui.

quinta-feira, agosto 03, 2006

A dança no You Tube IV: In the Middle, Somewhat Elevated, de William Forsythe

In the middle, somewhat elevated (1987)
Coreografia e figurinos de William Forsythe para a Ópera de Paris. Música de Thom Willems
Estreia: 30 Maio de 1987



«'In the Middle, Somewhat Elevated' a été intégré au dernier moment (au centre de l’oeuvre, comme son nom l’indique) par William Forsythe à sa création 'Impressing The Czar' (1988). Cette pièce «rapportée» de danse pure et de trouvailles scénographiques contribua contre toute attente au succès mondial du génial chorégraphe américain. La création en 1987 de 'In The Middle, Somewhat Elevated' du chorégraphe William Forsythe (1949) au Palais Garnier surprit le public et fut un événement majeur de la danse moderne. La lumière crue délimite un parallélogramme violemment éclairé, avec au centre, suspendues, deux cerises.

La musique de Thom Willems est formée de blocssonores métalliques au volume outrancier. Les corps arrivent sur la scène en marchant, puis pénètrent le damier sonore et lumineux. Ils exécutent un mouvement dansé puis quittent le mouvement subrepticement en marchant. Les corps se croisent. Aucun sentiment psychologique ne vient les animer. Quelque chose de machinique meut les corps.

Si la chorégraphie de William Forsythe est héritière du ballet classique rénové par George Balanchine dans les années trente, le corps vient des travaux de Rudolf von Laban. L’écriture du ballet classique va ainsi se trouver décomposée puis reconfigurée autour de notions telles que l’instabilité, l’asymétrie ou le déséquilibre. Parallèlement à ce travail d’écriture chorégraphique, il va modifier radicalement le contexte, l’environnement narratif du ballet. [...]»

in programa do Festival de Marseille 2006

Ver aqui e aqui captações do espectáculo feitas por amadores. Ver aqui excerto do espectáculo na versão original, com Sylvie Guillem para quem foi especialmente criado e que o comenta.

quarta-feira, agosto 02, 2006

A dança no You Tube III: Sleeping Beauty, de Mats Ek

Sleeping Beauty (1996)
Coreografia de Mats Ek para o Hamburg Ballet
Estreia: 02 de Julho 1996



«[...] 'A fairy tale is like a pretty little cottage, but,' he warns, 'there's a sign on the door saying 'Mined area!' Ek may look like a solid intellectual, but his ballets are often deviantly emotional representations of the human heart, and none more so than his rewrites of the classics. [...] Ek's most recent update is Sleeping Beauty (1996) in which Princess Aurora becomes a young woman reacting against her overprivileged upbringing. Her life is threatened not by black magic but by the drugs dealt her by the malign Carabosse. Even when Aurora is rescued from class A addiction, she too has to learn that there are no happy endings except those that we make for ourselves. [...]

His own style of choreography is a complex fusion of classical, modern and folk, but its blunt, even gawky physicality eschews all the graceful mannerisms of ballet. Certainly in his classical rewrites nothing remains of the original other than the basic story and score. Yet this is not because Ek scorns the classics; rather it's a measure of how he reveres them. He has repeatedly argued that works such as Swan Lake or Sleeping Beauty should either be staged in a totally new way, or else presented with strict regard for their integrity.

In fact, directors who tinker with the classics often court more controversy than artists like Ek who redraw them from scratch, simply because it's so difficult to get a new production right. If a director wants to slant a scene or a character differently, he or she has to remain within the limits of what the music is saying as well as keep reasonable faith with the original choreography. If new designs are commissioned, the sets and costumes must not only make sense of the story but also respect the dancers. [...] In any case ballet, as a live art form, has to be made fresh for each generation and all directors perform their own juggling acts between tradition and innovation when they bring a classic to the stage.

Whatever their personal take on the work may be, it will also add to the sum of performances which make up that ballet's history. And this is where radical rewrites such as Ek's are as important to ballet tradition as they are to modern theatre. For even though Ek's Giselle and Sleeping Beauty barely resemble their originals, they still send us back to traditional stagings with a new curiosity. His images add to the resonance of the ballets; his ideas stalk their characters and plots. For anyone who has watched Ek's modern-day fairy tales, the classics can never look quite the same again.

in Sleeping Beauty is a junkie publicado no jornal The Guardian a 23 Agosto 1999. Edição da responsabilidade do blog.

Outros excertos do espectáculo aqui, aqui, aqui e aqui. Excertos de outros espectáculos de Mats Ek e do Cullberg Ballet aqui. Ler aqui texto sobre este e outros trabalhos de Mats Ek, por Jann Parry. Sobre a peça foi editado um livro da autoria de Vanessa de Ligniere que pode ser adquirido aqui. O dvd do espectáculo pode ser adquirido aqui. Mais informações sobre o Hamburg Ballet aqui. Ver folha de sala do espectáculo apresentado no Festival de Edimburgo em 1999.

terça-feira, agosto 01, 2006

A dança no You Tube II: Septet, de Merce Cunningham

Septet (1953*)

Coreografia de Merce Cunningham. Música de Eric Satie. Figurinos de Remy Charlip
Estreia da 1ª versão: 22 Agosto 1953, Black Mountain, Estados Unidos da América





«'Septet' [...] proved as delightful as it was revealing, historically. It is not a major work, but it has a clarity of movement that matches the clarity of sound so important to Satie. Mr. Cunningham has since created more complex and sophisticated pieces. Never, however, has he been so pure. 'Septet' is a rarity in the Cunnigham canon. [...] It is reportedly the last piece Mr. Cunningham choreographed along traditional lines before he embarked upon the regular use of chance procedures as a compositional device. [...]

Satie was a gentle avant-gardist in his own time, and both the gentleness and experimental nature of the choreography pay him homage. Satie, like Marcel Duchamp, was especially important to John Cage, Mr. Cunningham's longtime musical advisor, and Mr. Cunningham himself has turned to Satie as inspiration on numerous occasions. [...] It is difficult to imagine that Satie was once accused of writing thin music. Here, it sounds positively rich and rumbling. And perhaps the reason 'Septet' may yet look startling is that the dancing often moves against the music - stillness against the aural ripples. Simplicity is hard to achieve, but Mr. Cunningham achieves it. There are seven sections to match the music, but only six dancers [...] Remy Charlip's original costumes are soothingly pastel. 'Septet' is a plotless suite of several dances, but at its origins it carried program notes that associated each section with titles like garden, music hall, teahouse, playground, morgue, 'distance' and 'the end.' Mr. Cunningham was said to have been concerned with joy and sorrow, and an overriding theme of 'eros.'

These connotations, if they were ever visible, are at best subliminal in this production. We see instead dancers who look suddenly very young as they shyly shake hands or peer over a shoulder. As early as 1953, the year of his company's official debut, Mr. Cunningham was organizing stage space without a central focus and creating an off-center look to the body that made it look interestingly askew. Those who assert that he has become balletic in recent years will note that much of the movement includes steps such as bourees and chaines.

The initial moment, with the three women standing on half toe or in profile with arms curved or out, radiates a neo-classical image that Mr. [Robert] Swinston** then shatters with an open-mouthed silent shout and a superbly rendered bumptious solo. The duets and quartets that follow are definite encounters, increasingly quick until the couples form a diagonal, the women tilted downward by the men and raised into overt embraces. This hint of passion is resolved in a classical image: Mr. Swinston pulling his three Graces behind him. The fleeting turbulence subsides; all six dancers form a chain that breaks apart. Miss [Karen] Radford**, arching over, walks backward into the wings guided by Mr. Swinston. For no reason (or was it 'eros'?) the image of a centaur flashed through this viewer's mind.

Anna Kisselgoff

in MERCE CUNNINGHAM'S 'SEPTET', crítica ao espectáculo publicada no New York Times a 08 Março 1987, em Nova Yorque.

* A estreia da peça ocorreu em 1953, mas a data a que esta gravação se reporta,1964, corresponde ao ano em que a peça foi apresentada pela última vez antes de ser re-integrada no repertório da Merce Cunningham Dance Company em 1987. **os nomes dos intérpretes citados referem-se à apresentação na qual se sustenta a crítica (1987), não correspondendo, por isso, aos intérpretes no vídeo, datado de 1964. Ver site da companhia, com biografia do coreógrafo e lista de livros e vídeos onde se podem encontrar versões de Septet. Ver aqui um perfil, com vídeo incluído, do coreógrafo. Ver aqui entrevista com excertos de espectáculos em formato vídeo. O catálogo da exposição Drawings and Notations, sobre o trabalho de Cunningham, que se apresentou no Museu de Serralves em 1999 pode ser adquirido na livraria do museu. Ver aqui algumas das imagens incluídas nesse catálogo.