segunda-feira, julho 31, 2006

A dança no YouTube I: Café Müller, de Pina Bausch


Cafe Müller (1978)
Direcção e Coreografia de Pina Bausch. Música de Henry Purcell. Cenário de Rolf Borzik. Estreia: 20 de Maio 1978, Wuppertal, Alemanha





«A história de Cafe Müller é a história de uma excepção: 40 minutos de duração e seis intérpretes, entre os quais a própria Pina Bausch, que só no Cafe Müller decide aparecer e dançar em cena. […] A sua própria génese constituiu uma excepção […] por exigências do cartaz, quando o mesmo bailado foi encomendado a quatro coreógrafos: além de Pina Bausch, Hans Pop (seu assistente), Gehrard Bohner, e o romeno Gigi Caciuleanu. Cada um destes criadores devia inspirar-se numa cenografia realizada propositadamente por Rolf Borzik, e cada uma das quatro propostas tinha o mesmo título: Cafe Müller.

A cena – uma divisão cinzenta com painéis de vidro transparentes e uma grande porta giratória de lado, ao fundo – podia modificar-se segundo o desenvolvimento de cada coreografia. O Cafe Müller de Pina Bausch era o último da noite: a cena enchia-se de cadeiras e mesinhas escuras, só para este trabalho. […] A acção é despojada e cortante. Na floresta de cadeiras vazias e gastas, pesa a angústia de uma solidão remota. Pina Bausch recorta-se ao fundo, lgeira e espectral, com uma túnica de tom claro. O passo é curto e incerto, os olhos estão fechados, as mãos estendidas para a frente: vidente sonâmbula, fantasma da consciência de si própria.

Levada pelo som dilacerante da música de Purcell, Malou Airaudo dança movimentos entrecortados, de circularidade suave, e as mesmas sequências são retomadas pela coreógrafa, que faz o papel de duplo, mas com um tempo sempre desfasado circula às cegas na selva de mesinhas e de cadeiras, que vão sendo retiradas por Borzik, assim traçando o seu percurso. […] Cafe Müller é uma lamentação de amor, uma metáfora doce e inquieta sobre a impossibilidade de um contacto profundo. É um trabalho estruturalmente simples e emocionalmente flagelante, que impressiona pela sua pureza e coerência. A desolação ambiental, o langor fúnebre, a violência da tipificação do relacionamento do casal, constituem elementos de verdade, de absoluta sinceridade expressiva – para além de psicologias ou simbologias e de qualquer tentativa de ‘realismo’. Todo o significado é confiado ao movimento: aos gestos e à dança […] Pina Bausch celebra a sua problemática identidade de autora.

Cafe Müller é apenas uma obra sobre a mortalidade do amor. É também – e sobretudo – a confissão extrema de um estado de crise criativa: Cafe Müller consagra uma passagem, dramatizando uma tensão de pesquisa que se coloca no plano da interrogação. ‘Com Cafe Müller, Pina Bausch também criou o seu Oito e Meio’, foi o comentário de Federico Fellini, após ter visto o espectáculo.»

in O Teatro de Pina Bausch, de Leoneta Bentivoglio, edição do ACARTE/Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, pp. 98-99. Tradução de Maria José Casal-Ribeiro. Edição e links da responsabilidade do blog.

o livro encontra-se à venda na livraria da Fundação Calouste Gulbenkian por 13,46€, sendo a versão portuguesa da edição original italiana feita em 1985. Foi editado no âmbito da apresentação em Portugal, nos Encontros ACARTE 1994, de uma retrospectiva da obra da coreógrafa alemã, na altura a segunda fora de Wuppertal, a cidade alemã onde a companhia reside. Cafe Müller foi uma das peças apresentadas, ao lado de A Sagração da Primavera, Kontakthof, 1980 e Vicktor. Ler aqui breve nota sobre o livro da autoria de Miguel-Pedro Quadrio. Ler aqui ensaio de Patrícia Mendes, A dança-teatro e o paradoxo, sobre o trabalho de Pina Bausch, publicado neste blog. Ler breve nota sobre Falem-me de amor, livro que colige diversos ensaios sobre a coreógrafa.

domingo, julho 30, 2006

Processo de ilusão

crítica de teatro

Shopping & Fucking
de Mark Ravenhill
encenação de Carlos Afonso Pereira
Casa dos Dias da Água - até 06 Agosto, terça a domingo às 21h30
19 Julho 2006, 21h30
Sala cheia


Que marcas estão a ser produzidas por este presente e de que forma estão as novas gerações a pensá-las? É um estranho e assimétrico contexto este que permite que criadores possam apresentar espectáculos rigorosos e cuidados, ao mesmo tempo que vivem num secretismo mediático e pouco condicente com a vulgarização da exposição inerente à criação. Mais ainda quando essa pode surgir a partir de objectos que reflectem sobre a própria vulgarização, criando ilusões que mais tarde correrão contra si.

Carlos Afonso Pereira é um dos nomes que oscila entre o diálogo geracional e a distância que auto-provoca em relação a esse mesmo discurso. As suas propostas baseiam-se numa relação difícil com o texto, que possui e consome, e o corpo, para o qual busca correspondente directo da intenção. É comum pretender que o espectáculo se forme a partir de um “casulo”, onde cruza a denúncia do efeito cénico superficial, com a implicação subjacente ao acto de ver um espectáculo. São, por norma, espectáculos sobre o tempo – o que passou (e existe no texto), o que se cria (entre cena e público) –, e onde este existe enquanto instigador de (novas) atitudes. Sejam elas performáticas ou voyeurísticas.

A sua última criação, Shopping & Fucking regressa ao teatro exposto (o termo inglês é in-yer-face theatre) de Mark Ravenhill (a peça anterior, Fausto Morreu, foi apresentada em Dezembro 2005) para um espectáculo que mais do que uma construção sobre o declínio das relações é uma revisitação de um tempo, um modo e uma forma de transformar o teatro em espelho da sociedade. De uma sociedade particular, a londrina, e de um tempo especial, o pós-descoberta da SIDA, onde o sexo voltava a ser arma de arremesso, mas agora comportando uma dimensão hiper-trágica, onde o vulgar e o pop se encarregavam de big brotherizar qualquer relação.

A peça foi escrita em 1997 e trata da banal compra e venda dos corpos e das almas (mas Ravenhill não é Koltés), onde se joga tudo, excepto a verdade: A ama B e C mas deixa-os para encontrar D que não ama ninguém, logo, quer todos. Mas é curioso verificar como em dez anos este discurso amargo e deprimido sobre o insucesso das relações, a claustrofobia das grandes cidades e o sexo como grande deus ex-maquina se tornou banal, quase ultrapassado. E se alguma mais-valia parece existir nesta encenação é precisamente por propor, através de um descarnar do texto, uma deslocação e isolamento que, se postos em perspectiva, fazem mais pelo lado plástico e superficial que a peça denuncia, do que qualquer outra cristalização das ideias-chave que Ravenhill pretende expor.

Não me parece contudo que essa tenha sido uma opção consciente da encenação, que preferiu antes expor um duplo mecanismo de manipulação e máscara, sobretudo no “2º acto”. Aos actores é feito o desafio de jogarem a partir das regras estabelecidas pelo mefistofélico encenador, na dupla condição de observador (manipulador) e personagem (sedutor), naquela que é a mais interessante e implicada presença em todo o espectáculo. Ao entregar cartões que indicam qual a personagem que irão interpretar, amplia-se a volatilidade das relações, mas também se fragiliza o desenvolvimento da acção. Sobretudo porque o registo parece não sofrer grandes cambiantes e a dependência do texto se torna mais evidente.

Ainda assim, é inteligente a adaptação de Carlos Afonso Pereira, que substitui o sexo pelo cérebro – e há sexo, muito sexo, dito e feito, neste texto –, e cria uma movimentação tão claustrofóbica quanto felina (mesmo que essa dengosidade possa ser irrealista). Mas tudo isto se perde num jogo interpretativo morno. E porque é nos actores que se realizam as projecções (aqui sublinhas por cada um deles interpretar personagens que também estão a representar, a fingir, a fugir), o espectáculo carece de uma energia, de um outro tempo, de um outro espaço que aqui não se concretiza.

Parece assim gorada a tentativa de explorar uma (tão necessária) nova relação com objectos criativos que, querendo falar sobre o nosso tempo, são, neste mesmo tempo, objectos de difícil inscrição. Provavelmente tal como este espectáculo que, de tanto procurar a manipulação, se enredou na sua própria teia de ilusões.


Outros espectáculos de Carlos Afonso Pereira criticados neste blog: Via Dolorosa, Fausto Morreu. Ensaio sobre, entre outros, o trabalho do encenador publicado neste blog. Outros espectáculos de Mark Ravenhill criticados neste blog: Product. Crítica de Miguel-Pedro Quadrio a Shopping & Fucking no Diário de Notícias. Mais informações sobre o autor .

sábado, julho 29, 2006

Stuff we cand find on YouTube

A partir de segunda-feira, e durante uma semana, O Melhor Anjo põe-se à procura no You Tube de registos em vídeo de espectáculos de dança. Há de tudo, como na farmácia. Os mais comuns são registos de apresentações nas escolas e outros vídeos caseiros, com milhares de exemplos a provarem que um palco não faz um artista, e ainda centenas de captações ilegais de espectáculos, a maior parte de dança clássica. Mas também há anúncios humorísticos, estranhas captações de programas de televisão sobre dança, vários excertos de espectáculos e tentativas de identificação que são partilhadas pelo enorme gozo que deram a quem as encontrou. Muitos dos vídeos não estão totalmente identificados, o que faz da pesquisa uma dor de cabeça. Nas escolhas apresentas nesta breve viagem pelo infinito mundo do You Tube procurou-se dar conta dos nomes e referências, bem como de algumas preciosidades. Os excertos seleccionados serão acompanhados de breves contextualizações sobre os espectáculos. De notar que os vídeos apresentados nunca correspondem à total duração dos espectáculos, nem pretendem substituir-se à experiência numa sala (nem podem dado que grande parte dos registos que se irão apresentar já não circulam ou fazem-no raramente). O que se apresenta a partir de segunda-feira é uma viagem pelo You Tube sem preocupações estéticas ou historicistas, apenas de proposta de conhecimento de um mecanismo que deve ajudar a reflectir sobre a importância da identificação, fixação e memorização de propostas que o tempo tende a fazer esquecer.

Projecto Thierry Salomon - insights exclusivos no blog


O Projecto Thierry Salomon é uma iniciativa cultural no âmbito da formação teatral, da responsabilidade de cinco países, Bélgica, Espanha, França, Itália e Portugal, pensado "com o objectivo de relacionar jovens actores, formados nas escolas dramáticas europeias e exercendo já uma actividade profissional, com encenadores de renome a nível internacional". Na edição deste ano estarão presentes os actores Luís Godinho, Martim Pedroso e Paula Diogo , que irão trabalhar sob direcção do encenador italiano Antonio Latella em Saragoça, Espanha e Lisboa. E ainda, com direcção do italiano Pippo Delbono vão trabalhar em Fagagna (Itália) e em Liège (França) os actores Adriana Aboim, Nuno Gil e Victor Hugo Pontes. Os estágios começaram no passado dia 25 de Julho e terão apresentação pública no início de Setembro em Roma. Até lá O Melhor Anjo conta com os insights exclusivos a partir do interior dos estágios, pela mão de Martim Pedroso e Nuno Gil. Todos os sábados (se assim o conseguirem cumprir, dada a intensidade dos trabalhos), poderá ler-se aqui no blog o diário de bordo destas acções de formação que, segundo o site, pretende "dar vida a uma experiência de trabalho fortemente assente na confrontação e na troca de experiências sobre métodos e práticas de encenação, partindo de textos, línguas e linguagens artísticas diferentes".

Hoje, por Martim Pedroso, a primeira imagem do estágio em Saragoça.

"Eu não tenho um método específico, ele nasce sempre no encontro com os actores"

António Latella

Mais informações sobre o projecto pode ser obtidas no site oficial. Ver também o site do Instituto das Artes sobre a participação portuguesa.

sexta-feira, julho 28, 2006

Notas sobre o Prémio Maria Matos - Nova Dramaturgia Portuguesa


O Maria Matos – Teatro Municipal decidiu, em boa hora, recuperar o Prémio Maria Matos de dramaturgia, distinção criada antes do 25 de Abril por Igrejas Caeiro, fundador e antigo director do teatro agora dirigido por Diogo Infante. O prémio, dedicado à Nova Dramaturgia Portuguesa, quer constituir-se como estímulo tanto para a escrita de textos teatrais como para a revelação de novos autores, “através de trabalhos criativos”.

Apresentado na passada terça-feira, 27 Julho, o prémio tem o valor de cinco mil euros e será atribuído em Fevereiro do próximo ano a partir das escolhas feitas por um júri composto pelo dramaturgo Abel Neves, que preside, Diogo Infante, as actrizes Beatriz Batarda e Natália Luiza, também encenadora, e o actor, dramaturgo e encenador Tiago Rodrigues, responsável pelo projecto Urgências, actualmente em cena no teatro e que se prevê possa constituir-se como espaço de gestação e apresentação de novos autores teatrais. De notar que o júri não inclui qualquer crítico literário.

A sessão, que contou com a presença de José Amaral Lopes, Vereador da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa e Presidente da EGEAC, a entidade que gere o Maria Matos, e da Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, serviu, segundo o PÚBLICO de ontem, para defender a ideia de que a recuperação do prémio se inscreve na tentativa de ultrapassar “‘a dificuldade de colocar em cena textos portugueses’ que são de ‘pouca qualidade e em baixa quantidade”’, segundo o director do teatro.

Se se saúda esta recuperação, não deixa de ser curioso apontar que a atribuição do prémio Maria Matos – Nova Dramaturgia Portuguesa não implica a encenação do texto vencedor, antes pelo contrário. Os cinco mil euros ilíquidos que serão dados ao vencedor são, segundo, o regulamento (disponível online) a única relação que o Maria Matos terá com o texto. Isto porque não é feito em todo o regulamento qualquer demonstração de intenção de encenação do espectáculo ou leitura pública do texto, ainda que, no final da sessão, membros do teatro tenham assegurado que essa é uma situação ainda a estudar, mas não garantida. O regulamento indica apenas que por conta do teatro serão desenvolvidos “os melhores esforços para editar, nos termos que entender convenientes, o texto premiado”.

O que o Maria Matos propõe, por outro lado, é, em vez da encenação de um texto pelo qual já pagou, a eventual integração do autor vencedor no projecto teatral Urgências, caso assim seja acordado entre o teatro e a entidade responsável pelo espectáculo, escrevendo uma nova peça, preferencialmente para menos meios, menos actores e menos tempo, como se depreende das várias declarações feitas sobre o modelo deste projecto, feito em co-produção com as Produções Fictícias. Ou seja, o teatro prescinde dos direitos de uma peça à qual atribuiu um valor, reconheceu a capacidade de renovação e inovação na dramaturgia portuguesa, mas ainda assim prefere que na sua programação não se inclua uma nova peça de um novo autor. O que não só contribuiu para a ideia de escrever para a gaveta, como, curiosamente, parece responder à nota amarga de Luís Miguel Cintra, actor, encenador e director do Teatro da Cornucópia, no discurso se aceitação do Prémio Pessoa 2005: “o mercado teatral está a ditar até a própria escrita teatral: procura-se inventar à força novos autores e novos textos para satisfazer o mercado, mas pede-se que de preferência sejam breves e exijam poucos cenários e poucos actores, já que o espaço previsto para a novidade não pode ser caro, porque terá de restringir-se àquela margem prevista da outra programação, a importante, a programação académica, vistosa, de prestígio, ou a mais ‘popular’ e compensadora em número de público e em receitas, das salas grandes e dos grandes meios” (Expresso, 17 Junho).

Não deixa, por isso mesmo, de ser estranho que se num outro teatro municipal, o São Luiz, Jorge Salavisa iniciou o ano passado um projecto de colaboração estreita entre autores não teatrais e companhias/criadores (em 2006, José Luís Peixoto/Teatro Meridional e Gonçalo M. Tavares/Lúcia Sigalho; em 2007, José Luís Peixoto/Marco Martins), para o Maria Matos a EGEAC prefere guardar o texto, esquecendo o que o próprio director do Maria Matos dizia em entrevista em Março a este blog, a propósito da relação do teatro com a nova dramatugia: “Espero poder contribuir para aliciar, dinamizar e fundamentar a dramaturgia nacional. Um teatro municipal tem essa obrigação. Procurei contemplar isso na programação de duas formas, por um lado criando espaços onde capitalizar alguns dos dramaturgos que já existem e têm uma produção contínua e, por outro lado, recuperando um prémio de dramaturgia, para estimular e criar a possibilidade para as pessoas que querem escrever. Criar mecanismos que lhes permitam ter um confronto com a carpintaria teatral, o que passa pela relação directa com criadores, actores, encenadores, pôr as pessoas em contacto, aproximá-las”.

Posto isto, importa ainda referir que a presença da Ministra da Cultura na apresentação de um prémio municipal, se por demais relevante pelo prestígio e legitimação inerentes, levanta problemas de outra ordem. Nomeadamente porque é no próprio Ministério da Cultura que se encontram algumas das dificuldades para a existência de novos nomes na dramaturgia nacional. Desde logo pela exclusão de um apoio específico à criação dramatúrgica no programa de apoios pontuais e sustentados do Instituto das Artes, depois pela suspensão de bolsas de criação literária, ainda pela inexistência de incentivos às editoras para publicação de peças e, por último, mas certamente não finalizando a lista, por uma desarticulação entre os Ministérios da Cultura e Educação para a promoção do teatro e da dramaturgia nas escolas.

Assim, não admira que para Isabel Pires de Lima o prémio Maria Matos se constitua como “uma boa notícia para as artes por fomentar o diálogo entre os novos dramaturgos e os teatros” (Diário de Notícias, ontem). Pena é que nesta bela intenção programática não se tenha incluído o Teatro Nacional D. Maria II, sobretudo porque uma das razões para a mudança de direcção tinha precisamente a ver com a carência de autores portugueses em cena, entretanto revogada. Verificando que no recente fátuo fogo de artifício que foi a Mostra Internacional de Teatro de Lisboa não houve um autor português actual representado, parece-me estar tudo dito quanto ao papel que o Ministério quer ter na divulgação da dramaturgia nacional.

quarta-feira, julho 26, 2006

Públicos do Rivoli - vários estudos

Ontem e como se previa, foi vendido o Rivoli. Hoje encontro na internet curiosos estudos sobre ou a partir do Rivoli:

- Público(s) de Dança Contemporânea do Rivoli: uma democratização adiada, de Anabela Teixeira Dantas e Maria de Fátima Gonçalves (IV Congresso de Sociologia, 2004);



- Os públicos de teatro e a inocência dos criadores, de João Teixeira Lopes (versão electrónica do artigo publicado na Revista do Observatório das Actividades Culturais, 1997)

A paridade no teatro francês

Les hommes à l'avant-scène
LE MONDE 24.07.06

© Le Monde.fr






Dois artigos no Le Monde , ambos assinados por Clarisse Fabre, revelam dados sobre a paridade no teatro franceses. No primeiro, sobre as direcções do teatros, mostra-se que "92 % des théâtres (théâtres nationaux, centres dramatiques nationaux, centres dramatiques régionaux, etc.) sont dirigés par des hommes. Les femmes, qui assurent donc 8 % des directions, sont généralement nommées dans des structures moins bien dotées : alors que le budget moyen de ces établissements s'élève à environ 3,4 millions d'euros, il est de 2 millions d'euros quand il est piloté par une consoeur. La toute récente nomination de Muriel Mayette à la tête de la Comédie-Française apparaît certes très emblématique. Reste que, jusque-là, aucune femme n'avait jamais dirigé l'un des six théâtres nationaux". O segundo, que observa o Festival de Avignon diz que "le public d'Avignon, lui, est majoritairement féminin - à 59 % selon le ministère. Les hommes présentent et les femmes regardent ? Cette faible visibilité des metteuses en scène est soulignée dans le rapport du ministère de la culture, réalisé par Reine Prat. Les femmes représentent 30 % des metteuses en scène dirigeant des compagnies dramatiques subventionnées par la Rue de Valois. Mais sur les deux saisons 2002-2003 et 2003-2004, 82 % des metteurs en scène invités dans ces mêmes structures sont des hommes (39 femmes et 178 hommes). "Quand nous allons au théâtre, 85 % des textes que nous entendons ont été écrits par des hommes", rappelle par ailleurs Reine Prat".

Textos & Pretextos nº 10 - Call for Papers

A revista Textos e Pretextos comemora o seu 5º aniversário dedicando
o número 10, Primavera/Verão 2007, a

Manuel Gusmão
Poesia e Crítica


Aceitam-se propostas de ensaios até dia 15 de Dezembro de 2006 (textos_pretextos@yahoo.co.uk)

Para mais informações sobre como colaborar contacte Centro de Estudos Comparatistas
Tlf. 21 792 00 85 textos_pretextos@yahoo.co.uk

informações enviadas por mail e da responsabilidade dos autores

segunda-feira, julho 24, 2006

Esta caixa o que é?


A caixa abre-se em Setembro, para quem souber ver.

Juntos no Rivoli - tomadas de posição

O crítico e dramaturgo Jorge Louraço Figueira escreve sobre a decisão de Rui Rio em passar para mãos privadas a gestão do Rivoli - Teatro Municipal.

Da maneira como foi anunciado, este plano só pode conduzir a um usufruto abusivo por parte dos indivíduos que (o diabo seja cego, surdo e mudo) venham a explorar o Rivoli, um bem público que seria então gerido com fins lucrativos, isto é, pilhado em proveito pessoal. Não se sabe por quem, mas sabe-se que um teatro municipal não pode ser gerido com fins lucrativos, nem pode entrar nas contas da autarquia como um luxo desnecessário: o Rivoli é um fórum que se destina a dar ao maior número de pessoas as mais diversas manifestações artísticas, segundo o princípio de que as actividades culturais são tão necessárias e básicas como quaisquer outras. E é seguindo este princípio que deve ser gerido um teatro municipal. Promover o contrário demonstra que os líderes políticos ou desprezam a vida intelectual dos seus cidadãos eleitores ou preferem limitar a expressão cultural dos mesmos. Nessa lógica, a presidência da câmara bem podia abdicar de toda e qualquer política e limitar-se a dar pão e circo à populaça, começando pelo gabinete presidencial. Se a autarquia pretende abdicar do Teatro, quaisquer que sejam as razões, deve fazê-lo convocando os artistas da cidade e os seus representantes para debater o assunto, e não agir despoticamente, em claro abuso do mandato que lhe foi conferido e em desrespeito das expectativas do público - que o há. O teatro é um dos sítios onde os indivíduos anónimos, consumidores passivos, alvo da saliva concupisciente dos media e dos partidos (em alternância), se revelam pessoas concretas, capazes de pensar pela própria cabeça e ver as diferenças entre uma coisa e outra. Claro que isso não interessa...


O texto foi originalmente publicado no site Juntos no Rivoli que reúne as assinaturas e comentários dos que se opõem a esta posição do Presidente da Câmara Municipal do Porto. Reproduzido no blog com autorização do autor.

domingo, julho 23, 2006

Manifestação no Porto contra o "leilão do Rivoli"



Sucedem-se já manifestações que se opõem às posições de Rui Rio e da Câmara Municipal do Porto que pretendem alienar o Rivoli - Teatro Municipal. Para além da manifestação/vigília marcada para amanhã às 19h00 à porta do teatro, existe um site - Juntos no Rivoli - que pretende juntar assinaturas e comentários contra a crise que assolou um espaço de referência.

Nova edição da revista Textos e Pretextos dedicada ao tema Os Monstros

Já está à venda o novo número da revista Textos & Pretextos, editada pelo Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras de Lisboa. Desta vez dedicada ao tema Os Monstros, a revista inclui reportagens, entrevistas (Eduardo Pitta, Manuel da Silva Ramos, Olga Roriz, Ieda Tucherman, Paulo Moura/José Rodrigues dos Santos e António Carneiro), testemunhos e livros, bibliografia temática, ilustração e uma ampla secção de reportagens e ensaios.

Na secção de ensaios : Bestial Child: monstrosity in a postcolonial view - The Satanic Verses by Salman Rushdie (Maria Sofia Pimentel Biscaia) The Abject Body in Contemporary Female Art (Maria Luísa Coelho) Um monstro da cidade moderna: A figura da prostituta em Toulouse-Lautrec (Inês Cordeiro Dias) Monstros Intelectuais: uma monstruosidade oculta (Maria Antónia Lima) Já não há ninguém no lugar marcado a X: Os mutantes X-men como exemplo de uma metamorfose cultural (Pedro Moura) Processos de construção da figura monstruosa (Sílvia Quinteiro). De entre as várias contribuições nessa secção de ensaios, destaque para Teatro Anatómico, da autoria de Pedro Manuel, colaborador d'O Melhor Anjo, e que parte para uma análise às representações grotescas e monstruosas no teatro.

Um excerto: «A relação entre o teatro e os monstros pode ser estabelecida por dois paralelos. O primeiro [...] é mediado pela ideia de desfiguração ou transfiguração dos corpos e, sobretudo, por uma desumanização ambígua da fisionomia humana. De certa forma, podemos dizer que esta transfiguração dos corpos orgânicos ou inanimados é condicionada por uma graduação, desde o simples figurino à composição mais elaborada de uma personagem fantástica. [...] O segundo paralelismo estabelece-se ao nível da etimologia: teatro deriva de theatron, que designa o lugar de onde se vê; monstro deriva de monstrare, que designa algo como dar a ver. Num e noutro sentido, a visão estabelece-se como o meio privilegiado, o acontecimento onde se joga a criação de sentidos. Esta visão implica a criação de uma imagem, ou o reconhecimento da sua autonomia. Por outro lado, falar do lugar de onde se vê implica ver de um ponto de vista, colocar-se numa perspectiva, assim como dar a ver implica constituir as condições de visibilidade, isto é, elaborar perspectivas.»

No blog daLiteratura, Eduardo Pitta já fez uma breve nota sobre a revista que já vai no número 08 e custa 12€.

sábado, julho 22, 2006

Rui Rio fecha as portas do Rivoli


As últimas notícias vindas do Porto, e de Rui Rio, Presidente da Câmara (cada vez mais uma e outra “coisa” se confundem, por ausência ou ampla visibilidade de forte contraditório) dão conta da intenção, ou já fundamentada acção, de transferir o Rivoli – Teatro Municipal da gestão da CulturPorto (e brevemente PortoLazer) para mãos privadas. A acontecer será o golpe final de uma política cultural assente na constante perseguição com diversas frentes: asfixiamento financeiro, restrição e censura pública ou substituição de acções relevantes por manifestações populistas de carácter ainda mais efémero.

A proposta, que deverá ser aprovada esta semana pelo executivo camarário, prevê a entrega da sala a uma entidade privada que garanta 300 apresentações por ano, duas grandes produções originais e duas peças infanto-juvenis. Contas feitas sobrará um mês para manutenção e outro para férias, como salientou ao JN Alexandra Maurício, da produtora Décima Colina. Como se viu com a crise provocada em 2004 pelo congelamento das atribuições de apoios do Ministério da Cultura, e que levou ao cancelamento de produções mas também à redução substancial de espectáculos e estruturas num contexto já de si hiper-frágil, não existem projectos no Porto que possam garantir o cumprimento do contrato. Contrato esse a assinar por quatro anos para “não manietar opções políticas futuras e não fazer o mesmo que outros que cá estiveram antes”, acrescentou Rui Rio que quer assim “rentabilizar as infra-estruturas” em nome de um emagrecimento do Estado português, à conta do mais do que provável despedimento de trabalhadores. Segundo o Diário de Notícias de 25/05, as opções de Rui Rio, consubstancidas na novíssima PortoLazer, implicam "transferir para privados o financiamento da animação da cidade [e que] é, na opinião de Rui Rio, uma medida "aconselhável" face aos "parcos meios financeiros disponíveis" da Câmara do Porto para investir na cultura".

Eu desconheço as razões que levam a que no Porto não exista qualquer espaço integrado na Rede de Cine-Teatros do país, facto que existe em todas as outras capitais de distrito, com excepção de Lisboa, e em algumas outras cidades, seja com o mesmo estatuto ou equivalente (Almada, Vila Flor, Vila Nova de Famalicão, por exemplo). Mas importa que o Ministério da Cultura tome uma posição clara e de força contra esta decisão autoritarista e provinciana. Estão em causa questões de direitos públicos que são preteridos em nomes de lógicas concentracionárias e enviesadas. Isto tanto serve para a cultura como para qualquer outra área. Mas à cultura imputam-se sempre os défices orçamentais. Foi isso que Rui Rio quis dizer quando comparou gastos com o Rivoli a outras despesas, não menos importantes.

Ora, sucede que esta atitude de Rui Rio - e que alguns criadores já intitulam de “leilão do Rivoli” - é, no fundo, a demissão de responsabilidades por um executivo que tem feito de tudo para negar ao Porto o verdadeiro estatuto de segunda cidade nacional. Veja-se, no caso da cultura, o exemplo das crises na Casa da Música ou os constrangimentos ao trabalho das galerias de arte situadas na Rua Miguel Bombarda (com algumas a saírem da cidade e a abrirem novo espaço em Lisboa), ou ainda as dificuldades na realização de festivais como o FITEI ou Fazer a Festa e o fim dos apoios financeiros ao Fantasporto. São, por isso, mais do que relevantes as declarações da sua directora Beatriz Pacheco Pereira que assumiu, sem ambiguidades, transferir o festival para fora da cidade se não forem garantidas as condições necessárias para a sua realização.

Não obstante o facto de no programa se prever que seja continuado o apoio às companhias portuenses convêm registar que nos últimos anos, essas apresentações eram remetidas para um horário ao final da tarde, 19h30, e com uma carreira curta que impedia qualquer formação de públicos, visibilidade do trabalho ou criação de uma verdadeira massa criativa local. Numa cidade que depois do excesso da Capital Europeia da Cultura, em 2001, tem como locais para apresentação de espectáculos o bicéfalo Teatro Nacional S. João (a sala com o mesmo nome e o Teatro Carlos Alberto), o Auditório de Serralves com programação pontual, o Teatro do Campo Alegre, ocupado pela Seiva Trupe, e o Coliseu para grandes produções, é manifestamente pouco.

Há muito que se tinha perdido a força de outrora, e estamos já longe do fluxo criativo imposto por Isabel Alves Costa, ainda programadora do espaço, e que originou, entre outros, a publicação dos relevantes Cadernos do Rivoli (o nº 4, dedicado à dança, constitui-se ainda como exemplo do debate a fazer sobre a criação contemporânea), a apresentação de espectáculos de novo circo ou o Festival de Marionetas, que acabou por falta de verbas. Já para não falar de um Rivoli enquanto lugar mítico do cinema, com as edições do Fantasporto a proporcionarem as Noites Longas do Rivoli.

O que se pretende agora é “uma nova animação na Baixa” portuense através de espectáculos que garantam a rentabilidade necessária que liberte o Rivoli do subsídio da CMP, numa redução que se prevê desça dos “2,5 milhões de euros para cerca de 200 mil euros anuais” ilíquidos. Por isso, fala-se já que este negócio foi feito à medida das produtoras privadas. Como noticiava o Jornal de Notícias hoje, para a UAU, de Paulo Dias, que em Lisboa gere o Teatro Villaret e o Auditório dos Oceanos no novo casino da cidade, esta proposta “é essencial para que o mesmo espectáculo possa ser extensível a vários pontos do país". Estamos, por isso, perante um negócio amplamente lucrativo do qual a cidade não sairá beneficiada. A substituição de uma pesquisa, experimentação, acesso a objectos pertinentes e a uma programação desenhada de acordo com aquilo que deve ser o papel de um espaço municipal de relevo, por um exercício de manipulação financeira cujo único objectivo é a descrebilização de um lugar, uma memória, um papel. Trava-se aqui a retórica discussão da qualidade e da rentabilidade, como se depreende das declarações de Rio ao jornal Primeiro de Janeiro.

Mas como se pode perceber pelas recentes declarações de Rui Rio não importa aqui a reflexão sobre a criação, e menos ainda o garante de um espaço municipal que cumpra o papel que só ao Estado cabe – protecção das artes economicamente insustentáveis, sobretudo quando colocadas no prisma do serviço público (e é esse o papel dos espaços municipais) -, mas antes a cedência aos interesses mercantilistas, que em pouco contribuem para uma mais eficaz apreensão do papel da arte e da cultura na sociedade.

Basta reter as declarações de António Reis [director do Seiva Trupe] ao JN, acerca das regras de ocupação de espaço no Teatro do Campo Alegre, com alugueres incomportáveis para as companhias, para se perceber que não há em Rui Rio qualquer vontade política e pública de prosseguir um trabalho de continuada aposta cultural. Mas uma aposta relevante e que não escamoteie aquilo que devem ser obrigações de uma Câmara Municipal de uma cidade como o Porto.

Ao hipotecar o futuro do Rivoli nas mãos de privados, Rui Rio mais não faz do que, num tom persecutório e violentamente imaturo, associar a CMP ao descrédito cultural, ao desrespeito pelo público (na sua busca pela formação e fixação de hábitos) e à inconsciência política, votando a cidade a um marasmo difícil de sustentar. Importa, assim, que as várias vozes da cidade (mas também as vozes nacionais que defendem uma sociedade com cultura) se unam, tal como com o Coliseu do Porto há anos atrás, numa ampla manifestação contra esta atitude retrógrada, vil e usurpadora de uma política que deve servir os interesses dos cidadãos e não as convicções autistas dos autarcas.

O público de Avignon no microscópio do Libé


Termina hoje no jornal francês Libération o o retrato sociológico do público do 60º Festival de Avignon, que decorre em França até 27 de Julho. A ler: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12.

Ler ainda A Nossa História do Festival ou Avignon visto pelo jornal Le Monde

Na foto o espectáculo Contigo, de João Paulo Pereira dos Santos, que se apresenta até dia 25 de Julho - e que o Libé diz "se situe plutôt sur le terrain du cirque autour d'une chaise et d'un mât chinois, [en] associe[nt] la virtuosité à la grâce dépouillée" -, e cujo diário de Avignon O Melhor Anjo está a publicar em exclusivo (ver 1 e 2 ). Ver outras fotos aqui.

foto de Christophe Raynaud de Lage

Workshop de verão no CEM pelo Teatro Praga


4ª EDIÇÃOFCVERÃO 2006 é um lugar especial de encontro, aprendizagem e partilha de pessoas e propostas na área da Dança Contemporânea e outras artes do espectáculo realizado pelo c.e.m - centro em movimento e pelo Forum Dança. FCVERÃO 2006 apresenta diferentes propostas: Um Programa de Seminários dirigido por artistas autores de um trabalho intenso e amplamente reconhecido, num cruzamento entre as áreas da Dança, da Música e do Teatro.

31 DE JULHO A 04 DE AGOSTO
com ANDRÉ TEODOSIO E PEDRO PENIM
no FCVERÃO 2006
14h00/19h00 - Preço: 75€ - Local: c.e.m

A partir das experiências do Teatro Praga, propomos um atelier em que se conjuguem e se desafiem vontades e em que o acto de criação teatral possa (ou deva) nunca passar disso mesmo. Os danos colaterais são reais e é na sua assunção que reside o todo jogo da cena.

Gilles Deleuze e Félix Guattari no Anti-Édipo (tradução de Varela, Joana Morais e Carrilho, Manuel, editora Assírio e Alvim, 1995): "Já não acreditamos numa totalidade original, nem numa totalidade de intenção. Já não acreditamos na monotonia de uma pálida dialéctica evolutiva que professa a reposição da ordem nas partes através do arredondamento das suas arestas aguçadas, só acreditamos em totalidades quando se encontram nas linhas laterais. E se encontramos essa totalidade junto das partes, é um todo compreendendo estas partes que não as totaliza, uma unidade entre estas partes que não as une e que se junta a elas como uma nova parte composta separadamente."

Contactos:
Centro em Movimento
Rua dos Fanqueiros, nº 150 - 1º andar 1100-232 Lisboa
(perpendicular à Rua de S. Nicolau)
E-mails: cem@c-e-m.org
- producao@c-e-m.org
Secretaria (das 9h30 às 22h00): 21 887 1917
fax: 21 887 1549 Móvel: 91 611 8470


Outros workshops e mais informações aqui . Informações enviadas por e-mail e da responsablidade dos autores, excepto hiper-ligações.

Teaser

Dias 08 e 09 de Setembro são as datas a marcar, desde já, na agenda. O 3º aniversário d'O Melhor Anjo promete uma festa à medida. Mais informações brevemente.

Abordagens ao Festival de Almada: Rhinocéros


crítica de teatro

Rhinocéros
de Eugène Ionesco
encenação de Emmanuel Demarcy-Mota/Comédie de Reims (França)
23º Festival de Almada
Teatro Nacional D. Maria II, 14 Julho, 21h30

A rinocerização já começou


Quando Rhinocéros (1958) de Eugène Ionesco estreou, encenado pelo alemão Karl-Heinz Stroux (1960), a metáfora era horrivelmente evidente. Pairava ainda no ar o fantasma do III Reich, a escalada de Hitler ao poder e tudo o que se lhe seguiu, o que para muitos não foi mais que o fim da Humanidade. Hoje, como aliás tudo o resto, o mundo é um pouco mais complicado. Há mais fanáticos, contudo divididos por mais fanatismos. Temos Haidders, Le Pens e afins, temos Blairs e Bushs, temos a globalização, Chiracs e Berlusconis, temos o medo e o Médio Oriente.

Em Rhinóceros, os habitantes de uma cidade aparentemente normal começam a transformar-se em rinocerontes como se de uma epidemia se tratasse. Os outros habitantes, se no início tentam reagir pela lógica, pela negação, pela tentativa de racionalizar o fenómeno, pela explicação dialéctica, depressa se deixam atrair pelo apelo da pele dura, da vida livre, da existência em manada, enfim, pelo fim do Homem e da Humanidade. Todos à excepção de Bérenger, o bêbado local, que acabará por se isolar em casa na esperança de não ser contaminado. Com a transformação de todos os outros, Bérenger reage ambiguamente: lamenta-se pela sua pele fraca e corpo feio; e exalta a sua condição de homem que jamais desistirá de o ser, o último homem livre.

No local confuso que é hoje a Europa, o encenador Emmanuel Demarcy Mota - que tem trabalhado com um dos mais estimulantes jovens dramaturgos franceses, Fabrice Melquiot - vai a Ionesco sublinhar que “há um monstro em cada um de nós, escondido sob o verniz da civilização e da educação”. Monstro esse que, ainda para Demarcy-Mota, “é ao mesmo tempo uma deformação do indivíduo e um espelho do mundo” (folha de sala do TNDMII). A “rinocerização” que se opera hoje é mais difícil de explicar. A que grande manada aderimos nós hoje? À do capitalismo? À do fanatismo religioso? À do individualismo? À do globalismo? O curioso é que nenhuma delas se parece materializar em nenhum grupo, e contudo, todas elas definem o nosso confuso mundo ocidental.

O espectáculo que Emmanuel Démarcy-Mota, traz a Lisboa, integrado no LisboaMite 06 e no 23º Festival de Almada, pela Comédie de Reims, não tem a sua pujança num comprometimento político nem social. Tal como Ionesco aquando da estreia francesa, poderia o encenador responder: “é uma tentativa de desmistificação e não a tentativa de substituir uma mistificação por outra mistificação” (apud A. Ribeiro dos Santos, “Aderir às massas ou ficar sozinho, Jornal LisboaMite 06, nº3, p.3). Faz da transformação dos humanos em rinocerontes uma questão mais individual e pragmática que social e metafísica.

Mas este espectáculo não vive só da gritante pertinência do teatro de Ionesco nos tempos modernos. Démarcy-Mota é um poeta que escreve com os corpos dos actores. Os actores jogam com coreografias, com gestos estilizados, com sequências rítmicas, com uma plasticização do quotidiano que lembra constantemente que estamos perante uma obra de arte. Esta formalidade, que lembra um criador como Patrice Chéreau, é consubstanciada no registo cinematográfico do espectáculo, reforçado por uma banda sonora que vai sublinhando, modelizando e apontando, ou pela repetição em coro de algumas frases-chave. Também o cenário (de Yves Collet), monumental e impositivo, contribui para esta formalidade. A utilização em dois andares descentra a acção e cria de uma maneira mais eficaz, a impressão da propagação da “epidemia”. Ao mesmo tempo, as mudanças de cenário - chão que sobe e desce, mudanças de perspectiva, derrube de paredes, aproximação ou afastamento de praticáveis – criam aos actores possibilidades de jogo próximas do vaudeville, do burlesco ou do teatro físico.

Não obstante a formalidade, Rhinocéros de Demarcy-Mota é um espectáculo intenso e que coloca questões demasiado inquietantes para que as esqueçamos tão depressa. Todo o espectáculo é marcado por um tom suplicante, trágico, negro, onde quase só se destaca o amarelo da camisa de Bérenger, que acabará por ser a última marca de humanidade num mundo cinzento de rinocerontes.

Rui Pina Coelho

RE.AL procura Director(a) Técnico(a)

RE.AL (a estrutura de dança de João Fiadeiro)
procura DIRECTOR(a) TÉCNICO(a)


Funções:
Direcção técnica da Companhia e do Atelier RE.AL

na Companhia RE.AL:
Acompanhamento técnico de novos projectos de criação; Direcção e operação técnica de espectáculos em digressão em Portugal e no estrangeiro; Elaboração e actualização de dossiers técnicos dos vários espectáculos; Aquisição, preparação e manutenção de equipamento e cenografia

no Atelier RE.AL:
Acompanhamento técnico de projectos de formação e investigação artísticas; Acompanhamento técnico de projectos em residência artística; Inventário e manutenção do equipamento


Perfil do candidato/a:
Experiência anterior na área; Conhecimentos na área de luz, som, audiovisual e maquinaria; Iniciativa e autonomia organizativa; Capacidade de liderança; Espírito de equipa; Conhecimento das línguas inglês e/ou francês (oral e escrito); Conhecimentos de informática; Flexibilidade para trabalhar fins-de-semana e feriados; Disponibilidade para viajar dentro e fora de Portugal; Residente em Portugal; Carta de condução


Os interessados deverão enviar carta de motivação e CV até dia 31 de Agosto, através do e-mail real@re-al.org A selecção dos candidatos será efectuada durante o mês de Setembro. Todos os candidatos obterão uma resposta.

Para mais informação sobre RE.AL consultar o site: www.re-al.org
informações enviadas por e-mail e da responsabilidade dos autores.

sexta-feira, julho 21, 2006

Reacções à crise no Rivoli já se fazem sentir

De Francisco Alves, director do Teatro Plástico, uma das companhias de teatro do Porto, chegou ao blog um e-mail, que abaixo se reproduz, reivindicando uma atitude por parte da comunidade artística à expropriação e alienação (os termos correctos têm que ser estes) que Rui Rio pretende aplicar ao Rivoli - Teatro Municipal. Segundo as notícias que circulam na imprensa (ver aqui, aqui, aqui, aqui e aqui ), o Presidente da Câmara Municipal do Porto prepara-se para entregar a sala à proposta mais vantajosa feita por uma companhia de teatro (ver aqui apresentação do plano). Acontece que as exigências (300 apresentações por ano, duas grandes produções e dois espectáculos infantis) são incomportáveis para as companhias portuenses. Razão pela qual se diz que se trata de um acordo feito à medida de Filipe la Féria, que, segundo o PÚBLICO de hoje, já tinha suspirado por uma sala de teatro no Porto.


Caros amigos e colegas

Enquanto profissional das artes do espectáculo da cidade do Porto e membro da Plateia espero que o "leilão do Rivoli" a que estamos a assistir sirva para que, por uma vez, surja uma posição concertada e uma manifestação de força que ponha cobro a uma política continuada de desagregação cultural que, com os mandatos de Rui Rio, fez com que a vida cultural do Porto retrocedesse mais de uma década e que a segunda cidade de um país membro da união europeia tenha a vida cultural de uma aldeia do mundo civilizado a que é suposto pertencermos.

Se os Portuenses não permitiram que o Coliseu fosse desvirtuado das suas funções, está agora nas nossas mãos não permitir que o mesmo aconteça com o único espaço municipal que ainda permite que as artes do palco desta cidade continuem a existir e que ao longo dos anos foi formando públicos para as mais diversas formas de Teatro e Dança.

Numa cidade em que o estado Português financia um teatro nacional, três escolas de artes do espectáculo e várias companhias de Teatro e Dança não é aceitável que o poder central assista sem intervir ao modo flagrante como esta autarquia tem anulado o investimento publico feito e que, ao arrepio de de todas as autarquias do país, não cumpre as obrigações para com o fomento cultural a que está obrigada.

Sendo que no Porto as estruturas de criação artística permanecem sem espaços de trabalho, a entrega de um espaço público a uma entidade privada (qualquer que ela seja) constitui um flagrante atentado à liberdade de criação e à diversidade de oferta cultural e significa na prática o fim da maior parte das companhias de Teatro e Dança do Porto, que têm no Rivoli - Teatro Municipal (sic) a única possibilidade de (sem qualquer apoio financeiro) apresentar a maior parte do seu trabalho.

Pelo limite a que permitimos que "isto chegasse" não me parece que esta situação se resolva com os habituais abaixo assinados ou os mais ou menos cautelosos protestos na comunicação social. Enquanto artistas num país de iletrados temos o dever de cidadania de intervir no momento próprio e romper a resignação com que vamos permitindo que o poder se exerça de forma despótica e nada iluminada e que os merceeiros que tomaram de assalto esta cidade delapidem um património colectivo.

Assim espero que a Plateia - associação de profissionais de artes cénicas - promova uma assembleia geral extraordinária urgente de modo a decidir as formas de luta a tomar e, enquanto contributo cívico e artístico (e sem prejuizo de outras iniciativas), proponho desde já uma acção de "paint ball" à entrada dos paços do concelho para que este executivo perceba na pele que num estado de direito o poder se exerce sempre de forma transparente e em beneficio do interesse público. E que o direito à indignação e revolta é, desde sempre, uma das marcas culturais desta cidade.

Ficando desde já a aguardar notícias,

Com os melhores cumprimentos

Francisco Alves/Teatro Plástico

Revista 21 por 21 lançada hoje no Porto


21 por 21 é a nova revista dedicada ao debate e reflexão sobre as artes e o ensino artístico e que é editada pela Escola Superior Artística do Porto (ESAP). Para o primeiro número desta nova revista semestral o tema é o teatro, respondendo-se assim a uma das valências do programa educativo.

Mais exactamente, a 21 por 21 pergunta Onde está o teatro?, a partir de uma proposta do editor convidado (e será um por número), o crítico e dramaturgo Jorge Louraço Figueira, que quis procurar os contextos e lugares de criação de espectáculos de teatro. Mas, no entanto, não deixa de alertar em editorial: "responder à questão Onde Está o Teatro? não se faz sem algum enfado: o teatro está onde está, ponto final. A resposta é óbvia, porque todos sabem onde está o teatro."

É por isso que nesta revista há espaço para o ensaio, a reportagem, o registo fotográfico e a reflexão crítica a partir de colaborações de Sílvia Fernandes, Ana Pais, Samuel Guimarães, Gonçalo Louro, João Aidos, Paulo Pimenta, Paula Braga, eu próprio, Ana Vitorino, Cláudia Madeira, Susana Graça, Catarina Martins, Eduarda Neves, Eugénia Vasques, Armando Nascimento Rosa, Julie Campbell, Paula Seixas e Carlos Machado Acabado. Procura-se o teatro nas ruas, na rede, nas escolas, nas leis, nos números, nos espaços, nos livros e nos tubos de ensaio. Para que, no final, "possamos comparar as respostas".

A revista é lançada hoje às 18h no Palácio de Belomonte, no Porto, com a presença de alguns dos autores. Em Outubro haverá novo lançamento.