domingo, maio 14, 2006

Ter espaço para ter tempo

Que responsabilidades tem a comunidade artística na criação de alternativas ao apoio, formação e difusão das artes performativas? Como é que se podem criar dinâmicas nacionais e internacionais que fujam aos circuitos já estabelecidos? E como é que se pode dizer ao poder político e à própria comunidade artística que não é tempo de cruzar os braços mas de aproveitar as energias de todos em nome de um projecto de criação política, cultural e socialmente implicado? Para o coreógrafo Rui Horta a resposta está n' O Espaço do Tempo, o projecto artístico que instalou em Montemor-o-Novo, no antigo Convento da Saudação, em plena planície alentejana, a pouco mais de uma hora de Lisboa.

O Espaço do Tempo é um espaço para se ter tempo. Sim é verdade que não se consegue fugir às imagens feitas. No alto de um monte, as ruínas do castelo dominam a cidade e há janelas que rasgam as paredes fazendo com que a paisagem entre pelas salas do convento recuperado. Há uma luz imensa que demora a desaparecer quando as tardes caem. E depois há a comida, o vinho, o calor, a simpatia dos habitantes, o tempo que corre a outra velocidade. Mas também há arte, no que isso pressupõe de relação entre criadores, curadoria e públicos.

Rui Horta não tinha previsto tudo quando há cinco anos atrás, com o apoio da Maison de la Culture de Bourges, abriu num antigo convento do século 16 um espaço para residências artísticas longe dos centros urbanos. A circulação pela Europa enquanto coreógrafo, e o distanciamento crítico da cena nacional a que isso obrigou, deram-lhe margem para desenvolver para os outros um espaço de cumplicidade.

Da mesma forma que quando começou houve quem lhe tivesse estendido a mão, queria contribuir para um aprimoramento das condições de criação. «A arte não é um processo escolástico, mas de tentativa e erro», diz, tendo-se tornado um «projecto-âncora» para os criadores. Rui Horta queria dar-lhes a possibilidade para, criando, pensarem o que estavam a fazer. Mas se no início foi o nome do coreógrafo a garantir a visibilidade do projecto, depressa o próprio espaço ganhou autonomia. A existir um segredo está na vontade de dar aos criadores a oportunidade de desenvolverem os seus projectos artísticos sem a pressão dos estúdios e dos programadores: «estamos aqui por causa dos artistas, para os servir». Longe do modelo francês de Centros Coreográficos, poderia dar-se por aproximação o exemplo do Hebbel Theater, em Berlim, ou o Vooruit, em Gent (Bélgica), espaços onde a criação se sobrepõe à produção, a programação se sustenta num modelo de proximidade e a investigação e pesquisa é a razão que justifica o fazer.

Porque o Convento da Saudação não é um «pavilhão multiusos» nem uma «colónia de férias para a Europa do Norte», a própria geometria do espaço, «distribuidora de energias», obriga a uma reflexão sobre a criação que parte do confronto entre o recolhimento dos quartos (agora estúdios e escritórios) e o encontro nos claustros, que ao fim da tarde e aos fins de semana tem um bar/restaurante aberto ao público . O espaço, em permanente recuperação e a braços com o dificuldades financeiras criadas pelo estrangulamento do apoio do Ministério da Cultura é, no fundo, um laboratório para o desenvolvimento de novas linguagens, onde se cruzam artistas com um percurso já reconhecido e outros a começarem. «O Estado tem que dar ferramentas a quem está no terreno. Tem que se evitar este sistema jacobino de regulamentação. Há um desperdício enorme de condições, tempo e dinheiro quando não se olha para o que já está feito e se quer fazer coisas novas». Em Montemor-o-Novo há tempo e condições para se trabalhar. Nos estúdios, no campo, nas ruas da cidade, durante a noite ou madrugada cedo. E ninguém é obrigado a fazer apresentações públicas dos processos de trabalho: «até se agradece que não o façam. Isso daria uma visibilidade superficial ao trabalho que aqui se desenvolve».

No total são 10 mil refeições por ano e 75 mil euros, que em 2006 se dividem em apoios «muito diversificados, dos projectores a co-produção» por 25 projectos nacionais e estrangeiros nas áreas da dança, teatro, performance, artes plásticas, improvisação e música. Isto sem contar com o trabalho desenvolvido com as escolas ou os encontros promovidos em colaboração com outras instituições locais ou nacionais, uma vez que «fora do centro urbano, um projecto artístico tem que ter uma dimensão sócio-cultural. Não basta um projecto artístico de excelência». Tem que se implicar com a cidade que o acolhe. Caso contrário aumenta o fosso entre criadores e matéria de criação. Exempo disso é o evento Danças com Livros, organizado em colaboração com a livraria de Montemor-o-Novo Fonte de Letras, que no fim-de-semana passado juntou uma feira do livro a espectáculos de dança, debates, conferências, exposições, música ao vivo ou simples encontros não previstos. Desde que se tenha tempo para (saber) estar.

A estes cruzamentos Rui Horta dá o nome de «invisible coaching», proporcionando encontros entre criadores portugueses e estrangeiros escolhidos a partir de cumplicidades ou provocações. Em 2005-2006 nomes como Bruno Dizien, Compagnie 7273, Roberto Olivan, Ina Christel Johannessen, Leili Gueranfar, Jo Stromgren, ou João Fiadeiro, Vera Mantero, Clara Andermatt, Sónia Baptista, Tânia Carvalho e Teatro Praga cruzaram o Espaço do Tempo em busca de uma certa ordem criativa. Por isso Rui Horta não gosta de falar em candidaturas, mas numa vontade de aprender em conjunto. É esse espírito de abertura ao desconhecido que impede a institucionalização do projecto.

O coreógrafo, que não gosta de se ver como um programador, mas antes como um promotor («promovo o que gosto»), reconhece que o facto das alternativas poderem vir dos artistas só pode ser uma boa notícia porque, em grande medida «é para os pares que se trabalha numa primeira fase. São eles que validam e reconhecem o nosso trabalho». Seria fácil, sobretudo em Portugal onde as condições de produção e as responsabilidades pela continuidade do trabalho estão sempre à beira do precipício, ver n' O Espaço do Tempo não só uma alternativa, mas sobretudo um porto seguro para a criação. Mas abrir as portas a quem tem vontade de criar implica não fazer concessões. Da mesma forma que não se fazem concessões ao público. E essa filosofia tem inscrito Montemor-o-Novo no mapa da circulação de públicos para a criação contemporânea.

A apresentação regular de espectáculos - que decorrem tanto no Convento como na cidade, no teatro Curvo Semedo e, desde há três anos, em Évora, a capital de distrito -, podem ser a faceta mais visível de um trabalho acerca do fazer contemporâneo. Mas são, sobretudo, oportunidades para pensar que implicação tem a arte na vida quotidiana. É nesse ponto que O Espaço do Tempo quer marcar a diferença. A arte enquanto reflexão sobre a sociedade deve ser consciente das marcas que deixa. Por isso a aposta vai cada vez mais para uma deslocação do eixo Lisboa-Porto, apostando em parcerias com o Teatro Aveirense ou o Teatro Viriato, em Viseu. A programação na Black-Box d' O Espaço do Tempo é mais arriscada, enquanto que em Évora, porque «é uma cidade com ligações à adminsitração pública e em muitos aspecto burguesa» há a consciência de que a tomada de riscos deve ser feita prudentemente. Mas sempre sem concessões e em regime de estreita complementaridade. E a prova está na deslocação de públicos, muitos vindos de Lisboa, mas cada vez mais da região. Rui Horta sabe que na criação só há duas hipóteses: ou se vai até ao fim ou não. «A virtude está no extremo», diz.

sábado, maio 13, 2006

Alkantara festival invade Lisboa

Se há alguém com razões para estar satisfeito é Mark Deputter, o programador do festival Alkantara (ex-Danças na Cidade) e do Teatro Camões, em Lisboa que se prepara para invadir Lisboa com quase 50 espectáculos em 17 dias. De 02 a 18 de Junho é o regresso do único festival internacional de artes performativas contemporâneas de Lisboa com um programa vasto de espectáculos de dança, teatro e performance «que querem voltar a colocar Lisboa na rota dos circuitos internacionais de programação» sob o lema Mundos em Palco.

Alain Platel, Aydin Teker, P.A.R.T.S., Bruno Beltrão, Jan Lauwers/Needcompany, Jérôme Bel, Forced Entertainement, Romeo Castellucci, Vera Mantero, João Fiadeiro, Luiz de Abreu e uma série de nomes nacionais e estrangeiros terão em Lisboa um palco para se mostrarem, em estreias nacionais ou mundiais que ocupam armazéns, teatros, apartamentos, estúdios, ruas e ruínas «dando ao público chaves para a compreensão do que de mais relevante se está a fazer».

Tendo começado em 1993 como um festival de dança, o festival depressa se destacou pela capacidade de reunir nomes e condições que se distinguiam de outras manifestações artísticas mais ou menos efémeras. Várias edições experimentaram diversos formatos e em 2004 o nome mudou de Danças na Cidade para Alkantara (“ponte” em árabe). Depois de um interregno e com um novo perfil (onde se inclui a abertura ao teatro e à performance, já presente noutras edições, mas aqui com lugar de destaque) e uma nova estratégia (o estabelecimento e fortalecimento de parcerias entre criadores nacionais e estrangeiros potenciando os contactos em rede que foram sendo desenvolvidos). O renovado festival prossegue o estabelecimento de laços com projectos como a Culturarte, uma estrutura que estimula o desenvolvimento da dança contemporânea em Moçambique, e criou laços entre criadores através dos Encontros Imediatos 2005-2006, que levaram artistas portugueses, brasileiros, espanhóis, alemães, japoneses ou egípcios a percorrer várias cidades ao longo de dois anos e cujo resultado se irá apresentar nesta edição do festival.

O mais impressionante nem são os nomes mas as forças que se juntaram, quatro anos depois da última edição. Praticamente todos os espaços importantes da cidade se associaram a esta manifestação, aproveitando alguns para co-apresentar espectáculos que, fora do festival, seriam dificilmente integrados nas suas programações, fosse pelo grau de risco (Tragedia endogonidia, br#4 bruxelles, de Castelluci) ou financeiro (vsprs, de Platel).

Feitas as contas são 700 mil euros (três vezes menos do custo real) para uma iniciativa que, dado a fragilidade do contexto nacional, tem a responsabilidade de colocar em confronto estratégias de criação, produção, programação e recepção.

Mais informações em www.alkantarafestival.pt

[O Melhor Anjo dedica um dossier especial ao Alkantara já a partir de 24 de Maio]

sexta-feira, maio 12, 2006

Fimfa_06

Foto: Jardins Insolites

Os tempos mudam. O marionetista, que outrora queria salvar o mundo, agora já se dá por satisfeito se puder viver do seu trabalho. Por isso sejamos modestos, sem que isso signifique ceder ao derrotismo: façamos actuar as nossas marionetas porque isso é o que nós sabemos fazer, porque temos o privilégio de fazer o que mais gostamos - e porque a nossa recompensa é, e continuará a ser, as emoções que provocamos em tantos corações.

Michael Meschke


Começou ontem mais uma edição do Fimfa_Lx, organizado pela Tarumba - Teatro de Marionetas. Durante 18 dias o 6º Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas de Lisboa ocupa não só vários espaços de Lisboa, mas também teatros em Torres Novas, Montemor-o-Novo e Aveiro.

Até 28 de Maio apresentam-se 16 espectáculos vindos da Bélgica, República Checa, França, Alemanha, Holanda, Espanha, Argentina, Portugal e Reino Unido que, uma vez mais, contrariam a ideia de que as marionetas são só para as crianças. Este ano há lugar tanto para os fundamentalismos (Kamikaze?, Scopitone & Cia, Teatro da Politécnica 23 Maio) como para os bébés (Coucou!, Cie Jardins Insolites, CCB, 17 a 21 Maio) ou os tradicionais Bonecos de Santo Aleixo (Museu da Marioneta, 19 e 20 Maio).

Os espectáculos fogem à ideia de que as marionetas são bonecos com fios pendurados e através do video, dança, teatro, pintura, poesia, espectáculos de rua e as novas tecnologias, dão conta do«reconhecimento crescente que as marionetas têm alcançado no mundo teatral, a sua natureza multidisciplinar e a sua capacidade de adaptação aos meios mais inovadores, sem nunca perderem a sua singularidade».

O festival apresenta ainda workshops e feira do livro temática na Fnac Chiado.

Mais informações: 21 843 88 01 e no site da companhia.

Ainda o Tanzkongress

Já se pode encontrar na nova actualização da edição electrónica da revista de artes indisciplinares francesa Mouvement, a tradução do texto O complexo da centopeia, a propósito do Tanzkongress que se realizou em Berlim de 20 a 23 de Abril.

O texto foi escrito com o apoio do fundo Roberto Cimetta. Tradução para francês Samadhi Marinho com Jean-Marc Adolphe.

terça-feira, maio 09, 2006

Livraria especializada (dossier especial)

Aproveitando a feira do livro que começa já dia 25 de Maio, O Melhor Anjo vai apresentar, a partir dessa data e até ao fim da feira (13 de Junho), 20 sugestões de leitura centradas nas artes performativas. Será uma oportunidade para dar a conhecer, recuperar ou destacar algumas publicações nacionais e estrangeiras. Será também a oportunidade perfeita para a pré-publicação de um livro, conciliando assim o dossier Livraria Especializada com o dossier especial que o blog vai dedicar ao festival Alkantara, já a partir de 24 de Maio. Até lá aceitam-se sugestões para preencher as prateleiras.

domingo, maio 07, 2006

O complexo da centopeia


O último TANZKONGRESS tinha-se realizado ainda a Alemanha vivia sob os desígnios da República de Weimar. Na altura a coreógrafa Mary Wigman falava da necessidade de substituir as posições dos pés que o bailado clássico impunha por algo mais natural, mais orgânico. Arriscava colocá-los em paralelo, reclamando um lugar de destaque para a dança que servisse de referência às outras disciplinas, do teatro às artes plásticas. Quase setenta anos depois a Alemanha voltou a reunir coreógrafos, teóricos, intérpretes, críticos e público numa discussão sobre o lugar da dança na sociedade. Desta vez questionando o que é que a dança sabe que nós não sabemos ou já não nos lembramos.

Entre 20 e 23 de Abril, na Haus der Kulturen der Welt (Casa das Culturas do Mundo) em Berlim, 120 conferencistas e 1698 participantes dividiram-se entre 44 debates e 15 espectáculos sob o lema «Cultura em Movimento». Mas a realidade alemã é hoje bastante distante de uma cena fechada entre fronteiras.

Entre o star-system e o “monstro sagrado” (Pina Bausch, Susanne Linke, Sascha Waltz, Félix Ruckert, Raimund Hogue,…) à tentativa de auscultação de uma realidade presa a um sistema económico viciado e pouco disponível para os “verdadeiros independentes”, a cena contemporânea (e o termo contemporâneo foi por várias vezes estropiado durante os encontros) define-se mais pela pluralidade que pelo nacionalismo, palavra “proibida” na Alemanha. Será mais alemã a dança do americano William Forsythe, da húngara Eszter Salomon, do francês Xavier le Roy, da suíça Anna Huber, do brasileiro Bruno Beltrão, da portuguesa Ângela Guerreiro, entre muitos outros nomes “adoptados” pelo país? Estamos perante uma migração que deu à dança na Alemanha (não só à dança alemã) a dimensão universal e transversal que, no fundo, deve caracterizar cada gesto e cada movimento.

Falou-se, portanto, de experiências estéticas, de identidade e de reconhecimento de terrenos linguísticos e simbólicos comuns. E isso reflectiu-se nos espectáculos que completaram o extenso programa teórico. Jérôme Bel, Forsythe, Sascha Waltz, Salomon ou Jochen Roller apresentaram exercícios em torno da identificação do indivíduo: enquanto parte de um grupo (NNNN, Forsythe); num universo por ele criado que entretanto desmorona (Gezeiten , Waltz); em busca de uma ordem interior que confirme influências e as questione (Magyar Tàncok, Salomon); em confronto com uma imagem e os códigos interpretativos que esta sugere (Bel, com Pichet Klunchun & Myself, a apresentar em Lisboa no Alkantara festival, 11 e 12 de Junho) ou numa deriva urbana procurando “casa” (speed. neither/nor , Roller).

Os próprios encontros deram conta de uma necessidade de olhar a dança enquanto ponto de partida de diversas correntes de pensamento, à qual se colocam, de forma permanente, questões sobre a sociedade. Mesmo que – e nunca pondo em causa a validade da organização, dada a relevância do encontro, assombrado ainda pela manipulação que o regime nazi fez dos anteriores congressos -, houvesse quem apontasse o dedo à dimensão formal, académica, burguesa e elitista (pela ausência das minorias étnicas ou deficientes, por exemplo) do congresso. No fundo, o eterno duelo entre a prática e a reflexão. Os primeiros a exigirem que num congresso sobre dança se dance mais, os segundos a acusar a falta de tempo e a multiplicidade de questões debatidas.

Reunindo nomes fundamentais para a compreensão teórica do movimento como Erika Fischer-Lichte, André Lepecki, Pierre-Michel Menger, Cornélia Dümcke, Irit Rogoff ou Helmut Ploebst (cujos textos facilmente se encontram na Internet) havia que definir o que se vê quando se olha para a dança. Importou focar a discussão nos processos de criação, no conhecimento do corpo, das técnicas de salvaguarda física desse corpo, no multiculturalismo, na transferência de saberes, no problema das transições de carreira, na relação com o público ou no papel da crítica e da programação. Mas também na dimensão trágica do movimento, na importância do «vazio», no preconceito enquanto experiência estética, na necessidade de derivação de «obra» para evento, e no fim da convenção e classificação em nome de uma «criticalidade», termo mutante aplicado pela investigadora Irit Rogoff, no qual o sujeito (espectáculo, intérprete, observador) habita a crítica, é a crítica.

Razão pela qual o congresso abriu com uma performance chamada Mercado Negro na qual, por um euro e durante meia hora, cada espectador podia escolher a personalidade com a qual queria dialogar. Uma massa imensa de pensamento que era também uma coreografia, provando que o pensamento não enquista a acção. Ou seja, uma tentativa de contrariar a fábula de Paul Valery, na qual uma centopeia se deixou ficar sentada no passeio e nunca mais andou, depois de lhe terem perguntado como era capaz de coordenar todas as patas.


Texto escrito com o apoio do Fundo Roberto Cimetta

sábado, maio 06, 2006

Bolsa de emprego

ALKANTARA PROCURA COLABORADOR(A) PARA FUNÇÕES ADMINISTRATIVAS
DISPONIBILIDADE IMEDIATA

Alkantara é uma estrutura que se dedica à produção e organização de eventos nas artes performativas contemporâneas. Com uma vertente internacional forte, preparamos a realização do alkantara festival, em Junho de 2006. Neste momento, a equipa de alkantara está em crescimento, pelo que necessitamos de uma pessoa que queira integrar os quadros da associação, para exercer funções administrativas.

A função integra as seguintes actividades:
classificação e lançamentos contabilísticos
facturação e pagamentos
relação com fornecedores
processamento de salários
relações com as Finanças e Segurança Social

Procuramos uma pessoa com as seguintes características:
12º ano na área administrativa e experiência em procedimentos administrativos
conhecimentos de word e excell na óptica do utilizador
disponibilidade imediata
se possível com conhecimentos de programas contabilísticos (preferencialmente Primavera)
responsável, dinâmica e com capacidade de trabalho em equipa
preferencialmente com experiência desenvolvida no sector associativo e cultural


Oferecemos:
integração numa equipa jovem e dinâmica e num bom ambiente de trabalho
600€ brutos + subsídio de alimentação
acompanhamento e formação na função

Local de trabalho: Anjos

Resposta com CV a este email (catarina.saraiva@alkantara.pt) urgente.

informações enviadas por mail e da responsabilidade dos autores

Maratona da Dança 2006: relatório

O texto que se segue foi escrito a convite da REDE - Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea e da Plateia - Associação de Profissionais das Artes Cénicas que, em conjunto, organizaram o fim-de-semana passado a Maratona para a Dança 2006. Na qualidade de observador propuseram-me que escrevesse dois textos: um para a imprensa (o que se segue) e um outro mais alargado, de circulação interna (em preparação). O texto é assinado por mim e pelas direcções da REDE e da Plateia, tendo sido distribuído pela comunicação social.

Maratona da Dança 2006: notas

Para a REDE e a Plateia, a Maratona da Dança, que decorreu no passado fim de semana no Porto e em Lisboa, serviu como oportunidade para reflectir sobre o que se faz e como se faz. A manifestação, que pela primeira vez incluiu o Porto - por onde passaram cerca de 300 espectadores para um total de 21 performances -, foi acompanhada por um amplo programa de debates dedicados à criação, estatuto do artista e descentralização, num diálogo que se quis aberto, responsável, capaz de levantar questões e discutir o essencial, na teoria e na prática.

Estiveram presentes coreógrafos, bailarinos, programadores e sindicatos (STE e SIARTE) mas, inexplicavelmente estiveram ausentes os responsáveis políticos. Só a Delegada Regional do Norte (no Porto) e o sub-director do Instituto das Artes, Orlando Farinha (em Lisboa), compareceram. O não comparecimento dos partidos políticos ou de um representante do Ministério da Cultura (todos convidados para estes encontros) denuncia, no entender das estruturas organizadoras, um fechamento à comunidade, ao mesmo tempo que potencia o equívoco e a ambiguidade.

No comunicado incluído no programa do evento é clara essa dificuldade: “perante a indefinição e desarticulação da política cultural para o sector da criação contemporânea, a criação/extinção de organismos e institutos, a alternância constante de interlocutores, é impossível alcançar condições mais estáveis para o desenvolvimento da actividade”.

No Porto, o debate moderado pela jornalista Inês Nadais tratou dos processos de criação dos coreógrafos que se apresentaram na Maratona da Dança. A oportunidade de confronto entre diversos métodos, permitiu que:

- se salientasse a relevância da experimentação/investigação artística, que carece de reconhecimento como trabalho primordial para a criação contemporânea;

- a tomada de consciência de que a investigação/experimentação científica sobre os processos da criação contemporânea, que reflectem a diversidade da dança nacional - uma característica e não um handicap -, são matéria fundamental para a criação.

Como se escreveu no comunicado já referido, “esta dança plural, heterogénea e eclética, que existe numa variedade de escalas, de meios de difusão e distribuição, que valoriza o processo criativo, que, em muitos casos, existe enquanto um fazer contínuo que não se esgota num único objecto”. Foi disso exemplo o trabalho efectuado pelo GIEPAC (Grupo Informal de Encontro, Pesquisa e Análise Coreográfica), coordenado por Vera Mantero e com a colaboração de outros coreógrafos e pensadores. A suspensão recente do projecto serviu de repto para a organização de umas jornadas de reflexão sobre os processos criativos e a pertinência da criação contemporânea, a organizar em Outubro, pela REDE e pela Plateia.

Quanto às apresentações, o cruzamento geracional permitiu confrontar propostas de nomes que já se inscreveram na história recente da dança, como o caso de Vera Mantero, Joana Providência ou Isabel Barros, com outros nomes que procuram nesta prática novas formas para interpretar o gesto coreográfico, como João Costa, Victor Hugo Pontes ou Maria João Garcia.

Em Lisboa o programa, ao qual se associou o Teatro Camões, dividiu-se em dois painéis, moderados por Maria José Oliveira dedicados, respectivamente ao estatuto do profissional do espectáculo e à descentralização.

Quanto ao debate “O estatuto do profissional do espectáculo”, ao contributo de membros da REDE (Fórum Dança e CEM) e da PLATEIA a par da Comissão de Trabalhadores da CNB e dos sindicatos STE e SIARTE, juntou-se a opinião de Luís Gonçalves da Silva, membro da Entidade Reguladora para a Comunicação Social e coordenador de um relatório encomendado pelo XVI Governo Constitucional sobre a Reforma Laboral dos Profissionais do Espectáculo. Dos pontos fortes desse debate destacam-se:

- Que um estatuto terá de abranger todos os profissionais envolvidos nos processos de criação e produção das artes do espectáculo, justificando assim uma acção do governo, e justificada esta opção pela similitude dos processos de produção;

- Que se deve proceder à elaboração de proposta para Estatuto Sócio-Profissional a recensear no âmbito de cada uma das associações/sindicatos do sector formando seguidamente uma comissão colegial de trabalho (constituída por um representante de cada uma das estruturas) com mandato/procuração para negociação com a tutela, por tempo limitado;

- Que a contínua realização de relatórios e propostas de alteração de lei não deve prosseguir sem que os criadores e estruturas disso tenham conhecimento.

Importa ainda apontar algumas questões suscitadas pela discussão:

- Quanto custará ao Estado a ilegalidade corrente no sector, nomeadamente em termos de segurança social, por ausência de uma legislação específica?

- Que imagem pública está o país a criar quando utiliza a dança e as artes cénicas em geral, como manifestação cultural mas não lhe reconhece direitos estatutários nem regula a certificação dos profissionais destas áreas?

No caso do debate “A descentralização cultural e a dança”, contou-se com a presença do sub-director do Instituto das Artes, Orlando Farinha, bem como de representantes de estruturas descentralizadas: CENTA (Vila Velha de Ródão), Espaço do Tempo (Montemor-o-Novo) e Teatro Municipal da Guarda. É de salientar ainda a presença na plateia de alguns programadores (Gil Mendo, Maria de Assis, Francisco Motta Veiga), bem como de Paulo Carretas, responsável, no Instituto das Artes, pelo projecto Território Artes, apresentado como a “2ª geração” do programa “Difusão” iniciado em 1999 e interrompido em 2002. A discussão dividiu-se entre difusão das obras e multiplicação de sedes de criação/produção e sua distribuição no território nacional. Importa destacar que:

- reconheceu-se a importância de generalizar a educação artística prevista no programa de governo, bem como a vontade de desenvolver um trabalho de proximidade com as populações. Nomeadamente complementando o trabalho dos agentes culturais existentes no terreno e com trabalho efectuado, em vez de os substituir ou sobrepor;

- reconheceu-se a importância haver estruturas que articulem/coordenem as dinâmicas a nível municipal, distrital e regional, nomeadamente reforçando as valências das Delegações Regionais de Cultura que deveriam poder fornecer acompanhamento técnico na sua região;

- Chamou-se a atenção para a necessidade (do estado?) promover debates sobre as políticas culturais no sentido dos autarcas adquirirem referências que lhes permitam problematizar a gestão dos equipamentos que tutelam;

- Questionou-se o funcionamento actual da rede de cine-teatros, muitos sem normas de funcionamento e recursos humanos qualificados, em contraste com o bom exemplo da rede de bibliotecas públicas. Estes Teatros, com métodos de programação e produção acautelados, foram considerados como pólos dinamizadores e despoletadores de criação local e de pólos de programação de menor dimensão dentro do raio de influência de proximidade. Assim, considerou-se prudente, principalmente no actual quadro de austeridade financeira, investir numa rede funcional efectiva dos teatros de capitais de distrito.

- Foi considerada grave e prova da falta de ordenamento do território cultural nacional a falta de investimento na dinamização cultural da Área Metropolitana do Porto e da sua cidade-centro em particular. À imagem do que se faz com Lisboa, a administração central deveria subtrair a dinamização cultural do Porto – onde existem recursos humanos qualificados e equipamentos culturais diversificados em número e qualidade no domínio das artes cénicas – à arbitrariedade do poder local. Só assim se poderá reduzir a distância que qualquer tem de percorrer para ter acesso a oferta cultural diversificada em termos de arte contemporânea, que é essencialmente urbana.

Os encontros entre os profissionais reuniram cerca de uma centena de participantes, dando oportunidade a que fossem questionadas não só determinadas opções políticas, mas também perceber de que forma os agentes culturais contribuem para o estado das coisas. A razão fundamental destes encontros justificou-se assim no modo como criadores e outros agentes culturais (programadores, directores de estruturas, etc.) se viram confrontados com práticas nem sempre auxiliadoras de uma evolução. A responsabilização política dos agentes culturais (para a qual a REDE e a Plateia têm continuamente trabalhado) torna-se mais do que essencial quando o discurso político se ausenta do diálogo. Há uma clara vontade de dialogar, pensar em conjunto, trabalhar em nome de objectivos concretos. Há mudanças que afectam a vida das pessoas que, apesar de fazerem o que gostam, se forçam a condições por vezes primárias para o fazer. Nada disto é discurso vitimizador, mas apenas “a prova da disponibilidade crítica e reflexo da necessidade de uma articulação conjunta e permanente entre profissionais, comunidade e poder político”.

Tiago Bartolomeu Costa, crítico. Observador da Maratona da Dança 2006
REDE - Associação de Estruturas para a dança Contemporânea
Plateia - Associação de Profissionais das Artes Cénicas

Matt Mullican

performance
hoje às 17h00 na Culturgest


Matt Mullican. Trance/Performance, 2003 · Kunsthalle Zurich

Matt Mullican (Santa Mónica, Califórnia, 1951) é um artista amplamente conhecido a nível internacional – como atestam, a título de exemplo, as suas participações na célebre Documenta de Kassel em 1982, 1992 e 1997. O seu trabalho foi dado a conhecer, de forma alargada, ao público português, numa exposição no Museu de Serralves, no Porto, em 2000.As relações complexas entre o sujeito e o objecto, entre a imaginação e o real, entre os símbolos e a linguagem sobressaem como questões centrais no trabalho de Matt Mullican. Interessam-lhe a experiência subjectiva do mundo e as diferentes mediações entre a realidade e essa experiência. O seu trabalho é identificado sobretudo com um sistema de signos muito particular feito a partir da reelaboração dos sinais e símbolos com que nos cruzamos todos os dias no espaço da cidade. São representações gráficas com elevado grau de abstracção que se podem entender como cosmologias.Menos conhecido mas fundamental é o seu interesse pela performance e, mais particularmente, pelo fenómeno da hipnose. Nos últimos dez anos, o artista realizou várias performances sob hipnose, momentos irrepetíveis e de grande intensidade em que acede a um outro “eu” e, através dele, a aspectos mais pessoais ou íntimos, muitas vezes dificilmente comunicáveis, da sua experiência do mundo. Durante estas performances, ele desenha intensamente em grandes folhas de papel, e estes desenhos, por sua vez, revelam-se cruciais na construção da sua linguagem. A Culturgest apresenta uma nova performance sob hipnose de Matt Mullican.

Ver mais informações sobre Matt Mullican.
Ver informações sobre a exposição na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art.
O Melhor Anjo publicará uma entrevista com o performer nos próximos dias.

Informações e reservas (Culturgest) 21 790 51 55

LAB 12

com Gustavo Sumpta
Atelier Real
Hoje às 18h00

Facilitadores: João Fiadeiro assistido por Marie Mignot, Pedro Costa (convidado pela REAL), João Fernandes (convidado pelo artista).

Sobre os LAB

Desde a sua primeira edição no Centro Cultural Malaposta em 1993, o LAB experimentou vários formatos. Passou de plataforma/festival de descoberta de jovens criadores e de encontros artísticos inéditos e improváveis (trans/pluridisciplinares) para, nos últimos anos, apostar num claro e inequívoco investimento nas noções de residência e de acompanhamento artístico. O LAB passou assim de um espaço de apresentação de works-in-progress ou de performances, para se dedicar à experimentação de dispositivos e à análise crítica de materiais. Essas evoluções fazem parte da identidade do LAB e reflectem as necessidades com que os artistas se confrontam diariamente na sua prática.
O presente modelo do LAB estabilizou-se num desenho em que se dá ênfase ao acompanhamento dos artistas em residência através da presença de “facilitadores” e onde se desenvolve uma abordagem muito específica à ideia de “formação artística”. Pensamos que os artistas que hoje se encontram numa fase de dúvida e à procura de afirmação, precisam não só de um espaço de apresentação mas também de um apoio metodológico e pragmático. Com o acompanhamento desses “facilitadores”, os artistas em residência têm a oportunidade de ver os seus trabalhos serem questionados, problematizados e dinamizados por artistas experientes e críticos. Trata-se de uma relação dura, franca e directa. Estamos convencidos de que é apenas desse modo que se podem desenvolver as condições necessárias para que os artistas ganhem confiança nos seus potenciais e desenvolvam um espírito crítico em relação aos seus processos criativos.
Para esta 12ª edição do LAB, a RE.AL convidou o cineasta Pedro Costa para integrar, juntamente com o coreógrafo João Fiadeiro, a equipa de “facilitadores” que acompanhará cada um dos projectos. O Núcleo de Investigação da RE.AL (NIR) acompanhará igualmente o processo de trabalho, numa estratégia de encontro, contaminação e cruzamento que queremos desenvolver. Cada residência tem uma duração de três semanas e acaba com uma apresentação pública, seguida de um debate/conversa onde os espectadores podem aprofundar os enunciados construídos pelos artistas e/ou “facilitadores”.

Gustavo Sumpta
Nasceu em Luanda (Angola) em 1970.
Iniciou a sua formação de intérprete no curso profissional do Ballet Teatro Contemporâneo do Porto. É fundador do Pogo Teatro com o qual colaborou até 1999. Enquanto performer participa nos projectos Existência de João Fiadeiro e Pedro Costa. Paralelamente ao seu trabalho de intérprete, expõe como artista visual desde 1999. Dos seus trabalhos mais recentes, destacam-se as exposições colectivas, Boa Noite, Eu Sou a Manuela Moura Guedes e Travel [Plataforma Revólver para a Arte Contemporânea, Lisboa], Toxic, O Discurso de Excesso com Vitória, vitória, acabou-se a história [Produzido pelo Plano 21, Fundição de Oeiras]; Correi Lágrimas minhas, disse o Polícia, na Galeria ZDB, e na mostra realizada a convite do Salão Olímpico, no espaço AC, em Lisboa. Em 2003, a convite da RE.AL e da sua participação no LAB10, começa a conceber e interpretar peças performativas. Em 2004, cria O melhor dos mundos possíveis e A dúvida está a desaparecer do mundo. Matamo-la como matamos os homens que duvidam. É mais seguro. na Galeria ZDB em Lisboa, no âmbito de uma residência artística. Nesses trabalhos, muitas vezes associados à performance visual, desenvolve conteúdos ligado à produção da (de uma) linguagem.

ENTRADA GRATUITA com reserva obrigatória para info@re-al.org e para o TEL. [+351] 21 3909255 / [+351] 96 9832949. Lotação limitada, levantamento dos bilhetes até às 17h30 do dia da apresentação.

Atelier Real: Rua do Poço dos Negros, 55, Lisboa

informações enviadas por mail e da responsabilidade dos autores

sexta-feira, maio 05, 2006

Reposição

O amor ao canto do bar vestido de negro
de Olga Roriz
hoje e amanhã, 21h30
Teatro Camões, Lisboa



O palco invadido por um imenso cromeleque em tamanho natural denuncia estarmos em território de celebração e sacrifício. Uma obra coral (bacantiana certamente) onde há corpos que se cruzam em pares desencontrados e uma estrutura que obriga à recusa da linearidade. Olga Roriz cria um espectáculo onde o amor é servido num exercício que não aparenta ser outra coisa senão um festim emocional.

Propõe-se uma leitura do amor como ritual a celebrar, onde o binómio tragicidade/comicidade permite a criação de uma estrutura, sem a necessidade da afirmação programática para além do universo criativo e referencial da coreógrafa. As várias sequências que compõem a peça contribuem para um todo onde há lugar para o habitual masoquismo, entrega passional, jogos emocionais e o transe amoroso. Mas também margem para uma ideia de felicidade.

As sequências, com a duração de cada uma das músicas utilizadas (o que estende algumas para lá da sua densidade dramatúrgica e fulgor coreográfico), sustentam-se num conjunto de movimentos que se repetem ao longo do espectáculo. Esta base, que toma diferentes significados consoante a ambiência que se quer instalar (a procura, a tensão sexual, a descrença, o ‘sequestro emocional’ ou a negligência), sublinha o universo da autora e relaciona-se tanto com o reconhecimento pessoal de situações comuns, como com o que evoca de outros espectáculos (fragmentação das acções, interrupção de discursos, metáforas biográficas, sequências colectivas à boca de cena ou interacção com o espectador). O que surpreende é que o barroco característico de Roriz (que raiou o superficialismo coreográfico em Jump-up-and-kiss-me, 2003, do qual este espectáculo parece ser upgrade e espelho directo) é aqui substituído por uma respiração, muito em virtude da selecção sonora, onde pontua Mahler, Arvo Pärt ou Sílvio Rodrigues.

Há, inclusive, momentos em que são fornecidas linhas claras para a apreensão do espectáculo. É o caso de Catarina Câmara num envolvente exercício de desconstrução do percurso emocional, ao dizer o único texto da peça, mesmo quando o espaço dado a cada um dos intérpretes é limitado também na criação de personagens. Situação posta em causa com a tentativa de prolongamento do drag-queen de Pedro Cal, incapaz de sustentar o melodramatismo com que abre o espectáculo.

Nem tudo o que se passa em palco é relevante ou equilibrado, mas a mais-valia desta celebração pagã é não querer correr o risco de firmar, de modo peremptório, um discurso sobre os afectos ou a falta deles. É, sobretudo, um espectáculo sem conclusão e consciente disso. O que é uma vantagem num tecido criativo onde tantos se preocupam com um sentido para os espectáculos, mas menos em como o transmitir.

Em resumo
Uma proposta surpreendentemente menos barroca e por isso mais pertinente


[texto publicado no jornal PÚBLICO a 20 Outubro 2005]

Teatro Camões

tlf. 21 892 34 77 (bilheteira)

quinta-feira, maio 04, 2006

Undesign

de Nuno Coelho
Embaixada Lomográfica de Lisboa
4 Maio a 4 Junho 2006
Segunda a Sexta das 14h às 21h


Os produtos de consumo das gerações anteriores provocam em nós uma sensação de desconforto pois não temos a certeza imediata da sua finalidade. Numa época anterior ao Design, enquanto palavra e conceito instituído, eles foram "vestidos" de embalagens que dispensavam o suplemento erótico e os engodos fetichistas implementados nos dias de hoje por ferozes tácticas de marketing. Undesign reúne inúmeros exemplos de embalagens de décadas passadas apresentando-se como uma proposta de discussão sobre quais as origens do Design e quais as suas perspectivas; que tipo de relação existe entre funcionalidade e Arte. Nesta perspectiva, encontrar justificações para uma linguagem estética muito própria não significa ser contra uma evolução, antes deseja-se catalisar a reflexão de um estudo que pode bem ser etnológico.

Nuno Coelho




Para ver imagens desta exposição aceder a www.nunocoelho.net e seleccionar no menu "Recente" e de seguida "Undesign".

Rua da Atalaia 31, 1200-037 Lisboa (Bairro Alto)
T: 213421075 / 933516373 / 938439060 / 960196000

Gabinete de amador


Crítica a Product
de e com Mark Ravenhill
encenação de Lucy Morrison
Culturgest, 29 Abril 2006

Depois de ter escrito Mother clap’s Molly House, um musical apresentado no Royal National Theatre, em Londres, Mark Ravenhill sentiu necessidade de regressar a um dispositivo teatral simples, privilegiando uma comunicação directa. O resultado foi Product, um monólogo escrito e interpretado pelo próprio, onde um produtor de cinema narra a história do guião do seu próximo filme à actriz que pretende contratar.

Neste esquema, o texto divide a acção em duas narrativas paralelas, a do produtor que conta uma história e a história em si. A própria ideia de produto também se altera em cada nível. Sentados, frente um ao outro, separados por uma mesa baixa empilhada de guiões, o produtor tenta vender um produto à actriz, o guião. Para isso serve-se de uma série de estratagemas de sedução, ameaça e elogio para convencê-la a integrar-se no produto final. Na história que é contada o produto é… o amor? os preconceitos? ou outra coisa que envolve a primeira história?

O guião, e o núcleo do discurso do espectáculo, narra a tragicómica história de amor entre uma inglesa e um islâmico. Conheceram-se no avião, ela apaixonou-se por ele, leva-o até casa, fazem amor, trocam juras e, pouco a pouco, ela vê-se envolvida numa célula terrorista que planeia um atentado na Disneyworld-Paris. Apesar de o seu ex-namorado, Troy, americano, ter morrido nas Torres Gémeas saltando da janela («the fall of Troy»), ela apaixona-se por Mohamed e decide acompanhá-lo na missão (nas palavras do autor: «Bridget Jones junta-se à Jihad»). Mas é um sonho. Ela acorda, apavorada, e alerta a polícia para o terrorista que dorme ao seu lado. A partir daqui a narrativa de Ravenhill, a do guião, inicia uma sequência de cenas hollywoodescas, inverosímeis e disparatas, desde a auto-imolação de Mohamed à libertação dos presos de Guantanamo em modo-Rambo.

O guião é um péssimo guião, recheado de estereótipos culturais, sobre os islâmicos, e visuais, na descrição das cenas. O resultado é um comentário irónico sobre as imagens que criamos dos islâmicos, cuja presença é antecedida pelo medo, e a forma como dispomos essas imagens num produto de consumo, neste caso, o guião de um filme. Deste modo, o texto organiza um gabinete de amador. O gabinete de amador é um espaço onde se dispõem vários quadros sem ordem de exposição, sem sentido definido, como o quarto privado de um coleccionador com as paredes cobertas de pinturas. O que resulta desta disposição é um mosaico de imagens dispersas, flutuantes. No texto de Ravenhill, as imagens que mediam as relações entre islâmicos e ocidentais cruzam-se num guião de cinema, o produto final que emoldura a ambiguidade dos pré-juízos. As imagens são associadas na lógica de um filme comercial, cheio de acção e romance. Mas é a situação entre o produtor e a actriz que coloca estas imagens na qualidade irónica de produto. Por outro lado, o texto permite uma oscilação entre a descrição e acção, sendo que as imagens passam a ser descritas, e não realizadas, e a acção dramática resume-se a uma situação. A acção está na descrição.

É sempre bom assistir à interpretação que um autor faz do seu próprio texto e, sobretudo, quando o próprio o interpreta. Entre nós, tivemos oportunidade de assistir a uma estratégia semelhante com Ascanio Celestini – pese embora a radical diferença de conteúdo e estilo -, onde a teatralidade é reduzida à simples narração de uma história e à encenação dessa narração e, no caso de Product, numa encenação subtil e compreensiva do registo natural do actor e da redução da acção à situação (com Celestini, até a situação é ultrapassada pela narração).

Referenciado como um dos nomes de uma corrente literária/ teatral que se afirmou na Grã Bretanha nos anos 90, o teatro in-yer-face, Mark “Shopping-and-fucking” Ravenhill contrapõe a ironia à superfície decandente e grunge que se associa às temáticas desses textos e, em Product, o in-yer-face é o de uma comunicação descomplexada e bem-humorada que não ataca mas sugere.

Pedro Manuel

quarta-feira, maio 03, 2006

Relembrar Allan Kaprow (1927-2006) III

Conclui-se hoje a publicação do ensaio de Ana Pais sobre o performer Allan Kaprow. Nesta terceira parte do texto a investigadora observa as relações paradoxais entre arte e vida, tatro e performance, fixação e efemeridade. Dá ainda a ver o modo como Kaprow se colocou numa fronteira entre as artes performativas e visuais, construindo um universo referencial que põe em causa os limites da própria arte.

A herança viva de Allan Kaprow
por Ana Pais



Em 1983, no ensaio intitulado “The real experiment”, Kaprow propõe uma distinção entre uma “artlike art” (arte como arte), separada da vida e de tudo o resto, e uma “lifelike art” (arte como vida), ligada à vida e a tudo o resto. A primeira tem a ver com uma tradição institucional da arte que a constrange a um âmbito especializado, integrada num sistema de mercado e de valores, e com um artista – ser especial - confinado a esse contexto, afastado da experiência da vida; a segunda, tem a ver com um projecto de conexão e consciência alargada – reflexiva e atenta - que opera sobre a experiência e a representação da vida comum e com um “Unartist” (in-artista), ou seja, um artista que nunca está certo de sê-lo ou não.

É possível entendermos a “arte como vida” se reequacionarmos o conceito de arte e, para isso, Kaprow propõe que consideremos a arte como um “entretecer de sentidos”, um entrelaçamento de significado passível de agir sobre qualquer parte da nossa vida. Não sendo idêntica à vida, porque considera o evento um acto excepcional, a arte de kaprow actua na vida: no tempo real, no espaço real, no contexto da vida (e não da arte) e por isso dilui fronteiras, é “arte como vida”. Promovendo uma arte “alternativa” ao próprio contexto artístico, Kaprow supõe que só deixando de ser artista, trocando o conceito de arte tradicional pelo de “jogo” (o “play” que também implica brincadeira) na relação com o espectador e com o mundo circundante, a “outra-arte” poderá ser útil. A função do não-artista consiste em seleccionar e organizar acções retiradas do quotidiano, criando um conjunto de sentidos diferente, ou seja, criando um happening: na vida, uma menina pode colher flores e espalhá-las pelo supermercado; num happening, este evento, inserido num conjunto de outros tantos, tem implicações de sentidos outras, relativamente ao mesmo acto isolado na vida. Esta “arte como vida” baseia-se também no aspecto lúdico do jogo e do humor como instrumentos da criação.

Concordemos ou não, faz-nos pensar. Sobretudo, suscita novas perguntas: talvez as alterações do conceito de arte não se resumam a transformações cronológicas e evolutivas, mas possam ocorrer também em diversos planos simultaneamente, em paralelo no mesmo período de tempo, diferentes de formas estereotipadas ou hierarquizadas de diagnóstico (como na distinção de baixa cultura e alta cultura).

Como já terão tido a oportunidade de reparar, considerar “18 happenings em 6 partes” como um clássico do século XX assenta num imenso paradoxo: como é possível apresentar como um clássico uma obra que, nem é bem teatro nem é bem arte nenhuma, que inclusive se quer evadir dos contextos da arte? Como é possível fazê-lo, quando a performance tem por princípio basilar uma resistência à fixação, à preservação que o clássico tem por função garantir? Mais ainda, como é possível quando o seu autor recusa o seu nome e duvida do seu carácter artístico, e logo, de si como artista? Muito honestamente, se Allan Kaprow sonhasse que eu estou a fazer semelhante coisa teria no mínimo um valente ataque de nervos...

Aliás, pensar a arte do século XX, nomeadamente, depois dos anos 60, a partir do conceito de clássico tem os seus riscos na medida em que a arte já não se caracteriza por movimentos predominantes, mas por uma multiplicidade de discursos. É preciso não esquecer dois aspectos centrais nesta matéria:

1) que o clássico está ligado às ideias de universalidade, de intemporalidade, de excepcionalidade, mas também de cânone;

2) e que a própria acepção de cânone (e recorde-se que o cânone é uma obra reconhecida como modelo, como exemplo a seguir) colapsou com a crítica dos Estudos Culturais nos finais dos estudos pós-coloniais e feministas.

Essa crítica desmonta as implicações ideológicas e políticas que sempre haviam presidido à constituição do cânone, servindo o poder hegemónico. Até então, são raros os casos de mulheres, de indivíduos de países colonizados ou homossexuais que constem de uma lista de autores clássicos. O que acontece na sequência da contestação da universalidade do cânone é uma elaboração de cânones paralelos, que não funcionam como modelos mas como obras representativas de uma comunidade específica. O valor dos cânones dos século XX é fluído e mutável. Inclusivamente, só quando os estudos de teatro se emancipam dos estudos literários (teatro não é sinónimo de texto dramático) e o espectáculo adquire um estatuto igual ao do texto, é que se torna possível optar entre abordar um ou outro, por exemplo, para este sessão. Torna-se, pois, urgente repensar o conceito de clássico.

Se substituirmos a noção de “modelo” (e consequentemente, de regra) pela de “referência” (até porque não temos distância suficiente para podermos avaliar as obras em termos de intemporalidade) e a noção de “excelência” pela de “contribuição”, o conceito tornar-se mais produtivo.

Assim, uma obra como “18 happenings em 6 partes” pode ser entendida como uma referência para o fenómeno da performance. Em traços largos, a performance herda, quer a noção de espaço marginal – implicado social e politicamente - quer a de incorporação de materiais e comportamentos do quotidiano, que se estendem e ampliam horizontalmente. Assistimos a um pluralismo de formas e géneros que se caracteriza pela interdisciplinariedade ou por um cruzamento de linguagens: os concertos e performances do movimento Fluxus, a “escultura social” de Beuys, a crítica feminista e autobiográfica de Rachel Rosenthal, espectáculos multimédia como os de Laurie Anderson, as performances pós-coloniais de Guillermo Gomez-Peña e Coco Fusco, entre tantos outros.

A contribuição de Allan Kaprow passa, sobretudo, pela abertura de uma zona interdisciplinar entre as artes visuais e o teatro. O facto de partir de uma dimensão espacial, de introduzir materiais do quotidiano na obra e de desafiar a relação clássica do espectáculo com o espectador terá consequências notórias. Por um lado, o espaço torna-se matéria expressiva e com esta nova consciência o teatro pôde, por exemplo, repensar a sua visualidade ou partir para espaços não-teatrais, facto particularmente evidente nas produções “site-specific” que recuperam a memória e a arquitectura específica de determinado lugar para criar um espectáculo. A par do espaço, e porque se instala uma paridade entre linguagens (o texto, o som, a luz, etc.), todos os outros materiais cénicos ganhariam um outro relevo e autonomia na composição do espectáculo. Por outro lado, ao ser questionada a relação frontal entre palco e plateia, o teatro formula novas hipóteses de organização e de participação do espectador (embora a noção de participação em Kaprow seja bastante particular), criando vários pontos de vista, vários espaços e explorando a perspectiva física da sua percepção.

Gostaria de terminar partilhando uma reflexão particularmente interessante de Allan Kaprow. Talvez um outro contributo possível. Também ele, como a linha filosófica de Hegel a Adorno, considera que a arte deixou de ser fértil, tendo falido como instrumento social. Por isso, e não só por razões de ordem estética, ele procura superar os limites da arte através da interdisciplinariedade e da criação de uma arte, que não é bem arte. Sempre me pareceu um pouco contraditório o facto de a arte permanecer na sociedade contemporânea, enquanto no discurso teórico pós-modernista predomina uma ideia de fim, traduzida numa expressão como “a falência da promessa de felicidade do modernismo”.

Ora, o que Kaprow defende, e eu subscrevo inteiramente, é que o conceito de “transcendência” associado à arte - porque é disso que se trata, da felicidade e da arte como transcendência: a busca da verdade, a revelação, o artista como um visionário - projecta uma promessa implícita de perfeição (de felicidade? acrescento) para um outro âmbito (eu diria, o futuro), diferente da vida do ser humano. A forma que Kaprow encontrou para continuar a criar foi pensando que, em vez de nos cansarmos a lutar pela felicidade, que talvez nunca virá, mais vale demonstrar, no seu caso, através de uma “arte como vida”, um “modo de viver com sentido neste mundo” (ou seja, com direcção e significado, no presente). Não será esta uma forma de gerar felicidade, uma felicidade tangível, ao alcance da mão?

Há pouco falava da universalidade do clássico: não será tão universal, não será tão comum a todo o ser humano, tanto o grande conflito de poder dos reis quanto o acordar ou o respirar todos os dias? Talvez a felicidade seja real apenas no presente – fazendo, participando, construindo – no espaço da arte e da vida, simultaneamente. Talvez por isso a performance se enraize no presente, no efémero, para ser feliz sempre: no tempo, espaço e actos presentes.


Ana Pais é professora e investigadora na Escola Superior de Teatro e Cinema. É autora do livro O Discurso da Cumplicidade, edições Colibri.

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terça-feira, maio 02, 2006

Relembrar Allan Kaprow (1927-2006) II

Prossegue hoje a publicação do ensaio da crítica e investigadora Ana Pais sobre o legado do performer Allan Kaprow, falecido no passado dia 05 de Abril. Nesta segunda parte é colocado em confronto a noção de happening e o teatro, dando-se conta da "morfologia" defendida por Kaprow. Para além disso dá-se conta da relação arte e vida, defendida por Kaprow como uma experiência capaz de construir pequenas narrativas.

A herança viva de Allan Kaprow
por Ana Pais

A. Kaprow, Los Angeles, 1961

Do ponto de vista dos estudos de teatro, os happenings tendem a definir-se pela negativa ou por uma condição “não-matricial”, ou seja, o happening não apresenta uma matriz de representação, na terminologia de Michael Kirby, um dos primeiros teóricos da performance (inclusive, a minha descrição de “18 happenings em 6 partes” foi baseada na obra “Happenings”, de 1966, e é um dos poucos registos de que tenho conhecimento). Sendo aparentemente um acto teatral, o happening não recorre às matrizes de representação tradicionais do teatro: não usa o palco, nem representa um espaço; não remete para um tempo, o tempo é o tempo real da duração da acção; não conta uma história; não existem personagens nem actores e daí a minha insistência em utilizar o termo performers. Esta é uma das perspectivas de leitura dos happenings, que, frequentemente, integra as histórias das artes performativas, analisando-os em contraste com o teatro.

As características dos happenings que me parece importante destacar aqui são três: a utilização do espaço, o acto irrepetível de duração variada e a relação com o público, porque são elas que, no meu entender, mais marcaram as artes performativas.

1. O espaço. Já referi que o tratamento do espaço é fundamental para os happenings. A partir do momento em que uma galeria de arte é inaugurada com uma “nova arte”, que resulta da justaposição de linguagens plásticas e performativas, tal como o propôs Kaprow, o espaço torna-se o ponto comum onde a obra se implanta e acontece, simultaneamente. Por um lado, ele consiste na criação de “ambientes”, com materiais que despertem memórias ou ligações com o quotidiano, produzindo um contexto novo de sentidos onde o espectador é integrado. O próprio espaço físico onde se realizam os happenings são lugares do quotidiano: a rua, a natureza ou espaços não-convencionais. Muito próxima das instalações ou dos espectáculos site-specific contemporâneos, a relação com o espaço ganha então uma qualidade dramatúrgica, na medida em que a selecção e organização dos materiais na obra parte do pressuposto que todos eles são paritários e que potenciam sentidos; esta é uma das linhas de pesquisa das artes performativas (lembro que a palavra original de “ambiente” é “environment” e é a partir dela que Richard Schechner desenvolveria o seu conceito de “environmental theatre”).

Por outro lado, o que impulsiona a exploração do espaço é o questionar os limites artísticos que condicionam a obra e a criação. Para compreender este aspecto é necessário referir o percurso artístico de Kaprow. Nos anos 50, começa por fazer colagens, depois assemblages (procurando então materiais exteriores à pintura, tal como Rauschenberg, incluindo desde logo o som) até chegar aos “ambientes” (“environments”), proto-instalações com objectos retirados do quotidiano, ocupando todo o espaço da sala da galeria. A sua procura faz-se no sentido da transgressão dos limites da obra pictórica, sendo a “extensão” a sua unidade de medida preferencial: ampliar o leque de materiais, ampliar o espaço (da superfície às 3 dimensões; da sala da galeria até à rua).
Kaprow desistiria muito rapidamente da galeria, a sala implicava uma estrutura arquitectónica e institucional que não lhe interessava, passando a fazer os seus happenings em garagens, pontes, quartos, florestas, ou em vários simultaneamente (foi precursor de “espectáculos em rede” – realizou happenings que ocorriam em cidades diferentes e gostaria mesmo era de fazê-los em diversos pontos do mundo, comunicando por carta ou telefone... hoje, seguramente pela internet). No momento em que observa o modo como os visitantes ocupavam e transformavam os ambientes que criava (com as cores das suas roupas ou pela simples presença no espaço), Kaprow expande o leque dos materiais para a integração total da presença humana nas suas obras. “18 happenings em 6 partes” é um primeiro e incipiente passo para a performatividade, uma primeira experiência limite do que poderia resultar se os materiais do espaço se estendessem pelo tempo através de acções. O teatro abria-lhe portas para o território do acto, do gesto efémero, pretendendo assim libertar-se dos limites das artes plásticas; no entanto, assim que Kaprow sai de um contexto artístico entra imediatamente noutro, vendo-se forçado a posicionar-se e a lidar então, quer com os códigos específicos do teatro (como mencionei há pouco, a teoria do teatro ocupa-se dos happenings, colocando-os numa posição marginal) quer com as expectativas culturais do público.

2. O acto irrepetível. O tempo do happening é o tempo real de duração das acções: é variável (de minutos a dias), descontínuo (têm intervalos de igual variabilidade), simultâneo (alberga várias acções) e irrepetível. A obra de que hoje vos falo teve a duração de 90 minutos, divididos em partes de tempo variáveis em que ocorriam acções repetidas em simultâneo, teve seis representações entre 4 e 10 de Outubro de 1959. A questão do tempo está, naturalmente, ligada à narratividade sequencial aristotélica, quebrada com a simultaneidade e a dispersão de focos de atenção. Mas há outras implicações. O acto quer-se, segundo Kaprow e a generalidade das teorias da performance actuais, efémero e irrepetível. Não só o happening, como a performance em geral, tem como traço distintivo o seu desaparecimento à medida que acontece – a sua existência caminha para a própria dissolução -, como também resiste e nega a documentação, o registo (as imagens que viram são todas de ensaios), combatendo assim a lógica da reprodução ou comercialização da obra e da preservação, inerente aos bens culturais. Um happening não se pode comprar nem levar para casa, e, como rejeita a fixação de imagens (quando o faz, deixa de ser performance para ser fotografia, vídeo, etc.) nem segue um texto, adquire um estatuto de invisibilidade que é a sua força vital. Só quem lá esteve poderá ter usufruído da experiência.

E isto leva-nos à terceira característica dos happenings: a relação com o público. Assim que o espectador entra na Reuben Gallery para assistir ao happening, estava de imediato imerso nele. Ele não só era obrigado a deslocar-se no espaço entre as três salas (como numa exposição, só que com regras), como também era impedido de ver a totalidade do que acontecia. A relação frontal público/palco em que o teatro ocidental assentava, e que focalizava o olhar do espectador para uma acção central e linear, dava lugar a uma fragmentação, impedindo a visão total do espectáculo e questionando os tradicionais modos de percepção. (Este é um traço que, seguramente, vos recorda muitos espectáculos pós-modernistas) Nas várias salas de “18 happpenings em 6 partes”, o público teria acesso a uma parte do que acontecia, podendo voltar-se para os lados em alguns casos ou vislumbrar as sequências que ocorriam lateralmente ou por detrás do plástico que dividia os espaços.

O que hoje nos parecerá quase banal (assistir a um espectáculo em pé, seguir actores, deslocarmo-nos pelo espaço, estarmos em espaços não-convencionais), não o seria seguramente para o público nova-iorquino em 59. Para Kaprow, o entendimento do espectador como participante é motivado por princípios de fundo orientadores de toda a sua experimentação: como diria mais tarde numa entrevista, chamar aos espectadores participantes só porque se movem e porque lhes atiram com maçãs, é exigir pouco do conceito de participação. O que estava sobretudo em causa para Kaprow (que, tal como Cage, recebera as influências da filosofia oriental) era a função da arte na sociedade, e o conceito de arte em si, considerando-a viável ao nível da participação empenhada do espectador e da experiência vivida, requerendo igualmente um conhecimento prévio e daí as instruções.

A arte como experiência, como actuação directa na construção das pequenas vidas reais, implica o espectador no que respeita a responsabilidade da sua participação no evento e requer o compromisso e a consciência da sua escolha. Os materiais do quotidiano e a experiência são, para Kaprow, a via pela qual a arte seria integrada na vida comum. Esta noção de arte como experiência marcará todo o percurso de Kaprow e decorre de uma outra grande influência: a concepção de experiência estética de John Dewey, um dos filósofos do pragmatismo americano do início do século XX. Para Dewey, a experiência estética radica na experiência da vida quotidiana na medida em que qualquer unidade de sentido passível de fruição imediata, quer na vida comum quer na arte, adquire uma qualidade estética. Neste contexto, o que distingue a arte da vida é a ênfase que o artista dá à fruição imediata, através da sua forma de dispor e recriar os sentidos e valores da vida humana. Esta é, segundo o filósofo, a função crítica da arte, do seu papel questionador mas integrado na comunidade, ancorado na experiência de sentido, comum à vida e à arte, na qual o espectador participa em ambos os níveis.

Assim se compreende que Kaprow entenda o simples acto de lavar os dentes ou de contar carros no cimo de uma ponte como um happening (uma espécie de “ready-made” performance), desde que essas experiências sejam realizadas com um intuito da descoberta, servindo-se de indicações-base que são fruto de uma escolha na qual o artista está implicado, activando um modo de prestar atenção, de ver o que normalmente não vemos.

A atenção constitui para este artista o espaço liminal da performance e não será o único: Cage observa os ruídos da cidade e o silêncio para compor, Cunningham observa os gestos do quotidiano para coreografar, isto para não me alongar pelo fundamental papel político da performance feminista ou do papel ecológico da land-art.

Uma das maiores contribuições de Kaprow, no meu entender, é esta sua capacidade de questionar o conceito de arte através de textos teóricos, da sua profissão enquanto formador e da sua actividade artística. O seu discurso é multifacetado e mais rico por isso. E faz-nos questionar a nós também, pois, se a sua arte é tão próxima da vida ao ponto de não precisar de um público para existir (hoje [2002] Kaprow não admite um espectador observador nos seus happenings) e se toda a sua “extensão” por territórios não sinalizados tem origem numa necessidade de sair dos parâmetros reguladores da arte (e das suas instituições), então ainda é arte? Um dos seus desejos, por exemplo, era o de estabelecer um sistema de “encomenda de happenings”: fazer listas de guiões com actividades precisas (lavar o chão de uma sala com um pincel, marcar encontros em simultâneo em cidades diferentes) que o participante poderia escolher e fazer no seu dia-a-dia, durante uns minutos, dias ou até anos! Uma espécie de “happening-faça-você-mesmo” que o participante poderia experimentar e com o qual poderia aprender.

Este era o Kaprow de 1959, aquele que queria ser o artista mais moderno de toda a modernidade! Em 1966, porém, de tal maneira o termo happening é apropriado pelo discurso artístico e pelo discurso mediático, que Kaprow o recusa. Ir a um happening tornara-se “in”. Num outro texto sobre esta matéria, dizia que a palavra tinha de morrer pois estava comprometida pelo excesso de contaminações que sofria, que toda a vida parecia ter-se transformado num grande happening: por exemplo, o slogan de uma campanha política de Bob Kennedy era “Bobby Kennedy is a Happening” ou uma publicidade televisiva da Revlon terminava “that was a happening by Revlon”. O termo, que pretendia designar uma arte nova, acabara por ser capitalizado numa ideia vazia. De facto, Kaprow passa a designar os seus eventos por “actividades” e o público por “participantes”.

Na verdade, o que Kaprow inteligentemente constrói é uma estratégia de indefinição: indefinição entre o que é arte e o que é vida, procurando cruzá-las num todo, ao contrário da arte tradicional que separa os dois campos; indefinição entre o que é um artista e o que não é. Sabendo que o contexto da arte é limitador, percebe que não pode escapar dele e, assim sendo, a sua táctica será a da dissolução de fronteiras e uma ambiguidade que o levará a afastar-se da fama e do mercado da arte, mantendo-se numa zona marginal de actuação.

Conclui amanhã

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segunda-feira, maio 01, 2006

Relembrar Allan Kaprow (1927-2006) I

O texto que se segue serviu de base à conferência que Ana Pais, investigadora e professora da Escola Superior de Cinema e Teatro, apresentou na Culturgest em 2002. O desaparecimento do performer norte-amerciano Allan Kaprow, no passado dia 09 de Abril justificou o convite à publicação do texto até agora inédito. Nesta primeira parte a autora dá conta da noção de happening, termo criado e desenvolvido por Kaprow, a partir de alguns exemplos que puseram em causa a relação objecto-espectador-performer na década de 60. O texto continua amanhã e depois.

A HERANÇA VIVA DE ALLAN KAPROW
por Ana Pais


Os anos 60 constituem um período de efervescência artística em que a experimentação de linguagens da obra de arte se expandem por novos caminhos. Até então, as fronteiras entre as disciplinas artísticas eram estanques e os seus géneros reconhecíveis pelos materiais e linguagens específicos de cada arte. Do contexto pós-guerra, emerge a segunda vanguarda (ou neo-vanguarda) do século XX, na qual se incluem nomes como, por exemplo, Piero Manzoni em Itália, Yves Klein em França, Kantor na Polónia, o movimento Fluxus entre a Europa e a América, Claes Oldenburg, Jim Dine e Valie Export nos Estados Unidos.

Imaginem que, neste ambiente de agitação, recebem em casa um convite para a inauguração de uma galeria de arte no qual se diz terão lugar 18 “happenings”, palavra então desconhecida e enigmática, e se convida o visitante a “colaborar” com Allan Kaprow (conhecido artista plástico e professor de história de arte na Universidade de Rutgers), na realização do acontecimento. Acrescenta-se que os convidados se tornariam parte integrante dos happenings e, simultaneamente, os experimentariam.

Mais ainda, acautela-se o público para não esperar encontrar pinturas, esculturas, dança ou música; apenas situações “envolventes” cujo formato o artista entende por bem deixar sem título. Outros materiais promocionais anunciavam acções “íntimas e austeras”, sem qualquer ambição de produzir um sentido claramente formulado por parte do autor.

Imaginem agora que chegam ao local do evento (o loft da Reuben Gallery, no dia 4 de Outubro de 59) e recebem um programa, com instruções e lista de participantes, bem como três cartões, indicando quando e onde se devem sentar (por exemplo, na parte 1 e 2, sente-se na sala 1, sendo que o seu acompanhante deveria dirigir-se à sala 3). Ao separar os visitantes que já se conheciam pelas várias zonas, estes cartões permitiam reformular as relações entre eles, criando um conjunto de indivíduos reunidos em torno da apresentação que teria lugar.

Imaginem que, ao olhar para o programa, reparam que, na coluna do elenco, não constam nomes de personagens, mas apenas funções (como falar, mover-se, tocar um instrumento) para cada um dos 6 performers (entre eles, os promissores artistas George Segal e Robert Whitman, para além do próprio Kaprow). No elenco, figuram igualmente os “visitantes” (que seriam convidados especiais como Grooms ou Rauschenberg).

Na coluna das instruções, podia ler-se: “A performance divide-se em 6 partes. Cada parte contém 3 happenings que ocorrem simultaneamente. O princípio e o final de cada uma será assinalado por 1 toque de campainha. No fim da performance, ouvirão 2 toques de campainha.” Todos devem seguir atentamente as mudanças de lugar previstas nos cartões. E não era tudo: dizem-lhe que, entre a parte 1 e 2, haverá um intervalo de 2 mn e que deverá permanecer sentado; que entre a parte 2 e 3, haverá um intervalo de 15 mn e que aí poderá deslocar-se à vontade, e assim sucessivamente; decreta-se ainda que não haverá aplausos no final de cada parte, mas que, se desejasse, podia aplaudir no final da 6ª parte, embora ninguém viesse agradecer.

Imaginem que, ao entrar pelo amplo espaço rectangular da galeria, se deparam com três salas, diferentes em tamanho, assinaladas numericamente; a primeira é a zona onde se encontram e de onde se vêem a Segunda sala, à esquerda, e a terceira, atrás e mais à direita. As três salas estão divididas por uma estrutura de madeira coberta a toda a volta com plástico semi-transparente, não chegando ao tecto da galeria e formando corredores de passagem. Ao fundo, por trás da terceira sala, esconde-se a zona de projecções de slides e uma espécie de bastidores, por onde se farão as entradas e saídas dos performers.

Olhando à volta, observam que cada sala é dominada por uma cor (sala 1: cor-de-rosa; sala 2: azul; sala 3: azul-claro), que as estruturas das salas 1 e 3 estão encimadas por lâmpadas de cores alternadas; que em algumas paredes se encontram colagens e assemblages compostas por materiais de natureza variada (telas amarrotadas, palavras como “was”, “ha”, maçãs artificiais, luzes de Natal, jornais, fios eléctricos, tecido pintado). Notam ainda que a disposição das cadeiras varia igualmente (por exemplo, na sala dois, a do meio, as cadeiras estão colocadas em duas filas, de frente uma para a outra e de lado para as restantes salas, permitindo que estas sejam vistas através do plástico).

Imaginem que ocupam os vossos lugares, talvez um pouco desconfortáveis porque não haverá ninguém ao lado para partilhar infinitas perplexidades, e ...esperam. Ao toque da prometida campainha, sons altos, não-melódicos, urbanos e electrónicos disparam das 4 colunas nos cantos da galeria, elemento que talvez tivesse escapado a um primeiro olhar. Rapidamente se percebia que, apesar da gravação ser a mesma, as colunas estavam dessincronizadas, criando um tipo de sonoridade em “delay” ou em cânone, cada coluna com inícios diferentes, estabelecendo um diálogo entre si. Do fundo da sala, dos ditos bastidores, desfilam devagar, em fila indiana, os performers da primeira parte, vestidos com roupas do dia-a-dia. Cada um com uma cara mais inexpressiva do que o outro, movem-se de forma artificial, o que se manterá até ao final do evento. Caminham sempre em linhas direitas; mudar de direcção só com ângulos rectos e nunca atravessam o espaço na diagonal. Distribuindo-se pelas salas, cada performer pára momentaneamente e desempenha sequências estipuladas no guião minuciosamente escrito por Kaprow (indo ao pormenor coreográfico de prever a duração de cada posição ou dos segundos entre cada movimento) e ensaiado durante duas semanas. Consoante a sala em que estejam sentados, podem ver movimentos gímnicos, gestos do quotidiano ou projecções de slides (desde sequências rápidas de formas geométricas coloridas, obras de Kaprow, passando por desenhos de crianças, obras de pintores clássicos, ou fotos de nus), tudo cronometrado até ao milímetro. No final de cada parte, a campainha toca, as luzes baixam e os performers, em idêntica postura silenciosa e rígida, regressam ao corredor de passagem e saem de cena.

Na parte 3, por exemplo, um gira-discos dirige a acção de dois performers a partir da voz gravada do próprio Kaprow: “Are the gentlemen ready?”, começa, despertando a irónica dúvida de saber se a pergunta se dirige ao público (estaria o público preparado para os happenings?) ou para os dois performers. A situação clarifica-se de imediato, pois a gravação continua com instruções dirigidas a ambos os performers no sentido de colocarem em cima de uma mesa pequenos cubos brancos com letras vermelhas dos lados.

Na parte 4, 4 performers dispostos em linha paralela ao público preparam um concerto “assinfónico”, em que cada um funciona independentemente: um toque nas cordas do violino, um sopro na flauta, cortes abruptos, longos silêncios. Na quinta parte, o “homem-sandwich” (construção com braços metálicos, cabeça e espelhos à frente e atrás) é trazido por uma performer para a sala 2 (onde já está um outro a ginasticar com a sua gravata); ao lado deste, a performer liga o objecto a uma ficha que pendia do tecto e, do gira-discos incorporado no “homem-sandwich”, irrompe uma velha e estridente melodia de polka. Enquanto isso, na sala 1, uma performer espreme, uma a uma, 12 metades de laranja para os 12 copos onde estavam previamente colocadas, bebendo o sumo. O cheiro das laranjas misturado com o da tinta proveniente de duas latas abertas, criava uma atmosfera de aromas a que era difícil ficar indiferente. Depois de terminada a acção, a performer espera imóvel pelo toque salvador do gongo!

Depois de 90 minutos assim, poderão imaginar o sobressalto do vosso pensamento: “será que me enganei? Não era hoje? Eu não devo estar no sítio certo, pois se eu vinha para uma inauguração de uma galeria de artes plásticas?” A verdade é que se tratava de um novo género: o happening, forma híbrida e marginal nos contextos até então conhecidos no âmbito das artes plásticas e performativas, que a partir dos finais dos anos 60/princípios de 70 viria a receber o nome “performance”.

O happening (termo que para Kaprow naquele momento designava somente as acções particulares de cada parte do evento, que ele preferia não nomear) é composto por uma estrutura sequencial de acções de carácter performativo, simultâneas e sem relação causal entre si, num ambiente visualmente cuidado, ou seja, num “environment”. O happening é, sobretudo, uma acção, um acto que assenta na experimentação dos limites das artes que convoca, reunindo uma comunidade de espectadores. Os tempos, os locais ou formas que viriam a assumir são tantas quantos os seus autores; cada um desenvolve um conceito próprio de happening, mas aquele a que me irei cingir aqui é, naturalmente, o de Kaprow.

A sua composição estética, tal como a define Kaprow numa obra escrita maioritariamente em 1959 (“Assemblages, Environments and Happenings”), consiste numa “colagem de eventos que ocorrem em determinados períodos de tempo e em determinados espaços”. Essa colagem, ou justaposição, opera sobre um leque de materiais muito variado, incluindo, em particular, elementos até então exteriores à arte tais como plásticos, roupas, brinquedos, fotografias, objectos de madeira, peças de máquinas, etc.. Kaprow entende estes elementos extraídos do quotidiano, do contexto urbano, por um lado, como materiais que constituem a subjectividade da própria obra de arte – trazem consigo e geram na obra sentidos -, ao contrário da acepção tradicional de materiais como formas inócuas que transportam a subjectividade do autor, aquilo que o autor “quer dizer”; e, por outro, como componentes tão válidos como os meios artísticos por excelência, ou seja, habitando a obra com igual estatuto e importância. O método utilizado por Kaprow para organizar e seleccionar esses materiais deriva de operações de acaso, ou seja, ele tira partido de procedimentos aleatórios (girando uma roleta, jogando dados ou extraindo papéis de um saco) como uma forma de questionar e perturbar padrões de composição convencionais.

Literalmente, o happening é “aquilo que acontece” a partir de um guião ou de uma estrutura ensaiada, contemplando, porém, espaço para o que pudesse surgir inopinadamente na situação. Contrariamente ao carácter improvisado e espontâneo que tendencialmente lhe está associado, o happening, sobretudo no início, é altamente elaborado e regrado. (Inclusive, conta-se que Kaprow ficava furioso quando os convidados para “18 happenings em 6 partes”, artistas como Red Grooms, Jasper Johns ou Rauschenberg, se levantavam das cadeiras entre o público, mas não pintavam exactamente os círculos ou riscas, conforme lhes tinha sido pedido...) Kaprow irá abandonar esta atitude progressivamente (assim como os ensaios) e, no meu entender, ela reflecte apenas uma reacção perante o desconhecido e não tanto uma questão de controlo autoral, coisa de que muitas vezes é acusado: ele sente necessidade de controlar, de dominar a criação, porque tem consciência de que a obra lhe escapa, que se projecta num universo cujos códigos não conhece e por isso a sua insistência em não lhe dar um nome e deixá-la acontecer. Numa entrevista de 1968, reconhecerá que, apesar do controlo ser necessário ao happening, se for em demasia não funciona. Mas, assume, que o que ele não sabia na época era como fazer as pessoas felizes naquela situação tão diferente.

“18 happenings em 6 partes” é um evento que contém, em embrião, os traços basilares das transformações vanguardistas da segunda metade do século XX, pertinentes para o entendimento da performance na actualidade. É um objecto fundador de um caminho, único talvez não tanto pela “perfeição” que se exige a um clássico (a contestação da perfeição e superioridade da obra de arte, separada da vida, será, de resto, uma das lutas de Kaprow), mas pela influência que teve nas experimentações coevas e subsequentes no que respeita à diluição de fronteiras entre artes e géneros.

Isto não significa, contudo, que toda a história da performance nasça deste ponto, até porque, os anos que se seguiram evidenciam o surgimento de várias tendências ou movimentos paralelos com origens diversas, decorrentes dos múltiplos cruzamentos e contaminações entre as disciplinas artísticas. O acto de Kaprow é, seguramente, devedor de dois contributos que lhe estão próximos no tempo – a “Action Paiting”, de Jackson Pollock e o célebre concerto de John Cage, “4’33’’". Às telas de grandes dimensões que Pollock estendia no chão, libertando-se dos confins da moldura, Kaprow vai buscar a dimensão do gesto, do acto artístico como acção que se sobrepõe ao objecto (e daí a procura do acto performativo; mais importante do que a obra, era o processo artísitico que começava a ganhar protagonismo), e a noção de estar “dentro” da obra e não frente a ela (e daí o “environment”, obra em que o visitante entra, não fica apenas de fora a ver). Em Cage, de quem foi aluno, Kaprow inspirar-se-ia sobretudo ao nível do composição sonora (que inclui o silêncio e o ruído como “ready-mades” musicais encontrados no quotidiano) e dos métodos aleatórios de criação, para além do facto de “4’33’’” se basear também numa estrutura de acções simultâneas.

continua...

Ana Pais fez crítica nos jornais PÚBLICO e Expresso. É autora do ensaio "O Discurso da Cumplicidade" e organizadora e moderadora dos debates da Associação PRADO, que decorrem no São Luiz - Teatro Municipal. O próximo debate será dia 03 de Maio às 18h30.

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