quarta-feira, janeiro 31, 2007

OBSCENA #1 já disponível online


Já pode fazer o download do nº1 da revista OBSCENA:


A revista pode ser assinada aqui.
Os assinantes têm acesso prévio aos conteúdos de cada número e textos exclusivos.

A OBSCENA está hoje em destaque no Rádio Clube Português (89.5 FM), entre as 13h e as 14h.

terça-feira, janeiro 30, 2007

sábado, janeiro 27, 2007

Katerine, Katerine, Katerine...







2008 Vallée, de Mathilde Monnier, com Katerine. Hoje no Teatro Camões às 21h.

Call for papers: literatura e dança





A revista Textos & Pretextos, editada pelo Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa está a preparar para o número 15, a editar no fim de 2007, um edição especialmente dedicada às relações entre literatura e dança. As propostas devem ser enviadas para o e-mail textosepretextos@gmail.com até 15 de Junho 2007.

Volver (ou a minha campanha pessoal "Um voto na Penélope")





Ela não vai ganhar, da mesma forma que não é ela que canta, é esta. Quero lá saber.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

Crítica de teatro: Quarteto



Questões de legado

Quarteto/Shall we dance III
de Heiner Müller
co-criação de Cláudia Jardim e José Gonçalo Pais
Hospital Miguel Bombarda, Lisboa
até 03 Fevereiro 2007


O caso dos Shall we dance é particularmente curioso no percurso do Teatro Praga já que, oscilando entre o espaço experimental e o espectáculo, tem tido resultados díspares e francamente desiguais, mas servido para abrir janelas para as várias camadas que compõem este grupo. Por detrás desta ideia está a vontade de convidar elementos externos para um trabalho a dois sempre nas mesmas condições: orçamento reduzido, apresentado em sessão dupla ou tripla, livre na abordagem ao universo referencial da companhia e/ou do responsável.

Super-gorila (2005), de André e. Teodósio e José Maria Vieira Mendes é, de todos, o que melhor conseguiu autonomizar-se, dialogando com a relação que o Teatro Praga sempre teve com o texto, o lugar do intérprete e a abordagem ao espectador. Por outro lado © (2006), de Patrícia da Silva e Nelson Guerreiro, o que mais abertamente assume algum impasse criativo em que podem redundar estas propostas abertas. Quarteto, concebido por Claúdia Jardim, que traduziu com Vítor Gonçalves, e encenou e interpreta, aqui com o recém-chegado José Gonçalo Pais é a mais recente proposta. E um espectáculo a ter em conta se o Teatro Praga quiser pensar a integração destas propostas laboratoriais e individuais no seu discurso colectivo. Isto porque, em Quarteto, há, como há muito não havia no trabalho desta companhia, uma reflexão em torno do (peso) do texto, da referência e da memória.

No seu mais recente artigo para o site da Culturgest, De quem são as obras?, Augusto M. Seabra abordava questões relacionadas com o papel dos autores, o modo como estes se viam privados dos direitos das suas próprias obras, e ainda a crescente menorização da importância do legado face a “tanta proposta ‘modernaça’”. Se o crítico colocava a questão no âmbito da memória coreográfica e performática (de performance, e não de representação), o mesmo poderá, naturalmente, ser dito em relação ao teatro e à dramaturgia. Razão pela qual não haverá melhor exemplo para discutir o papel do autor do que o caso do alemão Heiner Müller que, com Quarteto, de 1980, repensou o clássico Ligações Perigosas, de Chordelos de Laclos e que, até dia 03 de Fevereiro, a actriz Cláudia Jardim apresenta no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa.

Texto sobre a morte transformada em espectáculo, Quarteto disseca, mais do que desconstrói uma estrutura formal feita de sublimes acordos, ambiguidades e erros cúmplices. Valmont e Merteuil, os dois amantes danados (mais do que condenados) tomam conta da acção substituindo-se a todas as outras figuras, principalmente a doce e inocente Cecile de Volanges, sobrinha de Merteuil, e a apaixonada e crente Senhora de Tourvel, objectos de desejo de Valmont e peões nas mãos dos ex-amantes.

O autor alemão trabalha a partir de códigos clássicos, minando Laclos com apontamentos dramatúrgicos que deslocam o texto dos salões parisienses (na primeira parte) para o clima agastado, e irreconhecível porque comum a muitos países, da falta de moral em contexto bélico (um bunker, na segunda parte). A peça, se vive de uma relação amoral com o texto de Laclos não deixa de fazer parte de uma estratégia de apropriação do sentido do autor para servir metáforas sociais, políticas e culturais que, tendo a Alemanha da guerra-fria como pano de fundo, serve também um posicionamento claro e vincado sobre a memória e a referência.

A qualidade maior de Müller não é a normalização de uma linguagem vernácula nem muito menos o exercício moderno de escalpelização de um texto não-teatral. É, sobretudo, a noção de impossibilidade de representação da palavra. Ou seja, transforma o que está escrito em matéria exposta que obriga quem a diz a ser cuidadoso na utilização da palavra. É por isso que este é um texto para actores e não um exercício de teatro-no-teatro facilmente manipulável. Um passo em falso no uso de Quarteto será fatal para a credibilidade de um texto austero, intenso e autónomo.

A inteligência do espectáculo de Cláudia Jardim está precisamente na relação quase cerimonial (para não dizer submissamente imposta) que tem com a visão de Müller. Ao perceber que pouco se pode acrescentar a um texto como este a actriz aproveita para desmontar o que já de si é desmontado. Sem adereços, figurinos ou grandes efeitos de luz, recupera a relação actor-palavra num exercício brechtiano assumidamente pouco ambicioso, porque intencionalmente cuidado. Em cena apenas um corpo quotidiano e um texto que quer passar por arrufo de namorados. E, em conjunto, nada do que ali se mostra é irrelevante.

Espectáculo de tempo e ritmo certos dá-nos Müller sem artifícios e Jardim, num doseamento correcto da sua energia e perspicácia em palco, atenta ao registo do seu par que, se se solidifica ao longo do espectáculo, nunca o faz ao ponto de dar réplica perfeita. O registo de uma actriz cujo perfil cénico – intenso, apaixonado, emotivo – se vinha moldando a diferentes encenações de Luís Miguel Cintra, Lúcia Sigalho e no seio do Teatro Praga, ao qual pertence, ganha com esta peça uma evidência, impondo (ou impondo nós) a necessidade de ir mais longe no assumir de uma marca autoral sem necessidade de protecções de outros pares, como acontecia em Agatha Christie (2005), por exemplo.

As suas opções de encenação dividem-se em duas linhas claras. Por um lado o texto que é dito em jeito de screwball comedy, com os dois actores a digladiarem-se sem verdadeiramente se oporem – uma leitura do texto, afinal, bastante perversa, para não dizer profanatória. Por outro, nos piscar de olho a algumas imagens de marca do Teatro Praga. Se as colagens na parede de nomes, autores, referências (ela a citar nomes que fizeram a peça e alguns dados históricos, ele a usar filosofia e meta-teatralidade) são uma fórmula gasta e já esperada, o uso bulímico de imagens de anjos retiradas de quadros e esculturas e fotografias de explícita pornografia, que depois são remisturadas e confundidas num caleidoscópio visual inebriante, nunca impedem uma leitura fluída do texto. Pelo contrário, antes funcionam enquanto ampliação da perversão das personagens.

E é aqui que podemos falar da relação com a referência e o legado. Num desses interlúdios (na foto), Cláudia Jardim utiliza o filme de Stephen Frears, Ligações Perigosas, para, numa das cenas entre Glenn Close e John Malcovich impôr os diálogos de Müller. Diálogos esses que dão conta do veneno que já os consome, que expõem ao ridículo aquela paixão demente. Um exemplo: (ela) “Imundice por imundice. Quero que me cuspis em cima.” / (ele) “Quero que vertais as vossas águas sobre mim.”. São diálogos que colocam em confronto três leituras: a do realizador, a do dramaturgo e a da encenadora. O modo como se apresentam, sem se diminuírem, é uma espécie de resposta ao impasse a que alude Augusto M. Seabra na crónica acima citada. Este Quarteto reconhece, integra e trabalha dentro da memória e da referência, sem a necessidade de introduzir novas pistas, de querer falar de outras coisas, sem metaforizar. E, sem ser moderno, é das propostas mais actuais e lúcidas na revisitação, sempre hierárquica, dos clássicos.

Prémio luso-brasileiro de dramaturgia atribuído ao português José Maria Vieira Mendes


A primeira edição do Prémio de Dramaturgia António José da Silva, co-produzido pelo Instituto Camões (Portugal) e a Funarte - Fundação Nacional de Arte (Brasil), foi atribuído por unanimidade ao jovem dramaturgo português José Maria Vieira Mendes, pela peça inédita A minha mulher.

O texto vencedor, anunciado ontem, foi escolhido por um júri luso-brasileiro constituído, da parte nacional, pelo crítico João Carneiro (Presidente do Júri), o encenador João Lourenço, e a teatróloga Eugénia Vasques e, do lado brasileiro, pelo dramaturgo e encenador Reinaldo Maia, o teórico Fernando Peixoto e o encenador Marco António Rodrigues.

O prémio tem o valor monetário de 15.000€ e a sua atribuição implica ainda a edição da obra em Portugal e no Brasil, para além de ser levado à cena nos dois países. Em Portugal a apresentação caberá ao Teatro Nacional de D. Maria II, devendo inscrever-se na programação do 2º semestre de 2007.

Tal como O Melhor Anjo tinha avançado em primeira mão no passado mês de Agosto, o Prémio António José da Silva surge da reunião de duas shorlists indicadas por cada país, com quatro nomes cada, havendo depois um júri comum que decide o único vencedor. Os nomes indicados para a shortlist brasileira surgiram dos quatro prémios regionais existentes no país regularmente atribuídos. De acordo com o regulamento foram admitidas a concurso qualquer género de peças originais, desde que não fossem adaptações de obras de outros autores ou póstumas.

O prémio, assumem as duas entidades promotoras, "constitui-se desde já como a maior iniciativa do género no contexto da dramaturgia dos dois países" e prossegue "por via do teatro, uma proximidade cultural que, através desta forma de arte possuidora de uma apurada capacidade de observação e síntese da realidade e das suas evoluções, permite uma reflexão constante sobre as transformações sociais que têm ocorrido nos dois países, apesar das suas diferentes inserções geográficas".

quinta-feira, janeiro 25, 2007

Faleceu Paula Castro, a bailarina da “cara especial”.


Faleceu hoje de manhã, aos 38 anos, a coreógrafa e bailarina Paula Castro, vítima de doença prolongada. Formada pelo Conservatório Nacional de Dança, e bolseira do Théàtre Contemporain de la Danse, trabalhou como intérprete com vários coreógrafos portugueses, Rui Nunes, Joana Providência, Aldara Bizarro, Madalena Vitorino, Paula Massano, João Galante e Teresa Prima, Vera Mantero, Francisco Camacho e Filipa Francisco, para além de ter criado Sem Título, Ever Wanting, Vertigem e Nevoeiro (co-autoria de Sandra Faleiro).

Hospitalizada há já algum tempo Paula Castro mantinha ainda assim uma intensa actividade, tendo apresentado, em nova versão, Pequenas grandes Histórias no programa Let's Dance, no passado mês de Setembro no Teatro Camões. Amigos como as coreógrafas Teresa Prima e Aldara Bizarro, o performer Rafael Alvarez, a actriz Carla Bolito, o programador Mark Deputter ou a directora do Fórum Dança Cristina Santos, são unânimes no reconhecimento de uma vontade em “não se deixar invadir pela ameaça da grave doença que a atingiu”. Carla Bolito recorda que, nas últimas semanas, já no hospital, era a própria Paula Castro que lhes dizia no fim das horas das visitas “divirtam-se”.

Este humor, “mal compreendido, aguçado e muito sarcástico”, diz Rafael Alvarez, resultante de uma vida crente numa “utopia muito própria” refere Cristina Santos, mas “nada lírica”, acrescenta Carla Bolito, são, nas palavras de Teresa Prima, características que definiam a “excepcional” e “rara intérprete”. “Eu gosto é de te ver dançar!”, disse-lhe uma vez Aldara Bizarro querendo referir-se à sua “dança muito particular”.

Cristina Santos, que a conhecia há vinte anos, e Aldara Bizarro, que com ela trabalhou, referem ainda a expressividade de Paula Castro como uma das marcas mais reconhecíveis da sua imagem enquanto artista. Aldara lembra-se de a ver, desde os dezasseis anos, a seguir as aulas dos professores de dança clássica, “com o seu fatinho de lã preta e os calções de meia perna” a cobrirem um corpo “pequeno, mas de mãos e pés enormes”. Era na cara, de uma “expressividade muito particular”, que se concentrava a energia desta bailarina, reconhecida unanimemente como um exemplo de resistência, “que não se acomodava a trabalhos mais fáceis ou mais seguros”, diz Cristina Santos.

Teresa Prima e Rafael Alvarez, que partilharam com Paula Castro “amores e a cidade de Nova York”, falam desta “pessoa especial”, da “grande perda” que agora sentem e do “exemplo inspirador de sobrevivência”. Uma posição que se manifestava no trabalho “determinado e rigoroso”, mais reconhecido enquanto intérprete do que como coreógrafa, com “coisas boas e outras duras”, recorda Aldara Bizarro.

Era uma “estranha forma de viver” a desta criadora, diz Carla Bolito que a acompanhou nas últimas semanas. Com um trabalho “onírico” e “perto dos sonhos”, Paula Castro foi construindo um percurso que Mark Deputter, programador do Teatro Camões e do Alkantara, assinala como “muito seu”. Deputter, que recentemente a convidou a integrar a plataforma coLABoratóRIO – Encontro Sul-Americano Europeu de Coreógrafos, no Rio de Janeiro, fala de uma atitude “muito aberta, interessada em aprender e atenta aos pormenores”. A viagem, entretanto cancelada por causa do internamento hospitalar a que acabou por não resistir, seria “uma boa oportunidade para fazer evoluir o seu trabalho”, que o programador recorda como “calmo” e “sem querer tudo de uma vez”.

Paula Castro deixa um percurso por cumprir mas, pelo qual, se bateu até ao fim. É essa resistência que os que lhe eram próximos vão guardar. Isso, o exemplo de persistência e, nas palavras de Teresa Prima, “a coragem em não aceitar as coisas como elas são”.
O funeral realiza-se amanhã às 15h30 com saída da Igreja das Furnas, em Benfica, dirigindo-se depois para o Cemitério de Benfica.


Na foto: Paula Castro na peça Riso, de Filipa Francisco

quarta-feira, janeiro 24, 2007

OBSCENA #1: preview (2)


Uma das características que irá marcar a revista OBSCENA é o estabelecimento de parcerias com outros jornais, revistas ou sites internacionais especializados em artes performativas. Um dos parceiros de primeira hora é o portal brasileiro Idança, com o qual se trabalhará na partilha de textos e troca de conteúdos. Coordenado por Nayse Lopez, crítica e co-programadora do PanoramaRioDança, é o maior portal dedicado à dança no Brasil e conta com a colaboração de diversos investigadores, críticos, programadores e coreógrafos nacionais e estrangeiros que contribuem com textos diversos.

O Idança disponibiliza, desde hoje, um dos textos que será publicado na revista OBSCENA #1, cujo lançamento ocorrerá dentro de dias. Incluído na secção mundo, Negro Provençal, é uma viagem ao Pavillion Noir (na foto), o novo espaço de trabalho do coreógrafo Angelin Preljocaj, e pode ser lido aqui. O texto dá conta da polémica em torno deste Centro Coreográfico Nacional em Aix-en-Provence, no sul de França, recenseando ainda o livro de Éric Reinhart e o video-dança de Pierre Coulibeuf dedicados ao edifício.

Um excerto:

«De um 'negro provençal', diz o arquitecto italiano Rudy Ricciotti acerca da cor escolhida para compor o Pavillion Noir, o novo Centre Chorégrafique National (CCN) de Aix-en-Provence, feito à medida e imagem do seu impulsionador, o coreógrafo Angelin Preljocaj, 'seco, ossuoso, tenso, magro como a figura, esse físico qualificado pela pele e pelos ossos'. Projectado em 1999 e sucessivamente adiado até à inauguração em Novembro de 2006, com a presença do Ministro da Cultura Renaud Donnedieu de Vabres e toda a corte burguesa de Aix-en-Provence, o edifício destaca-se na bucólica vila do sul de França pelo corte radical que imprime à paisagem ('um meteorito que caiu em pleno coração de Aix-en-Provence', diz o coreógrafo), pela mensagem que faz passar à comunidade artística local e nacional e por simbolizar o reconhecimento de um empenho pessoal para a valorização e acessibilidade da dança contemporânea francesa por todo o mundo.» Continua aqui.

terça-feira, janeiro 23, 2007

Katerine aterra esta semana em Lisboa

Este sábado, 27 Janeiro, no Teatro Camões, no âmbito do ciclo Canto e Dança, Mathilde Monnier coreografa as canções do iconoclasta Katerine no delirante 2008 vallée. Perder é não perceber nada. Mesmo. Ou arriscam-se a que ele vos diga, como na canção Je vous emmerde que se rouba ao You Tube: Sentimentalement démissionnaire/Professionnellement suicidaire/Tu vois?/Je suis dans la merde/Et je vous emmerde...


Uma fusão para interesse de quem? - opinião



A fusão entre o Teatro Nacional São Carlos e a Companhia Nacional de Bailado é um erro. Uma vez mais, o estilo ziguezagueante do Ministério da Cultura sobrepõe-se aos objectivos das casas, desconhece o impacto público da decisão e, mais do que decapitar direcções, anula projectos, como o Teatro Camões.


O recente pedido de esclarecimento ao Ministério da Cultura (MC) por deputados do PS sobre a fusão entre a Companhia Nacional de Bailado (CNB) e Teatro Nacional São Carlos (TNSC) peca por tardio e enviesado. A fusão, anunciada no Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado, encontra-se em processo de concretização. E centra-se no desempenho do TNSC quando está em causa a remodelação de casas com dinâmicas, objectivos e orçamentos diferentes. O orçamento previsto para a fusão é de 19 milhões euros, sendo que no Orçamento de Estado 2007, em números redondos, o TNSC tem 15,6 milhões e a CNB 6,2 milhões (inclui mecenas e receitas próprias). Poupam-se 2 milhões, se tanto. “Nada”, feitas as contas à reestruturação e indemnizações, disse Pinamonti, director do TNSC, ao Diário de Notícias (30/11). Por isso, que pretende o MC?

Diz a lei orgânica de 27/10/06, feita à revelia dos directores, que serão “transformados, embora sem perda das identidades respectivas enquanto pólos de produção (…) tendo em vista uma melhor coordenação dos meios e dos recursos respectivos, ao serviço do desenvolvimento da cultura músico-teatral.” Não me perco no arcaísmo dos termos, mas recordo que Pinamonti assumiu que os primeiros cortes à sua programação foram as coreografias previstas (Diário de Notícias, 30/11) e que partilhar a orquestra “seria desnaturar a única orquestra sinfónica pública de Lisboa” (Expresso, 25/11). Mais, em 1992 foi revogada a primeira fusão de 1985 por se reconhecer a autonomia e o projecto da CNB. E o modelo proposto pelo MC tem como exemplos a Ópera de Paris, o La Scala e a Royal Opera House de orçamentos cinco vezes superiores ao acumulado CNB/TNSC.

Está dado o tom ao abrandamento da CNB quando comemora 30 anos e se prova, apesar da sub-orçamentação, o aumento de público e de receitas. Uma vez mais o estilo ziguezagueante do MC sobrepõe-se aos objectivos das casas, desconhece o impacto público da decisão e mais do que decapitar direcções (esta é uma opção política fulanizada), anula projectos, como o Teatro Camões (TC), que em conferência de imprensa de 16/11/05 era elogiado pelo mesmo MC. A CNB gere, em detrimento da sua própria função e com resultados positivos públicos, o futuro do TC enquanto teatro da dança desde 2003, não se tendo alterado o seu orçamento, apesar da sustentabilidade financeira deste lhe ter sido prometida em OE. Se o défice de 2004 foi coberto pelo OE rectificativo de 2005, em 2006 foi-lhe retirada a verba do PIDDAC de 1 milhão de euros. No total são 4,7 milhões de euros só de despesas fixas e segurança social, incluindo a gestão, programação e manutenção de três espaços - sede na Victor Cordon, Camões e armazém.

Se o MC quer poupar porque não garante a partilha de músicos e bailarinos em vez de programações anunciadas separadamente com sobreposições que levam à contratação de uma nova formação sinfónica para os bailados? Porque não liberta do orçamento da CNB os gastos com a segurança social dos bailarinos inactivos e autoriza que a idade de reforma desça de 65 para 45 anos, tal como os atletas de alta competição, por ser uma profissão de desgaste rápido? Porque não agiliza as autonomias financeiras das duas casas permitindo uma regularização das contas que não necessitem de contornos inevitáveis como reconheceu a recente auditoria às contas de 2004 da CNB?

Importa ainda perceber que papel atribui o MC aos mecenas, Millenium BCP (TNSC) e EDP (CNB), já que dificilmente se concebe que um e outro promovam um aumento de despesa. O secretário-geral do Millennium disse ao Expresso (08/12), a propósito de um jantar organizado pelo MC, que já davam “apoio suficiente”.

Registo ainda os silêncios públicos de quem tem laços com a CNB: coreógrafos que partilham espaços cedidos, ex-directores e sub-directores, alguns com funções nas duas casas, e Comissão de Trabalhadores que não entende que a falta de solidariedade não implica uma cedência nos eventuais problemas laborais, mas uma contribuição para um futuro que os afectará de modo irreparável.


[publicado ontem no jornal Público. Fotografia de José Luis Neves]

segunda-feira, janeiro 22, 2007

A ler hoje no PÚBLICO


a opinião de Tiago Bartolomeu Costa

«O recente pedido de esclarecimento ao Ministério da Cultura (MC) por deputados do PS sobre a fusão entre a Companhia Nacional de Bailado (CNB) e Teatro Nacional de São Carlos (TNSC) peca por tardio e enviesado. A fusão, anunciada no Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado, encontra-se em processo de concretização. E centra-se no desempenho do TNSC quando está em causa a remodelação de casas com dinâmicas, objectivos e orçamentos diferentes. O orçamento previsto para a fusão é de 19 milhões euros, sendo que no Orçamento de Estado 2007, em números redondos, o TNSC tem 15,6 milhões e a CNB 6,2 milhões (inclui mecenas e receitas próprias). Poupam-se 2 milhões, se tanto. "Nada", feitas as contas à reestruturação e indemnizações, disse Pinamonti, director do TNSC, ao Diário de Notícias (30/11). Por isso, que pretende o MC?» (...)

continua aqui.

Estado em que se encontra este blog (ou coisa que o valha)



Dead Can Dance - Yulunga

quarta-feira, janeiro 17, 2007

OBSCENA #1: preview



O primeiro número da revista OBSCENA sairá em breve. Faz paragens no Irão, em Berlim, Aix-en-Provence (França), Beirute, Londres e Porto. Conversa com os coreógrafos Helena Waldmann e João Fiadeiro e o encenador Rabih Mroué. Observa o trabalho do encenador alemão Thomas Ostermeier, do já falecido dramaturgo português Fernando Augusto e do investigador e antropólogo luso-brasileiro André Lepecki. Faz a aposta no filme Body Rice, de Hugo Vieira da Silva, dá carta branca à dramaturga Regina Guimarães, e pergunta, pela voz da crítica búlgara Kalina Stefanova, se existe uma crítica pós-dramática. Critica espectáculos que se apresentam no mês de Fevereiro em vários pontos do país, recenseia livros nacionais e estrangeiros e dá conta de dvds que se dedicam a fixar processos criativos. Tem colunas de opinião, notícias, ilustrações exclusivas e uma vontade imensa em trabalhar de forma complementar com o que vai existindo. E termina a noite nos quartos imaginados pela equipa de Lúcia Sigalho no Hotel des Artistes, em Lisboa. Isto tudo e mais poderá ser lido no primeiro número da OBSCENA, a sua nova revista de artes performativas.


A revista estará, em breve, disponível para download no site. A subscrição da mailling list pode ser feita através do e-mail obscena@revistaobscena.com, bastando escrever-se SUBSCRIBE no assunto.

PERFORMA – Encontros de Investigação em Performance



(anúncio)


O Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro realiza, entre 10 e 12 de Maio de 2007, uma conferência internacional sobre temas de investigação em interpretação e artes performativas. Tratando-se de uma área de estudos emergente, com reduzida expressão em Portugal, o PERFORMA tenciona contribuir para a divulgação da investigação efectuada no país e a nível internacional.

Na edição de 2007, o PERFORMA define-se como um espaço multidisciplinar de debate sobre o universo da interpretação musical, acolhendo por isso, propostas com proveniências disciplinares diversas, com alargamento às áreas da psicologia da. O orador principal será o Prof. Doutor Nicholas Cook, da Universidade de Londres - Royal Holloway. A organização do PERFORMA convida à apresentação de comunicações (em português ou inglês) dentro dos seguintes formatos: artigo detalhado (20 minutos), estudo de caso (10 minutos), conferência-recital (45 minutos). As propostas deverão ser enviadas em forma de resumo de 250 palavras no máximo (as propostas para conferência-recital deverão também incluir um breve currículo artístico).

As propostas devem ser enviadas por correio electrónico para performa@ca.ua.pt até 28 de Fevereiro; a aceitação das mesmas será confirmada até 15 de Março. Pedidos de informação poderão também ser dirigidos para o mesmo endereço.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Everyday, de Noah Kalina

Durante cerca de seis anos e meio (11 Janeiro 2000 - 31 Julho 2006) o norte-americano Noah Kalina acumulou um retrato diário a que deu o nome de Everyday. De frente para a máquina fotográfica, de lábios cerrados e olhos abertos, este work in progress mostra a passagem do tempo neste nova iorquino de 26 anos. Ele explica no site que gosta do controlo a que se obriga para fazer este trabalho. No You Tube mostra-se esse trabalho.



via Choose a Royal

domingo, janeiro 14, 2007

Mathilde Monnier em conversa e documentário

O canal francês Mezzo, disponível através da TV Cabo, passa hoje, a partir das 19h45, uma conversa com a coreógrafa francesa Mathilde Monnier, seguindo-se o documentário Bruit Blanc, co-realizado por Valérie Urréa.

Realizado em 1988, Bruit Blanc segue a relação entre a coreógrafa e Marie-France, uma rapariga autista internada no hospital de La Colombière, em Montpellier, mostrando uma relação "evocada pelo enquadramento médico, e para lá da palavra, numa linguagem própria que passa essencialmente pelo corpo: uma descoberta fascinante que desvenda inúmeros caminhos esquecidos".

O excerto que abaixo se reproduz faz parte de uma entrevista disponível na edição online do jornal L'Humanité onde, entre outros assuntos, Mathilde Monnier fala do filme.

«Vous êtes socialement impliquée dans vos pièces. Dans le film Bruit blanc, dans une création comme l’Atelier en pièces, vous vous êtes confrontée au problème de l’autisme. Pouvez-vous nous en parler ?

Cette expérience a été libératrice pour moi. C’était un jardin secret, une recherche personnelle séparée du centre, de la compagnie, qui a eu une forte résonance intérieure. J’ai été face à d’autres incidences de la danse, à des choses aussi artistiques. Cela a fonctionné comme une matière de travail, laquelle a nourri ma connaissance du mouvement. Trop souvent, me semble-t-il, l’art se déconnecte de la vie. Je ne dis pas qu’il faut à tout prix aller dans toutes les banlieues. Mais il s’agit de trouver des ponts cohérents. Les questionnements doivent amener à construire des liens sinon la création reste vide. Le travail artistique a un sens, me semble-t-il, lorsqu’il se frotte à des problématiques en prise directe avec les gens. Même si on peut s’en éloigner dans le processus créatif. Quand je suis à l’hôpital, c’est artistique et dans la danse je fais aussi du social... Les danseurs, vous savez, il faut parfois les prendre avec des pincettes. Ils ne sont pas de la matière inerte, encore moins des objets !»


Um bom ponto de partida para conhecer melhor o trabalho da directora do Centro Coreográfico de Montpellier Languedoc, que a 28 de Janeiro se apresenta no Teatro Camões com a peça 2008 Vallée.

sábado, janeiro 13, 2007

Patrice Chéreau em entrevista


O coreógrafo alemão Raimund Hoghe desloca-se este fim de semana no Porto para uma série de encontros integrados na programação que o Auditório de Serralves programou em complemento à exposição Anos 80, que até 27 de Março se mostra no Museu. Hoje, às 22h00, Hoghe apresenta Lecture Performance, que parte do texto Atirar o corpo para a luta, de Pasolini. E amanhã comenta o filme L'Homme Blessé, (na foto) do francês Patrice Cheréau, obra marcante sobre a dependência amorosa em tempos de sida.

Por uma coincidência temporal, o site do Teatro Nacional de São Carlos, disponibiliza uma entrevista inédita de Augusto M. Seabra ao realizador do filme, realizada em Outubro, altura em que Chéreau veio a Lisboa ler, exactamente no S. Carlos, A Lenda do Grande Inquisidor, um excerto da obra Os Irmãos Karamazov, de Dostoievsky. A entrevista percorre os quarenta anos da carreira deste realizador, encenador de teatro e ópera e raro actor, cruzando referências, métodos de trabalho, processos criativos e recepções. O excerto que a seguir se transcreve, com autorização do autor, refere-se precisamente ao filme L'Homme Blessé.


Os seus três filmes que mais me tocam, L'Homme blessé, Intimidade e Son Frère, são todos digamos que «filmes de câmara», muito próximos, nalguns momentos mesmo extremamente próximos dos actores, dos corpos, das faces. Não posso deixar de ter presentes a face estupefacta e indagadora de Jean-Hugues Anglade em L'Homme blessé ou as cenas de sexo em Intimidade. Será a câmara um modo de desvendar?

- Certamente. Parece-me que com frequência a câmara mergulha numa face, num olhar, entra por portas fechadas. Não se desvenda tudo, se os actores são bons há um mistério que resta. Foi o que senti em Intimidade: eles dois estavam nus e ao mesmo tempo o segredo dos actores, o segredo das almas, estava intacto. Desvenda-se, mas há um segredo ainda um pouco mais além; mas é belo tentar desvendar o que há por detrás de um olhar, de corpo, de uma presença, e de lhes ser receptivo, de ser receptivo aos seres.

- Ser-se impúdico, é uma questão que se pode colocar a certo momento?

- É preciso ser-se impúdico! Sou uma pessoa muito pudica, mas não tanto no que conto. A próxima etapa é um filme que estou a tentar escrever - e a tentar algo que nunca fiz, escrever de modo quase directamente autobiográfico. «Estou» em todos os meus filmes, mas não de modo claro, e neste tento «estar» claramente.

- Creio que a questão também se lhe pode colocar pelo laços particulares que manteve com Bernard-Marie Koltès e Hervé Guibert, ambos já falecidos, e ambos por problemas originadas pela Sida. E com Guibert a questão do «impudor» pôs-se mesmo em termos radicalmente novos, no modo como se expôs na doença, filmando-se e dando-se a ver até praticamente à morte, em La Pudeur ou l'impudeur.

- Enquanto Koltès, antes pelo contrário, foi muito reservado. O modo como Hervé se expôs foi muito belo. Ele sempre foi o tema central dos seus livros.


- Em parte sim - no caso era ele e eu [L'Homme blessé, de 1983, que o realizador considera como sendo de facto «o seu primeiro filme», tem argumento de ambos, Patrice Chéreau e Hervé Guibert]. Com Hervé houve uma conjunção muito bizarra: ele sempre se interessou pela decomposição do corpo, pela degradação, pelas doenças e a destruição do corpo - e ficou ele doente. O que sucedeu foi que tendo sido atingido pela doença, tinha os instrumentos literários para falar dela, e para se tornar ainda mais na sua própria matéria de estudo, porque bruscamente essa degradação do corpo que o obcecava tornara-se a sua. Ele não se esquivou, a doença tornou-se o prisma com que passou a olhar a vida, e foi nesse momento que escreveu os seus mais belos textos.

- Mas ele não escreveu apenas À l'ami qui ne m'a pas sauvé la vie, ou O Protocolo Compassional, ou mesmo o Diário de uma hospitalização; já fazia fotografias, ainda mais se auto-retratou, e inclusive fez esse filme, La Pudeur ou l'impudeur, com a exposição do seu processo de degradação.

- É um filme estranho, mas ele sempre tinha querido fazer um filme. Depois de L'Homme blessé escreveu um argumento para Isabelle Adjani que queria ele próprio dirigir. Havia nele desde sempre um desejo de cinema, e portanto pegou numa câmara quando estava prestes a morrer e foi esse o seu filme.


A entrevista pode ser lida, na íntegra, no link Augusto M. Seabra entrevista Patrice Chéreau, disponível no site do TNSC. Links e selecção deste post da responsabilidade do blog.

sexta-feira, janeiro 12, 2007

sugestões

Racine em dose dupla em Almada e Lisboa
Roland Topor na Guarda.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Brevemente

OBSCENA é uma revista independente dedicada às artes performativas, de periodicidade mensal e em formato pdf. Tem por objectivo reflectir, analisar, criticar e informar sobre o que se vai fazendo em Portugal e no estrangeiro a partir de desafios que lança a críticos, investigadores, programadores e criadores. A revista quer contribuir para a promoção do diálogo e da discussão sobre as várias disciplinas artísticas através de textos que também reflictam acerca do contexto onde estas se inserem.


A subscrição da mailling list pode ser feita através do e-mail obscena@revistaobscena.com, bastando escrever-se SUBSCRIBE no assunto.

Jovens críticos de teatro de 13 países reunêm-se em newsletter internacional


O último congresso organizado pela Associação Internacional de Críticos de Teatro decorreu em Seul, na Coreia do Sul, no passado mês de Outubro 06. O objectivo era comemorar os 50 anos da AICT e preparar os próximos cinquenta. Para isso, e para além de papers vindos de vários pontos do mundo que reflectiram sobre Nova Crítica e Teatralidade, foram convidados alguns jovens críticos que tivessem já estado presentes em seminários anteriores.

Vindos da Escócia, Irão, Estados Unidos, Suécia, Taiwan, Japão, Coreia do Sul, Roménia, Quebéc, Índia, Canadá, Rússia e Portugal (eu próprio), os críticos apresentaram ao Congresso várias propostas no domínio da ética, pluralidade, qualidade e género, reflectindo a partir das suas próprias experiências e esperando que, futuramente, essas considerações possam ser tomadas em conta, tanto pela IACT como pelas delegações nacionais. Essa "carta aberta" pode agora ser lida na 1ª newsletter criada por este conjunto de críticos, disponível no site especialmente criado para o efeito. O texto acompanha ainda breves críticas que dão conta de escolhas feitas a partir de espectáculos que os críticos viram, ampliando internacionalmente uma noção de rede discursiva informal.

No primeiro número, dedicado a Dezembro 06/Janeiro 07, escreve-se sobre Howard Barker na Escócia, Romeo Castelluci em Paris, um projecto de 365 peças da mesma autora que se apresentam em 700 teatros nos EUA simultaneamente e uma peça taiwanesa que mistura ópera, pop e história nacional. Mas também da Geórgia, ex-região da URSS, vista por um grupo de performers russos, de Rodrigo Garcia em Bucareste, da adaptação teatral em Nova York da primeira peça da Prémio Nobel Toni Morrison e de um festival no interior da Índia. A lista de colaborações termina com a crítica a uma peça sueca que retrabalha o género, e ainda o fetichismo de Marie Brassard mostrado na província de Ottawa, no Canadá.

Uma volta ao mundo (teatral) que se espera ampliada e, na medida do possível, mensal, através de textos que levantam questões, marcas posições e tentam encontrar o lugar do crítico no vasto universo performativo internacional.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Ler os outros

Call yourself a critic? - uma reflexão sobre os efeitos dos comentários dos leitores às críticas colocadas no blog dos colaboradores do The Guardian;

The greatest story ever told - o dramaturgo inglês Mark Ravenhill questiona o fim das grandes peças religiosas;

Rests in pieces - um elucidativo ensaio que lança o debates sobre a ontologia da performance e as suas implicações na noção de arquivo no mundo da dança (em francês);

La danse, le corps, l’inconscient - o filósofo José Gil reflecte as relações entre movimento e consciência (em francês);

«Electre» est Jane B. - no Libération fala-se de Electra, a peça interpretada por Jane Birkin que já foi criticada neste blog.

Um intelectual contra o império - o escritor Gore Vidal dá uma entrevista ao jornal brasileiro Estado de São Paulo a propósito do seu 2º volume biográfico Point to Point Navigation;


Nota: ainda há alguns bilhetes para as ante-estreias do filme BODY RICE, dia 09 em Lisboa e dia 10 no Porto. Ver como consegui-lo aqui.

sábado, janeiro 06, 2007

Oferta de bilhetes para ante-estreias do filme Body Rice


Como já se tinha anunciado aqui, o blog O Melhor Anjo e a revista OBSCENA são parceiros da estreia do filme Body Rice (na foto), do realizador português Hugo Vieira da Silva, que decorrerá na próxima 5ª feira, 11 de Janeiro.

O Melhor Anjo está a oferecer convites duplos para as duas ante-estreias, em Lisboa e no Porto . Assim, os primeiros cinco leitores da zona de Lisboa, que depois da meia-noite de hoje (sábado para domingo) enviem um e-mail para o blog (o_melhor_anjo_@aeiou.pt) receberão um convite duplo para a ante-estreia que se realizará no cinema King, dia 09 (terça-feira), às 21h15.

Na noite de amanhã (domingo para segunda), é a vez dos leitores da zona do Porto, que receberão também cinco convites para a ante-estreia nessa cidade, dia 10 de Janeiro, às 21h45 no Cinema Cidade do Porto.

A ante-estreia em Lisboa é seguida por uma festa de lançamento na Galeria Graça Brandão (Rua dos Caetanos, 26 - Bairro Alto - Lisboa), com as presenças de DJ Dinis e oVJ Edgar Massul. A entrada para a festa é livre.

Ver aqui site do filme com fotos e trailer.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

Augusto M. Seabra escreve sobre as recentes mudanças na direcção dos teatros em França


A propósito das recentes nomeações que o ministro da cultura francês, em fim de mandato e como manda a tradição, fez para os teatros nacionais e casas de ópera, Augusto M. Seabra, na coluna semanal que mantém no site da Culturgest, Derivas, reflecte sobre esse modelo hierárquico institucional e o "paradigma do príncipe". A dada altura, e numa leitura que não é dispicienda de deslocação para a realidade portuguesa - refiro-me à tentativa de fusão do Teatro Nacional de São Carlos com a Companhia Nacional de Bailado, mas naturalmente outros casos mais mediáticos também servem de exemplo -, Seabra escreve:

«Como se deduz do exemplo da nomeação de Nicolas Joël com quase três anos de antecedência, a responsabilidade da tutela, no âmbito da sua própria legitimidade política, é ainda assim a de intervir tendo em conta que o regular funcionamento das instituições culturais públicas não deve ser afectado por decisões directamente da esfera do político, e que essas decisões se tomam dentro de quadros estatutários e legais e tempos ditados pela própria complexidade das matérias do espectáculo. Salvo em situações absolutamente excepcionais, que em princípio são de um modo ou de outro a de crise declarada na própria instituição, a nenhum governante da cultura responsável, e que responsavelmente esteja ciente do que é a esfera de competências e decisões e os limites da arbitrariedade no exercício do seu legítimo poder de governação, a nenhum governante da cultura responsável deverá ocorrer, supõe-se, precipitar alterações na estrutura e nos quadros directivos de equipamentos públicos como teatros nacionais de ópera ou congéneres, sob pena de perturbar o fundamental, que é a própria prestação de uma possibilidade de serviço público, de serviço ao(s) público(s). »

Instituto das Artes fixa montantes para Apoios Pontuais


Já foram anunciados no site do Instituto das Artes os valores totais, bem como o número de propostas a apoiar nas diversas áreas contempladas, para projectos pontuais em 2007. O concurso, para o qual se prevê abertura no fim de Janeiro, considera 2.050.000 euros para um total de 140 projectos divididos em sete áreas: arquitectura, artes plásticas incluindo fotografia, design, música, dança, teatro e transdisciplinares. Cada projecto não poderá ser apoiado em mais de 30 mil euros. Os valores para cada área, número de projectos por delegação regional e composição do respectivo júri nacional também já estão disponíveis no site do IA.

O mesmo anúncio indica que foram fixados valores e regras para o Apoio Complementar na área do reequipamento, o Acordo Tripartido (Entidades de criação ou de programação, Autarquias e Ministério da Cultura) e Renegociação para reforço de apoio a festivais.

Entretanto, sobre as novas regras de financiamento, o crítico de teatro do Diário de Notícias, Miguel-Pedro Quadrio, escreveu um elucidativo texto na passada terça-feira que pode ser lido aqui.

terça-feira, janeiro 02, 2007

BODY RICE estreia com o apoio d'O Melhor Anjo e da revista OBSCENA


O ano começa com a estreia de um filme de Hugo Vieira da Silva, ao qual o blog e a revista OBSCENA se associam. Body Rice, com estreia marcada para o próximo dia 11 de Janeiro, recebeu a Menção Especial do Júri no último Festival de Locarno, estando seleccionado para festivais em Roterdão e Bangcoque, México, Las Palmas e Hong-Kong.

O realizador Alberto Seixas Santos escreve no dossier de imprensa que Body Rice «é a invenção de uma distância. Para ser mais rigoroso e mais cinematográfico a descoberta de um ponto de vista. Frio, desapaixonado,atento. O olhar de um cientista social ou melhor o de um entomologista. Esses adolescentes alemães problemáticos, integrados num suposto projecto de reinserção social no Alentejo, metem literalmente medo. Opacos, à deriva, manifestam curtos momentos de energia quando a musica pop irrompe para logo caírem numa apatia profunda reagindo apenas a vagos tropismos sem destinatário visível. São sonâmbulos perdidos num Alentejo de cascalho, muito longe da imagem folclórica das longas planícies de trigo verde que se tornou um cliché nacional. Nenhum desejo, nenhuma revolta os anima. Se este filme queima é à maneira do gelo, para repegar numa afirmação de Baudelaire a propósito de As ligações perigosas de Laclos.»

O Melhor Anjo oferecerá bilhetes duplos para as ante-estreias em Lisboa (09) e no Porto (10) e a revista OBSCENA publicará um artigo sobre o filme com depoimentos do realizador. Mais informações no fim de semana.

Ver o site do filme com fotos e trailer.

Brevemente

OBSCENA é uma revista dedicada às artes performativas de periodicidade mensal e em formato pdf. Tem por objectivo reflectir, analisar, criticar e informar sobre o que se vai fazendo em Portugal e no estrangeiro, a partir de textos implicados, com assinatura e que abram perspectivas para a relação entre criação e recepção. No conjunto dos seus colaboradores encontram-se críticos, investigadores, programadores e criadores cujo discurso importa ter em conta. É, sobretudo, um projecto editorial independente que não se escusará a questionar o contexto cultural. Porque, invariavelmente, faz parte dele. O primeiro número estará disponível brevemente no site.

Visite-o e faça parte da mailling list enviando-nos um e-mail para obscena@revistaobscena.com com SUBSCRIBE no assunto. A revista é gratuita.

Crítica de dança: Lago dos Cisnes, Companhia Nacional de Bailado



Lago dos Cisnes
pela Companhia Nacional de Bailado
Coreografia de Mehmet Balkan segundo Marius Petipa
Cenário e Figurinos de António Lagarto
Música de Tchaikovsky interpretada pela Orquestra Filarmonia das Beiras
Direcção Musical de James Tuggle
Teatro Camões, Lisboa
21 Dezembro 2006, 21h00
Sala cheia

A peça apresenta-se até entre 04 e 07 de Janeiro em Lisboa, seguindo-se digressão nacional.


A segurança da tradição



Não deve haver bailado mais conhecido que o «Lago dos Cisnes», peça fixada, depois de muitas versões, em 1877 e desde então imagem de marca de um ideal balético. A música de Tchaikovsky, a lenta morte do cisne negro, os trinta e dois fouettés de Odile, o confronto entre o mundo encantado mas prisioneiro dos desígnios do conde de Rothbart e a alegria burguesa do palácio, foram elementos-chave para a perpetuação desta história de princesas enfeitiçadas, vilões mefistofélicos e corajosos guerreiros. Um clássico, se calhar ingénuo, mas nem por isso menos eficaz. Isso mesmo provam as sucessivas revisitações que deram ao bailado uma dimensão mítica.

No livro «Que mais podemos fazer senão dançar?», editado pela Companhia Nacional de Bailado (CNB) em 1998, há uma fotografia da entretanto célebre versão de 1986 assinada pelo director da altura, Armando Jorge, com cenários de Cruzeiro Seixas e figurinos de Da Silva Nunes. Nessa fotografia, na qual os bailarinos Cristina Maciel e Pedro Romeiras aparecem num dos vários pas-de-deux da peça, desenha-se a imagem perfeita do que representa esta peça clássica. A pose segura, o olhar distante, a delicadeza do movimento, a segurança e a cumplicidade que transmitem são o exemplo para compreender porque é que «Lago dos Cisnes» não é só mais um bailado, mas antes um poderoso tratado sobre o lugar do intérprete no interior de uma estrutura formal (veja-se, por exemplo, o difícil desenho dos cisnes nas cenas da floresta). Mais ainda quando, precisamente porque desde sempre se reconheceram desequilíbrios na estrutura coreográfica, uma vez que a versão perpetuada reúne sequências de Marius Petipa e do seu assistente Lev Ivanov, é dada margem aos coreógrafos para a redimensionarem de acordo com o público para o qual se dirigem. Mas foram precisos vinte anos, e nas vésperas do seu 30º aniversário, para que a CNB voltasse a apresentar «Lago dos Cisnes». Desta vez em coreografia assinada, novamente, pelo seu director artístico Mehmet Balkan, com liberdades menos consensuais, e cenários e figurinos de António Lagarto.

Praticamente todas as leituras feitas a partir da coreografia de Petipa/Ivanov sublinham que a peça existe através das figuras femininas, e sobretudo na complexa metamorfose entre Odette e Odile. Razão pela qual os papéis masculinos lhes servem de suporte e pouca densidade, se alguma, têm. Por isso mesmo, exercícios freudianos como o de Mats Ek (1987), onde os cisnes estão de cabeça rapada e são sexualmente ambíguos, ou o de Matthew Bourne (1995), no qual as delicadas princesas são substituídas por agressivos e tribais bailarinos, ou ainda a decomposição obsessiva proposta por Raimund Hoghe (2005), mais não fazem do que simular estratégias de abordagem ao universo feminino. Se este três casos citados são radicais na sua percepção, quer do corpo, quer do pensamento e equilíbrio homem/mulher, não deixam, ainda assim, de colocar sérias questões sobre o modo como se pode ser inocente na apreensão de uma história banal.

O maior problema da versão apresentada por Mehmet Balkan está, precisamente, em alguma ligeireza com que aborda a peça. Estendendo-se nas sequências no interior do palácio, sendo descritivo e por vezes mesmo banalmente ilustrativo nos movimentos, mas sobretudo dando um final feliz onde ele não existe (a morte de Rothbart é, nesta versão, suficiente para libertar os cisnes do feitiço e juntar o par amoroso), o coreógrafo cede ao enquadramento natalício, prejudicando o lado dramático sugerido pelo música e pela própria complexidade coreográfica. O problema não está nesta solução, mas antes em ela não se sustentar dramaturgicamente, não só porque o facto de Odette e Siegfried não ficarem juntos ter sido um rasgo na tradição clássica que merece ser considerado, mas também porque Balkan não imprime a força que a partitura pede, com excepção da cena da morte de Rothbart onde as águas do lago são reproduzidas por um imenso lençol que cobre o palco e a movimentação célere dos cisnes é hipnotizante. Para além disso, parece esquecer o que é dado pelos próprios cenários e figurinos desenhados por António Lagarto, que carregam o dramatismo que deveria ser dado pela coreografia. Os espelhos cónicos que prolongam o interior do palácio e se transformam em arbustos remetem para a «Bela e o Monstro» de Jean Cocteau, enquanto os módulos que delicadamente se substituem cambiando as tonalidades de acordo com o pathos trágico da coreografia lembram Klimt. E os figurinos, com particular destaque para a mozartiana e maçónica capa púrpura de Rothbart, os vestidos das princesas, que respondem aos sargaços do lago onde estão retidas, bem como a enorme lua prateada que ilumina o cenário, são exemplos de uma combinação adequada e discreta, num cenógrafo que gosta de carregar a mão na cor, nas formas oblíquas e na combinação de géneros. Nota menos feliz para o desenho de luz, de Vitor José, pálido e generalizado quando podia ser mais estruturado e presente.

Não obstante, a versão de Balkan é suficientemente elegante para proporcionar uma noite de bailado como há muito tempo a CNB não apresentava. A isso deve-se um corpo de baile de uma coerência rara, atendendo sobretudo às diferenças de tamanho, de postura, de idade e de experiência que existem entre as bailarinas. Se é verdade que há algumas que pareciam correr em vez de dançar nas longas sequências passadas na floresta, não é menos verdade que a visão de conjunto oferecida pelas intérpretes muito deve a uma segurança que não se reconhecia em Mehmet Balkan, a atender a obras de grande porte, como «D. Quixote», apresentado há um ano atrás e à própria leitura que faz da obra. Da mesma forma, importa realçar o trabalho exemplar dos cisnes pequenos (na noite da estreia interpretados por Filipa de Castro, Alba Tapia, Irina de Oliveira e Anabel Segura) que no pas-de-quatre do primeiro acto se sustêm seguras na execução de uma das mais complexas cenas de toda a peça.

Este é, como se disse, um bailado com e para papéis femininos, razão pela qual o lugar atribuído aos homens é pouco ou quase nada relevante. À parte do bobo (interpretado por um efusivo Carlos Lábios na primeira noite) praticamente não existem figuras masculinas. As excepções do Conde de Rothbart, o vilão (um Rui Alexandre mais “pesado” do que o habitual e algo perdido no espaço e no imenso figurino) e de Siegfried, o herói, interpretado por Carlos Acosta, existem para dar suporte à bailarina principal. Por isso importa pensar nas escolhas que se fazem. Precisamente Acosta, a estrela cubana que a CNB tem acolhido nos seus últimos programas, acusou alguns maneirismos de primeira figura que mereciam ter sido controlados pelo coreógrafo, e que deixaram Ana Lacerda, no difícil papel de Odette, a braços com a árdua tarefa de fazer passar a cumplicidade que deve existir entre os protagonistas. Tarefa que garante com a solidez habitual, e sem pudor em revelar a emoção de interpretar senão “o” papel, certamente “um dos” papéis mais relevantes da carreira de uma primeira bailarina.

Em resumo, este «Lago dos Cisnes» cumpre, sem máculas trágicas, aquilo que se espera de companhia de repertório, garante de uma tradição que force a um olhar com a contemporaneidade. Saiba a CNB estar à altura dos desafios e conceba a recusa de alguns facilitismos e certamente encontrará, na plateia, o cruzamento de públicos que lhe assiste.


fotografia de Alceu Bett
Ler outras críticas e textos publicados sobre a CNB aqui.