domingo, junho 11, 2006

Recensão: Corpo de Cordas, de Claudia Galhós

O reescrever (fatídico) da memória


Da autoria da jornalista Claudia Galhós, Corpo de Cordas é a vontade de partir de uma biografia (pública, devo acrescentar) para em vez de documentar, “reescrever a história que será determinante para o futuro”, segundo o coreógrafo Paulo Ribeiro (PR) no texto que introduzia o último espectáculo, Memórias de um sábado com rumores de azul, estreado em Setembro passado.

Essa posição nunca é referida e implica uma parcialidade e sentido de narração/descrição que contradiz o pressuposto de uma biografia. Esta é a história que (lhes) interessa. Logo, não é a história toda. Estamos perante um livro de memórias feito por dentro e, segundo parece, pouco interessado em perceber como é que dez anos de uma companhia criada por um dos nomes mais relevantes da história recente da dança portuguesa se inscreveram nessa história. Ao longo do livro enfrentamos, não obstante o interesse do que PR diz, um diálogo fechado entre memória deste, e de alguns – muito poucos – intervenientes, e o olhar da jornalista, no lugar evidente de cúmplice.

O livro pretendia concentrar-se entre 1995 e 1998 – o início da companhia e a instalação no Teatro Viriato em Viseu, onde reside -, mas a barreira temporal estendeu-se a toda a vida de PR, incluindo o fim do Ballet Gulbenkian (BG), no verão passado, do qual foi o director artístico a partir de 2004. Razão pela qual é mais honesto dizer que se trata de uma biografia do coreógrafo que da companhia, que a própria jornalista escreveu trazer “alguma esperança para o futuro da dança moderna nacional” (jornal Blitz, 06/06/95).

Este olhar exterior sobre a Companhia Paulo Ribeiro (CPR) seria um ponto de partida interessante se o livro reflectisse acerca das companhias de autor em Portugal, estatuto óbvio na de PR. Mas não o faz, preferindo concentrar-se na posição deste em relação a si próprio sem que isso represente uma reflexão sobre as contaminações entre vida e criação. Os capítulos dedicados à infância e adolescência de Paulo Ribeiro e Leonor Keil (mulher do coreógrafo e bailarina da CPR) são confrangedores porque aparecem deslocados do discurso criativo. O livro é por isso uma metáfora para esse corpo de cordas que é o do próprio coreógrafo, “enérgico, quase nervoso” (p. 92) que “partiu de um jeito meio desajeitado de expressar movimento para construir uma harmonia muito particular” (p. 44).

Para perceber de que particular se fala, seria necessário um confronto entre o trabalho apresentado por PR e outros criadores, alguns deles tendo mesmo colaborado com o coreógrafo, como Clara Andermatt em Dançar Cabo Verde (1994), espectáculo seminal para a compreensão de todo um discurso de ruptura que a geração da nova dança portuguesa representou, e ao qual Galhós dedica duas breves páginas, sem qualquer apreciação estética. É essa ausência de discurso aberto, que servisse de ponte entre a memória do coreógrafo e as hiper-abundantes citações que mais impressiona neste livro, de alguém que por vezes também assina enquanto crítica.

Há outras fragilidades: uma divisão em capítulos desatenta, com temas que se repetem (pedagogia, processo criativo/autoria, Viseu) obrigando ao vasculhar do livro para apreensão do pretendido; citações que são meras descrições simples e “oficiais” dos espectáculos, digressões ou contextos sem qualquer pertinência que poderiam ser notas de rodapé; temas fundamentais, como a criação, reduzidos a uma ou duas páginas; falta de datação de algumas das fotografias (e outras espalhadas sem grande rigor), gralhas, sequências repetidas ou textos citados que são divididos e surgem por diversas vezes, procurando fundamentar a memória do criador. Neste limitar da história perdem-se contributos e relações que enriqueceriam o livro, optando-se por alinhavar a recepção crítica (e só a positiva) dos espectáculos, sem que dela se tirem ilações ou a elas se regresse num diálogo com quem os fez.

Há cruzamentos que fariam sentido salientar-se, não só permitindo a contextualização da relação entre a CPR e outros criadores, como entre as peças. Por exemplo os diálogos evidentes entre Dançar Cabo Verde (1994) e Ao Vivo (1999), onde PR trabalhou a relação entre música e corpo num equilíbrio quase perfeito, ou os pontos de contacto das quatro primeiras peças que justificaram a última estreia. Ou as peças, remontagens e co-criações, que criou para o BG (num arco de quinze anos que atravessou diversas fases estéticas e programáticas da companhia) que se perdem numa leitura enviesada pela carta aberta que o próprio assina no final do livro enquanto visão e olhar pessoal sobre o fim do Ballet Gulbenkian. Se este documento será sempre pertinente (ainda que por demais revanchista), pergunto-me que sentido fará num livro que nunca estabelece linhas entre os trabalhos da companhia e os de Paulo Ribeiro no Ballet Gulbenkian, ou mesmo sobre os espectáculos que foram transferidos de uma companhia para outra, como Comédia Off (BG, 1996, refeito para a CPR em 2000).

Posto isto, é um livro irrelevante? De todo. É que a falta de contributos para a fixação de uma memória (para mais performática, logo efémera) eleva objectos como este a um estatuto de imprescindíveis. Pena é que nem a autora, nem o coreógrafo ou mesmo a editora tenham pensado que uma revisitação não é só “lá para casa”.

Título: Corpo de Cordas - 10 anos da Companhia Paulo Ribeiro
Autor: Claudia Galhós
Edição: Assírio & Alvim
Preço: 24€

[texto publicado ontem no suplemento Mil Folhas do jornal PÚBLICO]

4 comentários:

Anónimo disse...

Foi com satisfação que recebi a notícia da edição do livro Corpo de Cordas. Sendo jornalista e apaixonada pela área da dança contenporânea, e em especial a portuguesa, senti este lançamento editorial como uma nova fase da vida da coreografia contemporânea portuguesa pois, até agora, nenhuma editora se tinha interessado pelo tema, apesar de vários projectos literários que existem nesta mesma área. Fiquei contente com a perspectiva de se poder vir a iniciar uma colecção de biografias dos coreógrafos portugueses que, ao fim de mais de 10 anos de história contemporânea, merecem ser conhecidos pelo público (aficcionado ou não).

Comecei depois a ler o livro. E aquilo que o autor do texto do Mil Folhas apresenta como negativo eu reinterpretei sempre de uma forma positiva. Pode ter-se dado o caso de eu mesma querer que Paulo Ribeiro ficasse bem na fotografia, é certo, mas de facto aprendi nesse livro aspectos importantes sobre a personalidade do coreógrafo que me permitem entender melhor o seu trabalho.
Penso que a Cláudia Galhós teve a grande dificuldade em lidar com uma personalidade enérgica, que gera dezenas de ideias por minuto e que se organiza mentalmente no caos - que, depois, lhe serve de ponto de partida para a criação coreográfica. Daí, a meu ver, os recuos cronológicos constantes.
Por ser um livro biográfico, claro que mistura informação pessoal com dados profissionais. Paulo Ribeiro é, do princípio ao fim, a estrela do livro, como é óbvio. Daí não ter sentido a falta da anãlise mais aprofundada de certos aspectos (como a questão das companhias de autor, o trabalho das companhias com um elenco nómada, projectos pedagógicos ligados à dança que, por um lado, solucionam carências financeiras mas também estimulam verdadeiramente novos públicos...), nem sequer de mais referências sobre a sua vida privada.

Mas lançam-se sem dúvida muitas pistas para outros livros, de análise sócio-cultural, cujo conteúdo deveria interessar mais as editoras e o público leitor. Para que a dança contemporânea portuguesa deixe de ser a área pobre das artes performáticas portugesas.

Cláudia Almeida

Anónimo disse...

Foi com satisfação que recebi a notícia da edição do livro Corpo de Cordas. Sendo jornalista e apaixonada pela área da dança contenporânea, e em especial a portuguesa, senti este lançamento editorial como uma nova fase da vida da coreografia contemporânea portuguesa pois, até agora, nenhuma editora se tinha interessado pelo tema, apesar de vários projectos literários que existem nesta mesma área. Fiquei contente com a perspectiva de se poder vir a iniciar uma colecção de biografias dos coreógrafos portugueses que, ao fim de mais de 10 anos de história contemporânea, merecem ser conhecidos pelo público (aficcionado ou não).

Comecei depois a ler o livro. E aquilo que o autor do texto do Mil Folhas apresenta como negativo eu reinterpretei sempre de uma forma positiva. Pode ter-se dado o caso de eu mesma querer que Paulo Ribeiro ficasse bem na fotografia, é certo, mas de facto aprendi nesse livro aspectos importantes sobre a personalidade do coreógrafo que me permitem entender melhor o seu trabalho.
Penso que a Cláudia Galhós teve a grande dificuldade em lidar com uma personalidade enérgica, que gera dezenas de ideias por minuto e que se organiza mentalmente no caos - que, depois, lhe serve de ponto de partida para a criação coreográfica. Daí, a meu ver, os recuos cronológicos constantes.
Por ser um livro biográfico, claro que mistura informação pessoal com dados profissionais. Paulo Ribeiro é, do princípio ao fim, a estrela do livro, como é óbvio. Daí não ter sentido a falta da anãlise mais aprofundada de certos aspectos (como a questão das companhias de autor, o trabalho das companhias com um elenco nómada, projectos pedagógicos ligados à dança que, por um lado, solucionam carências financeiras mas também estimulam verdadeiramente novos públicos...), nem sequer de mais referências sobre a sua vida privada.

Mas lançam-se sem dúvida muitas pistas para outros livros, de análise sócio-cultural, cujo conteúdo deveria interessar mais as editoras e o público leitor. Para que a dança contemporânea portuguesa deixe de ser a área pobre das artes performáticas portugesas.

Cláudia Almeida

Anónimo disse...

Foi com satisfação que recebi a notícia da edição do livro Corpo de Cordas. Sendo jornalista e apaixonada pela área da dança contenporânea, e em especial a portuguesa, senti este lançamento editorial como uma nova fase da vida da coreografia contemporânea portuguesa pois, até agora, nenhuma editora se tinha interessado pelo tema, apesar de vários projectos literários que existem nesta mesma área. Fiquei contente com a perspectiva de se poder vir a iniciar uma colecção de biografias dos coreógrafos portugueses que, ao fim de mais de 10 anos de história contemporânea, merecem ser conhecidos pelo público (aficcionado ou não).

Comecei depois a ler o livro. E aquilo que o autor do texto do Mil Folhas apresenta como negativo eu reinterpretei sempre de uma forma positiva. Pode ter-se dado o caso de eu mesma querer que Paulo Ribeiro ficasse bem na fotografia, é certo, mas de facto aprendi nesse livro aspectos importantes sobre a personalidade do coreógrafo que me permitem entender melhor o seu trabalho.
Penso que a Cláudia Galhós teve a grande dificuldade em lidar com uma personalidade enérgica, que gera dezenas de ideias por minuto e que se organiza mentalmente no caos - que, depois, lhe serve de ponto de partida para a criação coreográfica. Daí, a meu ver, os recuos cronológicos constantes.
Por ser um livro biográfico, claro que mistura informação pessoal com dados profissionais. Paulo Ribeiro é, do princípio ao fim, a estrela do livro, como é óbvio. Daí não ter sentido a falta da anãlise mais aprofundada de certos aspectos (como a questão das companhias de autor, o trabalho das companhias com um elenco nómada, projectos pedagógicos ligados à dança que, por um lado, solucionam carências financeiras mas também estimulam verdadeiramente novos públicos...), nem sequer de mais referências sobre a sua vida privada.

Mas lançam-se sem dúvida muitas pistas para outros livros, de análise sócio-cultural, cujo conteúdo deveria interessar mais as editoras e o público leitor. Para que a dança contemporânea portuguesa deixe de ser a área pobre das artes performáticas portugesas.

Cláudia Almeida

Anónimo disse...

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