sexta-feira, setembro 02, 2005

Generosidades Preliminares

Faça-se o exercício de abrir um qualquer jornal ou correr o risco de trazer do escaparate uma agenda de um espaço cultural. E depois percorra-se com os olhos as folhas de informações, notas, recomendações, destaques, avisos e prenúncios. Portugal fervilha de acontecimentos culturais. O que sugere um pertinente confronto entre oferta cultural e situação cultural. Chamam-lhe reentré. Eventos que constroem um tecido cultural rico e diverso, onde se cruzam novas tendências com memórias, modelos formais e outros por classificar, exemplos de resistência e esperanças de continuação. A ser assim é possível acreditar que em Portugal a cultura ocupa lugar. Sabe-se lá a que custo.

O orçamento para o Ministério da Cultura não chegou ao 1% (mas chegará?), os subsídios de 2005 no norte do país aguardam decisão judicial, os concursos de apoio público para 2005 abrem em 2006 (se houver orçamento), Faro 2005 teme a hipótese de anulação do resto das apresentações, a Gulbenkian acaba com o Ballet, a PT retira o apoio ao TNDMII, o Maria Matos - Teatro Municipal vêm adiando sucessivamente a data de inauguração depois do fecho para obras no fim do verão passado, os espaços da rede de cine-teatros abrem sem equipamentos, as revistas culturais estão condenadas, os espectáculos para massas radicalizam cada vez mais o público num discurso de perpetuação de recepções superficiais... a lista é imensa. E a pergunta que se deveria fazer era: em nome de quê é que se continua a criar?

Eu, se não fosse ser acusado de pessimismo crónico, chamar-lhe-ia um perigoso incentivo à perpetuação de uma relação anémica e unilateral entre a cultura e a sociedade civil/Estado. A saber, defendo que para alterar este estado de coisas, é necessário parar-se toda e qualquer produção cultural. A ver no que dava. E perceber que peso têm a cultura neste país que enche o ego para falar dos seus valores. Mas intenções nobres (que são, segundo me dizem, utópicas e algo paternalistas) à parte, esta reentré enche-se de pequenas preciosidades. Chamemos-lhe urgência criativa e passemos às sugestões...

No campo do cinema quatro destaques. A Cinemateca Portuguesa, que ontem voltou a abrir as portas, apresenta um ciclo de cinema dedicado aos zombies, Os Mortos Vivos. Organizado em colaboração com o CineClube de Terror de Lisboa, até ao fim do mês, no ecrã ao ar livre da esplanada ou nas salas interiores, há espaço para os gritos os risos, os medos e as surpresas. Mas é também na Cinemateca que se apresentam, em ante-estreia, curtas e longas metragens de novos realizores portugueses. Dia 02, mostra-se A Batalha dos 3 Reis, de Miguel Gonçalves Mendes (o realizador de Autografia, o documentário-sensação sobre Mário Cesariny), e dia 10 é a vez de Incógnito, um filme em vídeo de alta definição de Nuno Jardim e Hugo Diogo, com Carlos Afonso Pereira. Dia 20, os mais recentes filmes produzidos pela Continental Filmes, Alguém olhará por ti e Sobre Azul, ambos de Marta Pessoa e Retrato da velha enquanto senhora, de Rita Palma. A última sessão de ante-estreias faz-se com filmes de Rui Filipe Torres, Bandeira e Bernardo/Bernarda, um registo da última peça da Escola de Mulheres, apresentada no Convento das Bernardas no semestre passado. Mais cinema e mais ciclos, para todos os gostos e em todos os contextos.

O 9º Festival de Cinema Gay e Lésbico ocupa o cinema Quarteto entre 15 a 21 de Setembro (bem como o auditório do Instituto Franco Português para um colóquio de estudos Gay, Lésbico e Queer). Os cerca de 100 filmes a apresentar dividem-se em várias secções, sendo de realçar a integração de uma Secção Competitiva. Para além disso há secções de curtas. E os meus destaques vão para o filme de Mike Nichols, Kiki and Herb on the Rocks e as curtas de Tonje Gjevjon, Betty Ball Breaker comes home from work e Lesbian Gymnasts in URSS, todos em diferentes horários do dia 20 de Setembro.

O cinema marca ainda presença na edição da Experimenta Design 05, através de um ciclo comissariado por Ricardo Matos Cabo, e apresentado na Culturgest entre os dias 24 e 27 de Setembro. DESIGNMATOGRAPHY IV destaca e pensa os trabalhos de Morgan Fisher, Thom Andersen, Bruce Conner e Owen Land, "cineastas que exploraram de forma diversa as possibilidades de questionar o próprio cinema, os seus modos de produção e experimentação". Morgan Fisher e Thom Andersen estarão presentes nas sessões correspondentes ao seu trabalho. Já em Outubro, o Instituto Franco Português convida a que se vejam os filmes mais recentes do cinema francês.

A 6ª edição da Festa do Cinema Francês decorre entre 06 e 16 de Outubro, com os filmes a passarem em duas salas: o Fórum Lisboa e a sala do Instituto Franco-Português. Também o DocLisboa 2005 -III Festival Internacional de Cinema Documental já tem datas marcadas. De 15 a 23 de Outubro, a Culturgest recebe "um fórum aberto de reflexão e discussão sobre o estado do mundo e a situação do documentário contemporâneo". De referir ainda que se prevê para este mês a estreia, no circuito comercial, do documentário Inside Deep Throat, uma viagem ao universo do mais polémico e rentável filme que mexeu com as consciências do puritanismo americano, nos idos anos 70.

No que diz respeito às artes performativas, há festivais, reposições, extensões, estreias e remontagens. Na área da dança, começou ontem o AO SUL - IX Festival de Dança Contemporânea, agora da responsabilidade da produtora No Fundo do Fundo. O festival, apresentado em diversas salas do Algarve, reúne o trabalho de países "que vivem contextos sociais e políticos tensos e instáveis". Portugal, Grécia, Chipre e Turquia trazem propostas em diversos formatos, umas mais corais que outras, outras mais metafóricas que umas. De realçar que a presença portuguesa se faz através da estreia da última peça de Francisco Camacho, Live/Evil-Evil/Live, já hoje e amanhã, em Lagoa. Trata-se de um discurso sobre o bem e o mal feito a partir das vivências dos intérpretes, tendo sempre em consciência que os dois lados existem para se confrontarem e não anularem. "Quão insano será hoje imaginar que viver pode ser um contraponto ao mal?". A peça volta a apresentar-se na Culturgest, a 13 e 14 de Outubro, integrado na programação do Festival Temp d'Images. Esta edição contempla ainda uma extensão em Lisboa, no novo espaço da ZDB, NEGÓCIO, a 13 e 14 de Setembro. Anthem, da companhia cipriota Mayday e Hermaphrodite, da grega Quasi Stellar são as propostas que sobrem à capital. Voyeurismo, manipulação, domínio e controlo são questões presentes nos dois espectáculos.

Ainda a sul, entre 16 e 18 de Setembro, a Faro 2005 organiza a Plataforma da Dança Contemporânea Portuguesa. 16 criadores e outros tantos espectáculos "para inglês ver". João Fiadeiro, Clara Andermatt, Sónia Baptista, Rui Horta, Tiago Guedes, Miguel Portela, Cláudia Nóvoa, Vitalina Sousa, Patrícia Portela, Francisco Camacho, Jean Paul Bucchieri, Sílvia Real, Rui Lopes Graça, Paulo Ribeiro, Amélia Bentes e Francisco Camacho marcam presença naquela que quer ser a montra da mais recente dança nacional. Em diversos palcos algarvios (Faro, Lagoa e Lagos), público e um conjunto de programadores convidados (e devidamente transportados de autocarro), fazem das tripas coração para aguentarem a maratona. Se chegar a acontecer, a bem da verdade (cf. artigo de João Fiadeiro amanhã no Expresso).

A norte, em Viseu, Paulo Ribeiro comemora os 10 anos da sua companhia homónima, com a estreia de Memórias de um Sábado com Rumores de Azul. O espectáculo, que se apresenta dias 08, 09 e 10 de Setembro, no Teatro Viriato, quer ser mais que uma remontagem de quatro espectáculos da companhia. Assim, Sábado 2 (1995), Rumor dos deuses (1996), Azul Esmeralda (1997) e Memórias de Pedra (1998), organizam-se para um trabalho que "não é uma obra festiva. [...] uma obra que transporta imensa indignação.". O espectáculo será depois apresentado em Faro, na Plataforma de Dança Portuguesa Contemporânea, no Centro Cultural de Belém (30 Setembro e 01 Outubro), Teatro Nacional S. João (16 e 17 ezembro), bem como outras cidades do país, integrado na programação da Arte_em_Rede.

Já em Lisboa, a inevitável Pina Bausch regressa à capital com duas obras. Nelken (29 Setembro a 02 Outubro), de 1982 e Ten Chi (06 a 09 Outubro), de 2004, esgotam a sala (e o orçamento) do Teatro Municipal S. Luiz, para um programa não traduzível em palavras. Tensões humanas, universos oníricos, confrontos emocionais, paisagens coreográficas e o mais que a criadora alemã já habituou o público.

Também em Lisboa, mas no fim do mês de Outubro, Olga Roriz comemora os 30 anos de carreira com a apresentação, no Centro Cultural de Belém (28 a 30), de O Amor ao canto do bar vestido de negro. Volúpia, luta, recordação, casualidade, brincadeira, princípes e veludos carmesim num exercício "touché direito ao coração, direito ao pé esquerdo". Olga Roriz é ainda a responsável pela reposição de Pedro e Inês, pela Companhia Nacional de Bailado, entre 06 e 09 de Outubro, no Teatro Camões. A programação segue depois com três peças de Hans van Mannen (em Novembro) e o clássico, e inevitável, D. Quixote (em Dezembro).

No campo do teatro, está já em cena a mais recente produção da companhia Cão Solteiro. Até 30 de setembro, é feito o convite para a partilha de um discurso sobre a cidade e o modo como a vemos. ...vistas da Cidade é apresentada na Casa dos Dias da Água. Hoje e amanhã, entre as 18h00 e as 24h00, Lúcia Sigalho, detentora da Casa dos Dias da Água, traz ao CCB o estudo Documental & Autobiográfico. Uma performance durancional, em que o público é confrontado com uma reflexão sobre o lugar da mulher e, em particular, em questões como o aborto e violência doméstica. A peça estreou em Serralves, no início deste ano, no âmbito da exposição de Paula Rego. Continua também em cena, e até ao fim do ano, a terceira parte do projecto Vou a tua casa, de Rogério Nuno Costa. Desta vez em casa do criador, o espectador é convidado a ver-se enquanto parte integrante e efectiva da construção de um espectáculo.

A próxima semana é pródiga em estreias. No Teatro A Comuna sobem ao palco, no dia 09, duas peças que se querem como janelas para a realidade quotidiana. Luís Assis regressa, depois de algum tempo ausente, para um espectáculo intitulado Gay Solo. Feito numa estrutura aparentemente simples (uma conversa com o público), o actor e encenador quer, em 5 lições, lançar "um revolucionário guia para compreender o gay português. Uma peça a solo e gay, para heterossexual ver, da autoria do próprio e que começou a ser divulgada no Gaydar. A Escola de Mulheres apresenta Marcas de Sangue, de Judy Upton. A peça, encenada por Isabel Medina, é "uma história de afectos à beira da histeria", onde se cruzam homens e mulheres perdidos em desejo e sonho, falhanços e sequestros. Albano Jerónimo, José Wallenstein, São José Correia, Lucinda Loureiro e Leonor Seixas fazem parte do elenco. Ambas as peças estão em cena até 09 de Outubro.
A 15 de setembro é a vez da Cornucópia abrir as portas, com um texto do alemão Rainer Werner Fassbinder, Sangue no pescoço do gato. Com tradução de José Maria Vieira Mendes, está em cena até 30 de Outubro. A peça, encenada por Luís Miguel Cintra e com cenários e figurinos de Cristina Reis insere-se no ciclo sobre a "desumanização da sociedade dos nossos dias".

Mas o grande destaque vai para mais uma edição do Festival Temps d'Images, que este ano decorre entre 06 e 16 de Outubro em Lisboa e de 15 a 29 de Outubro em Faro. Espectáculos, exposições, projecções e Chantiers (exercícios de experimentação performática transdisciplinar) enchem o Centro Cultural de Belém, a Culturgest, o Teatro Nacional D. Maria II, o Museu do Chiado e a estrutura DeVir, em Faro. Esta produção da DuplaCena, sob os auspícios do canal de televisão franco-alemão Arte e da Ferme du Buisson, quer promover o diálogo intercultural e artístico entre criadores, público e observadores. Mónica Calle, com Carlos Pimenta e Luciana Fina (no fim de Outubro com Senso, no TNDMII), Susana Vidal, no CCB, e Francisco Camacho, na Culturgest, juntam-se a Meg Stuart, Rui Horta e outros. Os encontros vão ainda proporcionar seminários e projecções de filmes.

De ressalvar também, e ainda na área das artes performativas, que estão por acertar as datas de mais uma edição do festival A8, organizado pela Transforma, em Torres Vedras. Sabe-se, para já, que os criadores nacionais presentes serão Patrícia Portela/Sónia Baptista e Teatro Praga. Já em Novembro, Mónica Calle desconstrói Julieta, na Culturgest, de 17 a 23 de Novembro.

Para finalizar, as artes visuais, onde o destaque vai para mais uma edição da ExperimentaDesign, a bienal internacional de design de Lisboa. A decorrer até 30 de Outubro, a EXD05 toma conta da cidade com exposições, debates, cinema e intervenções públicas. De destacar a conversa com Philippe Starck, a 17 de setembro, às 16h00 no CCB.

Sugestões não faltam. E se a cultura serve para alguma coisa, serve, pelo menos, para reflectir sobre o modo como nos envolvemos com o mundo que nos rodeia. O Melhor Anjo vai, naturalmente, acompanhar alguns (muitos) dos eventos aqui citados. Bem como outros por calendarizar ou não referidos. Deles será dada devida conta neste espaço. Convidam-se os leitores a fazer o mesmo.


Informações retiradas da Agenda Cultural de Lisboa, agendas de programação da Cinemateca Portuguesa, Culturgest e CCB, press-releases enviados pelas companhias, recolhas diveras na internet ou material promocional.

2 comentários:

little p disse...

Eu acho que devias destacar o Sagmeister em detrimento do Starck. Nos dias que correm o trabalho do primeiro é bem mais interessante. ;) A caixa que o Sagmeister concebeu para o “best of - once in a lifetime” dos Talking Heads é brilhante. Uma fusão de design+música+pintura.

http://www.sagmeister.com/

Monastero disse...

Só não vejo como é que parar com toda a criação possa servir de alguma coisa. A cultura nunca se desenvolve com atitudes disruptivas.